Destinos (fevereiro de 2026)
Arrependido, o cadáver resolveu confidenciar todos os seus arrependimentos para a única coisa que parecia poder lhe ouvir: a porta de seu caixão fechado, que ele mal conseguia ver por causa da escuridão.
“Sabe porta, - posso lhe chamar de porta? não reconheço de que madeira você é… - eu amei tantas pessoas, mas nunca confessei meu amor. Talvez por medo de ser rejeitado. Parece tão bobo agora. Talvez se eu tivesse sido rejeitado todas essas rosas em meu peito tivesse murchado, e sua pétalas, mais experientes, tivessem resultado num jardim mais rico.”
Sem ouvir uma resposta, e resignado pelo fato desse diálogo ser apenas um monólogo, ele continuou:
“Eu também guardei tanta mágoa. Talvez mais que amores. Talvez eu pudesse ter dito ‘Eu te odeio!’ a mesma quantidades de 'Eu te amo’.”
“Será que somos isso, um amontado de ódio e amor?”
“Ah, não dá pra deixar de fora o desprezo também.”
“Mas não foi só o que eu senti não, eu senti outras coisas também. Contemplação: as estrelas piscando no céu escuro, o sol se pondo, e nascendo, várias vezes.”
“As folhas das árvores dançando sob o vento forte de outono. O sol escaldante do dia mais quente do ano.”
“Experimentei ser perdoado, e perdoar também, inclusive a mim mesmo.”
“A gente aprende a ser mal com os outros, mas também com a gente mesmo.”
“Tanta dor, uma grande bobagem agora."
E deu a gargalhada mais longa de toda sua existência, ao ponto de engasgar, lágrimas escorrendo por suas bochechas espectrais.
"E eu que poderia ter virado um banco na praça? Ou um móvel luxuoso de uma mansão? Ou um violino ou outro instrumento?"
Surpreso, o cadáver mudou completamente de expressão, surpreso com a resposta tardia.
"Diferente de você, eu não tive muita escolha quando a motosserra resolveu me separar da minha raiz. Aliás, eu tava muito bem lá, servindo de sombra pros pequenos animais, tinha até um ninho na minha copa!”
“Meu corpo foi desmembrado, e eu sei onde e o que CADA parte está fazendo agora.”
O cadáver continuou ouvindo, quase parando sua respiração fantasmagórica para prestar atenção a cada palavra da ex-árvore indignada.
“Alguns pedaços meus viraram folha sulfite, outros palitos de dente, outros carvão, e essa parte que vos fala ficou relegada a servir de intermediário entre seu pútrido cadáver e a terra.”
“Eu entendo o ritual humano de enterrar as pessoas, mas não era mais fácil jogar você no mar, ou queimar? NÃO, vocês precisam lucrar com a morte de seus irmãos e ainda ocupar espaço que poderia ser de outros animais e plantas!”
“Olhando dessa forma, realmente não consigo discordar de você. Engraçado que eu só percebi muita coisa depois que morri."
"E vocês se consideram a raça mais 'inteligente’ do planeta… conheci formigas menos burras que a maioria dos que vi de vocês…”
“Mas tem pessoas boas também!”
“Sinceramente, não sei se compensa.”