sempre falo que “ah se soubessem como me sinto, como é ser eu” mas na realidade, nada mudaria. nada mudaria pois pouco importa como me sinto, como percebo. é tudo resumido a uma única coisa. isso que é desolador. é sempre dissociação ou depressão ou ansiedade ou sei lá o que. sendo que, embora estando nessas condições, já pensou que não sou essencialmente elas? que, ao estar calado ou pensando, posso estar, ao pé da letra, apenas calado ou pensando? sem estar dissociando ou ansiando ou deprimindo? é tão grotesco amplificar os sentimentos a diagnósticos. às vezes você sente por sentir, porque você é uma pessoa. às vezes tem que sentir dor e tem que ficar escaldado nela e repensar a vida. tem horas que se deve sentir mesmo. mas é tudo problema mental, é tudo uma receita médica. de fato, têm coisas que são mesmo. mas tem momentos em que estou emburrado por estar emburrado. tem horas que me estresso com os outros por motivos triviais porque viver estressa também. aí fica todo mundo sendo num sei quantos transtornos e ninguém, repito, ninguém, muda a forma de agir. porque o inferno é sempre o outro e, portanto, o outro que tem que mudar, o outro que dê seus pulos para me entender. tenha santa paciência! como isso é ridículo! entendo a necessidade de entender os transtornos que se tem, mas também é preciso mudar, sair desse ciclo de se achar no direito, se achar o certo, o coitado, a vítima de tudo. caramba. tem hora que enche o saco. viver é difícil para todos que estão nas margens e à mercê. às vezes você sente porque tá cansado, porque é difícil passar o dia na luz, na fumaça, nas buzinas, nas falas tumultuadas. às vezes as pessoas só não foram feitas pra isso e, por isso, de repente, todo mundo acha que precisa de diagnóstico pra explicar sentimentos. às vezes é raiva mesmo. às vezes é tristeza mesmo. às vezes é só um pensamento.