Quando Annika estava prestes a se formar em Hogwarts, sua vida havia tomado uma direção totalmente contrário as suas vontades. Seus pais tentavam comandar seu futuro dizendo quem ela deveria ser, com quem deveria se casar e como deveria passar o resto de sua vida. Annika fora criada para ser esse tipo de mulher típica indiana que obedeceria sem questionar. Porém ela saiu impetuosa, alguém desejava decidir seus próprios passos. Não foi fácil tomar a decisão de fugir, em qualquer aspecto. Emocionalmente, ela sabia que deveria ser deserdada pela sua ousadia e isso acarretaria numa mais ter a chance de fazer parte de sua própria família, nenhum tipo de comunicação. Valeria a pena?, havia se questionado inúmeras vezes. Financeiramente, ela havia guardado dinheiro para casos emergenciais. No fundo, ela queria que jamais tivesse chegado num ponto tão longe. Ela teria como viajar e se manter por dois meses, sem luxos. Teria de correr contra o tempo e encontrar um emprego sem experiência nenhuma e com boas notas dos NIEMs em suas mãos. E havia outros tantos mais aspectos que haveria de deixar para trás. No momento em que o jantar para seu noivado acabou, ela não estava pensando direito. Não houve tempo para que pensasse nos detalhes ou num plano de confronto com seus pais. Annika entrou em pânico e fugiu sem olhar para trás.
Mais de seis anos após sua fuga e com seu retorno à Inglaterra, ela estava encarando algumas das consequências. Como foi com Gloria. Ela havia se martirizado por anos por ter abandonado a amiga, em vez te ter a levado consigo. Annika mal se lembra das desculpas que havia dado a si mesma, mas sabia que ela estava em pânico o suficiente para não querer danificar a vida da amiga. Seus problemas eram nada na frente de todo inferno teve de enfrentar. Ela não havia encontrado sua família novamente e estava enrolando para que isso acontecesse, os danos deveriam ser muito profundos para serem reparados. Mas se tinha algo que ela poderia reparar, era sua valiosa amizade com Glora e se certificou da mulher entender que ela não sumiria mais de sua vida, estaria ao seu lado independente do que ela tinha feito ou estava sendo obrigada a fazer. Annika não deixaria mais Gloria para trás porque, afinal, ela sempre foi como uma irmã e era o único membro familiar que havia lhe restado. Apesar de suas atitudes, Anya sempre se importou com sua família, embora pensassem de maneiras opostas.
Após a tragédia acontecida em Hogsmeade, Annika se sentia extremamente culpada por ter a levado para o local, pois havia sido sua ideia. Ela havia colocado Gloria em perigo em tantos níveis. Apoiou a mulher quando resolveu se esconder na casa de Stirling, mesmo que não compreendesse totalmente porque havia escolhido se esconder lá. Anya não encheria Gloria de questionamentos, ela não tinha direito a isso, não agora. Os próximos dias, tomou todo o cuidado para não sair de casa se não fosse extremamente necessário. O bom do seu sumiço era que poucas pessoas a reconheciam como uma descendente dos Patil, era vista como estrangeira, ainda mais porque seu sotaque foi minimamente alterado pela sua estadia na Romênia. Anya ponderava, no entanto, quando que Gloria iria aparecer na sua porta pedindo para que fugissem juntas. Ela conhecia a mulher tão bem para saber que em algum momento essa possibilidade poderia ocorrer. Anya também se questionava se quando ocorresse esse momento, seria certo aderir a ideia. Se seria certo fugir. Embora sua própria fuga houvesse gerado muitas consequências boas, ela ainda desconhecia o tamanho do dano que deixou para trás. Contudo, novamente, ela tinha que admitir que seus problemas não eram comparados aos de Gloria.
Anya estava tomando um chá quente sentada no seu sofá, pensando em todas as questões que envolviam as duas amigas, quando escutou uma batida na sua porta. Havia feitiços de segurança em torno do apartamento. Se aparacesse alguém desnecessário, não conseguiria passar pela porta e nem pelas janelas - se tentassem. Com cuidado, colocou seu copo sobre a mesa ao lado do sofá e levantou-se com passos leves. “Quem está aí?” Perguntou sem abrir a porta. “Se você, for você, faça aquilo que eu lhe falei. Senão vá embora.” As duas mulheres haviam combinado entre si uma frase de efeito, só elas saberiam e decodificariam. Suas palavras eram vazias e não haveria tanto significado se não fosse Gloria do outro lado.
Algumas vezes Gloria esquecia como era simplesmente ser...uma garota. Desde pequena ela fora criada em cima de expectativas. Sua mãe, temerosa, sempre quis que a garota tivesse a melhor educação que uma Rosier deveria ter. Já seu pai, nem mesmo se incomodava em lhe lançar alguma expectativa. Pelo menos, não até ela estar em Hogwarts. Quanto mais Gloria queria impressioná-lo mais o mesmo a afastava. Ela tentava conversar com sua mãe sobre aquilo, mas tudo que a mesma fazia era sair chorando. Os elfos sempre a repreendiam. Dizendo que aquele não era um assunto a ser tocado. Todos haviam tido uma lavagem cerebral com seu pai, e tratavam-na com a mesma frieza que o homem. Gloria sempre se sentiu como uma prisioneira em sua própria casa. Tudo que ela fazia, não revelavam seus sentimentos. Ela sempre era uma representa do que lhe era ordenada. Então, Hogwarts aparecera e a mesma viu ali uma oportunidade para impressionar seu pai. Sua amizade com Rosalie Parkison, foi a grande mudança de jogo. Seu pai quase esboçara um sorriso quando a mesma comunicou que estava sobre a proteção da mesma. Assim começaram os favores. As mentiras, e a imposição de seu futuro. Foi muito difícil para Gloria, abandonar Mary Hopkins, sua colega de estudos que possuía o mesmo objetivo que ela para se tornar uma healer, e se dedicar a outros estudos e aulas que não possuíam seu interesse para se tornar uma auror. A única razão para ela ter sobrevivido havia sido Annika. A amizade da mesma e a forma como ela lhe motivava a não desistir. E então, a garota havia ido embora. Tudo havia desabado, e Gloria tivera que enfrentar a tudo sozinha. Annika era a única pessoa que tratava Gloria como uma amiga, e por assim, uma garota passando por uma fase difícil.
Em momentos como aquele em que ambas faziam alguma coisa bem estupida, e engraçada. Gloria gostava de pensar que ser uma garota normal deveria ser. Bem perto da porta a antiga sonserina com um sorriso no canto do rosto respirou fundo. “Você vai me obrigar a dizer? Aquela banda que você gosta é a melhor banda de todas. Satisfeita? Agora me deixe entrar, idiota.” Gloria, não tinha uma boa ideia. Ainda assim, fora dessa forma que elas combinaram que caso algo acontecesse e Gloria precisasse entrar em contato para uma fuga como aquela elas fariam aquilo. Impaciente a mesma batia os pés, enquanto tremia com o vento gelado. Anya estava acostumada com o frio da Romênia, Gloria não. A mulher parecia um sorvete em meio a toda aquela neve. “É bom que você tenha ouvido, pois não vou repetir essa baboseira só para você saber que sou eu.” Com seu humor de sempre ia ser um pouco difícil da melhor amiga não perceber que era ela. Agora, Gloria conseguia ouvir os barulhos das inúmeras trancas. Como se isso fosse proteger alguma coisa. Gloria tentou não parecer tão impaciente, e bateu a neve de seu casaco. Limpando um pouco toda a bagunça que estava antes de entrar. “Por que tinha que escolher um local tão frio?” Seu humor de sempre parecia ter atingido a amiga.
Assim que entrou no lugar, Gloria deixou seus muros caírem. A cena era muito rara, mas ali estava Gloria. Abraçando Anya, e junto com o abraço suas lágrimas caiam. “Vamos embora. Por favor, eu não aguento mais estar aqui. Eu sou uma pessoa horrível. Fiz tudo que não podia, menti para boas pessoas, coloquei uma família incrível em perigo, e ainda por cima acho que estou gostando de um idiota. Por favor, me tira daqui. Qualquer lugar. Até a Romênia, eu topo. Só me tira dessa situação, e de todas essas pessoas. Aqui eu só vou continuar a fazer coisas ruins. Você sabe quem tem muita influência agora, vamos embora.” Gloria nunca havia feito algo como aquilo. Ela estava desesperada. Em sua cabeça várias cenas apareciam. Rosalie querendo respostas, seus pais. O fato dela ter metido para seu escritório inteiro, pessoas que só queriam ajudar. Todo o festival. E então, vinha Felicity e toda sua família. Ela havia aprendido a gostar dos Stirling, e a forma como eram tão unidos. Junto com isso ainda havia Drew. Gloria não fazia ideia do que era aquilo, mas ela não queria ficar para descobrir. Não depois daquela noite. Ela havia já feito estrago o suficiente para aquela família. A mulher precisava ir embora dali.
Afastando-se de Anya, Gloria limpou seu rosto. Respirando fundo, ela tentava levantar o rosto para encarar a amiga. Porém, tudo que ela conseguia era encarar o chão. A vergonha por seus atos. O medo por todas as coisas que havia feito. Gloria não merecia aquele tipo de amizade. Ela não merecia uma pessoa tão boa em sua vida, mas ali estava ela estragando mais uma pessoa. Não compreendia como Anya poderia topar algo como aquilo, mas Gloria estava assustada, e aquele não era um sentimento com o qual Gloria sabia lidar, então teve que recorrer a amiga.