"Tenho que gostar né. A gente trabalha pra sobrevive, aí não tem muita escolha. Antes era mais dificil, passei anos aqui trabalhando na madrugada nessa fruteira, mas agora que eu to de dia aí é bem melhor."

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@retratospoa
"Tenho que gostar né. A gente trabalha pra sobrevive, aí não tem muita escolha. Antes era mais dificil, passei anos aqui trabalhando na madrugada nessa fruteira, mas agora que eu to de dia aí é bem melhor."
"Eu acho que o que as pessoas reclamam tanto de Porto Alegre são as coisas ruins em relação ao transito, a assaltos, a buracos nas estradas, mas as pessoas não conhecem a verdadeira Porto Alegre que tá nas antigas construções, que tá no Mercado Público, que tá nos museus, que tá nas pessoas andando pelas ruas. Eu acho que o centro tem muito mais a dizer de Porto Alegre do que a grande Porto Alegre em si. Porque o que cerca ela é o que faz a cidade continuar funcionando, mas o espírito da cidade tá aqui no centro."
"O estranho é que isso que tá acontecendo agora não tem bem uma história. É a primeira vez que estamos fazendo isso. Eu me mudei pro centro faz pouco tempo e eu tava precisando de dinheiro daí eu trouxe minhas fotos aqui pra rua pra vender. Como eu tirei elas na rua eu achei que fazia bastante sentido." "E eu queria vender os pastéis" "E a gente veio junto e estamos estudando" "Ah, e as fotos são 8 pila. Só pra constar."
"Demorou um tempo até eu decidir entrar na faculdade, mas algumas coisas aconteceram na minha vida que me levaram a tomar essa decisão agora." "E o que tu fazia antes de entrar na faculdade?" "Eu escrevia, principalmente sobre a cena cultural underground de Porto Alegre que muita gente nunca fica sabendo de nada. Agora as Ciências Sociais abriram várias portas pra mim, então eu acho que foi uma decisão boa."
"Nosso primeiro beijo foi aqui na Ramiro."
"Essa é a primeira marcha nossa como Coletivo Yoni que é um coletivo feminista de Guaíba, temos um grupo no facebook e conseguimos umas 300 pessoas no grupo em três meses." "O que levou vocês a criarem um coletivo lá em Guaíba?" "Criamos porque lá em Guaíba não havia discussão sobre feminismo, ninguém falava sobre isso então ninguém se informava e a falta de informação e interesse no feminismo são problemas bem grandes." "Como tem sido até agora a trajetória do coletivo?" "Todo o dia mais pessoas se engajam nas discussões do coletivo no facebook, tem sido bom. No grupo tem tanto homens quanto mulheres mas no coletivo mesmo somos só mulheres."
Dia de traje formal na Redenção.
"Conhecemos mais o feminismo depois que entramos no NIEM que é um núcleo de estudos da UFRGS sogre gênero, nos conhecemos lá também" "É difícil estudar desigualdade de gênero e não ser ativista."
"A marcha tem a ver com a luta social existente. O estatuto do nascituro é um ato de violência contra a mulher, as recentes pesquisas mostram como nós não estamos seguras na rua e a lei Maria da Penha coíbe, mas não dá assistência nenhuma para vítimas de abuso. Acho que trabalhar com mulheres fez eu me dedicar mais à luta. Para chegar ao socialismo não pode haver discriminação. Sou lésbica e estar num movimento com mulheres é gratificante. Não é possível separar a mulher lésbica e a mulher negra das demais."
"A mulher negra sofre muito mais que a mulher branca e o preconceito cresce quando são mulheres negras e lésbicas. A carne negra é a mais barata do mercado, mas nós viemos aqui mostrar a cara para engrentar o racismo além do machismo."
"Faz um ano que eu venho na marcha e to trazendo o meu filho pra ele aprender desde cedo."
"Tu acha que tu mudou a maneira como tu age ou pensa por causa da marcha?"
"Sim. Algumas opiniões minhas mudaram, sou mais engajada agora, participo de grupos no facebook também."
"E tu vê alguma diferença no teu filho em relação a outras crianças da idade dele?"
"Sim, ele tá crescendo num ambiente mais liberal, então eu vejo que ele não se importa se um brinquedo é "de menina", ele brinca igual."
"Nesses três anos como professora, tem alguma história que te marcou?"
"Hoje na verdade. Foi a formatura de uns ex-alunos meus e eles me convidaram pra ir. No início eu achava que não ia ser muito legal eu ir porque eu saí do colégio no início do ano, eles tiveram outros professores de história nesse último ano então eu não sabia o que ia acontecer direito, mas daí veio aquela avalanche de abraços, alguns falando "sora, acho que vou fazer história" e acabou sendo um momento muito bom."
"Tamo só passando por Porto Alegre, a gente tava morando em Buenos Aires por um ano porque minha esposa é de lá e daí nós fomos passar um tempo lá na cultura dela e tal."
"E vocês vão passar mais um tempo morando em alguns locais do Brasil no caminho de volta ou a idéia é voltar para o nordeste o mais rápido possível?"
"A idéia é voltar o mais rápido possível, aí a gente tem que trabalhar pra comer e dormir e quando dá a grana da passagem já trocamos de cidade."
Ele me contou sobre algumas dificuldades de ser artesão, do abuso sofrido nas mãos da polícia e do preconceito que a população tem, sua esposa estava cuidando das vendas enquanto isso, mas deu uma pausa para a foto.
"Dá uma olhada na página "Malucos de Estrada" no facebook, lá explica bem a gente."
A seguinte frase eu senti necessidade de dividir com vocês.
"A real é que a gente trabalha pra caramba."
"Eu gostei da iniciativa dele."
"Minha memória mais feliz é de tá vivo, brother!"
"Qual é a tua memória mais triste?"
"Quando eu tinha 12 anos eu perdi meu pai e minha mãe. Depois disso fiquei com a minha irmã e ela que me criou"
"O que tu acha que teus pais te ensinaram de mais importante?"
"A não roubar, se focar no trabalho, fazer as coisas direito... Esse tipo de coisa sabe."