"Em tudo o que aí fica dito não há nada de mau; o que há é que esta gente não usa calções".
No século 16, enquanto invadiam a América e massacravam seus povos nativos, no Velho Continente, os ‘civilizados’ europeus se digladiavam em sangrentas guerras religiosas..
Na segunda metade daquele século, o filósofo francês Michel de Montaigne publicava Dos Canibais, em sua obra monumental Ensaios, relato da visita de índios Tupinambás brasileiros à França.
Do espanto deste encontro nasceu um texto atemporal e eterno, em que Montaigne desafia os conceitos de civilização e barbárie.
Ilustrações Grandes viagens, de Theodore De Bry, publicados entre 1590 e 1634.
Quando o rei Pirro passou à Itália depois de ter reconhecido a organização do exército com que os Romanos iam defrontar o seu: “Não sei, disse, que género de bárbaros são estes (pois assim chamavam os Gregos a todas as nações estrangeiras) mas a disposição do exército que vejo não é de forma alguma bárbara”. O mesmo disseram os Gregos daqueles que Flamínio introduziu no seu país, bem como Filipe ao contemplar do alto de um cerro, a ordem e a distribuição do acampamento romano, em seu reino, sob Públio Sulpício Galba. Isto prova que nos devemos guardar das opiniões vulgares e julgar pelo caminho da razão e não pela voz geral. Tive muito tempo comigo um homem que vivera dez ou doze anos nesse outro mundo que foi descoberto no nosso século, num lugar onde Villegaignon tocou terra, que denominou a França Antárctica. Esta descoberta de um país infinito parece ser coisa de muita consideração. Ignoro se, no futuro, outras se farão, visto que tantas pessoas que valem mais do que nós se têm enganado nisto. Receio que tenhamos os olhos maiores que o ventre, e mais curiosidade que capacidade. Abarcamos tudo, mas abraçamos apenas vento. Platão aprésenta-nos Solon contando haver sido informado pelos sacerdotes da cidade de Sais, no Egito, que, em tempos remotos de antes do dilúvio, existia uma grande ilha chamada Atlântida, à entrada do estreito de Gibraltar, que continha mais território que a Africa e a Ásia juntas; os reis daquele país, que não possuíam apenas essa ilha, mas cujos domínios por terra firme se estendiam tanto para o interior que eram senhores da largura da África até ao Egipto, e da longitude da Europa até à Toscana, quiseram chegar à Ásia e subjugar as nações banhadas pelo Mediterrâneo até ao golfo do Mar Negro: para isso, atravessaram as Espanhas, a Gália e Itália, chegando até à Grécia, onde foram detidos pelos Atenienses, mas que, pouco tempo depois, os mesmos Atenienses, a própria ilha e os seus habitantes foram tragados pelo dilúvio. É muito verossímil que essa extrema devastação das águas tenha produzido estranhas alterações nas diferentes regiões da terra, e diz-se que o mar separou a Sicília da Itália: Hoec loca, vi quondam et vasta convulsa ruina, Dissiluisse ferunt, cum protinus utráque tellus Una foret; (1) Chipre da Síria, a Ilha de Negroponto (2) da terra firme de Beoce (3); e, por outra parte, juntou terras que estavam separadas, cobrindo de limo e de areia os fossos intermédios, sterilísque diu palus aptáque remis Vicinas urbes alit, et grave sentit aratrum (4). Mas não é muito provável que essa ilha fosse o mundo novo que acabamos de descobrir; tocava quase com a Espanha e seria uma convulsão incrível que a inundação a fizesse retroceder tanto, estando a mais de mil e duzentas léguas de distância; além disso, as navegações modernas já demonstraram que não se trata de uma ilha, mas de terra firme formando um continente com a Índia oriental de um lado e os territórios que ficam sob os dois pólos, do outro; ou que, se alguma separação há, o estreito ou intervalo é tão pequeno que não merece o nome de ilha. Parece que há movimentos, uns naturais e outros febris, nesses grandes corpos como no corpo humano. Quando considero a pressão que o meu rio da Dordonha faz actualmente sobre a margem direita do seu curso, e que, em vinte anos, comeu tanto terreno que chegou a absorver os alicerces de alguns edifícios, avalio bem quão extraordinária foi aquela comoção, que, a continuar assim, ou a aumentar de intensidade, modificaria a configuração do mundo. Mas esses acidentes tanto se produzem numa direcção como em outra, como ainda se contêm. Não falo das inundações repentinas, cujas causas conhecemos. Em Medoc, ao longo do mar, meu irmão, o Senhor de Arsac, viu uma de suas terras engulida pelas areias vomitadas pelo mar; ainda se vêem os restos de algumas construções; suas rendas e domí nios são hoje miseráveis terras de pasto. Dizem os seus habitantes que, de algum tempo a esta parte, o mar tem avançado tanto que já perderam quatro léguas de ter reno. As areias formam as vanguardas; e vêem-se grandes montões de areia movediça, a meia légua do mar, que se vão acumulando sobre a região. Outro testemunho da antiguidade, que alguns pretendem relacionar com esta descoberta, vamos encontrá-lo em Aristóteles, se é que esse livrinho das raras maravilhas a ele se deve. Conta-se nessa obra que alguns Cartagineses, lançando-se através do mar Atlântico, fora do estreito de Gibraltar, e depois de muito navegar, acabaram por descobrir uma grande ilha fértil, povoada de bosques e banhada de grandes e profundos rios, a enorme distância da terra; e que esses Cartagineses e outros que se lhes seguiram, atraídos pela benignidade e exuberância do terreno, para lá se foram com suas mulheres e filhos começando a aclimatar-se ao país.
Vendo os senhores de Cartago que seu território se ia despovoando a pouco e pouco, proibiram expressamente, sob pena de morte, que ninguém mais se dirigisse para a ilha, e expulsaram os novos habitantes, receando, ao que se diz, que, andando o tempo, estes se multiplicassem tanto que os suplantassem e arruinassem seu Estado. Esta narrativa de Aristóteles também não está de acordo com as nossas novas terras. O homem que eu tinha comigo era simples e rude, condição própria de um verdadeiro testemunho, porque os espíritos finos, conquanto observem com maior cuidado e maior número de coisas, costumam glozá-las; e, para tornar válida e persuasiva a sua interpretação, não resistem ao prazer de alterar um pouco a História; jamais apresentam as coisas puras e sempre as modificam e desfiguram conforme a aparência em que as viram; e para dar base de crédito à sua opinião e dela convencerem, adulteram a matéria de bom grado, alongando-a e ampliando-a. É preferível um homem de grande fidelidade ou tão simples que não tenha por que fantasiar e sacrificar o verdadeiro aspecto das coisas às suas falsas invenções; e que seja imparcial. Assim era o meu, e, para mais, fez-me conhecer em várias ocasiões marinheiros e comerciantes, que encontrara nessa viagem. Limito-me, pois, às suas informações sem me valer dos relatos dos topógrafos. Necessitaríamos de topógrafos que nos descrevessem circunstanciadamente os lugares que visitaram. Mas, esses topógrafos, pelo facto de terem visto, por exemplo, a Palestina, julgam gozar do privilégio de nos dar notícias do resto do mundo. Gostaria que todos escreves sem do que sabem e tudo que sabem, não somente de viagens, mas de todos os outros assuntos. Acontece que alguns podem ter especial ciência e experiência da natureza .de um rio ou de uma fonte, e não saber do resto senão o que todos sabemos. Todavia, para divulgar esse pequeno quinhão de conhecimentos, aventuram-se a escrever toda a física. Deste vício decorrem vários e grandes inconvenientes. Voltando ao meu assunto, creio que não há nada de bárbaro ou de selvagem nessa nação, a julgar pelo que me foi referido; sucede, porém, que classificamos de barbárie o que é alheio aos nossos costumes; dir-se-ia que não temos da verdade e da razão outro ponto de referência que o exemplo e a ideia das opiniões e usos do país a que pertencemos. Neste, a religião é sempre perfeita, perfeito o governo, perfeito e irrepreensível o uso de todas as coisas. Aqueles povos são selvagens na medida em que chamamos selvagens aos frutos que a natureza germina e espontaneamente produz; na verdade, melhor deveríamos chamar selvagens aos que alteramos por nosso artifício e desviamos da ordem comum. Nos primeiros, as verdades são vivas e vigorosas, e as virtudes e propriedades mais úteis e naturais do que nos últimos, virtudes e propriedades que nós abastar damos e acomodamos ao prazer do nosso gosto corrom pido. E, todavia, em diversos frutos daquelas regiões, que se desenvolvem sem cultivo, o sabor e a delicadeza são excelentes ao gosto, comparando-os com os nossos. A arte não vence a nossa mãe natureza, sempre grande e poderosa. Temos sobrecarregado tanto a beleza e a riqueza das suas obras com as nossas invenções que a- destruímos completamente. Assim, ali, onde a sua pureza resplandece, ela constitui uma espantosa desonra para as nossas vãs e frívolas empresas,
Et veniunt ederae sponte sua melius, Surgit et in solis formosior arbutus antris, Et volucres nulla dulcius arte canunt. (5)
Todos os nossos esforços juntos não podem reproduzir sequer o ninho do mais insignificante passarinho, sua contextura, beleza e utilidade, nem mesmo o tecido de uma mesquinha teia de aranha. Diz Platão que todas as coisas são obra da natureza, do acaso ou da arte; as maiores e as mais belas, produto de uma das duas primeiras; as mais insignificantes e imperfeitas, da última. Essas nações parecem, pois, bárbaras, simplesmente porque mal acusam ainda o rastro do espírito humano e estão muito próximas da sua ingenuidade original. As leis naturais que as regem estão ainda muito pouco adulteradas pelas nossas; mas há nisso tal pureza que lamento às vezes’ que delas não houvesse conhecimento antes, nos tempos em que existiam homens que as sabiam julgar melhor do que nós. Sinto que Licurgo e Platão não as tivessem conhecido, pois se me afigura que o que nós por experiência vemos nessas nações ultrapassa, não apenas todas as pinturas com que a poesia embelezou a idade de ouro da humanidade e tudo quanto se possa imaginar para tornar feliz a condição humana, mas ainda a concepção e o próprio objectivo da filosofia. Não imaginaram eles ingenuidade tão pura e simples como a que nós vemos nesse país; nem acreditaram que uma sociedade se pudesse manter com tão pouco artifício e tão pouca soldadura humana. É uma nação, diria eu a Platão, em que não existe género de tráfico, conhecimento de letras, ciência de números, nome de magistrado ou de outra dignidade que indique superioridade política, servidão, riqueza ou pobreza, contratos, sucessões, partilhas; de ocupações, apenas as agradáveis; de relações de parentesco, só as comuns; nem vestimentas, nem agricultura, nem metais; não bebem vinho nem cultivam cereais. Da mentira, da traição, da dissimulação, da avareza, da inveja, da maledicência, do perdão ignoram até a palavra. Quão distante desta perfeição julgaria ele a república que imaginou!
“viri o diis recentes”(6).
“Hos natura modos primum dedit”(7).
Vivem numa região do país muito aprazível e tão saudável que, segundo me dizem meus testemunhos, é raro encontrar-se lá uma pessoa doente; e asseguram–me também que nunca lá viram gente com tremuras, nenhum remelento, desdentado ou vergado sob o peso da velhice. Estão estabelecidos ao longo do mar, e defendidos do lado da terra por grandes e altas montanhas que se estendem a distância de cem léguas do mar aproximadamente. Têm em abundância carne e peixes, que em nada se assemelham aos nossos e que comem sem condimento, apenas assados. O primeiro homem que lhes apareceu montado a cavalo, embora já se tivessem relacionado com ele em várias viagens anteriores, causou-lhes tanto horror naquela postura que o mataram a setadas antes de o reconhecerem. Suas casas são muito compridas, com capacidade para duzentas ou trezentas almas. Cobrem-nas com a casca de grandes árvores, estão fixas à terra por um extremo e apoiam-se dos lados umas contra as outras, como algumas das nossas granjas; a parte que as cobre chega até ao solo, servindo-lhes de flanco. Têm madeira tão dura que a usam para cortar, e com ela fazem espadas e grelhas para assar os alimentos. Os leitos, feitos de tecido de algodão, estão suspensos do tecto como os dos nossos navios, e cada um ocupa o seu, porque as mulheres dormem separadas dos maridos. Levantam-se ao nascer do sol e comem logo depois, para todo o dia; porque não fazem outra refeição. Durante esta não bebem, como ‘ outros povos do Oriente, os quais, segundo Suidas, só bebem fora das comidas, mas várias vezes ao dia e abundantemente. Sua bebida é feita de certa raiz, e tem a cor dos nossos vinhos claretes. Só a bebem morna. Não se conserva senão dois ou três dias, tem o gosto um pouco picante, não sobe à cabeça, é boa para o estômago, e tem o efeito de um laxante para os que não estão habituados a ela, mas para os outros é muito agradável. Em vez de pão, comem determinada substancia branca, uma espécie de coentro açucarado. Provei-a; é doce e um tanto insípida. Passam o dia a dançar. Os mais moços dedi-cam-se à caça grossa, armados de arcos, enquanto uma parte das mulheres trata de esquentar a bebida, sua principal ocupação. H;á sempre um ancião que, de manhã, antes da comida, faz prédicas em comum a todos os habitantes da granjaria, passeando de um lado para o outro, e repetindo várias vezes a mesma exortação até dar a volta à casa (porque são construções que medem uns bons cem passos de comprimento). Só lhes recomenda duas coisas: valor para se defrontarem com os inimigos e amizade para as mulheres. E jamais deixam de ponderar esta última obrigação, repetindo sempre que são elas que lhes conservam a bebida morna e bem temperada. Pode-se ver em certos lugares, e entre eles em minha casa, onde tenho alguns, a forma de seus leitos, de seus cordões, de suas espadas e dos braceletes de madeira com que cobrem os punhos nos combates, bem como das grandes canas abertas em uma das extremidades e ao som das quais marcam a cadência da dança. Trazem a cabeça rapada e fazem a barba muito melhor do que nós, sem necessidade de outra navalha que não seja a madeira e a pedra. Crêem na eternidade das almas: as que merecem bem dos deuses repousam no lugar do céu onde o sol nasce, e as malditas no lado do Ocidente.
Têm não sei que espécie de sacerdotes e profetas que raras vezes se apresentam diante do povo e que vivem nas montanhas. Quando eles chegam, celebra-se uma grande festa, e uma assembleia solene, da qual participam vários povoados (cada granjaria, como já descrevi, forma um povoado, que fica distante do mais próximo uma légua francesa aproximadamente). O profeta fala-lhes em público, exortando-os à virtude e ao dever; mas toda a sua ciência ética se resume em dois artigos: resolução para a guerra e afecto às esposas. Fazem-lhes prognósticos sobre as coisas do futuro e os acontecimentos que devem esperar de suas empresas, encaminhando-os ou desviando-os da guerra. Mas, se falham no adivinhar, se acontece o contrário do que predizem, são presos, esquartejados em mil pedaços e condenados. como falsos profetas. Assim, o que uma vez se engana desaparece para sempre. Adivinhar é um dom que só a Deus cabe dar; eis por que comete impostura digna de ser punida o que desse dom abusa. Entre os Citas, os adivinhos que se enganavam eram postos, de mãos e pés agrilhoados, em cima de carros de bois cheios de mato, e ali queimados. Nos que regem as coisas sujeitas à condição humana é per doável que façam tudo quanto podem para cumprir sua missão. Mas os outros, os que nos enganam com a infa libilidade de uma faculdade extraordinária que cai fora do nosso conhecimento, por que não castigá-los quando não mantêm o efeito de suas promessas, e pela temeridade de suas imposturas? Fazem as guerras às nações situadas do outro lado das montanhas, terra a dentro; vão a elas completamente nus, levando como únicas armas arcos e espadas de madeira aguçadas na ponta, como as línguas dos nossos venábulos. É coisa de maravilhar a firmeza de seus costumes, que acabam sempre em mortandade ou em efusão de sangue, pois não sabem o que seja fuga ou pânico. Cada qual traz por troféu a cabeça do inimigo a quem deu morte, e pendura-a à entrada de sua casa. Depois de terem dado por algum tempo bom trato aos prisioneiros, facilitando-lhes todas as comodidades ao alcance de sua imaginação, o chefe congrega seus amigos em uma grande assembleia; ata uma corda a um dos braços do prisioneiro, segurando na outra ponta, a alguns passos de distância, com medo de ser ferido, e dá o outro braço a segurar, da mesma forma, ao melhor de seus amigos; então ambos o abatem a golpes de espada, perante toda a assembleia. Feito isto, assam-no e comem-no entre todos e enviam alguns pedaços aos amigos ausentes. Isto não é, como se poderia imaginar, para alimento, como os antigos Citas, mas sim para levar a vingança ao último extremo. E a prova é que, sabendo que os Portugueses, que se tinham aliado com os seus adversários, aplicavam outra espécie de morte aos canibais quando estes caíam prisioneiros, morte que consistia em enterrá-los até à cinta e assestar à parte descoberta grande número de setas, enf orcando-os depois, pensaram que, como eram gente do outro lado do mundo, e tinham propagado o conhecimento de muitos vícios entre os povos seus vizinhos e os avantajavam na mestria de toda a sorte de malícias, não realizavam sem razão aquele género de vingança mais dura que a sua, começaram a abandonar seu antigo método para adoptar aquele. Não me pesa acentuar o horror bárbaro que tal acção (significa, mas sim que tanto condenemos suas faltas e tão cegos sejamos para as nossas. Penso que há mais barbárie em comer um homem vivo que morto, dilacerar com tormentos e martírios um corpo ainda cheio de vitalidade, assá-lo lentamente e arrojá-lo aos cães e aos porcos, que o mordem e martirizam (como vimos recentemente, e não lemos, entre vizinhos e concidadãos, e não entre antigos inimigos, e, o que é pior, sob pretexto de piedade e de religião) que em o assar e comer depois de morto. Crisipo e Zenon, chefes da seita estóica, opinavam que não havia mal nenhum em nos servirmos dos nossos semelhantes como alimento, se a necessidade a tal nos obrigasse; sitiados nossos antepassados por César na cidade de Alésia, resolveram obviar a fome do assédio com os corpos dos anciãos, mulheres e outras pessoas inúteis para o combate.
Vascones, fama est, alimentis talibus usi Produxere animas(8)
E os médicos não vacilam em usá-los de toda a sorte para a nossa saúde, quer pela aplicação externa, quer interna; mas não há opinião tão relaxada que desculpe a traição, a deslealdade, a tirania, a crueldade, que são os nossos pecados de todos os dias. Podemos, pois, achá-los bárbaros em relação às regras da razão, mas não a nós, que os sobrepassamos em toda a espécie de barbárie. Sua guerra é toda nobre e generosa e tem tanta desculpa e beleza quanta se pode admitir nessa calamidade humana; seu único fundamento é a emulação pela virtude. Não lutam para conquistar novas terras, pois ainda desfrutam dessa liberdade natural que, sem trabalhos nem penas, lhes dá tudo quanto necessitam e em tal abundância que não precisam de alargar seus limites. Encontram-se ainda nesse estado feliz de não desejar senão o que as suas necessidades naturais reclamam; o que for além disso é para eles supérfluo. Geralmente, entre os da mesma, idade, chamam-se irmãos; filhos, os mais novos, e os velhos consideram-se pais de todos. Estes deixam a seus herdeiros a plena posse dos seus bens em comum, só com o título todo puro que a natureza concede a suas criaturas ao depositá-las no mundo. Se seus vizinhos transpõem as montanhas para os atacar e são vencidos, o único lucro do vitorioso é a glória e a mercê de os haver dominado em valor e virtude; aliás, de nada lhe serviriam os bens dos vencidos, porque quando regressa ao seu país nada lhe falta do que necessita, nem mesmo essa grande qualidade de se saber felizmente conformar com a sua con dição e viver contente com ela. O mesmo se dá com os outros. Para o resgate dos prisioneiros exigem-lhes apenas a confissão e o reconhecimento da derrota; mas não se encontrou um em todo um século que não preferisse a morte a quebrantar, de ânimo ou palavra, um só ponto da grandeza da sua invencível coragem, ou que não preferisse ser morto e comido a pedir clemência. Dão-lhes todas as comodidades imagináveis para que a vida.lhes seja mais grata, mas, ameaçam-nos frequentemente com a morte futura, com os tormentos que os esperam, com os preparativos feitos para tal fim, com a destruição dos seus membros e o festim que celebrarão à sua custa. Fazem tudo isso para lhes arrancar da boca alguma palavra de fraqueza ou de humilhação, ou os induzir a fugir, vangloriando-se então de os terem amedrontado e quebrantado a sua firmeza. Porque, em verdade, só nisto consiste a verdadeira vitória:
Victoria nulla est,
Quam quae confessos animo quoque subjugat hostes.(9)
Os Húngaros, mui bélicos combatentes, depois de reduzido o inimigo à sua mercê não o perseguiam mais. Logo que lhe arrancavam semelhante confissão, deixavam-no ir sem lhe fazer mal ou pedir resgate; somente — e era o máximo a que chegavam — lhe exigiam palavra que, de futuro, jamais se levantaria em armas contra eles. Das vantagens que alcançamos sobre nossos inimigos, muitas são méritos alheios e não nossos. Mais próprio é de um carregador que da virtude ter braços e pernas rijas; a boa disposição para a luta é uma qualidade corpórea sem valor; da sorte depende fazer fraquejar o nosso inimigo e deslumbrá-lo com o sol da vitória; ser perito em esgrima é virtude da arte e da ciência que pode estar ao alcance de qualquer covarde ou de pessoa de insignificante valia. A estimação e o preço de um homem consiste no coração e na vontade; é aí que reside a sua verdadeira honra; a valentia é a firmeza, não das pernas e dos braços, mas da coragem e da alma; não consiste no valor do nosso cavalo, nem das nossas armas, mas no nosso. O que cai obstinado em sua coragem, “si siicciderit, de genu pugnat” (10); o que, apesar do perigo da morte próxima, não descuida um só ponto de sua segurança; o que, ao exalar o último suspiro, ainda fita o inimigo com vista firme e desdenhosa, será batido, não por nós, mas pela sorte; será morto, mas não vencido. Os mais valentes são às vezes os mais desafortunados. Assim, há derrotas triunfantes que equivalem a vitó rias. Nem mesmo essas quatro vitórias gémeas, as mais formosas que jamais se deram à luz do Sol, a de Sala-mina, Plateia, Micala e Sicília, se poderiam opor, com toda a sua glória conjunta, à derrota do rei Leónidas e dos seus no passo das Termópilas. Quem, triunfando em combate, obteve glória tão viva e invejável como o capitão Iscolas em sua derrota? Quem preparou a sua salvação com tanto engenho e cuidado como ele a sua ruína? Estava incumbido de defender contra os Arcádios certa passagem do Peloponeso. Sentindo-se de todo incapaz, dada a natureza do lugar e a desigualdade das forças, e convencido de que o inimigo tinha todas as vantagens a seu favor; julgando, por outra parte, indigno da sua própria virtude e da magnanimidade do nome de lacedemónio falhar em sua missão, adoptou entre os dois extremos o meio termo seguinte: reservou os mais moços e decididos de seu exército para a defesa e serviço de seu país, ordenando-lhes que par tissem; e preparou-se para defender o desfiladeiro com aqueles cuja falta não era tão importante, fazendo, à custa da sua morte, pagar a passagem ao inimigo o mais caro possível, o que aliás aconteceu. Vendo-se rodeado por toda parte pelos Arcádios, entre os quais fez terrível carnificina,’ele e todos os seus foram passados à espada. Onde existe troféu de vencedor que não fosse mais digno destes vencidos? O papel de quem verdadeiramente vence é lutar, e não salvar a vida; a honra consiste em bater-se, e não em bater. Voltando à nossa história, os prisioneiros, longe de se renderem diante do que se lhes faz, conservam um ar alegre nos dois ou três meses que estão em poder do inimigo; incitam seus donos a apressar-lhes a morte; desafiam-nos, injuriam-nos, lançam-lhes em rosto a sua covardia e o número de batalhas por eles perdidas contra os seus. Conservo uma canção feita por um desses prisioneiros, onde se encontra este lance: “Que venham todos quanto antes, e se reúnam a comer minha carne, porque comerão ao mesmo tempo a de seus pais e avós, que outrora alimentaram e nutriram meu corpo. Estes músculos, diz ele, esta carne e estas veias são as vossas, pobres loucos; não reconheceis que a substância dos membros dos vossos antepassados ainda está em mim’? Saboreai-os bem, que acháreis o gosto da vossa própria carne”. Nesta composição não se adverte por forma alguma a barbárie. Os que os pintam moribundos e os representam no momento do sacrifício, pintam o prisioneiro cuspindo na cara de seus matadores e fazendo-lhes visagens. Em verdade, não deixam até ao último suspiro de os insultar e desafiar por palavras e obras. Eis aqui, sem mentir, homens completamente selvagens em contraste conosco; porque ou eles o são na realidade, ou o somos nós. Há uma enorme distância entre a sua maneira de ser e a nossa. Os homens possuem várias mulheres, e tantas mais quanto maior for a sua reputação de valente. Entre os casados, é coisa bela ,e digna de nota que o zelo, que nossas mulheres põem em nos evitar a amizade e a benevolência das demais, põem as deles em lhas adquirir. Prezando a honra dos maridos sobre todas as coisas, usam da maior solicitude em agenciar o maior número possível de companheiras, pois quanto maior for o número destas melhor será o testemunho das virtudes do marido. Para as nossas mulheres, isto poderá parecer absurdo; mas não, é uma virtude própria do matrimónio e do mais alto grau. Já na Bíblia, Lia, Raquel, Sara e as mulheres de Jacob entregaram aos maridos suas formosas criadas; e Lívia secundou os desejos de Augusto em proveito próprio. Estratónice, mulher do rei Dejótaro, não so mente deu para uso do marido uma belíssima moça de câmara que a servia, como educou os filhos de ambos com suma diligência, e ainda os ajudou a herdar os Estados do pai.
E, para que não se pense que tudo isto obedece a uma simples e servil obrigação a que estão ligadas, ou a qual quer espécie de antiga submissão à autoridade dos maridos, à falta de discernimento e cordura, ou a terem a alma tão entorpecida que não são capazes de mais, mostremos alguns traços da sua inteligência. Além do que já citei de uma de suas canções guerreiras, conservo outra, amorosa, que começa assim: “Detém-te, cobra; detém-te, para minha irmã tirar do padrão de tuas cores o modelo e o desenho de um rico cordão que quero dar a minha amiga; que a tua beleza e condição sejam sempre louvadas entre todas as serpentes”. Esta primeira estrofe é o estribilho da canção. Ora, eu tenho bastante convívio com a poesia para julgá-la, e parece-me que não somente nada há de barbárie em sua inspiração, mas que é também completamente anacreôntica. A linguagem, aliás, é doce e de som agradável, parecenclo-se nas terminações com a língua grega. Três daqueles homens, ignorando o quanto pesará um dia em seu repouso e felicidade o contacto com as nossas corrupções, e que do conhecimento destas nascerá a sua ruína, — o que, de resto, já deve ter acontecido, visto a loucura de se deixarem iludir pelo desejo de verem coisas novas, abandonando, pelo nosso, a doçura do seu céu, — chegaram a Ruão quando ali se encontrava Carlos IX. O Rei departiu com eles longo tempo. Mostraram-lhes os nossos costumes, nosso luxo, o que era uma bela cidade. Depois, alguém pediu-lhes a opinião sobre o que mais os havia surpreendido. Responderam que três coisas, das quais esqueci a terceira, o que muito lamento; mas duas ficaram-me na memória. Disseram que, em primeiro lugar, achavam muito estranho que tantos homens importantes, de grandes barbas, fortes e bem armados como aqueles que rodeavam o Rei (é muito provável que se referissem aos Suíços da guarda real) rendessem obediência a uma criança em vez de escolher entre eles um para os comandar. Em segundo lugar (têm uma forma de falar que divide os homens em duas partes), tinham reparado que havia entre nós pessoas cheias e fartas de comodidades de toda ordem, enquanto a outra metade mendigava a suas portas, descarnada de fome e de miséria; e que lhes parecia também singular como essa outra metade podia suportar tamanha injustiça sem estrangular os demais e lançar fogo a suas casas. Falei com um deles durante muito tempo; mas tinha um intérprete que me seguia tão mal, e cuja estupidez velava tanto as minhas ideias, que pouco prazer recebi de tal conversa. Ao perguntar-lhe que vantagens lhe dava a superioridade que tinha sobre os seus (porque era um Capitão, a quem nossos marinheiros chamavam Rei), respondeu-me que a de ser o primeiro a partir para a guerra; inquirindo-o sobre o número de homens que o seguiam, marcou com o dedo um espaço da cidade para significar que tantos quantos ali cabiam, isto é, entre quatro a cinco mil homens; se, fora das lides da guerra, toda a sua autoridade cessava, disse que ainda lhe ficava. o privilégio, quando visitava os povoados que dele dependiam, de-se lhe abrirem os caminhos através do matagal dos bosques, por onde podia passar muito à vontade.
Em tudo o que aí fica dito não há nada de mau; o que há é que esta gente não usa calções.
1 “Diz-se que essas terras foram separadas por violenta convulsão, e que até então formavam um sô continente”. (Virgílio, En., III, 414).
2 A Eubeia.
3 Beócia.
4 “E uma laguna, muito tempo estéril e navegável, alimenta hoje as cidades vizinhas e suporta o peso do pesado arado”. (Horácio, Arte Poética, 65).
5 A hera cresce melhor sem cultivo, e o medronho brota mais formoso nos lugares solitários, e o canto das aves, por não ter artifício, não é menos doce”. (Propércio, I, II, 10).
6 “Homens que acabam de sair das mãos de Deus”. (Sêneca, Ep., XC).
7 “Eis as primeiras leis que a natureza deu”. (Virgílio, 10, Georg., II, 20).
8 “É fama de que os Vasconços prolongaram suas vidas nutrindo-se de tais alimentos”. (Juvenal, XV, 93).
9 “A única verdadeira vitória é aquela que, dominando a alma do inimigo, o força a confessar-se vencido”. (Claudiano, De sexto Consulatu Honorii, 248).
10 “Se caíres, combate de joelhos”. (Séneca, De providentia, c. 2).
Por que Marina Silva é apenas uma embalagem nova de um produto já vencido.
O Plano Real fundou as bases da economia brasileira atual. Por obra e graça dos seus criadores, o país colhe hoje os frutos não apenas da tão festejada estabilização da moeda, mas também da desindustrialização, dos juros mais altos do mundo, da concentração do capital na mão de rentistas e do crescimento econômico não sustentado.
Nos anos de governo de FHC, o Real, artificialmente ancorado ao dólar, exterminou a indústria brasileira, incapaz de competir em condições de igualdade com a produção importada. Nesse mesmo período, o governo salvou bancos privados da bancarrota com o plano denominado PROER, e aumentou imensamente a dívida interna do país, via emissão de títulos públicos.
Por sugestão do FMI, atrelou o controle de inflação ao sistema de metas e ao aumento da taxas de juros, tornando os títulos brasileiros o melhor negócio do planeta.
Começamos a cumprir a nossa meta de superávit primário, ou economia para pagar juros da dívida pública, também por sugestão do FMI, e deixamos de investir no povo brasileiro, que deveria ser o grande beneficiário das políticas de estado.
Se o capitalismo encontra-se hoje em crise e o Brasil, inserido no comércio mundial, encontra-se particularmente numa encruzilhada, é por obra do modelo econômico ali escolhido.
Atualmente, quase 50% do orçamento nacional se destinam a pagar a dívida pública brasileira. Esta dívida é, em grande parte, interna, e os bancos são os principais detentores destes títulos. Não à toa, os bancos brasileiros são os que mais lucram no mundo. Compram títulos da dívida que rendem entre 10 e 20% ao ano - nada é tão rentável assim no planeta, insistimos. Apesar dos ganhos astronômicos, o grande capital, no Brasil, é preguiçoso e não investe no setor produtivo.
Por exemplo: o que faz exatamente o Itaú com seu mais de 1 trilhão de lucro, maior do que o PIB da maioria dos países do mundo? É fácil entender por que a imprensa chora cada vez que a inflação varia ligeiramente acima da meta e os juros entram em trajetória de queda ou a meta de superávit primário não é alcançada. Essa grande mídia tem os banqueiros entre seus principais anunciantes, e sabe-se que é sempre difícil contrariar o freguês.
Sabendo-se que a poupança do setor privado é o déficit do setor governamental, perguntamos: estaria o setor privado interessado em abrir mão de parte do seu lucro? Estariam os banqueiros interessados em investir no setor produtivo e no crescimento do país recebendo taxas módicas de retorno de 6% enquanto os juros atuais rendem em especulação quase 20%? É justo cumprirmos meta de superávit primário enquanto investimos cerca de 3% do orçamento em educação?
A receita da economia ortodoxa, de banco central independente, regime de metas e juros para controle de inflação, cumprimento de superávit primário e não controle de fluxo de capitais parece chegar ao fim.
A presidenta Dilma entendeu o recado. Ainda ministra, questionava a política de superávit e, uma vez presidenta, escolheu um funcionário de carreira para ocupar a presidência do Banco Central. Não é por outra razão que insistiu na diminuição das taxas de juros e na mudança no rendimento da poupança. É por saber que o receituário ortodoxo chegou ao fim que critica o tsunami monetário que invadiu mercados emergentes no pós-crise, e diz que não sacrificará o crescimento por conta da inflação. É por estar cansada de superávit primário que institui a contabilidade criativa, assim chamada na grande imprensa. Por isso, reforçou o papel dos bancos públicos para que possam concorrer com os privados, para que esses diminuíssem as suas poupanças e investissem mais no setor produtivo. A presidenta parece cansada do rentismo, e tem entre seus conselheiros economistas brasileiros pra lá de heterodoxos aos olhos do mercado.
Sabendo disso é mais fácil entender por que a imprensa e os banqueiros odeiam tanto a presidenta. Quem é cliente do Itaú provavelmente já recebeu cartinhas apregoando o apocalipse econômico e a necessidade de migrar investimentos (eu já recebi). É o mesmo Itaú que presta consultoria para todas as matérias de economia do jornal "O Globo"que é um dos grandes anunciantes deste gigante de comunicação. O objetivo é seduzir a opinião pública e colocar o receituário liberal na ordem do dia.
Recentemente, o mercado financeiro ganhou uma nova entusiasta da política econômica ortodoxa ou <i>mainstream<i>, a presidenciável Marina Silva. A mais recente filiada ao PSB defendeu em entrevista, o sistema de metas para inflação e a alta de juros; tem entre os seus gurus um dos pais do plano real, André Lara Resende, e entre seus principais apoiadores e financiadores o banco Itaú, o banco brasileiro privado que mais lucra - e também o maior crítico da política econômica do atual governo.
Para quem se vende como o novo, Marina cheira a pura nafitalina. A presidenciável odeia a política e os políticos, mas esquece que apenas a política pode nos livrar das garras do mercado, e não a união com o grande capital de forma subserviente.
Marina também se vende como sustentável, mas é difícil acreditar que a indústria de cosméticos se enquadre nesse rótulo. A maioria dos cosméticos são substâncias inócuas e produzidas sem o rigor necessário na produção de um medicamento. A legislação mundial para os cosméticos não exige que sejam realizados ensaios clínicos, basta provar que os produtos comercializados não causam alergia e efeitos colaterais graves. Para isso, a maior parte dessas indústrias utilizam testes em animais - mesmo aqueles que não realizam diretamente dificilmente conseguem fiscalizar toda a sua cadeia de fornecedores.
Além disso, essa indústria abusa de uma matéria prima altamente poluente como o triclosano, por ser barata, além de deixar um rastro de embalagens e lixo que termina poluindo rios e oceanos.
Só o tempo dirá se os marqueteiros de plantão conseguirão reciclar tantas ideias ultrapassadas apostando apenas nessa nova embalagem.
Uma ideia que dá frutos (e talos, raízes, folhas...)
No mês da alimentação, o Canibal abriu mão do instinto carnívoro para conhecer o trabalho de Regina Tchelly. Ex-doméstica, a criadora do projeto Favela Orgânica vem ensinando seus vizinhos no Morro da Babilônia a transformar qualquer canto da casa em horta e a aproveitar boa parte do que se joga fora na hora de preparar alimentos.
Agora, ela leva o Favela Orgânica para o Brasil e o mundo.
'A função do artista é violentar', dizia o cineasta
‘“Topa escrever um texto sobre o Glauber, o cara do verbo solto e do pé na porta, da câmera e da cabeça?” Mas poxa, logo eu, que gosto mais do Rogério? Nem sou afeita a tais embates, como “Stones ou Beatles?” – ou, pior, “Lennon ou McCartney?”. Mas lá na época em que estudei a história do cinema brasileiro, a verborragia do Sganzerla acabou falando mais alto aos meus ouvidos, com bandidos iluminados e loucas devoradoras de homens questionando paradigmas e ao mesmo tempo lotando as salas de cinema, com Gonzagão , Zé Bonitinho e Helena perdidos num planetinha azul de merda, gritando a angústia de todos nós… Anos depois, ainda vim a ter o prazer e loucura de trabalhar com ele, Mr. Sganzerla, na montagem do seu último filme. Bons tempos meus, esses. Talvez essa oposição “Glauber ou Sganzerla?” só exista na minha cabeça, e em uma ou outra farpa trocada ou inventada na criação de rótulos, de “gavetinhas”: isso é cinema novo, isso é cinema marginal, blá blá blá.
Mas enfim, Romário é Romário e Glauber é Glauber, e o cinema brasileiro tal como é hoje foi moldado pela força de sua obra e presença, tanto pela sua afirmação quanto pela sua negação. Certamente toda obra artística é implicitamente um ato político, mas o cinema de Glauber o era explicitamente. Tinha um próposito, uma meta, um posicionamento, e almejava ser doutrinamento. Um cinema sobre a fome, um cinema violento, E, para escrever sobre ele - por minha longa experiência como exibidora de curtas no Cachaça Cinema Clube - logo me veio à cabeça um pequeno filme, de 10 minutos, e que, por sua pequena duração e enorme impacto, praticamente condensa toda a estratégia ideológica de Glauber: Maranhão 66.
‘Filminho abusado esse! O contexto: jovem político com carreira promissora convida jovem cineasta, também promissor, para documentar sua posse como novo governador, em plena ditadura civil-militar. José Sarney contrata Glauber Rocha para fazer um filme sobre a inauguração do seu mandato como governador do Maranhão. Glauber o fez: filmou a posse, captou o som, Sarney bonito na foto, o povo lotando a praça.
Sarney promete fazer do Maranhão, já um dos estados mais pobres do país, o lugar da liberdade e do progresso, da grandeza e da felicidade.
Mas Glauber também filma outras cenas… casas e famílias miseráveis, doentes apodrecendo e definhando em hospitais imundos, crianças subnutridas. A pobreza. A fome. A violência. Os dois materiais editados juntos, no entanto, não agradaram muito ao cliente. A voz de Sarney, paladino da esperança!, sobre a imagem do povo que urge por mudança, teve efeito contrário.
Alguém poderia até argumentar que o filme sinalizaria que aquelas imagens paupérias estavam com os dias contados, que a transformação prometida pela “voz” chegaria… só que não. Fica escancarado o vazio do discurso demagogo, as promessas sem qualquer lastro, a enorme e insuperável distância entre quem está acima do palanque e quem está embaixo. Implacável.
usou imagens filmadas na tal posse no seu mais primoroso filme, na minha humilde opinião, “Terra em transe”. Primoroso pela força e o questionamento estético-político já presentes nos filmes anteriores, mas agora incorporando a autocrítica de classe, pensando a incapacidade pragmático-política dos intelectuais e a inviabilidade dos seus projetos revolucionários.
Infelizmente, Glauber se foi. E Sarney continua mandando no Maranhão. E o Maranhão segue sendo um dos lugares mais pobres do país. Provavelmente Glauber imaginou que “Maranhão 66” faria o povo maranhense mais consciente da sua situação política, mas o buraco é tão mais embaixo. Havia distância enorme também entre quem fazia o filme e a quem o filme se destinava. Ainda há. O eterno dilema do cinema, da arte política. Hoje existe uma trilha de mudança, na diversificação, e, por que não, democratização na produção das imagens, nos sujeitos artísticos.
Quem me dera poder afirmar, nesse pequeno texto, que uma revolução vem chegando. Oxalá o cinema se aprimore como arma. Até lá sigamos, como Glauber, tentando.
Para fechar, que o Canibal não me encomende um texto sobre Truffaut. Porque aí sou “JLG team” total.
(PS: para quem não está em Recife, o filme também pode ser facilmente encontrado na internet.)
O cantor e compositor carioca Ludi Um solta o vozeirão para falar de música, fé e da guerra santa contra os praticantes de religiões afro-brasileiras:
"Uma aluna quer abandonar o asé porque não aguenta mais ser discriminada. O aluno de um amigo não pôde entrar na escola uma sexta-feira porque estava de branco. Os povos de terreiros estão sendo massacrados e ninguém diz nada".
Fort é uma publicação anual criada em 2013 que documenta o retrato masculino.
Editada por Cassia Tabatini e Fabio Motta, Fort cria um manifesto visual do universo masculino com retratos bem elaborados e editoriais de estilo.
A revista conta com a colaboração de artistas e fotógrafos estabelecidos no Brasil e em outras partes do mundo. O resultado é a troca cultural entre autores e a exposição de lugares e cotidianos pouco explorados.
Cada edição da Fort é única e portanto colecionável.
À Portuguesa é a primeira obra da trilogia “Tri Polar” da MC Sa Fadinha e seus heterônimos Sa Caninha e Sa Patinha.
Nesse trabalho, Sa Fadinha introduz ao funk carioca um novo subgênero: FUK-U - Funk UniversOtário.
Em A Doutrina do Choque, Naomi Klein põe fim ao mito de que o mercado livre global triunfou democraticamente, senão através da exploração de países em convulsão social.
Segundo a jornalista canadense, foi no Chile de Pinochet que a expressão cunhada na Universidade de Chicago por Milton Friedman, inspiração de pensadores neoconservadores e neoliberais ainda hoje, foi colocada em prática pela primeira vez. Em 11 de Setembro de 1973, através de um golpe militar com a ajuda dos EUA, o governo democraticamente eleito de Salvador Allende foi derrubado, e a desorientação pública foi utilizada para ganhar controle e impor uma terapia de choque econômica.
No documentário, ainda são estabelecidas novas e surpreendentes ligações entre a política econômica, a guerra de "choque e pavor" e as experiências secretas financiadas pela CIA em eletrochoques e privação sensorial na década de 1950. Foram essas as mesmas pesquisas que ajudaram a escrever os manuais de tortura usados hoje na Baía de Guantanamo.
O véu islâmico pode ter diversas formas: desde o chador iraniano, que se usa de forma quase displicente como um lenço na cabeça, à opressiva burca, imposta pelo Talibã. Já a palavra Hijab é um termo em árabe cujo significado é cobertura ou proteção.
É importante lembrar que, exceto em regimes teocráticos, o uso do véu é uma opção de cada mulher.
Associado à cultura islâmica, o uso do véu surpreende na sociedade do carnaval, onde o corpo feminino serve para vender tudo para os homens, com destaque para carros e cerveja (como em quase todos os países ocidentais, aliás).
Espera-se das mulheres estar sempre em forma, prontas a competir no mercado afetivo usando as curvas como um atributo – muitas vezes o único, ou principal. Seria essa exigência de perfeição uma espécie de burca às avessas?
Aí estão certamente algumas das pistas das razões que levam uma mulher brasileira a se cobrir com um véu.
Mas há outras respostas nas palavras da professora Marcela, da socióloga Jamile, da historiadora Patrícia, da agricultora Zahreen, da advogada Jamila, e da engenheira Maria.
A conversão, a aceitação da família, a sexualidade, a poligamia, o preconceito nas ruas e a sensação de conforto trazida pelo o véu são algumas das questões investigadas pelo do documentário.
Sem firulas, Paulo Halm (na foto acima, com Maria Moreira) apenas as ouve. O que já é enorme, e faz do filme uma oportunidade unica de ouvi-las também, muito além do véu do preconceito.