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Certo, o cara da praça é bonito. Mentira. Ele é muito gostoso.
Vamos lá, não é todo dia que você encontra uma beldade dessas na praça e coisa e tal. Não que ele estivesse me paquerando ou eu estivesse dando piscadelas para ele de cinco em cinco minutos nem nada. Ele é só gostoso.
Acontece que eu estava na praça para fazer exatamente o que, eu não sabia. Talvez dar uma bebericada em alguma coisa, olhar a paisagem, esse tipo de coisa... Já estava mais que cansada de ficar em casa semanas seguidas enchendo a cara, jogando jogos sozinha, e pensando em histórias de conteúdo não apropriado. Não me julguem, sério. É que de vez em quando fico entediada. Tenho que sair um pouco, ver os gatos de verdade, não só na imaginação.
E que imaginação.
Mas então foi quando eu resolvi tentar "fazer" algum tipo de aperitivo ou não sei o que. Então pego aquela ocasional mão cheia de terra e me concentro. Vamos lá, aquele chocolate gostoso, que faz até um tempo que eu não como.
Aquele chocolate suculento.
E olhei para o que tinha em mãos. Primeiramente não foi difícil perceber que não era um chocolate. Porque era laranja. E molenga. Geralmente como aquela coisa se apresentava para mim.
Sinceramente, tinha que me acostumar com o gosto da abóbora. Isso está me deixando com muita raiva. Toda vez que tento transformar uma substância em outra acontece isso. Antes era um punhado de terra, e depois um punhado de doce de abóbora. Ou abóbora pura.
O que está acontecendo comigo?
O gostosão começou a me olhar estranho. Talvez ele pense que sou maluca. Não é muito comum ver alguém com uma mão cheia de abóbora, por isso que eu imediatamente joguei tudo fora e limpei minha mão o melhor que pude. Bem nojento. Então me levantei, e simplesmente comecei a andar.
Era bom, tinha efeito calmante. Andei, andei, e olhei a paisagem também. Devo ter andado muito, porque minhas pernas estavam meio que doendo. Talvez fosse caimbra. Mas era bom. Devo ter algum problema. Andei por vários quilometros, não medi exatamente. É que nem aquele filme do cara que começa a correr e então atravessa os Estados Unidos duas vezes.
Filme maluco.
Eu certamente não era nem um pouco maluca. Eu não atravessaria um país inteiro. Mas tem o Vaticano. Tem sempre o Vaticano. Não que isso importasse, provavelmente não existia mais.
E isso me fez pensar. Será que existe alguém mais lá fora? Quer dizer, no mundo? Em outros lugares? Se tem, como será que vivem?
Não tinha aquele livro que tem uma coisa de apocalipse e tal, uns alienígenas esquisitos, e os sobreviventes, que pensam que são os únicos mas então no final do livro acontece de ter vários outros grupos e essa loucura toda? Quer dizer, não que fosse muito possível que isso acontecesse no mundo real, mas dá pra pensar bastante no assunto. Ouvi dizer que lançaram um filme daquele livro.
De qualquer maneira, pensando daquele modo (e andando, principalmente), me fez levar em algum lugar que não havia notado que estava indo.
“Nada bem é exagero" Falou olhando para a bandagem improvisada que já estava empapada de sangue. O seu sangue. Apesar daquilo não deixa-la tão assustada quanto deveria, na verdade não a deixava nem um pouco assustada. Claire era bastante fria em relação ao próprio sangue, seu pai dizia que o desespero matava mais que a perda de sangue, e ela acreditava naquilo. Quando a pergunta de Roxy veio quase foi respondida de uma forma irônica e ácida. Ela só está tentando ser legal, lembrou a si mesma, respirando fundo. “Uh… a menos que você possa criar um remédio forte para a dor, acho que não" Falou fazendo uma careta e se sentando, Roxy parecia preocupada, e Claire não compreendia muito bem, não era como se seu estomago estivesse saindo ou algo do tipo. "Calma, eu to legal, juro" A careta que fez em seguida talvez tenha a desmentido.
"Você é muito orgulhosa, não é?" Falou, sem pensar. "Desculpe." Disse logo em seguida. Não sabia como lidar muito bem com pessoas orgulhosas, mas Roxy apenas presumiu que se fizesse um jogo talvez até desse certo. "Ah, está bem, se você diz que tá tudo legal." Ergueu as mãos, em auto-defesa. Não pode deixar de observar a bandagem que parecia estar muito mal feita. "Aceita pelo menos ajuda com isso?" Apontou. "Ou está tudo legal?" Levantou uma sobrancelha.
Enquanto a garota ao seu lado demorava para responder, Roxy observou os arredores, com pensamentos filosóficos demais para o seu gosto (talvez ainda estivesse um pouco bêbada).
Claire não estava no melhor estado de espirito, normalmente uma luta deixaria a adrenalina correndo por suas veias, e ela ficaria completamente elétrica. Mas ser atingida por uma flecha não era exatamente algo animador, pelo contrário. Rasgou um pedaço da barra de sua camisa, e amarrou ao redor do braço, num curativo tosco, mas que teria que dar pro gasto. Pelo menos por agora. Não costumava demonstrar a dor, mas a pressão dolorosa que ia do ombro até o cotovelo a obrigou a fazer uma careta e morder os lábios.
Ouviu uma voz atrás de si, e virou o rosto se deparando com Roxy. Olhou a loira de cima a baixo antes de voltar a se concentrar no próprio braço. No final das contas não estava tão mal assim, poderia estar pior. "Ainda tenho as minhas duas pernas, então eu diria que sim" concluiu com um leve dar de ombros que foi mais doloroso do que ela esperava. Mordeu a bochecha com tanta força que pode sentir o sangue se espalhando por sua boca. "Você?"
"Oh, Claire, você não está nada bem." Disse, juntando as sobrancelhas em uma expressão preocupada. Se sentia mal. Em comparação com as outras pessoas não tinha matado quase nenhum monstro. Congelar um dentro de uma poça de abóbora não era exatamente seu conceito de matar. Apontou para o braço machucado. "Tem alguma coisa que eu possa fazer?" Perguntou, enquanto ainda tentava controlar a ânsia de vômito e seu mal-estar. Tinha que ter algo que pudesse fazer. Talvez remédios não fossem sua especialidade, (poderiam acabar com gosto de abóbora) mas valeria a pena tentar. Ou ajudar com qualquer coisa... Ser útil.
A praça estava novamente em seu campo de visão. E o que viu não a agradou. Quer dizer, tinha tanta gente ferida, tantos zumbis "mortos", tanto sangue, tanto tudo. Ela achou que ia vomitar. Então caminhou para o centro da praça. Olhou em volta, um pouco aterrorizada por todo o corrido. Quer dizer, não é todo dia que você esbarra com um bando de criaturas monstruosas. Procurou um rosto conhecido no meio da multidão de feridos e alguns (Roxy não queria acreditar nisso) até mortos. Acabou encontrando também, quem menos queria encontrar. Não é que não gostasse de Claire nem nada, mas não estava a fim. Algo de sua cabeça, Roxy era assim. Mesmo assim, se forçou a se aproximar e perguntar. "V-Você está... bem?"
Virou-se com tudo para trás pronto para o ataque, mas se deparou com dois Dravens ao seu lado e respirou mais aliviado, porém não por muito tempo, pois os zumbis pareciam brotar do chão e os gritos diminuíam, o que o fez pensar no pior. Todos estavam morrendo. Escancarou as portas do arsenal e foi pegando tudo o que conseguia, desde facas de arremesso que ia prendendo em seu cinto até uma lança que colocou nas costas e um arco com uma aljava de flechas. Aquilo que não conseguia carregar enfiava em uma bolsa para distribuir para os outros que ficaram para trás “Vocês dois! Peguem o que puderem carregar e me acompanhem RÁPIDO!” Gritou, era difícil manter o controle naquela situação, mas se desesperar era pior ainda. Respirou fundo uma vez e correu de volta para onde os outros estavam; no caminho olhou para o zumbi que tinha chutado, ele se arrastava, mas ainda não havia morrido por completo “Não gosto de meios termos” falou para si mesmo antes de enterrar uma das facas na cabeça do morto-vivo e voltou para a praça. Mal chegou e percebeu que mais uma morte aconteceria se não impedisse, a garota estava simplesmente paralisada e um zumbi se aproximava por trás, Sam puxou uma flecha da aljava, encaixou na corda do arco e soltou-a que saiu assoviando no ar e acertando o zumbi em cheio na cabeça, soltou a bolsa em uma das mesas e gritou o mais alto que pode “ARMAAAS!”
Ok. Talvez ela pudesse fugir para algum lugar a salvo (talvez para sua casa) e permanecer lá até o ataque acabar. Era isso o que ela ia fazer aliás. Mas não era lá um dos melhores planos, o pessoal contava com ela, Roxy sabia disso. Lidar com seu problema de covardia parecia ser fácil, quando na verdade era bem mais difícil. Algo a fez acordar de seu dilema pessoal. Um farfalhar, folhas e galhos se quebrando. Isso era ruim.
Uma das criaturas surgia lentamente do meio das árvores e Roxy meio que entrou em pânico. Enquanto agitava as mãos, folhas viravam terra, galhos de repente eram lascas de pedra e os troncos dobravam-se. Porém a coisa continuava avançando (nada parecia o atingir, mesmo que o ambiente ao seu redor estivesse entrando em colapso). Roxy decidiu respirar fundo e sua mão voltou-se para o solo logo abaixo do monstro. Um segundo depois, onde antes era terra, agora estava uma poça perfeitamente redonda de uma substância pegajosa... E laranja.
Consciente de que seus poderes mentais não ajudariam nessa batalha, Sam, foi um dos que correram na direção do arsenal para reforçar a defesa da vila e impedir que ninguém mais fosse mordido. Correu o mais rápido que pode e ouvia os gritos à distância o que funcionava como um incentivo para alcançar o lugar logo, já havia visto sua família perecer uma vez, encontrou uma nova família em Draven e não deixaria que esta nova família sofresse o mesmo destino da anterior. "Rápido! Venham comigo, precisamos de armas! Rápido" ele gritou para qualquer um que ouvisse e nem sequer olhou para trás para ver se estava sendo seguido, apenas ouviu alguns passos; torceu para que fossem de humanos. Topou com um zumbi no meio do caminho e ficou momentaneamente sem reação e quase foi atacado, chutou a cabeça da criatura derrubando-a no momento certo, assim que chegou na porta do arsenal, sentiu uma mão em seu ombro e se virou pronto para atacar o que quer que fosse.
A cena chocou Roxy de forma que ela apenas ficou parada na frenta da horda de monstros. Simplesmente parada. Sem reações. Um grito a acordou e a urgência de se mover foi maior do que tudo. Ela nem se importou. Fugiu. Correu o mais rápido que pôde enquanto escutava as barulhentas criaturas logo em seu encalço. Quando deu por si, encontrava-se na frente de um barracão esquisito. Onde ela jurava que tinha visto apenas duas ou três vezes.
Parou para respirar. Correr não era lá uma coisa que ela fazia muito. Principalmente de zumbis. Não é o melhor esporte, isso ela podia afirmar. Talvez meus poderes pudessem ajudar. Pensou enquanto olhava os arredores, tentando imaginar alguma forma de conseguir não bancar a heroína mas mesmo assim ajudar de alguma maneira. Parecia algo impossível.
Quer dizer, não foi isso que eu quis dizer. Não foi tipo, do… Sabe… Ér… Eu só acho que você não gostaria de um suco de abóbora ou algo assim. Isso vem me acontecendo muito ultimamente
Oh, não me mate por pensar merda da sua primeira frase
Vamos relevar, nada disso foi dito, mas… Suco de abóbora? Eu nunca provei, mas acho que não é o momento certo pra fazer isso. Enfim. Procuremos as bebidas que é melhor.
Eu penso merda o tempo todo. Principalmente na frente de caras gatos. -pisca-