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EDMUND KEMPER - O Matador de Colegiais
EDMUND EMIL KEMPER III
Quem hoje conhece Edmund Kemper jamais imagina os atos criminosos que ele foi capaz de cometer.
Após ser julgado por seus crimes, Kemper foi enviado para a prisão de segurança máxima de Folsom pelo resto da vida¹. Ele ainda está atrás das grades. Deu extensas entrevistas a Robert Ressler, agente do FBI, ajudando na manufatura de perfis criminais de serial killers. Sua história foi uma ajuda inestimável para que pesquisadores como Ressler pudessem entender melhor esse tipo de assassino.
Em 1988, participou juntamente com John Wayne Gacy de um programa via satélite, onde discutiram seus crimes. Como sempre, foi loquaz e explícito.
Na prisão, é considerado um serial killer genial, pois se não tivesse se entregado jamais seria condenado.
Hoje, aos 52 anos, é considerado um preso modelo, com um coração de ouro!!! Utiliza seu tempo livre traduzindo livros para o Braille. Finalmente sua inteligência tem como objetivo construir. Nem sempre foi assim. Vítima de uma infância e adolescência turbulentas e traumáticas, Kemper transformou-se numa espécie de monstro, dificilmente despertando piedade naqueles que investigaram e estudaram seus crimes.
A história problemática teve início na infância. Aos 9 anos, assistiu com raiva e impotência a separação dos pais. Além da intensa saudade que sempre sentiu do pai, muito ausente depois de sair de casa, teve que aturar uma grande sucessão de padrastos.
Sua vida na casa da mãe, em Helena — Montana, nunca foi fácil. Era sempre menosprezado pelas mulheres que viviam ali. Sentia-se um pária em sua própria família.
Jamais esqueceria o dia em que chegou da escola, aos 10 anos, e foi levado direto para o porão. Seu quarto tinha sido transformado em um lugar isolado, sem janelas, só porque as irmãs tinham medo do seu tamanho, e não seria bom se continuasse a dividir um quarto com elas; agora já era um pré-adolescente. Não tinha culpa da altura atingida com tão pouca idade, mas a mãe achava seu tamanho ameaçador. Também era mal visto porque gostava de brincar de fazer teatro, fingindo estar sendo executado na câmara de gás. Agora, vivendo no porão, estava definitivamente banido da família.
Na escola, a vida não era melhor. Apesar de ser fisicamente assustador, Ed morria de medo de apanhar dos colegas. Nunca conseguiu ter um amigo por muito tempo; também não podia explicar para nenhum deles que ficava trancado o resto do dia num porão escuro, que ninguém poderia vir brincar em sua casa, que sua mãe gritava com ele o tempo todo.
Ed e a mãe mantinham um relacionamento mais que conturbado. Travavam uma batalha verbal permanente e sem fim. Na vida adulta, sempre escutaria os gritos dela dentro de sua própria cabeça, sem trégua. No porão, o remédio que aliviava a solidão do dia e o inferno da noite eram as fantasias para as quais se entregava, criações sexuais e violentas. Desta maneira, o tempo passava rápido, enquanto ficava cada vez mais fora da realidade.
Segundo seus relatos, a mãe era a funcionária perfeita do Campus Universitário no qual trabalhava. Já em casa, demonstrava extremo egoísmo; não cuidava de nada nem de ninguém. Ed também apanhava muito dela, que não se conformava com sua “brincadeira” de matar e desmembrar gatos. Ele não entendia a irritação dela, pois no seu modo de ver as coisas nada tinha a ver com animais que não lhe pertenciam.
Apesar dos esforços dos pais, que na realidade eram mais engajados em sua educação do que a maioria, Edmund era uma criança difícil e problemática.
Aos 15 anos, a relação com a mãe ficou insustentável. Já atingira 2 metros de altura, e as mulheres da casa sentiam-se ameaçadas pelo rapaz cada vez mais circunspecto e intratável, quieto e “estranho”.
Quando uma curta temporada na casa do pai, em Los Angeles, fracassou, foi mandado para a residência dos avós paternos, Maude e Edmund Kemper Sr., em North Folk, Califórnia, em 1963. Era uma fazenda de 17 acres, completamente isolada, e o menino estava agora definitivamente à parte de tudo e todos. Passava o dia caçando com seu rifle .22, acompanhado do cachorro que tinha se transformado no único amigo.
Na escola, os professores o achavam quieto, um aluno normal, que não causava problemas nem atraía atenção para si mesmo, apesar de seu tamanho. Para os avós, a situação era tensa, mas suportável.
O que não sabiam é que a raiva crescia dentro dele. O relacionamento com o avô até era bom, mas a avó o irritava tremendamente. No ano de 1964, Ed passou o verão na casa da mãe, mas logo estava de volta à fazenda. A avó notou que ele estava diferente... Parecia mais sinistro e mal-humorado. Terminara a escola e sumia por longos períodos de tempo. Achava a avó cada vez mais chata, e o avô realmente entediante.
Suas violentas fantasias voltaram, e desta vez incluíam a avó. De alguma forma, Maude Kemper pressentia o perigo. Começou a carregar a pistola .45 do marido consigo, com medo de que caísse nas mãos do neto, pois não confiava nele. Ed sentiu esse ato como uma ofensa pessoal, e a tensão na fazenda começou a crescer sem controle. A avó passou a reclamar que seu olhar a deixava nervosa, que parasse de fitá-la. Ed não se conformava. Agora nem olhá-la ele podia.
Em 27 de agosto de 1964, Edmund deu vazão à sua raiva. Estava sentado junto da avó na cozinha, olhando enquanto escrevia mais uma de suas histórias infantis, quando novamente ela pediu que parasse de fitá-la. Pegou o rifle, chamou o cachorro e disse que sairia para caçar... antes de fazer uma besteira. A avó resolveu emendar: “Não atire em passarinhos, hein?”. Foi a gota d’água para aquela mente perturbada.
Ed ergueu o rifle e atirou na cabeça da avó. Ela despencou sobre a mesa da cozinha. Ainda atirou mais uma vez, em suas costas. Correu para dentro de casa, pegou uma toalha e enrolou-a na cabeça dela, para que pudesse levar o corpo para o quarto do casal.
Depois de ajeitá-la, sua única preocupação foi o que diria ao avô. Saiu lá fora para pensar com calma. Até gostava dele, mas contar o que acabara de fazer... não sei não. Não teve muito tempo para pensar no assunto. Logo viu o carro do avô estacionando, chegando das compras que tinha ido fazer na cidade. Todas as suas dúvidas se dissiparam ao vê-lo descendo do caminhão, cheio de sacolas nos braços. Ergueu novamente o rifle, fez pontaria e o matou com um só tiro.
E agora? O que fazer? Todos saberiam sobre seu ato criminoso. Resolveu fazer um telefonema para a mãe, que o aconselhou a chamar a polícia. Na hora, parecia a coisa certa, mas depois não teria tanta certeza.
Ed chamou o xerife, e foi levado para interrogatório. Mesmo explicando a ele que tinha matado o avô no intuito de poupá-lo de ver sua mulher morta e ter um ataque cardíaco, foi levado preso. Ficou à disposição da Justiça, que decidiu enviá-lo ao Hospital Estadual Atascadero, em 6 de dezembro de 1964. O rapaz ainda não tinha completado 16 anos. Foi diagnosticado psicótico e paranóico.
Ali foram seus tempos mais felizes. Atascadero estava longe de ser uma prisão. Não tinha guardas nas torres, e o grande objetivo ali era tratar e recuperar doentes mentais que haviam cometido crimes, não os punir.
Ed demorou longo tempo para entender seus crimes, mas os amigos internados entenderam rapidamente. Jamais assumiu a culpa por ter matado os avós, foi algo além de seu controle, mas estava tão bem que tinha ficado orgulhoso ao ser escalado para trabalhar de auxiliar no laboratório de psicologia e ajudar a aplicar testes em outros pacientes. Ele se esforçava ao máximo. Todos os dias esperava com ansiedade as horas vagas. Naqueles momentos, os outros criminosos contavam as histórias de seus crimes com todos os detalhes. As mais interessantes foram contadas pelos estupradores seriais. O melhor de ouvir histórias e contar suas fantasias era que, ali, comportamento violento e fantasias perversas não eram “coisa de louco”. Os outros internos o consideravam absolutamente normal.
Quanto mais tempo passava internado, mais suas fantasias sexuais se tornavam intrincadas e intensas. Não via a hora de poder colocar em prática todos os seus sonhos...
Sempre achou que os amigos estupradores haviam sido presos porque não tinham sido espertos o suficiente: deixavam atrás de si muitas testemunhas e evidências. Atacavam mulheres que os conheciam, e o faziam em locais públicos. Ed tinha guardado cuidadosamente todos os detalhes e informações de que pudesse precisar um dia. Jamais dividiu com os médicos as violentas fantasias de assassinar incognitamente. Quando realizasse seus mais íntimos desejos, jamais descobririam sua identidade secreta. Nunca deixaria pistas.
Para todos, Ed Kemper era um trabalhador esforçado e comportado, adolescente religioso que há muito tinha se arrependido de seus atos e se regenerado. Com boa aparência, extremamente inteligente e caseiro, procurava na Bíblia cada referência religiosa que ouvia nas conversas dali.
Não demorou para sua alta médica ser encaminhada, e começou a freqüentar uma escola perto do hospital, ainda sob supervisão. Ficava meio deslocado no meio de gente que considerava tão estranha. Seus colegas de classe eram hippies com longos cabelos; desvalorizavam o que ele mais admirava: a autoridade em geral.
Ed, por sua vez, era extremamente quadrado. Tinha cabelos curtos, usava bigodinho bem aparado e desejava ardentemente ser um oficial da lei. Não conseguiu, novamente por causa de sua altura. Nessa época, já alcançava os 2,05m e pesava cerca de 140kg. A polícia estadual mantinha como regra uma faixa delimitada de altura, com mínimo e máximo. Ed não estava dentro dos padrões estabelecidos. Seu sonho terminava ali.
Foi nessa época que, para se consolar, comprou uma motocicleta. Pelo menos assim, podia fingir ser um “tira”.
Bem dotado de inteligência, não foi nada difícil ir bem na escola. Em três meses foi libertado condicionalmente por 18 meses. Apesar dos conselhos dos médicos de Atascadero de que ele não devia voltar a morar novamente com a mãe, as autoridades da Califórnia o mandaram direto para lá.
Clarnell tinha acabado de se mudar para Santa Cruz, e trabalhava no campus da Universidade da Califórnia. Com a oficialização do divórcio, agora seu sobrenome era Strandberg. Desde que Ed tinha sido internado, ela estava mais feliz e tranqüila. Com seu retorno, não demorou muito para que as batalhas verbais entre mãe e filho começassem outra vez. Para a mãe, todos os problemas eram culpa dele. Discutiam tão alto que todos os vizinhos tinham conhecimento delas. Seus momentos de lazer aconteciam quando ia ao bar “Jury Room”, onde encontrava os únicos amigos... os policiais da cidade. Ed tinha verdadeiro fascínio pelas histórias de polícia e tudo o que dizia respeito a ela, e passava horas ali conversando sobre armas e munições. Realmente o respeitavam, e o apelidaram carinhosamente de “Big Ed”.
Ele não via a hora de morar sozinho. Trabalhou em vários empregos, até estabilizar-se na Divisão de Estradas, onde ganhou dinheiro suficiente para alugar um apartamento e dividir as despesas com um colega.
Mas, apesar da mudança, as coisas novamente não correram como esperava. A mãe continuou a menosprezá-lo. Ficava tão perturbado quando a encontrava, que em duas ocasiões caiu de sua moto, sendo obrigado a ficar de licença para recuperar-se das fraturas sofridas.
Ao sarar completamente, vendeu a moto e comprou um carro muito parecido com o da polícia. Enfim, realizava uma grande vontade que tinha desde a infância. Equipou-o com um rádio transmissor, microfone e antena, e logo começou a dar caronas na estrada para lindas meninas.
Sua grande diversão era observar como essas mocinhas reagiam a ele. Tinha pós-graduação em fazer as pessoas confiarem nele, e as levava em segurança ao destino escolhido. Ao chegar em casa, fantasiava como seria mantê-las cativas sem ser descoberto. Devagar, foi planejando como faria para realizar suas fantasias sexuais. Quando já tinha todos os detalhes em mente, passou à ação: tirou a antena do carro, ajeitou a porta do passageiro de modo que não abrisse por dentro, armazenou plásticos, facas, revólveres e cobertores no porta-malas e, finalmente, sentiu-se mais do que pronto.
Em 7 de maio de 1972, sua vida realmente começou a ficar mais movimentada. Perto do campus, duas garotas estavam no acostamento pedindo carona.
Mary Ann Pesce e Anita Luchese, estudantes do Colégio Estadual de Fresno, mal acreditaram na sua sorte quando um carro parou para pegá-las. Pretendiam passar os feriados em Berkeley. Entraram no veículo, felizes da vida. A felicidade durou pouco tempo. Ficaram alarmadas ao verem aquele simpático motorista enveredando o carro por um caminho completamente deserto. Ao começarem a questioná-lo, já assustadas, ele calmamente tirou uma arma debaixo do banco e mandou que ficassem quietas. Ed prendeu Anita no porta-malas. A menina chorava sem parar, mas logo o som ficou abafado.
Conduziu Mary Ann até o banco de trás, deitou-a de bruços, algemada, colocou um saco plástico sobre sua cabeça e começou a estrangulá-la com uma tira de tecido. A menina, apavorada, lutava pela vida. Ed estava adorando a luta. Quanto mais ela lutava, mais prazer ele tinha. Até que a garota furou o plástico e quase estragou seus planos. Frustrado, tirou do bolso uma faca e esfaqueou-a repetidas vezes, até que parasse de se mexer. Por fim, cortou-lhe a garganta. Era hora de dar atenção a Anita.
Tirou a menina do porta-malas e começou imediatamente a esfaqueá-la com uma faca maior ainda, matando-a rapidamente. Depois declararia que seu maior prazer estava em observar as feições das vítimas enquanto morriam.
Já tinha em mente todos os passos seguintes que executou: levou os dois corpos para casa, onde havia comprado uma mesa para dissecação, e começou a trabalhar com Mary Ann. Dissecou-a inteirinha, matando todas as suas curiosidades. Tirou fotos de todo o processo. Depois, enfiou os restos na sacola plástica com que tentou sufocar Mary Ann, e enterrou-a. Não se livrou das cabeças nem do cadáver de Anita².
Missão cumprida. Jamais a polícia suspeitou de Edmund Kemper.
Na noite de 14 de setembro de 1972, Ed avistou Aiko Koo num ponto de ônibus. Parou o carro e ofereceu carona à garota, que prontamente aceitou. Ela estava cansada de esperar e atrasada para a aula de dança. Numa curva, Aiko viu uma arma apontada para sua cabeça. Entrou imediatamente em pânico e tentou sair do carro. A porta não abria. O motorista, numa voz incisa e profunda, explicou que a garota não tinha nada a temer. A arma era para seu próprio suicídio, e se ela não fizesse nenhum sinal à polícia ou pedestres, nada aconteceria. Aiko, em silêncio, tremia incontrolavelmente.
Ele guiou em direção às montanhas. Saiu da estrada principal, parou o carro e avançou para cima da garota. Tentou sufocá-la tapando-lhe a boca e enfiando o polegar e o indicador em suas narinas. A menina desmaiou. Quando despertou, Ed começou a sufocá-la outra vez. Deliciava-se observando todas as expressões dela, e esperou que parasse de respirar completamente. Tirou-a do carro, deitou-a no chão e estuprou seu corpo ainda quente. Depois, para ter certeza de que estava morta, estrangulou-a novamente, desta vez com o próprio lenço da menina. Quando estava absolutamente seguro de sua morte, colocou o corpo no porta-malas e saiu da cena do crime. No caminho para a casa da mãe, parou num bar local e tomou umas cervejas. Toda a hora parava o carro e admirava sua conquista. Tarde da noite, levou Aiko para sua cama e divertiu-se mais um pouco. Depois, dissecou-a do mesmo modo que havia feito com Mary Ann e Anita, e saiu para jogar fora os restos mortais. Jogou as mãos e a cabeça da vítima em locais diferentes do resto do corpo.
Durante as conversas com policiais no Jury Room, adorava ouvir os detalhes das investigações de seus crimes, entre uma cerveja e outra. Quase se sentia um deles, ao ser incluído no assunto e saber segredos que não saíam nos jornais. Ouviu dos amigos que nunca relacionaram o desaparecimento de Aiko com o das primeiras vítimas. Nos próximos quatro meses, vítimas de outros assassinos (Herbert Mullin e John Lindley Frazier) tiveram seus corpos encontrados na mesma área, mas jamais Ed Kemper foi considerado um suspeito pela polícia. Em 8 de janeiro de 1973, sentiu-se mais confiante e comprou uma arma calibre .22.
A próxima vítima foi Cindy Schall. Levou-a às colinas de Watsonville, onde matou-a com a nova arma. A bala alojou-se no crânio. Ed, que havia acabado de se mudar para os fundos da casa da mãe, levou o corpo até o quarto e esperou até que ela saísse para trabalhar. Teve então todo o tempo do mundo. Fez sexo com a garota sem correr o risco de ser descoberto.
Sem a mesa de dissecação, que não trouxe na mudança, ajeitou o corpo de Cindy na banheira para divertir-se. Teve muito cuidado para deixar tudo limpo, sem nenhuma pista. Removeu a bala do crânio da garota no quintal da mãe. Acondicionou os pedaços esquartejados em vários sacos plásticos e jogou-os de um penhasco perto de Carmel. Desta vez, os restos mortais seriam descobertos em menos de 24 horas, mas esse fato não causou nenhuma preocupação a Ed. Ele havia sido extremamente cuidadoso.
Na noite de 5 de fevereiro de 1973, teve uma briga monumental com sua mãe. Ficou totalmente perturbado. Trancou o apartamento nos fundos e saiu na rua a esmo, pronto para caçar outra vítima.
A primeira presa que entrou em seu carro foi Rosalind Thorpe. Conversavam animadamente, quando Ed parou para dar carona a outra moça, Alice Liu. Nenhuma delas teve qualquer receio de entrar no carro. A segurança estava garantida com o adesivo-passe da Universidade de Santa Cruz, roubado da mãe. Rodaram por algum tempo, e desta vez o assassino nem parou o carro para matá-las. Chamou a atenção de Rosalind para a bela vista na janela do passageiro, enquanto sacou a arma e atirou na cabeça dela. Imediatamente apontou em direção à perplexa Alice, atirando várias vezes. Diferente de Rosalind, Alice não morreu imediatamente. Teve que atirar nela novamente quando saíram da cidade, terminando o serviço. Estacionou num beco sem saída e transferiu os dois corpos para o porta-malas. Ao chegar em casa, tirou-os, decepou-lhes as cabeças e guardou tudo no porta-malas novamente. Na manhã seguinte, já na segurança de seu quarto, fez sexo com o corpo sem rosto de Alice. Também trouxe para dentro a cabeça de Rosalind, extraindo a bala alojada no crânio, eliminando qualquer pista. Jogou as partes esquartejadas longe de Santa Cruz, e afastou-se bastante, livrando-se das mãos e das cabeças, que poderiam identificá-las rapidamente.
Nessa época, Ed ainda passava suas noites no Jury Room, onde constatava quão longe os policiais estavam da verdade. Todas as conversas giravam em torno do então chamado “Co-Ed Killer”³. Ninguém imaginava que ele entrava no campus para escolher suas vítimas. A polícia não tinha nenhuma pista. O assassino era esperto, variava de método para matar: atirava, esfaqueava ou sufocava.
A violência de Ed continuava crescendo. Sempre as levava para casa e seus atos com os corpos progrediam, como fazer sexo com eles. Em uma das ocasiões que matou, foi à consulta do psiquiatra levando cabeças de vítimas em seu carro. Testou assim a habilidade em fazê-lo acreditar que tudo estava bem e sob controle. A mãe também não desconfiava de nada.
Num certo dia, resolveu que era hora de cometer seus últimos crimes. Pegou um machado, subiu vagarosamente as escadas em direção ao quarto da mãe, abriu com cuidado a porta e admirou Clarnell, que dormia pacificamente. Aproximou-se e ajoelhou ao lado da cama. Observou-a por um tempo, lembrando mais um pouco o quanto a tinha amado e o quanto fora rejeitado por ela. Ed ficou em pé. Pegou o machado com as duas mãos e decapitou sua mãe de um só golpe. Ela jamais soube o que a atacou.
Então, num ritual enlouquecido, deu vazão aos seus desejos. Estuprou o corpo sem cabeça até saciar-se por completo. Mas, como sempre, os gritos dentro de sua cabeça voltaram. Ed ouvia ainda os gritos dela por todo o lado. Desceu até a cozinha e pegou uma faca afiada. Subiu as escadas de dois em dois degraus, rápido, com pressa, antes que os gritos o enlouquecessem. Pegou desajeitadamente a cabeça da mãe no colo, e arrancou rapidamente todas as suas cordas vocais. Finalmente os gritos pararam de atormentá-lo. Levantou-se e ajeitou o que sobrou da cabeça dela em cima da prateleira. Foi até o quarto, pegou seus dardos, e ficou por muito tempo acertando aquele alvo perfeito. Essa prática começou a fazer com que raciocinasse com clareza.
A polícia encontraria logo o corpo de sua mãe, e as suspeitas não demorariam a recair sobre ele. Precisava disfarçar o acontecido sem perda de tempo, e a melhor maneira era fazer a polícia pensar que aquele era o trabalho de um doido qualquer.
De repente, uma idéia começou a formar-se em sua mente. Desceu correndo as escadas, pegou o telefone e convidou Sarah Hallet, a melhor amiga de sua mãe, para um jantar íntimo naquele dia, uma surpresa para Clarnell. Sem perda de tempo, arrumou a mesa para as duas.
Ao entrar, Sarah não teve tempo nem de pensar. Levou uma pancada na cabeça, foi agarrada por aquele enorme homem e estrangulada manualmente até a morte. Ainda inseguro de sua morte, Ed utilizou o lenço de Aiko para estrangulá-la mais um pouco. Finalmente, deu-se por satisfeito.
Removeu então as roupas de Sarah e colocou-a em sua cama; fez sexo a noite inteira com o corpo sem vida. Na manhã seguinte, ao acordar do transe em que tinha estado, ficou extremamente perturbado com a cena que encontrou.
Era domingo de Páscoa. Entrou no carro de Sarah, deu a partida e começou a viajar sem rumo. Depois de um tempo, abandonou-o num posto, alegando que precisava de reparos. Trocou de carro várias vezes, alugando várias marcas e modelos, com medo de ser pego. Mesmo sem saber para onde estava indo, ele começou a alimentar expectativa de ficar famoso através de seus crimes. Finalmente o mundo saberia o quanto era inteligente...
Ed percorreu todo o caminho até Pueblo, Colorado. Parava para comprar jornais e assistir ao noticiário, esperando ouvir as notícias sobre sua façanha. Mas algo deu errado. Não estava se tornando famoso como esperava. Nem sequer era suspeito de ter matado Clarnell e Sarah.
Sem perder mais tempo, alugou um quarto num motel e ligou para a polícia de Santa Cruz, dizendo-se responsável por oito crimes. Ninguém na polícia acreditou: “Pare de brincar, Big Ed, esta não é hora de passar trotes! Você não assiste à televisão? Não sabe o quanto estamos ocupados tentando pegar o assassino de sua mãe? Onde você se meteu, afinal?”.
Para a polícia, Ed era só um moço que queria ser “tira”, e vivia na delegacia perguntando detalhes sobre crimes. Ed foi obrigado a fazer diversas ligações para que finalmente acreditassem nele. Deu detalhes sobre os crimes que só o assassino conheceria, e informou sua localização. A polícia atravessou três estados para prendê-lo. Ele esperou-os sentado.
Sobre os Crimes
Em seus depoimentos, Kemper admitiu guardar cabelo, dentes e pele de algumas vítimas como troféus. Também admitiu praticar canibalismo, dizendo preferir a carne da coxa das vítimas para fazer carne à caçarola com macarrão. Alegava comê-las para que fizessem parte dele.
Enterrou várias cabeças no jardim, viradas de frente para o quarto de sua mãe, já que ela adorava “ser vista” por todos.
O Julgamento
Ed Kemper levou os policiais de Santa Cruz a todos os lugares que utilizava para se livrar dos corpos. James Jackson foi designado pela corte como seu advogado de defesa, e a ele só restou alegar que seu cliente não estava de posse das plenas faculdades mentais no momento dos crimes.
Várias testemunhas foram trazidas para depor e tentar estabelecer a insanidade de Kemper, mas o promotor destruiu o depoimento de cada uma. O Dr. Joel Fort, testemunha da acusação, foi quem fez o maior estrago na estratégia da defesa: afirmou que Ed Kemper não era paranóico esquizofrênico. Para tanto, utilizou-se de todos os registros referentes ao assassino desde o Hospital Psiquiátrico Atascadero, além de entrevistas com o réu. Afirmou que o réu era obcecado por sexo e violência, tão carente de atenção que tinha tentado o suicídio até durante o julgamento, mas de forma nenhuma insano. Fort também afirmou que, se fosse solto, mataria novamente o mesmo tipo de vítima.
Durante as três semanas de julgamento, nenhuma testemunha, incluindo suas irmãs e médicos de Atascadero, conseguiu convencer o júri
que Ed era insano. Quando perguntado a que pena deveria ser submetido para pagar seus crimes, respondeu:
— “Pena de morte por tortura”.
O júri deliberou por cinco horas. Consideraram Edmund Kemper culpado de assassinato em 1º grau nos oito crimes. Foi condenado à prisão perpétua sem possibilidade de condicional. Só escapou da pena de morte por, na época, ela ter sido abolida do Estado da Califórnia.
¹ Hoje, Kemper está preso na California Medical Facility, em Vacaville. Trabalha na Biblioteca Legal da prisão.
² O corpo sem cabeça de Mary Ann Pesce foi encontrado e identificado em agosto daquele ano. Jamais a cabeça e o corpo de Anita Luchese foram encontrados.
³ Coed é o termo usado nos EUA para a escola educacional mista. Como só matou colegiais... nenhuma alcunha era mais adequada do que esta.
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1987 — Scaborough — Toronto — Canadá
Um estuprador estava agindo neste bairro residencial de Toronto. Seu modus operandi era sempre o mesmo: quando sua vítima descia de um ônibus, ele a agarrava por trás e empurrava-a para o chão. Forçava a moça a fazer sexo anal e felação. Falava com a vítima o tempo todo e depois a deixava ir.
1988
Os estupros continuavam. A polícia investigava e já tinha coletado evidências de vários casos, além de um bom retrato falado do suspeito que já havia atacado e estuprado 13 vítimas, mas nada foi publicado na imprensa.
Uma das vítimas alegou ter visto uma mulher junto com o estuprador, com o que parecia ser uma câmara de vídeo nas mãos. Ninguém acreditou.
Foi pedida ao NCAVC¹ uma análise do estuprador, e esta foi entregue à polícia de Scaborough em 7 de novembro de 1988. Nela constava:
1. Vitimologia
Foi examinada a suscetibilidade das vítimas para um ataque sexual, baseando-se em seu estilo de vida, história passada e desenvolvimento social e físico. Nada elevava seu risco; eram pessoas de baixo risco.
Observaram-se as seguintes similaridades: todas as vítimas eram mulheres, idade entre 15 e 21 anos, viviam na mesma área de Scaborough, praticamente vizinhas. Todas tinham estatura baixa, entre l,55m e l,62m pesando entre 41kg e 61kg.
2. Análise Criminal
O processo pelo qual o criminoso escolhe ou seleciona sua vítima é de óbvia importância. Parece usar paradas de ônibus para “caçar”. Algumas das vítimas foram de oportunidade, enquanto outras parecem ter sido escolhidas previamente. Ele poderia já conhecer ou ter visto sua vítima passando pelo bairro, mas não tinha urgência, naquele momento, em atacar. Outras vezes, o impulso de atacar era grande, mas o momento inoportuno.
Os ataques de sucesso aconteceram quando o assassino tinha urgência, oportunidade e vítima num mesmo momento. Ele seguiu as vítimas por pouco tempo antes de atacá-las.
Seis vítimas em Scaborough foram atacadas pelas costas, e uma pela frente. Ele conseguiu controlá-las utilizando força bruta, mantendo-as assim através de ameaças físicas e verbais, acompanhadas de uma faca.
Todas as suas vítimas foram atacadas ao ar livre, enquanto andavam sozinhas perto de suas residências, à noite.
Esse tipo de criminoso escolhe atacar, habitualmente, em áreas onde está familiarizado, por morar ou trabalhar ali. Desse modo, tem maior senso de segurança no caso de ser visto: tem prontas várias rotas de fuga.
Acreditamos que nosso criminoso vive na área de Scaborough, especialmente a uma distância a pé de onde foram atacadas as primeira, segunda e quinta vítimas. Por morar ali, é importante que as vítimas não o vejam, o que o faz aproximar-se por trás. Logo depois, força suas caras para o chão e manda que fiquem de olhos fechados, para assegurar-se de sua não-identificação.
Com a vítima de Mississauga, agiu de modo diferente. Aproximou-se de frente, à guisa de pedir informações. A vítima viu seu rosto por alguns segundos antes de ser atacada, o que leva a crer que o criminoso não mora ali, pois se sentia seguro o suficiente para ser visto.
Outro motivo para aproximar-se por trás são alguns desvios: em seus scripts, a vítima deve falar que o ama, que está bom, que ela odeia o namorado. São declarações que têm como objetivo elevar o ego do criminoso.
Outra clara pista de sua inadequação fica evidente quando observamos sua seleção de vítimas: mulheres que aparentemente não o ameacem, desprotegidas.
Raiva é o sentimento que primeiro demonstra. Desejo de punir e degradar as vítimas mostra sua raiva de todas as mulheres. Sua aproximação em estilo blitz e seu comportamento verbal, bem como a seqüência de atos sexuais que ele obriga sua vítima em conjunção com a punição física usada contra elas, demonstram isso.
O comportamento verbal profano, combinado com um roteiro falado para a vítima obrigando-a a se descrever como “puta”, evidencia sua raiva e necessidade de puni-la e degradá-la.
Força suas vítimas à felação, depois de atacá-las repetidamente pela vagina e ânus, para humilhá-las. Esse tipo de comportamento foi observado em todos os seus ataques.
O atacante usa mais força que o necessário para controlar suas vítimas, o que demonstra seu ódio. Também enfia peças de roupa em suas bocas e, no caso da sexta vítima, quebrou sua clavícula e derramou terra sobre ela, espalhando-a por seu cabelo e corpo, exprimindo a opinião do atacante sobre as mulheres.
Não acreditamos que o criminoso ataca suas vítimas com uma premeditada idéia de assassiná-las; no entanto, baseados em nossas experiências, ao ser confrontado com uma vítima que vigorosamente resista ao seu ataque, ele a mataria não intencionalmente no afã de controlá-la.
A violência sexual do atacante para com suas vítimas vem vindo numa escalada. Nos primeiros três ataques, não houve penetração peniana. A escalada também ocorre física e verbalmente.
O criminoso tem tendências sádicas, e fez sua sétima vítima implorar por sua vida, apenas para satisfazer seu prazer.
Sente-se completamente seguro e no controle da situação.
3. Características do Criminoso
Homem, entre 18 e 25 anos, apesar de que nenhum suspeito deva ser descartado pela idade, pois é questão de maturidade mental e emocional.
Acreditamos que vive na região de Scaborough. Esta área lhe é familiar, especialmente o local dos primeiros ataques, onde provavelmente vive.
A raiva do atacante pelas mulheres deve ser conhecida pelos seus amigos íntimos. Provavelmente fala com desprezo sobre mulheres em geral em suas conversas. Deve ter tido um problema com alguma mulher imediatamente antes de seus ataques começarem.
É sexualmente experiente, mas seus relacionamentos anteriores com mulheres devem ter sido tortuosos e acabado mal. Provavelmente espancou mulheres que se relacionaram com ele no passado. Coloca a culpa de todos os seus fracassos nas mulheres.
Se tiver passagens anteriores pela polícia, deve ter sido por perturbar a paz, resistir à prisão, roubo ou distúrbio doméstico.
Seu comportamento agressivo deve ter surgido na adolescência. Deve ter terminado o colegial com registros de indisciplina. Deve ter tido aconselhamento em relações sociais e/ou abuso de substâncias.
É inteligente, boêmio e passa bastante tempo andando a pé na área do ataque. Deve ser solteiro. Tem temperamento explosivo e “pavio curto”. Culpa todo mundo pelos seus problemas.
Não deve permanecer por muito tempo num mesmo emprego, pois não aceita bem a autoridade. Deve ser sustentado pela mãe ou mulher dominante em sua vida.
É do tipo solitário. Relaciona-se com as pessoas superficialmente, mas prefere ficar sozinho.
Deve guardar as coisas que assalta de suas vítimas. São vistas como troféus por ele e o ajudam a relembrar o ataque. Guarda as coisas em local seguro, mas de acesso rápido.
Todos os seus ataques são precipitados por situações de stress que ele passa. Deve continuar agindo assim, esporadicamente.
O stress pode acontecer apenas em sua mente, e não na realidade.
O criminoso reconhece suas falhas e inadequâncias, tentando sempre mascará-las.
4. Comportamento após o crime
Não sente culpa ou remorso por seus crimes. Acredita que sua raiva é justificada e, portanto, seus ataques também. Sua única apreensão é sobre ser identificado e preso.
O detetive Steve Irwin, da polícia metropolitana de Toronto, também tinha certeza de que se tratava de um só criminoso. Ele tinha notado uma escalada nas fantasias daquele maníaco. Primeiro, as mulheres não tinham sido estupradas, o criminoso as havia acariciado sexualmente e a penetração tinha ocorrido com os dedos. Todas as descrições falavam de um bonito jovem, que tinha bons dentes, não cheirava mal e era bem vestido. Ultimamente, a agressividade tinha aumentado e os estupros eram reais.
Antes do Natal, uma das vítimas conseguiu dar uma descrição detalhada do estuprador: tinha boa aparência, aproximadamente 1,83m de altura, bem barbeado e sem tatuagens. Seu retrato falado acabou não sendo divulgado.
Jennifer Galliganm, estudante, foi algumas vezes à polícia dar queixa de seu antigo namorado, Paul Bernardo. As queixas eram de estupro brutal, abusos físicos e ameaças à sua integridade física. Havia coincidências ligando Bernardo aos estupros que estavam acontecendo: os dois guiavam um carro modelo Capri de cor branca, e Bernardo vivia nas proximidades dos locais de ataque. Nada foi investigado com profundidade.
1990
Em maio, finalmente a polícia resolveu publicar o retrato falado do “estuprador de Scaborough”, com uma recompensa de US$ 150.000,00 por pistas que levassem à sua prisão.
Assim que alguns empregados da Price Waterhouse viram o retrato falado nos jornais, contataram a polícia. Achavam que se tratava de um exfuncionário, o contador júnior Paul Bernardo.
Um gerente de banco também identificou seu cliente, Paul Bernardo, como a pessoa procurada.
Naquele momento, a polícia estava abarrotada de ligações e pistas, mas não conseguia seguir todas elas.
O detetive Steve Irwin decidiu então levar todas as evidências que tinha para um laboratório forense. Pelas amostras de sêmen, foi estabelecido que o estuprador era não-secretor, e seu tipo sangüíneo o colocava entre 12,8% da população.
Tantos conhecidos de Paul Bernardo ligaram para a polícia, que o detetive Irwin decidiu fazer-lhe uma visita. O suspeito não se parecia em nada com um estuprador serial, mas mesmo assim foram retiradas amostras de sangue, saliva e cabelo. As amostras, juntamente com outras de 230 suspeitos, foram levadas ao laboratório para análise da Dra. Kim Johnston. Somente cinco amostras das 230 tinham o tipo sangüíneo do criminoso, e Paul Bernardo era um deles.
O problema foi que, até que todos os testes tivessem sido concluídos, o Estuprador de Scaborough tinha encerrado suas atividades abruptamente. O caso não era mais uma prioridade. Os testes de Paul Bernardo foram devidamente engavetados.
1991
Em 14 de junho desse ano, Leslie Mahaffy, 14 anos, saiu à noite com amigos e não voltou para casa na hora combinada. Às 2:00 da madrugada, estava trancada fora de casa. Os pais já estavam cansados da rebeldia adolescente da filha, que descumpria trato após trato.
Leslie telefonou para uma amiga, pedindo para dormir em sua casa, mas esta recusou, alegando que a mãe ficaria brava com visitas àquela hora. Leslie disse à amiga que voltaria para casa e acordaria seus pais. Nunca mais foi vista com vida.
Quando os pais acordaram no dia seguinte e não encontraram Leslie em lugar nenhum, acharam que tinha fugido de casa, inclusive seus amigos. Naquele ano, já tinha feito isso duas vezes, tendo ficado com seu amigo Jason Booth num motel de Burlington. A diferença agora é que sempre Leslie mantinha contato, e desta vez não se comunicou com ninguém, nem no seu aniversário de 15 anos. Algo parecia estar errado.
Na noite de 29 de junho, um casal de pescadores encontrou o corpo de Leslie no Lago Gibson, quando uma represa foi aberta e abaixou o nível da água naquele local em 3 ou 4 metros. Perto do limite da água, eles repararam num bloco quebrado de concreto, e dentro de um pequeno reservatório criado pelo próprio bloco sobre uma laje, encontraram pernas. A polícia foi chamada.
Eram cinco os blocos de concreto envolvendo as partes de um corpo na área rasa do lago. Quem quer que tenha feito o serviço, não estava familiarizado com a área. Do contrário, teria jogado os blocos de concreto com o corpo por sobre a ponte, onde as águas eram mais profundas e teriam encoberto os restos mortais para sempre.
Primeiramente, foram encontrados apenas suas pernas e pés. Depois, localizaram seu torso e braços, todos cortados com uma potente serra, noutro ponto do lago. Foram os característicos suspensórios usados por Leslie que possibilitaram sua identificação antes que sua cabeça fosse localizada e a arcada dentária identificada positivamente.
Num domingo, em julho, uma moça de 21 anos chamada Rachel Ferron estava a caminho de casa, guiando pelas desertas ruas de St. Catharine, às 2:00 da madrugada. Passou um Nissan esporte dourado, indo em direção contrária. Com espanto, pelo espelho retrovisor, observou o carro fazer meia volta e começar a segui-la. Ao virar na rua de sua casa, o carro seguiu em frente. Rachel ficou aliviada; poderia ter sido apenas impressão sua. Uma semana depois, o Nissan reapareceu. Desta vez, Rachel estava indo para a casa do namorado, que não estava. Seguiu para a locadora de vídeos onde ele trabalhava. Ao chegar, tomou nota da descrição do carro e da chapa: 660 HFH.
Na mesma noite, quando Rachel voltou à casa do namorado, o Nissan dourado ainda a estava seguindo. Ela permaneceu no carro, com as portas travadas e as janelas fechadas, até que seu namorado chegasse em casa. Assim que chegou, imediatamente percebeu um estranho espreitando o carro de Rachel atrás de uns arbustos e resolveu ir até ele para questioná-lo, mas o homem fugiu. Desta vez, Raquel não ficou calada. O casal parou uma radiopatrulha e informou ao policial sobre o acontecido, entregando a placa do veículo que a tinha seguido. O policial levantou os dados no computador rapidamente. O carro estava registrado no nome de Paul Kenneth Bernardo, um Nissan 240 SX. A polícia não deu muita atenção ao caso. Estavam ocupadíssimos com a investigação do assassinato de Leslie Mahaffy.
Em 30 de novembro, a garota Terri Anderson, 14 anos, desapareceu. Ela saiu de casa para andar três quarteirões até sua escola, vizinha da Igreja Luterana, e nunca mais foi vista.
1992
Em 29 de março, por volta da meia-noite, as irmãs Lori Lazurak e Tania Berges estavam sentadas numa cafeteria quando viram um carro esporte dourado passando por elas repetidas vezes. Quando perceberam que estavam sendo filmadas, não entenderam nada.
Um mês depois, em 18 de abril, Lazurak estava dirigindo pela Rua Martindale, em St. Catharine, quando viu o carro suspeito novamente. Resolveu segui-lo, e antes de perdê-lo de vista, anotou a placa. Reportou os estranhos fatos à polícia, mas o caso não foi levado adiante. Estavam novamente envolvidos numa investigação muito mais séria: o desaparecimento de uma estudante chamada Kristen French, em 16 de abril, uma garota muito popular que tinha sido raptada do estacionamento de uma Igreja Luterana, ao lado da escola em que Terri Anderson estudava. Somente os sapatos da menina foram encontrados, abandonados no parking.
Em 30 de abril, o corpo de Kristen foi encontrado numa vala. Estava nu, mas não desmembrado como o de Leslie, o que levou os investigadores a acreditar que os dois assassinatos de adolescentes não estavam interligados. O cabelo de Kristen tinha sido totalmente tosado.
Em 23 de maio, o corpo de Terri Anderson foi encontrado dentro d’água em Port Dalhousie, seis meses após seu desaparecimento. O legista não verificou nada de estranho na autópsia daquele corpo que estivera mergulhado por tanto tempo. A causa da morte foi declarada oficialmente como afogamento, provavelmente resultado da combinação de cerveja e LSD. Queriam que a mãe de Terri acreditasse que sua linda menina, estudante brilhante e líder de torcida da escola, muito bem ajustada socialmente, tinha se embebedado, drogado e entrado nas congeladas águas do Lago Ontário, no mês de novembro do ano anterior. Teoria completamente improvável.
Os crimes tinham acontecido na região de St. Catharine, e as investigações eram da alçada da polícia de Niagara Falls. Depois da morte de Kristen French, o governo de Ontário montou uma força-tarefa, com direito a linha direta e base de operações. Especialistas forenses e o FBI se uniram para descobrir o assassino.
Nas entrevistas sobre o desaparecimento de Kristen, uma mulher lembrou-se de ter visto uma luta dentro de um carro, no estacionamento da Igreja Luterana. Não muito familiarizada com marcas de veículos, a senhora achou que fosse um Camaro ou Firebird, cor creme. O detetive Vince Bevan, responsável pelas investigações, concentrou-se em levantar dados sobre todos os Camaros da região.
Neste meio tempo, o nome de Paul Bernardo apareceu novamente nas investigações, e dois policiais foram até a sua casa entrevistá-lo. Ele agiu com elevada simpatia. Disse que tinha sido suspeito no caso do “estuprador de Scaborough” devido à sua semelhança física com o retrato falado. A polícia notou que aquele homem tinha muito boa aparência, era inteligente e cooperativo, além do fato de sua casa ser limpa e organizada. Também notaram que seu carro era um Nissan, “que não se parecia nada” com um Camaro(!).
Mesmo assim, os dois policiais resolveram fazer um trabalho completo e contataram Steve Irwin, em Toronto, para saber dos resultados das investigações do caso do “estuprador de Scaborough”. Oito dias depois, o detetive Irwin respondeu a mensagem: os testes finais das amostras de sangue e saliva de Paul Bernardo não haviam sido feitos; tecnicamente ele ainda era um suspeito. Irwin mandou para a força-tarefa algumas informações sobre o caso, mas negligenciou as entrevistas com amigos de Paul e o caso Jennifer Galligan. Não foi desta vez ainda que Bernardo seria suspeito dos homicídios que estavam acontecendo em Ontário.
Se tivessem se aprofundado nas investigações, descobririam fatos no mínimo interessantes. Dos dezesseis ataques do “estuprador de Scaborough”, oito tinham sido brutais. Todos ocorreram entre maio de 1987 e maio de 1990, nas proximidades do Metro Toronto, onde Bernardo morou com a esposa até abril de 1991. Nesse mês, mudaram-se para Port Dalhousie, em St. Catharine.
1993
Em janeiro, Karla Homolka, esposa de Paul Bernardo, procurou abrigo na casa de uma amiga depois que seu marido a espancou. Como o marido desta amiga era policial em Toronto, informou a polícia de Niagara, que levou Karla para o hospital imediatamente.
Em fevereiro, as investigações se intensificaram. As polícias de Toronto e Ontário quiseram entrevistar Karla, tiraram suas impressões digitais e a questionaram sobre seu relógio de pulso com o personagem Mickey Mouse, muito similar ao relógio desaparecido de Kristen French.
Foi também nesse mês, depois de tomar conhecimento do espancamento de Karla, que o detetive Irwin pediu que o laboratório forense examinasse as amostras de sangue, saliva e sêmen de Paul Bernardo. Os testes foram conclusivos: combinavam exatamente com aquelas amostras recolhidas das três vítimas do “estuprador de Scarborough”. Paul Bernardo foi imediatamente colocado sob vigilância.
Depois de ser interrogada por quase cinco horas, Karla percebeu que a polícia já tinha somado dois com dois e ligado o caso do “estuprador de Scaborough” com os assassinatos em St. Catharine. Ela estava compreensivelmente nervosa, e contou a um tio, disposto a ajudar, tudo sobre Paul... que era um estuprador e que tinha assassinado Kristen French e Leslie Mahaffy.
Um ótimo advogado foi contratado, George Walker. Ele logo certificouse de que Karla não era realmente o anjo que tentava parecer. Talvez conseguisse barganhar algum tipo de imunidade para ela em troca de total cooperação com a polícia.
No meio do mês de fevereiro, Paul Bernardo foi preso pelos estupros em Scaborough e pelos assassinatos de Mahaffy e French. Karla ficou apavorada. Acalmava sua angústia com toneladas de analgésicos e álcool.
Em 19 de fevereiro, a polícia executou o mandado de busca na casa de Paul e Karla. Várias evidências foram encontradas. Paul tinha escrito detalhadamente sobre cada estupro, além de possuir uma coleção de livros e vídeos sobre desvios sexuais, pornografia e serial killers.
A polícia também encontrou um vídeo caseiro, onde Karla aparecia em relações lésbicas entusiasmadas com outras duas mulheres.
Uma semana depois, o advogado George Walker tentou um acordo para sua cliente: ela pegaria 12 anos de prisão por cada uma das duas vítimas, com as sentenças cumpridas simultaneamente. Estaria elegível para livramento condicional em três anos, por bom comportamento. Ninguém questionou, pois seu testemunho contra Paul Bernardo era importantíssimo. Os advogados ainda conseguiram que Karla não cumprisse sua pena numa prisão comum, e sim num hospital psiquiátrico. Em troca, Karla contaria toda a verdade sobre seu envolvimento nos crimes e tudo que sabia sobre eles.
Em março, Karla foi internada num hospital, onde tomava altas doses de drogas. Mesmo assim, escreveu uma importante carta para seus pais:
Querida mamãe, papai e Lori, Esta é a carta mais difícil que tive que escrever, e vocês provavelmente vão todos me odiar depois de ler...
Karla confessava o primeiro de seus muitos crimes...
Paul Bernardo
Nasceu de uma família incomum, em 27 de agosto de 1964. Sua mãe, Marilyn Eastman, era filha adotiva de um renomado advogado, e seu pai, Kenneth Bernardo, filho de imigrantes italianos. Apesar de empresário de sucesso, o pai de Paul abusava da família inteira de várias formas. Moravam em uma área classe média, Scaborough, Toronto. O casamento não ia bem, Kenneth era muito violento com a mulher e, depois de ter um casal de filhos, ela se tornou amante de um antigo namorado. Paul Bernardo era filho ilegítimo dessa relação, mas foi registrado por Kenneth como seu próprio filho, pois tinha a mente bastante aberta para aceitar a infidelidade da esposa. Sua mente era tão aberta que logo começou a abusar de sua filha adolescente.
Marilyn, cada vez mais angustiada, engordava sem parar. Sua figura tornou-se grotesca e apresentava sinais de severa depressão. Parou de cuidar da casa e dos filhos, e passou a viver em total isolamento no porão de sua casa.
Paul era a criança perfeita. Bonito, bem educado, sorria sempre. Ia bem na escola, era escoteiro... o garoto que toda mãe queria para namorar sua filha.
Quanto mais crescia, mais se envolvia com o escotismo. Trabalhava nos verões e era muito popular com as crianças, que o adoravam. As adolescentes também o amavam!
Aos 16 anos, brigou seriamente com a mãe, que resolveu contar-lhe que era filho bastardo, mostrando a ele a foto de seu verdadeiro pai. O efeito em Paul foi devastador. Passou a odiar a mãe e tratá-la de modo cada vez pior. Odiava também o pai, por suas perversões sexuais.
Juntou-se a um grupo da vizinhança que teve má influência em seu comportamento. Eram machões e ladrões. Sua atitude com as mulheres também deteriorou.
Paul vivia em bares todas as noites, clamando que todas as adolescentes caíam em suas mentiras. Foi para a Universidade de Toronto, na mesma época em que suas fantasias sexuais começaram a desenvolver um lado bastante obscuro. Sua preferência era por sexo anal forçado em mulheres submissas. Agora tinha um temperamento terrível, e adorava humilhar mulheres publicamente. Também começou a bater nas meninas com quem marcava encontros.
Como não encontrava emprego em que ganhasse o suficiente para manter seus caros prazeres, começou a contrabandear cigarros.
Quando se formou, foi contratado pela Price Waterhouse como contador júnior, e vivia uma época sem namoradas, pois elas estavam cansadas de ser amarradas e espancadas.
Em outubro de 1987, encontrou a garota de seus sonhos, a linda Karla Homolka.
Karla Homolka
Nasceu em 4 de maio de 1970 em Port Credit, subúrbio de Toronto. Era assistente de veterinária, boa aluna, boa filha, boa irmã de Lori, nascida em 1971, e de Tammy, nascida em 1975.
Loira de olhos azuis, foi uma adolescente normal. Fazia parte de um clube informal da escola, o Diamante Clube, onde as garotas se “comprometiam” a casar-se com homens jovens e ricos. Vestia-se com roupas que ela mesma inventava, sendo conhecida por ter um estilo próprio. Também brincava bastante com seus cabelos, tingindo-os sempre das mais diferentes cores. Depois de conhecer Paul, sua família e amigos notaram mudanças em seu comportamento. De repente, Paul era o centro da vida da garota: o que ele gostava de fazer, o que dizia, o que pensaria sobre as coisas... depois de algum tempo, Paul passou a controlar a vida de Karla: sua maneira de vestir, as músicas que ouvia, absolutamente tudo.
Karla desistiu de fazer faculdade, pois pretendia se casar com Paul e ter filhos.
Em 1990, depois de ficarem noivos, os pais de Karla propuseram que Bernardo se mudasse para a casa deles, realizando o maior sonho de sua filha: ver o noivo mais que duas vezes por semana, uma vez que ele morava longe. Paul, sem perda de tempo, foi viver na casa da família Homolka.
Paul (23) e Karla (17) eram totalmente obcecados sexualmente um pelo outro. Diferente das outras meninas, ela encorajava seu comportamento sexual sádico.
Quando Paul perguntou a Karla o que acharia se ele fosse um estuprador, ela achou o máximo!
Karla era totalmente obcecada em fazer Paul feliz. Seu grande temor era não conseguir satisfazer seu futuro marido. Quando Paul ficava entediado ou distraído, ela sempre fazia algo para excitá-lo, ou encontrava outra pessoa para fazê-lo. Chegou a acompanhá-lo em alguns estupros.
Para o mundo, parecia um conto de fadas. A linda Karla estava noiva de um belo e sofisticado contador. Ia ser um casamento incrível. Ninguém jamais esqueceria.
Antes do casamento, Paul disse a Karla que tinha dúvidas sobre sua virgindade quando seu relacionamento começou. Como presente de casamento, ela deveria promover seu encontro com a irmã mais nova, Tammy, sem que ela soubesse ou consentisse, para que ele lhe “tirasse a virgindade”.
Para a grande maioria das pessoas, isso seria chamado de estupro, mas não para a apaixonada Karla.
Seu trabalho a fazia ter conhecimentos básicos sobre sedativos usados em animais, além de ter total acesso a eles na clínica veterinária na qual era empregada. O difícil era estabelecer a dose exata que iria ser utilizada para que a irmã não reagisse ao estupro.
Decidiram usar halotano², anestésico inalado por animais antes de cirurgias.
No livro Invisible Darkness, de Stephen Williams, o pensamento de Karla é descrito da seguinte maneira: “ela não queria matar sua irmã, apenas tirar-lhe a consciência para dá-la de presente de Natal a Paul”.
Karla teria que colocar o anestésico numa roupa, e segurá-la sobre a face da irmã, mas acompanharia seus sinais respiratórios. Era realmente um estupro assistido.
Em 23 de dezembro de 1990, Paul filmou com sua câmera o agradável jantar de Natal da família Homolka. Deu a Tammy vários aperitivos com o sedativo diluído neles. Os efeitos da droga e do álcool foram mais rápidos do que o imaginado, e a menina logo estava adormecida no sofá. Quando os outros familiares foram deitar-se, Karla e Paul começaram a “trabalhar” Tammy.
A ação foi filmada durante todo o tempo em que foi estuprada, e molestada analmente. Enquanto Karla segurava o anestésico sobre a face da irmã, Paul ordenou que ela também fizesse carinhos sexuais nela, já adormecida.
De repente, Tammy vomitou. Teria sido melhor se a menina não tivesse jantado naquele dia.
Karla achou que sabia o que fazer, e levantou a irmã de cabeça para baixo, tentando limpar assim sua garganta. Tammy entrou em choque.
Como suas tentativas de ressuscitação falharam, eles a vestiram, esconderam as drogas e a filmadora e chamaram uma ambulância. Os pais só souberam que havia algo errado quando a sirene chegou à sua porta. Todos foram levados a acreditar que Tammy morreu de um choque acidental, causado por seu próprio vômito.
Paul acabou acusando Karla pela morte da irmã. Agora a menina não estava mais disponível para ele, e necessitava que a namorada fizesse uma reposição, alguém bem jovem e virgem.
Karla sabia exatamente quem procurar: a adolescente Jane, que se parecia muito com Tammy. Ela seria seu presente de casamento para Paul.
Jane idolatrava Karla como modelo de beleza e sofisticação. Aceitou feliz o convite para ir até a nova casa alugada pelo casal. Durante o jantar, Karla embebedou a garota com álcool e tabletes de halcion³. Quando ela já estava desacordada, chamou Paul e surpreendeu-o com o presente.
O casal despiu Jane, e Paul filmou Karla fazendo sexo com ela adormecida. Então, tirou-lhe a virgindade, tudo gravado na fita. Jane estava tão drogada que nem percebeu quando Paul a submeteu a sexo anal violento.
Depois da “farra”, Karla limpou o sangue da garota de 15 anos e a colocou na cama. Na manhã seguinte, Jane estava passando extremamente mal do estômago e incompreensivelmente dolorida. Quando levantou e encontrou Paul, achou que era a primeira vez que o via. Não tinha a menor idéia do ocorrido.
Logo depois, Paul Bernardo e Karla Homolka casaram-se numa cerimônia perfeita, em 29 de junho de 1991, mesmo dia em que a polícia encontrou o corpo de Leslie Mahaffy.
Tiveram direito a carruagem, igreja histórica e cavalos brancos, champanhe e jantar para 150 convidados sentados. Nenhuma despesa foi poupada. Paul controlou cada detalhe da cerimônia e recepção: o vestido de Karla, seu penteado, o menu do jantar e a inclusão de “amor, honra e obediência” nos votos de Karla.
As Confissões de Karla e seu Julgamento
No caso Leslie Mahaffy, a menina achou que teve a maior sorte do mundo quando, ao voltar para casa na noite de seu desaparecimento, encontrou Paul Bernardo na rua. Ele estava naquela vizinhança procurando placas de carro para roubar. Precisava sempre de placas novas quando contrabandeava cigarros dos EUA para o Canadá; facilitava a passagem na fronteira.
Aquele simpático homem puxou conversa com Leslie, que ansiava por alguém que a ajudasse a entrar em casa sem que os pais a vissem. Depois de alguns momentos de papo amigável, Bernardo sacou uma faca, forçou Leslie a entrar em seu carro e levou-a para a sua casa.
Enquanto Karla dormia, Paul filmou Leslie nua e vendada. Quando acordou, Karla teve um ataque de raiva. Ele tinha usado seu melhor champanhe para entreter o “novo brinquedinho”! Sob o domínio do marido, acalmou-se e obedeceu as elaboradas instruções de como fazer sexo com a garota. Era como se Paul dirigisse um filme pornográfico.
Depois das preliminares com Karla, Paul forçou a menina a fazer sexo anal brutal, enquanto Karla filmava os gritos terríveis de dor de Leslie...
No caso de Kristen French, Karla teve participação ativa no seqüestro. Enganou a adolescente no estacionamento da igreja, fazendo-a ir até seu carro para explicar um caminho. Enquanto olhavam mapas, Paul, armado de uma faca, forçou a garota a entrar no banco de trás do carro.
Desde o início, o casal sabia que Kristen tinha que morrer. Ela tinha visto os dois, sabia onde moravam e conhecia até seu cachorro, mas não queriam que a garota desconfiasse de seu destino. Kristen era maior e mais forte do que Karla, e se reagisse complicaria muito as coisas...
Kristen era bastante esperta, e fez de tudo para cooperar com o casal depravado em suas ordens ultrajantes e humilhantes. Ela acreditava que agir assim era sua única chance de permanecer viva, mas estava enganada. Quanto mais cooperava, mais sádico Paul se tornava. Ele chegou a urinar em cima da garota, e tentou defecar nela.
As indignidades continuaram por um ou dois dias, tudo devidamente filmado em vídeo para futuro desfrute do casal. Só o assassinato de Kristen não foi filmado. As fitas onde todos os crimes estavam registrados não foram encontradas. Quatro policiais vasculharam a casa de Bernardo e Homolka de cabo a rabo. Quebraram o chão de concreto, removeram painéis, checaram o esgoto, os dutos e móveis fixos, cortaram carpetes, roupas, vasculharam cartas... nada foi achado. Sem as fitas, Karla era a única arma contra Paul Bernardo. Outras evidências encontradas na casa, mas depois não aceitas como provas: uma cópia do controverso livro de Bret Easton Ellis, American Psycho, que narra a história de um loiro, narcisista homem de negócios de 20 e poucos anos, que rapta, tortura e estupra jovens meninas; o livro Perfect Victim, a verdadeira história de um homem na Califórnia que raptou uma moça de 20 anos, a brutalizou e a manteve como sua escrava sexual por sete anos; uma fita de “rap” de autoria de Bernardo, chamada Inocência Mortal, na qual as letras são lúgubres lembranças de seus crimes.
O julgamento de Karla Homolka foi um verdadeiro circo para a mídia.
Ela foi descrita como impassível. Vestia roupas que pareciam ser maiores do que seu número, querendo dar a impressão de ser mais velha do que realmente era.
Seu psicólogo, Dr. Malcom, concluiu seu depoimento dizendo que Karla sabia o que estava acontecendo, mas estava impotente e incapaz de se defender. Em sua opinião, a ré estava paralisada pelo medo, permanecendo obediente e subserviente.
O juiz aceitou o acordo proposto pelos advogados de Karla. Seu depoimento seria decisivo para o julgamento de Paul Bernardo.
Em fevereiro de 1994, Paul Bernardo e Karla Homolka divorciaram-se.
Karla Homolka cumpria pena na Prisão para Mulheres de Kingston, e dois meses após ser levada para lá começou a fazer cursos por correspondência de Sociologia e Psicologia na Universidade de Queens. Sua cela é totalmente decorada com posters do Mickey, e seus lençóis são com motivos da Vila Sésamo. Em junho de 1995, foi transferida para a Metro West Detection Centre, em Toronto.
O Julgamento de Paul Bernardo
O julgamento de Paul foi adiado para acontecer dois anos após sua prisão. Um dos motivos para esse adiamento foi que Paul colocou seu advogado Ken Murray numa situação ética muito complicada. Três meses após sua prisão e seis dias após terminarem as buscas por evidências na casa do casal, seu advogado teve permissão para entrar no local dos crimes por breves momentos. Recebeu então uma ligação em seu celular: era Paul Bernardo, dizendo a ele onde encontrar as fitas de vídeo, escondidas no forro do teto da casa. Paul deu ao advogado as fitas que ele e Karla fizeram de suas aventuras, acreditando que, ao fazer isso, elas jamais chegariam nas mãos dos promotores.
Eles já sabiam, através de Karla, da existência das fitas, e tinham gravado as conversas entre Paul e seu advogado. Depois de muita pressão, Murray entregou as provas para a promotoria e abandonou o caso. Foi substituído pelo veterano John Rosen.
As fitas de vídeo se tornaram a principal peça da promotoria. Bernardo enfrentava duas acusações de homicídio em 1º grau, duas acusações de ataque sexual com agravante, duas acusações de confinamento forçado, duas acusações de seqüestro e uma acusação de causar constrangimento para um corpo humano.
A promotoria começou seu “show” mostrando a imagem de Karla se masturbando para a câmera, o que causou grande comoção nos presentes. O vídeo mostrava como Paul forçava Karla a fazer coisas contra sua vontade, a ser uma escrava sexual do “Rei Bernardo”.
Depois de todas as fitas exibidas, o júri tinha uma completa idéia da profundidade da depravação sexual de Paul Bernardo.
Como se não fosse já o suficiente, Karla foi chamada como testemunha. Seu depoimento mostrou a escalada de indignidades que o marido obrigava a esposa. Ela usava uma coleira de cachorro, ele inseria garrafas em sua vagina e quase a estrangulava com uma corda para satisfazer suas sádicas fantasias sexuais.
Karla também declarou que Paul cortou o corpo de Leslie Mahaffy em 10 partes, utilizando para isso a serra elétrica de seu avô e encapsulou as partes em concreto no porão da casa deles. Ela ajudou Paul a jogar os blocos no rio, mas apanhou por ter esquecido de usar luvas. Depois da morte de Mahaffy, segundo o depoimento de Karla, ela era espancada constantemente e ameaçada de morte a cada vez que hesitava em colaborar.
Paul alegou que suas fantasias eram importantes para ele, e que nunca machucaram ninguém.
A defesa resolveu atacar a credibilidade de Karla. Queria mostrar que ela não era nenhuma vítima, e sim cúmplice ativa nos estupros e homicídios.
Paul contou sobre a frieza de Karla, que logo após o estrangulamento de Kristen, correu para secar os cabelos... tinham um jantar na casa dos Homolka. Ficou claro para todos que Karla havia manipulado as circunstâncias de sua cooperação com o governo, num dos piores acordos que o governo canadense já fez com uma testemunha criminal.
As fitas de vídeo foram vistas apenas pela corte e júri. Público e mídia puderam somente ouvi-las. Durante o ataque a Tammy Homolka, Karla filmou enquanto Paul a penetrava violentamente na vagina e no ânus, e depois o rapaz ordenava que Karla fizesse sexo oral com a irmã. Depois de vários “nãos”, a garota cede à vontade de seu parceiro. Após a morte de Tammy, o júri pôde ainda ver as cenas filmadas no quarto da falecida, quando Karla fingiu ser a irmã e o casal manteve relações sexuais entre as bonecas da vítima.
Karla também é vista comentando que “adorou ver Tammy ser estuprada”, dizendo que sua missão era fazer Bernardo sentir-se bem. Ela oferece-se como sua provedora de novas virgens.
O casal também foi visto espancando e estuprando Mahaffy e French. Enquanto um agia, o outro filmava e “dirigia” a cena. Numa delas, particularmente perturbadora, Kristen French é obrigada a repetir 26 vezes que ama Paul, com a voz bastante trêmula e sob ameaças constantes, enquanto é estuprada por ele. Algum tempo depois, foi socada, ouvindo gritos de que morreria se o prazer de Bernardo não aumentasse.
Homolka deu várias ordens a Kristen French, mandando que ela sorrisse enquanto estava sendo estuprada, e ensinando à garota o que fazer para aumentar o prazer de seu marido. Homolka também ataca sexualmente Mahaffy com uma garrafa de vinho. Nada nas fitas indicou qualquer desprazer de Homolka ao agir em dupla com seu parceiro, ou que sentisse qualquer repulsa pelo que fazia. Leslie Mahaffy e Kristen French foram mortas por estrangulamento com um fio elétrico, mas os assassinatos não foram filmados.
A defesa também mostrou que Karla Homolka teve várias chances de cair fora, mas não usou nenhuma. Durante as duas semanas em que Leslie Mahaffy ficou cativa na casa do casal, ela saiu todos os dias para trabalhar. Em pelo menos duas ocasiões, ficou de guarda com a garota, enquanto Bernardo saiu para alugar fitas de vídeo ou comprar comida.
Pelo acordo de Karla, ela teve imunidade no que se referiu ao assassinato de Tammy Homolka e ao ataque sexual a “Jane Doe”.
No julgamento de Bernardo, ele era considerado culpado até que provasse sua inocência. Com Karla, a concepção era exatamente a oposta: inocente até que sua culpa fosse comprovada. O acordo com Karla Homolka foi feito antes que a justiça soubesse das fitas de vídeo ou tivesse acesso a elas, o que justificava a moça ser considerada testemunha-chave para a acusação de Paul Bernardo. Enquanto a defesa tentava mostrar Homolka como cúmplice ativa para diminuir a culpa de Bernardo, a promotoria tratou de mostrá-la como uma mulher fraca, sofrendo da Síndrome da Mulher Espancada. Esta síndrome foi oficialmente reconhecida pelas leis canadenses pela Suprema Corte do Canadá em 1990, numa decisão por escrito feita pela Juíza Bertha Wilson. Nela, foi endossada a idéia que uma mulher na armadilha de um relacionamento abusivo está justificada por atos normalmente não tolerados, uma vez que age para proteger a si mesma. Uma mulher que sofre dessa síndrome acredita estar indigna de ajuda e merece ser abusada. Num certo momento, ela sente que a única forma de escapar é matando o abusador. Muitos não concordam, alegando que ao tornar essa síndrome legalmente aceitável, estão dando a algumas mulheres licença para matar.
A sentença de Homolka foi amplamente discutida durante o julgamento de Bernardo, através da imprensa e de entrevistas com advogados e psicólogos. Muitos disseram que a Justiça do Canadá vendeu sua alma ao diabo para conseguir condenar Paul Bernardo.
Em casos como o de Lorena Bobbit, que castrou o marido com uma faca de cozinha enquanto ele dormia, sua insanidade foi comprovada através da síndrome. Outro caso ficou bastante conhecido através do filme estrelado por Farrah Fawcet, baseado em fatos reais, onde uma mulher espancada freqüentemente pelo marido coloca fogo em volta de sua cama enquanto ele dorme, alcoolizado. Nos EUA, país onde a Síndrome da Mulher Espancada foi legalizada dez anos antes do que no Canadá, várias mulheres já foram inocentadas ou consideradas insanas no momento de graves crimes, através desse argumento.
Muitos acreditam que no caso de Karla Homolka a síndrome não se aplica. Defendem a idéia de que ela é uma mulher extremamente egoísta, que só buscou ajuda quando sua própria vida estava ameaçada.
Numa avaliação psicológica de Paul Bernardo feita através dos depoimentos de Karla, o psicólogo Dr. Chris Hatcher e seu colega Dr. Stephen Hucker identificaram o réu em relação ao seu comportamento como parafílico (desvios sexuais), sádico sexual, voyeur, hebéfilo (ter atração por meninas púberes ou adolescentes), toucherismo (agarrador de mulheres insuspeitas), coprofílico (excitável por fezes), alcoólatra e com distúrbio de personalidade narcisista. Nenhum deles achou que Paul Bernardo fosse psicótico.
Paul se defendeu em seu depoimento, dizendo que fazer sexo com garotas amarradas e algemadas era sua idéia de vídeo pornô, mas que não matou ninguém. Disse que as vítimas morreram durante o espaço de tempo que as deixou sozinhas com Karla.
Mahaffy teria morrido de overdose de drogas. Bernardo pretendia jogá-la em algum lugar ermo, desacordada. Quando viu que a menina estava morta, resolveu esconder seu corpo. Segundo seu depoimento e contradizendo Karla, enquanto ele cortava o corpo em partes, a esposa limpava e lavava cada uma delas para que pudessem “concretá-las”.
No caso da morte de French, Bernardo alegou ter deixado a jovem com os pés amarrados e as mãos algemadas, sob a guarda de Karla, enquanto foi alugar fitas de vídeo e comprar comida. Por segurança, teria amarrado um fio elétrico ao pescoço da garota, atando a outra ponta numa cômoda. Enquanto estava fora, French pediu para ir ao banheiro. Quando Karla desamarrou seus pés, ela saiu correndo para tentar escapar, enforcando-se.
Em nenhum momento de seu depoimento, Bernardo perdeu a calma ou a compostura. A alegação da defesa era de que não restavam dúvidas de que o casal tinha atacado sexualmente as jovens, mas precisava ser estabelecido quem, realmente, as tinha matado.
Nada disso salvou Bernardo. Em 1º de setembro de 1995, ele foi considerado culpado por todas as acusações contra ele. Faltava ainda ser julgado pelo assassinato de Tammy Homolka e todos os estupros de Scaborough.
Segundo as leis canadenses, Bernardo pode apelar para obter liberdade condicional depois de 25 anos de prisão. Sua apelação imediata, feita após o julgamento, foi negada em 21 de setembro de 2000.
Karla poderá sair em liberdade condicional em 2001. Seus advogados trabalham para que possa cumprir a pena em regime semi-aberto, pedido negado até o momento.
Os produtores da série Law and Order pretendem fazer um episódio baseado no caso Bernardo-Homolka.
O advogado Ken Murray foi julgado, em 2000, por obstrução da Justiça. Ele manteve em segredo estar de posse das fitas de vídeo que retirou da casa de Bernardo, onde o casal assassino aparece tendo relações sexuais e torturando Leslie Mahaffy e Kristen French. Murray alegou que pretendia usá-las na defesa de seu cliente, nas audiências preliminares. Deixaria que Karla Homolka mentisse sobre seu envolvimento nos crimes e depois a desmascararia com as fitas, destruindo sua credibilidade e demonstrando que ela era a verdadeira assassina, e Paul, seu coadjuvante.
Quando as preliminares foram canceladas e resolveu-se ir direto ao julgamento, Paul Bernardo começou a pressionar Murray para que não utilizasse essas provas, as mantivesse em segredo, coisa entre advogado e cliente. Paul alegava que, sem elas, seria a palavra dele contra a de Homolka.
Murray ficou num dilema ético, mas decidiu largar o caso e entregar as provas à Justiça, com um atraso de 17 meses. A Justiça alega que, se estivesse em posse das fitas, não teria tido necessidade de entrar em acordo com Karla Homolka. Ken Murray foi absolvido em 13 de junho de 2000.
A casa de Karla Homolka e Paul Bernardo foi demolida, pois o proprietário não conseguiu nunca mais alugá-la. Outra casa foi construída no terreno.
Os pais de Kristen French, Doug e Donna, ainda vivem em St. Catherine. Donna trabalha com a polícia da região de Niagara, falando sobre o impacto do crime nas famílias das vítimas em geral.
Os pais de Leslie Mahaffy, Dan e Debbie, tiveram seu casamento destruído durante o processo. O stress foi crucial. Debbie organiza anualmente um dia em memória das vítimas de crime em Burlington e trabalha no Programa para Vítimas de Crimes, da promotoria.
O serviço correcional do Canadá resolveu que Karla Homolka é tão perigosa para a sociedade que deve ficar presa até o fim de sua sentença (julho de 2005). Se até essa data nada ficar resolvido, Karla será solta automaticamente, pois terá cumprido 2/3 de sua sentença.
Comentários Finais
No relatório do NCAVC, em novembro de 1988, foi prevista uma escalada de violência nos crimes do “Estuprador de Scaborough” no caso de qualquer stress que ele sofresse. Enquanto vivia com os pais, Bernardo era mais controlado. Quando se mudou para St. Catharine, as atividades do “Estuprador de Scaborough” cessaram. Agora que a casa era dele, o controle era total. Podia esconder as vítimas e fazer com elas o que quisesse sem nenhum risco. Essa mudança de circunstâncias ajudou na escalada de seus crimes.
Seqüestro é uma escalada previsível nos sádicos sexuais. Também é certo que o resultado final será assassinato. Uma vez que tenha prendido a vítima, em sua mente, ele não pode mais deixá-la ir. Na sua fantasia galopante, o criminoso precisa de mais controle, o que ganha através do seqüestro e confinamento forçado da vítima em local “seguro”. A última fantasia do sádico sexual é a posse total e plena sobre sua “presa”, física e psicologicamente. É o poder de vida e morte.
O fato de cabelos terem sido cortados em duas vítimas de Scaborough em Kristen French é grave indício de que se tratava do mesmo homem. Tirar o cabelo da vítima satisfaz a necessidade de Bernardo de punir, degradar e desgraçar suas vítimas. Também é um troféu.
Em geral, criminosos seriais sádicos sexuais têm as seguintes características:
Homens.
Brancos.
Têm educação escolar além de 2º grau completo.
Se travestem para mudar de aparência.
Têm pais infiéis ou divorciados.
Foram fisicamente abusados na infância.
Foram sexualmente abusados na infância.
Têm experiência militar ou fascinação por armas.
Direção compulsiva.
Inicialmente apresentam uma imagem de sinceridade, cuidados especiais e cobrem de atenções seu objeto de amor.
Obsessão por sadismo sexual.
Personalidade dominadora.
Colecionadores compulsivos e usuários de pornografia.
Colecionadores de “troféus” adquiridos de suas vítimas.
Casam-se na época em que estão cometendo seus crimes.
Têm conhecida história de transformação de voz e/ou telefonemas obscenos, ou ainda cometeram atentado ao pudor.
Conhecimento e interesse em assuntos policiais.
Têm envolvimento incestuoso com seu próprio filho.
Têm conhecida experiência homossexual.
Compartilham parceiros sexuais com outro homem.
Abuso de drogas.
Tentativa de suicídio.
Bernardo tem muitas características que se encaixam acima. Homem, branco, completou quatro anos de estudos na universidade em apenas três anos. Limpo e bem vestido, comportava-se bem e estava sempre impecável em encontros sociais especialmente durante o dia. Mudava de aparência à noite, quando caçava suas vítimas.
Vários membros de sua família reportaram às autoridades que Bernardo expressava profundo ódio por sua mãe, e pensava que ela era totalmente louca. Não perdoou sua infidelidade e a culpava por sua própria infelicidade. Também sofria abusos físicos de seu “pai”.
Bernardo era completamente fascinado por armas, e carregava sempre consigo uma faca especial com inscrição pessoal na lâmina. Esta faca de estimação foi utilizada em vários de seus crimes. Também guardava um revólver embaixo de sua cama.
Dirigia compulsivamente: a vigilância sobre ele estabeleceu que chegava a guiar mais de 650km num só dia, durante vários dias consecutivos.
Namoradas antigas e a família Homolka declararam que Bernardo, nos primeiros estágios de relacionamento amoroso, cobria a amada de presentes e atenção. Mantinha uma imagem de ser extremamente carinhoso e afetivo. Conforme o tempo passava, esse comportamento dava lugar à sua verdadeira personalidade. Uma namorada de Bernardo declarou que ele era incapaz de obter uma ereção se não a amedrontasse ou infligisse dor a ela. Também usava ligaduras em volta de seu pescoço enquanto fazia sexo anal, além de garrafas e espetos.
Sua personalidade era extremamente dominadora. Escolhia a maneira de vestir e pentear os cabelos da esposa, e nos últimos tempos a isolou completamente dos amigos. Um amigo íntimo de Bernardo, Van Smirnis, declarou ter assistido as várias vezes em que o amigo tratou Karla com total falta de respeito.
Era colecionador compulsivo e usuário de pornografia. Além dos vídeos pornográficos dele mesmo e da esposa que fazia, Bernardo colecionava videoteipes de todos os eventos que filmava.
Os troféus colecionados das vítimas são perversamente gratificantes para os criminosos e fonte para suas fantasias. Em sua casa, foram encontrados sapatos, roupas íntimas, jóias, carteiras e identidades. As investigações revelaram que cada vítima perdeu objetos pessoais durante o ataque de Bernardo, inclusive cabelos da cabeça e do púbis.
As datas em que Mahaffy e French foram assassinadas coincidem exatamente com o período em que Bernardo e Homolka foram viver juntos e se casaram (fevereiro e junho de 1991).
Em pelo menos um caso do “Estuprador de Scaborough”, Bernardo disse à vitima que a tinha observado antes, dentro de sua própria casa. Outras vítimas declararam ter recebido telefonemas obscenos depois do ataque que sofreram.
Em 93% dos casos envolvendo sádicos sexuais, os crimes são planejados cuidadosamente. A vigilância sobre Bernardo estabeleceu que ele caçava suas vítimas dia e noite. O método como se livrou do corpo de Mahaffy indica planejamento. As condições de limpeza do corpo de French, eliminando qualquer evidência, também. Bernardo chegava a obrigar suas vítimas a engolir seu sêmen, para que qualquer amostra biológica fosse destruída.
Os casos documentados historicamente demonstram que criminosos como Bernardo não conseguem parar de estuprar e matar por vontade própria. Só param quando são interrompidos por forças externas, como ser preso, hospitalizado, morto, etc. Em 2000, Paul Bernardo teve a sua apelação negada.
Em 8 de março de 2001, o Conselho Nacional de Condicional do Canadá resolveu, em Ottawa, não dar liberdade condicional para Karla Homolka, que agora mudou seu nome para Karla Teale. Concluíram que, se solta, pode ainda cometer crime causando morte ou sério mal a outra pessoa. Recomendaram que Karla Teale permaneça em reclusão até o final de sua sentença, em julho de 2005.
Karla ainda se recusa a receber qualquer terapia de apoio ou tratamento psiquiátrico.
Outubro de 2002 — Karla escreveu uma carta para a Comissão Nacional de Condicional do Canadá requerendo sua liberdade condicional em julho de 2003. Na carta, diz que durante o tempo em que esteve presa foi negligenciado o tratamento da Síndrome da Mulher Espancada, Desordem de Stress Pós-Traumático, etc. Com ironia, descreve como foi avaliada por sete psiquiatras como portadora desses distúrbios, revoltando-se com o fato de que todos, repentinamente, mudaram de idéia e passaram a diagnosticá-la como “psicopata”. Apesar dos psiquiatras avaliarem a moça a distância, já que Karla Homolka negava-se a colaborar, alegaram que ela ainda se vê como vítima e é portadora de transtorno anti-social de personalidade.
Novembro de 2002 — É lançado o livro de Stephen Williams, LE PACTE AVEC LE DIABLE, somente em língua francesa, pois os editores de língua inglesa se recusaram a publicá-lo. Contém correspondências entre Homolka e o autor durante um ano e meio. O advogado das famílias das vítimas Mahaffy e French entrou com um processo, alegando que o livro ofende o acordo de Karla Homolka com a Justiça Canadense. Neste acordo, ela se comprometeu a não falar sobre o caso com a imprensa, mídia ou empenhar-se em propósito literário/cinematográfico.
17 de janeiro de 2003 — Pela terceira vez, desde 1999, a Comissão Nacional de Condicional do Canadá negou a proposta de condicional de Karla Homolka para 2003. Justificaram que não houve nenhuma mudança significativa no caso durante o ano de 2002.
Trechos da carta de Karla:
(...)”De acordo com a lógica dos serviços correcionais, quando eu for libertada, em julho de 2005, livrarão uma fêmea de Hannibal Lecter, uma monstra-assassina, inteligente, cínica e ironicamente criada pelo próprio sistema prisional.
Seria mais saudável e razoável para os serviços correcionais me liberar em condicional e me prover de acompanhamento por oficiais de condicional, para que eu pudesse ser progressivamente reintegrada na sociedade até que minha sentença expirasse.
(...)Na realidade, o que as autoridades estão fazendo neste momento é prorrogar o inevitável: minha liberação em julho de 2005. Quando eu sair, enfrentarei um mundo que mudou muito desde que fui encarcerada. Não seria mais sábio me ajudar agora do que me atirar na rua em dois anos?”
A Comissão justificou sua decisão alegando que a presa se recusou a participar de programas de reabilitação e ainda tentou esconder um relacionamento sexual na prisão. Segundo eles, ela ainda nega seu papel de agressora sexual e não faz terapia. O homem com quem Karla teria mantido o suposto relacionamento foi transferido.
Fevereiro de 2003 — O livro de Stephen Williams é finalmente publicado em inglês, com o título A Pact with the Devil (Um Pacto com o Demônio).
¹ NCAVC: National Center for the Analysys of Violent Crime: FBI Profile of Scarborough Rapist — Description: in Investigative Analysis, FBI Virgínia — 17.11.88 — Special Agent Gregg O. McCrary.
² Halotano: substância química utilizada em anestesias locais, através de aspiração. Este anestésico é duas vezes mais forte que clorofórmio e quatro vezes mais forte que éter.
³ Halcion: droga utilizada como sonífero e ansiolítico (benzodiazepine)
Fonte: Livro Serial Killer - Louco ou Cruel? de Ilana Casoy
IVAN MARKO MILAT - O Assassino de Mochileiros
IVAN ROBERT MARKO MILAT
1990 — Delegacia da Cidade de Bowral — Austrália
Entram na delegacia um homem e uma mulher, Paul Onions e Joanne Berry. O rapaz está bastante aflito. Conta sua história para o investigador de plantão.
Paul, inglês, resolveu passar suas férias na Austrália, levando apenas uma mochila e pouco dinheiro. Sua intenção era conhecer o país pegando carona. Era um método barato e eficiente.
Na estrada, esperando ter um pouco de sorte, ficou aliviado ao ver um carro parar. O motorista era bem apessoado, musculoso e usava bigodes estilo “Zapata”. Simpático, concordou em dar carona a Paul.
No caminho, iniciou-se uma agradável conversa. O homem disse ser divorciado, descendente de iugoslavos e proprietário de terras perto de Liverpool. Paul também contou que veio da Inglaterra para aproveitar bem suas férias, conhecendo a Austrália. Não, não tinha nenhum parente ou amigo naquele país.
No meio da conversa, e antes que Paul percebesse o que estava acontecendo, o homem tirou uma arma de baixo do banco do carro e anunciou um assalto.
Paul, assustado demais para lembrar-se das recomendações de nunca reagir a um assalto, agiu por puro reflexo: abriu a porta do carro, pulou para fora e começou a correr desenfreadamente pela estrada.
Joanne Berry vinha pela mesma estrada, quando viu o rapaz entrar com desatino na sua frente. Freou o mais rápido que pôde, desconfiada.
O rapaz, desesperado, disse estar sendo perseguido por um assaltante, e implorou sua ajuda. Joanne, ao mesmo tempo penalizada e desconfiada, resolveu ajudar. Deixou o moço entrar no seu carro e levou-o até a delegacia mais próxima onde fizeram um boletim de ocorrência.
16 de Setembro de 1992 — Floresta de Belangalo — Austrália
Sábado. Ken Seily e Keith Caldwell, parceiros de motocross, participavam de uma corrida na mata. Numa de suas paradas, sentiram um forte odor de carniça. Ao procurarem por uma carcaça de animal, encontraram o que parecia ser restos mortais humanos.
Assim que a corrida terminou, a polícia de Bowral foi informada sobre os restos mortais encontrados na Floresta de Belangalo.
Para investigar a cena do crime descoberta pelos dois motoqueiros, foi designada uma unidade policial de Goulburn, a maior e mais próxima cidade de Bowral, juntamente com uma equipe de investigadores de homicídios. Naquele momento, nenhum deles tinha idéia de que estava se iniciando a maior investigação criminal da história australiana.
Sua primeira providência foi imediatamente levantar se havia mochileiros desaparecidos naquela área.
No dia seguinte, a 40 metros da cena do crime que estava sendo analisada, outro corpo foi encontrado. Estava parcialmente encoberto por um tronco de árvore, e só se via um pedaço de perna e um sapato, saindo por debaixo das folhas secas espalhadas pelo chão.
A mídia logo sugeriu que seriam os corpos de duas mochileiras inglesas que haviam desaparecido na Austrália cinco meses antes: Caroline Clark e Joanne Walters. Elas haviam partido juntas de King Cross em direção ao sul, tentando encontrar trabalho para pagar suas despesas de férias.
Antes que a identidade das vítimas fosse confirmada, a notícia já tinha se espalhado pelo mundo. Várias famílias começaram a acompanhar o noticiário atentamente.
A família Neugebauer, na Alemanha: seu filho Gabor e a namorada Anja sumiram sem deixar vestígios depois de sair de um albergue para mochileiros em King Cross, em 26 de dezembro de 1991.
A família Schmidl, de Regensburg, perto de Munique: sua adorada filha Simone havia desaparecido ao sair de Sydney, em 1991.
A família Everist, de Frankston, Vitória, Austrália, que não tinha notícias de sua filha Deborah e seu amigo James Gibson desde 1989.
Em 20 de setembro de 1992, a polícia identificou os corpos como sendo de Caroline Clark e Joanne Walters.
Os pais de Joanne, já completamente desesperados com o desaparecimento da filha, encontravam-se na Austrália, onde alugaram uma van para tentar, sozinhos, encontrar sua menina.
Ian e Jackie Clarke, pais de Caroline, receberam a triste notícia pelo telefone. Voaram imediatamente da Inglaterra para a Austrália.
Quando as autópsias foram feitas, ficou claro que as duas meninas tinham sido assassinadas de forma violenta e cruel.
Joanne Lesley Walters
Joanne tinha sido esfaqueada repetidamente no coração e nos pulmões. Os cortes eram tão profundos, que um deles seccionou sua espinha dorsal.
Ela ainda usava suas jóias; vestia blue jeans e sapatos pretos. Curiosamente, o zíper de sua calça estava aberto, mas o botão não.
Seu corpo estava em adiantadíssimo estado de decomposição. Foi pesada e radiografada, em busca de balas ou outros objetos metálicos, mas nada foi encontrado.
O Dr. Peter Bradhurst, legista encarregado do caso, iniciou então um exame externo, buscando quaisquer evidências que pudessem trazer alguma pista para as investigações.
As mãos e roupas de Joanne continham cabelos escuros. Um pedaço de pano usado como mordaça foi retirado de seu crânio, e outros restos de pano foram encontrados em sua garganta, sugerindo claramente tratar-se de um caso de estrangulamento.
No exame interno não foram encontrados sinais de penetração vaginal ou anal, mas o grave estado de decomposição do corpo poderia facilmente mascarar esses fatos.
Amostras de unha e cabelo foram retiradas e arquivadas. Também foi feita uma lâmina com material vaginal, pois indícios de sêmen podem ser descobertos até meses depois da morte.
O peito de Joanne mostrava três facadas do lado direito, uma do lado esquerdo e uma no pescoço. Quando o corpo foi virado de bruços, o Dr. Bradhurst não pôde acreditar no que via... Mais duas facadas do lado esquerdo, cinco do lado direito e duas na espinha, na base do pescoço. Ao todo, foram contadas e medidas 14 facadas, cinco delas propositadamente tinham atingido a espinha dorsal. O Dr. Bradhurst conjeturou se o assassino primeiro paralisou sua vítima, para depois esfaqueá-la até a morte.
Duas costelas de Joanne foram totalmente cortadas. Mãos e braços não continham ferimentos defensivos, daqueles que aparecem quando as pessoas tentam se defender de um ataque à faca com as mãos. Este fato e as amarras de tecido corroboravam a teoria de que o assassino estava em pleno controle da situação no momento do crime.
As medidas e o formato dos cortes indicavam que uma faca Bowie ou similar havia sido utilizada.
Caroline Jane Clarke
Caroline havia sido esfaqueada e levou inúmeros tiros na cabeça.
Debaixo de sua cabeça, foram encontrados três cartuchos de bala.
Em seu corpo, mais quatro balas. O estado de decomposição do corpo de Caroline era mais grave do que o do corpo de Joanne.
Os braços de Caroline estavam estendidos acima da cabeça, que estava envolvida por um pano vermelho. Os buracos de bala eram visíveis no tecido, indicando que sua cabeça estava coberta no momento dos tiros.
O pano foi cuidadosamente removido da cabeça de Caroline, deixando à mostra 10 buracos de entrada de balas, e apenas quatro de saída. Quatro cartuchos completos de calibre .22 foram retirados de dentro de seu crânio. Sua face e maxilares estavam esmigalhados, como resultado dos estragos provocados na saída das balas.
Caroline tinha levado uma facada na base do pescoço, idêntica àquela sofrida por Joanne.
As balas foram imediatamente enviadas para testes balísticos, e posteriormente foi concluído que os tiros foram dados de três direções diferentes. O estranho é que as balas foram encontradas todas juntas, indicando que o assassino tinha utilizado a cabeça de Caroline como um alvo, apenas mudando a posição de tiro. Até os profissionais forenses mais experientes ficaram chocados com a violência e crueldade dos crimes.
A Cena do Crime
Distante aproximadamente 4 metros do corpo de Caroline Clarke, os detetives encontraram seis bitucas de cigarro, todas da mesma marca. Obviamente, o assassino havia passado bastante tempo ali.
Não muito longe, acharam o cartucho deflagrado de uma arma calibre .22, e perto dele um plástico verde do tamanho de uma moeda.
Especialistas em balística exploraram a área com um detector de metais, até recolherem mais nove cartuchos da mesma arma, a menos de 4m do corpo de Caroline.
Restos de uma fogueira feita de pedras estavam a 35m da cena do crime.
A polícia vasculhou toda a área, procurando mais corpos e objetos pessoais das vítimas. Nada encontrou. Anunciaram para a mídia que, naquela área, nenhum corpo mais seria encontrado, declaração que colocaria o departamento de polícia de New South Valley em maus lençóis pouco tempo depois.
O Perfil do Criminoso
Sem conseguir mais nenhuma pista, os trabalhos da polícia na captura do assassino de Caroline Clarke e Joanne Walters estavam completamente emperrados. Foi chamado então o Dr. Rod Milton, psiquiatra forense com 20 anos de experiência, para fazer o perfil criminal.
Em 1989, o Dr. Milton tinha tido sucesso ao montar o perfil de John Wayne Glover, que havia estrangulado seis senhoras de idade avançada e foi capturado graças à sua ajuda.
O Dr. Milton foi até a cena do crime, pois, apesar da farta documentação, preferia trabalhar in loco para obter deduções precisas sobre o assassino em questão. Depois de andar calmamente por ali durante bastante tempo, sentou-se no local para tentar imaginar a seqüência dos fatos, por que a escolha daquele local e do modo e quais seriam as motivações do assassino.
Sua primeira conclusão foi a de que a área escolhida era familiar ao assassino, que raramente age em áreas que não conhece, e aquele não era um crime de oportunidade, e sim um assassinato planejado com extremo cuidado.
Seu passo seguinte foi comparar o modo como as duas vítimas haviam sido mortas.
Caroline Clarke foi morta de modo frio e calculado. A maneira como o pano vermelho envolvia sua cabeça indicava que o assassino tinha a intenção de despersonalizá-la antes de matá-la. O ângulo dos tiros sugeria que ela estava de joelhos quando foi dado o primeiro tiro. Suas roupas estavam intactas, exceto pelo fecho frontal de seu sutiã, que estava aberto. Suas roupas da parte inferior do corpo estavam intocadas na hora de sua morte, o que demonstrava que aquele não era um crime de motivação sexual. Tratava-se de uma execução.
O ferimento de faca nas suas costas havia sido feito após a sua morte, para demonstrar que o assassino estava no total controle da vítima durante o crime. Se assim não fosse, havia um cúmplice.
A maneira como foi encontrado o corpo de Caroline, com os braços acima da cabeça, também indicava para o Dr. Milton que o assassino havia planejado e controlado todo o crime, com a vítima suplicando por sua vida até ser morta.
O local e o modo como o corpo de Joanne Walters foi encontrado indicavam uma situação totalmente diferente. Aqui, em comparação com o assassinato de Caroline, havia marcas de frenesi e ódio descontrolados.
O desarranjo das roupas de Joanne indicava um ataque sexual. Sua camiseta e sutiã estavam puxados para cima, com o fecho do sutiã ainda abotoado. O zíper da calça estava aberto, mas o botão fechado. Nenhuma calcinha foi encontrada no corpo ou nas proximidades.
O Dr. Milton teorizou que as calças de Joanne não foram tiradas, pois seus sapatos estavam calçados e amarrados. Deviam ter sido simplesmente abaixadas para permitir o ato sexual antes ou depois da morte. A calcinha provavelmente havia sido cortada, arrancada e levada como troféu.
O único motivo no qual o Dr. Milton pôde pensar para a motivação do crime foi... prazer!
Se havia dois assassinos envolvidos neste crime, então um era mais velho e dominante e o outro, apesar de igualmente sádico, mais submisso. Sugeriu que poderia se tratar de dois irmãos, que dividiam o mesmo interesse por armas de fogo e caça, além de anteriormente já terem se envolvido em crimes sexuais, juntos ou separadamente.
Segundo o perfil elaborado, o assassino:
Seria morador de área semi-rural.
Estaria empregado em trabalho de média habilidade, provavelmente externo.
Estaria envolvido numa instável e insatisfatória relação.
Seria homossexual ou bissexual.
Teria histórico de agressão a autoridades.
Teria entre 30 e 40 anos.
Em nenhum momento, o Dr. Rod Milton imaginou que se tratasse de um assassino serial. Com o fim do ano se aproximando e o caso longe de uma solução, os investigadores começaram a pesquisar crimes parecidos.
Outubro de 1993
Bruce Pryor, morador local da Floresta de Belangalo, coletava lenha nas proximidades de sua casa sempre que podia. Acompanhou minuciosamente o noticiário sobre os corpos encontrados naquela região, mas. notou que as buscas tinham diminuído consideravelmente. Não que o número de mochileiros desaparecidos fosse menor.
Foi então que decidiu, ele mesmo, em suas incursões na floresta, pesquisar áreas ainda inexploradas à procura de novas evidências. Seu trabalho teve êxito. Descobriu um esqueleto humano.
Bruce chamou imediatamente a polícia. As buscas recomeçaram, bem como a cobertura do caso pela imprensa.
Ao verificar o local para onde Bruce Pryor os levou, a polícia logo encontrou um par de sandálias e um chapéu de feltro preto. Um investigador foi mandado de volta para pesquisar os arquivos, até concluir que aquele chapéu pertencia a James Gibson, desaparecido em 1989 juntamente com sua amiga Deborah Everist.
Anteriormente, a polícia havia descartado Gibson como vítima deste assassino, uma vez que sua mochila e câmara fotográfica foram encontradas à beira de uma estrada a 120km ao norte daquela floresta. A polícia estava confusa: se Gibson era uma das vítimas ali encontradas, por que seus pertences estavam do outro lado de Sydney? Teria o assassino agido premeditadamente ao fazer a polícia crer que Gibson não era sua vítima?
As buscas continuaram, e logo mais um corpo foi encontrado. Foi chamado um dentista forense, para exame da cena do crime.
Os dois esqueletos estavam incompletos, o que poderia ter sido causado por animais da área.
Ao lado do primeiro esqueleto, foram encontrados uma corrente de prata, um bracelete de pedras semipreciosas e um crucifixo de prata. Devido aos tipos de objetos encontrados e ao pequeno tamanho do esqueleto, presumiu-se que se tratava de restos mortais de uma mulher.
O segundo esqueleto era maior, e ainda estava calçado com tênis brancos nos pés, devidamente amarrados. Comparando a arcada dentária documentada de James Gibson com aquele esqueleto, a identificação foi positiva.
A identificação do corpo feminino seria feita depois, mas todos tinham certeza de que se tratava de Deborah Everist.
Todos os itens da área do crime foram recolhidos, inclusive a calça jeans de Gibson, que estava com o zíper aberto, mas o botão fechado.
No dia seguinte, os legistas iniciaram seu trabalho.
James Harold Gibson
Seu esqueleto foi montado e os ossos, lavados com uma solução que evidenciaria qualquer ferimento neles.
Um ferimento à faca estava localizado no meio de sua coluna, secionando três vértebras e separando o canal da espinha dorsal. Como nas outras vítimas, o Dr. Bradhurst conjeturou que esse tipo de ferimento havia paralisado o rapaz. Fazer tamanho estrago na coluna de um jovem forte como aquele requeria força.
Dois ferimentos de faca haviam perfurado os ossos do peito de James, com cortes nas costelas. Apareciam mais cortes de faca nos lados esquerdo e direito da frente do peito, e dois mais no alto das costas. Ao todo, sete ferimentos maiores marcavam o esqueleto. Muitos outros poderiam ter sido feitos ali sem atingir nenhum osso, impossibilitando que fossem identificados tanto tempo depois da morte da vítima. O ferimento do peito foi medido, e era bastante similar àqueles encontrados nos corpos de Caroline e Joanne.
Deborah Phyllis Everist
Este esqueleto estava em péssimo estado. Parte da mandíbula estava quebrada, e faltava um pedaço. Várias fraturas foram encontradas na parte de trás do crânio. Quatro “talhos” na testa, dois de cada lado, foram constatados. Não eram profundos o suficiente para serem mortais, mas haviam marcado o crânio na linha do cabelo. Uma facada havia penetrado o corpo na região lombar, perto da espinha.
A Cena do Crime
Foi designado o superintendente Clive Small como responsável pelas investigações. A investigação foi chamada oficialmente de “task force Eyre”, nome de um lago australiano, mas informalmente logo passou a ser chamado “task force air”. Small nomeou Rod Lynch como seu auxiliar, e montaram uma equipe.
O mapa da floresta foi dividido em partes, e quarenta oficiais andaram por cada pedaço, examinando centímetro por centímetro do chão da floresta. Se algo estranho era encontrado, as equipes forenses eram chamadas imediatamente para fotografar o local, marcar posições dos objetos no mapa principal e levar a evidência.
Times acompanhados de cães especializados ajudaram nas buscas, para detectar a presença de fósforo e nitrogênio no solo, cheiros que corpos em decomposição exalam mesmo muito tempo após a morte.
A dez metros dos corpos, a polícia encontrou um sutiã preto com a marca de uma facada em um dos lados e cápsulas deflagradas pela arma do crime, que demonstravam tratar-se de uma. “Ruger” de repetição. A polícia levantou que 50.000 armas daquele tipo tinham sido importadas para a Austrália entre 1964 e 1982. Foi feita uma lista das lojas que venderam esse tipo de rifle, pois era obrigatório o registro completo da venda. Era como procurar uma agulha num palheiro, pois venda particular muitas vezes não tem registro.
Membros do clube local de tiro foram contatados, suas armas examinadas. Um dos membros comunicou à polícia que um amigo seu havia testemunhado algo suspeito na floresta, no ano anterior.
A polícia entrou em contato com o sujeito. Ele lhes deu uma acuradíssima descrição de dois veículos, um Ford Sedan e outro com tração nas quatro rodas, que havia visto entrando numa trilha da floresta. Contou em seu depoimento que, quando o primeiro carro passou, viu um homem dirigindo e no banco de trás dois homens com uma mulher entre eles. Ela estava com uma roupa amarrada em volta de sua cabeça, como se fosse uma mordaça. No segundo veículo, segundo a testemunha, havia dois homens. Um dirigia, outro estava sentado atrás com outra mulher, também amordaçada.
O homem deu à polícia detalhes de todos os ocupantes dos carros, inclusive suas roupas, cores e idade aproximada. Afirmou que, na época dos fatos, havia anotado as placas dos veículos num cartão, mas que acabou perdendo-o. Depois do depoimento oficial, a testemunha assinou: Alex Milat.
Novembro de 1993
O sargento Jeff Trichter, em suas buscas, encontrou um par de jeans femininos cor pink, juntamente com uma corda azul e amarela, largada ao acaso. Perto dali, foi encontrada uma caixa de munição calibre .22.
Ao entrar mais naquela clareira, outros artigos foram encontrados: latas vazias de bebida com furos de bala, arame enrolado em laçadas, cápsulas de balas deflagradas e garrafas vazias. No fim da clareira, restos de uma fogueira feita de pedras.
Logo adiante, no fim do caminho, jazia um osso humano. Três metros depois, um crânio. Todas as equipes foram chamadas ao local. Dentro de uma bota de caminhar de couro, outro grande osso. Nada mais foi localizado nesta área.
Ao serem levados ao laboratório forense, os ossos foram identificados como sendo femininos. A mulher parecia ter estado ali sozinha. O crânio tinha uma bandana roxa à sua volta.
De posse da bandana e das roupas encontradas, a polícia começou a procurar nas fotos de pessoas desaparecidas alguém que estivesse usando algum desses itens. Logo encontraram a fotografia da alemã Simone Schmidl em que usava uma bandana semelhante.
Outros equipamentos mencionados na queixa do desaparecimento, como uma grande mochila e equipamento para camping, não foram encontrados. Pela arcada dentária, o corpo foi oficialmente identificado como sendo o de Simone. Esta jovem aventureira, chamada carinhosamente pelos pais de “Simi”, tinha sido vista pela última vez em 20 de janeiro de 1991, em Liverpool, oeste de Sydney, caminhando em direção ao sul. Os pais de Simone, que estavam na Alemanha, souberam do caso do pior modo possível: pelo rádio. Sua filha voltou para casa apenas para ser enterrada.
Simone foi encontrada ainda parcialmente vestida, com sua camisa e roupa de baixo enroladas em seu pescoço. Um par de shorts verdes estava sobre sua pélvis, com o cordão desamarrado. Várias jóias e duas moedas foram encontradas perto do corpo. O par de jeans pink não combinava com a descrição do desaparecimento de Simone, e sim com o de outra alemã, Anja Habschied. Ela e seu namorado, Gabor Neugebauer, estavam desaparecidos desde dezembro de 1991.
Simone Loretta Schmidl
Nas análises feitas pelo legista Dr. Bradhurst no corpo de Simone, não restaram dúvidas de que se tratava do mesmo assassino.
Não havia ferimentos no crânio. O peito e as costas mostravam inúmeras facadas, dos lados direito e esquerdo, frente e costas, incluindo o famoso corte da espinha dorsal.
Antes de terminar sua análise, o Dr. Bradhurst foi chamado novamente na floresta: mais dois corpos haviam sido encontrados!
A Cena do Crime
No fim da área demarcada no mapa da polícia como “área A” estavam os corpos de Gabor e Anja, como depois ficou confirmado pelos registros dentários.
Os restos mortais de Gabor estavam embaixo de uma pilha de folhas, parcialmente cobertos por um grande tronco de árvore. Foram necessários vários policiais para que o tronco fosse afastado do corpo.
O esqueleto estava completo, com os restos das roupas ainda aparentes, inclusive uma calça jeans com o zíper aberto e o botão fechado. Este parecia ser o modo como o assassino assinava seus crimes.
O segundo corpo tinha as roupas levantadas até os ombros, e nenhuma roupa íntima foi achada por perto. O jeans pink tinha sido deixado longe dali.
A 60 metros do local dos corpos, foram localizadas 90 cápsulas de balas deflagradas e pacotes vazios de munição. Depois de serem examinadas no microscópio, a balística concluiu que essas balas eram as mesmas encontradas perto do corpo de Joanne Walters. A mesma arma que havia matado Joanne Walters foi utilizada a apenas 60 metros dos restos mortais de Anja e Gabor...
Anja Habschied
A novidade nesta cena é que estavam faltando o crânio e as primeiras duas vértebras do esqueleto feminino. O Dr. Bradhurst deduziria depois que a cabeça da moça foi separada do corpo por um instrumento afiado, provavelmente um machado ou uma espada. O ângulo de decapitação indicava que a vítima estava de joelhos com a cabeça abaixada quando o corte foi feito.
Eram os sinais de uma decapitação ritual. Nenhum outro ferimento era evidente.
Gabor Kurt Neugebauer
Ao examinar o corpo de Gabor, o Dr. Bradhurst descobriu que sua boca continha duas mordaças: uma amarrada sobre a boca, com um nó “reef”, e outra dentro da boca. Desta vez, a mordaça estava amarrada com um nó diferente das outras: um nó “granny”
Gabor havia sido estrangulado, fato concluído observando-se a fratura do osso hióide, na garganta, o que ocorre em decorrência de estrangulamento manual.
A mandíbula estava fraturada em vários lugares. O crânio mostrava seis entradas de balas, três pelo lado posterior esquerdo e as outras por baixo. Um buraco de saída foi encontrado do lado direito. Quatro balas foram recuperadas de dentro do crânio de Gabor, e uma quinta se alojou nos ossos da parte de cima do corpo.
Um especialista em balística não encontrou nada mais na cena do crime, e o alinhamento entre os buracos de entrada e saída de balas no corpo de Gabor indicava que ele havia sido alvejado sete vezes. Concluiu-se que ele não havia sido morto no mesmo local em que seu corpo foi encontrado.
A Investigação
A mais terrível conclusão dos médicos e investigadores foi que sete pessoas haviam sido assassinadas de várias maneiras pelo mesmo homem: espancadas, estranguladas, alvejadas por arma de fogo, esfaqueadas e decapitadas. A maioria foi molestada sexualmente de alguma maneira, homem ou mulher.
Como o número de ferimentos era crescente em cada vítima, o time de investigação deduziu que o assassino passava cada vez mais tempo com elas. Esse fato indicava que, além de cruel e sádico, era calculista e tinha um bocado de autoconfiança!!!
A força-tarefa para investigar o crime era tão grande que a confusão eventual era inevitável. Perdiam-se dados importantes.
Dois telefonemas vitais efetuados para a força-tarefa passaram despercebidos.
O primeiro era de uma mulher, pedindo para a polícia verificar o antigo patrão de seu namorado. Ele era um homem estranho, que tinha uma propriedade perto da floresta, guiava um carro tipo 4x4 e colecionava armas. Seu nome era Ivan Milat.
O segundo telefonema foi dado por Joanne Berry, contando a história da carona que havia dado para um inglês mochileiro que havia sido atacado... lembram-se? O oficial que pegou seu depoimento não anotou seu nome ou endereço, apenas agradeceu e desligou o telefone.
As buscas oficiais foram suspensas em 17 de novembro de 1993. Não foi encontrado mais nenhum corpo ou evidência.
Em dezembro daquele ano, as pistas não pareciam levar a lugar nenhum. Os telefonemas dados à linha quente da polícia foram listados, e 200 deles foram selecionados como importantes. Todos foram relidos e reavaliados. Os depoimentos de Paul Onions e Joanne Berry foram separados. Paul também havia ligado para a Austrália depois das notícias internacionalmente divulgadas, relatando sua história.
1994
No ano de 1994, 37 detetives trabalhavam nas investigações do assassino de mochileiros. Em três depoimentos revistos por eles constava o nome Milat.
Logo descobriram que se tratava de uma enorme família: uma viúva já de idade com 14 filhos, homens e mulheres.
As pesquisas da polícia mostraram que todos os homens integrantes da família Milat eram familiarizados com armas de fogo desde a mais tenra idade. Todos gostavam de atirar e colecionar armas.
O pai, Stephen Milat, era imigrante croata, que serviu no exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial. Educou os filhos sob disciplina militar.
A polícia também levantou os endereços dos irmãos, e muitos deles viviam em subúrbios perto de Sydney, próximos aos locais onde os mochileiros assassinados tinham pegado carona pela última vez.
A atenção dos investigadores logo se prendeu nos dois irmãos mais velhos, Richard e Ivan. Ambos haviam trabalhado juntos numa empresa de nome “Readymix”.
Em seus questionamentos na empresa, souberam que os irmãos Milat tinham trabalhado ali ao mesmo tempo. Ivan era trabalhador duro e respeitado, enquanto seu irmão Richard era lembrado como meio louco e imprevisível.
A ficha de trabalho dos dois homens foi requisitada. Na sua conferência, Richard estava trabalhando em cada ocasião pesquisada pela polícia. O mesmo não acontecia com Ivan.
A folha de serviço de Ivan Milat mostrava que ele estava de folga em cada ocasião em que houve um desaparecimento e morte de mochileiro. Ele acabava de se tornar o suspeito nº 1 da polícia.
Ivan Milat
O detetive Wayne Gordon, responsável por investigar a família Milat, logo descobriu que Ivan era um trabalhador de estradas, ávido caçador, não fumante e abstêmio.
Ao verificar seus antecedentes criminais, descobriu-se que havia sido condenado por vários crimes, e passado anos na prisão. Nenhum de seus crimes anteriores indicavam que ele se tornaria um serial killer.
Gordon aprofundou sua pesquisa, e logo se arrepiou com o resultado: em 1971, Ivan tinha dado carona para duas mochileiras, de Liverpool para Melbourne. Foi acusado de estuprar uma delas. As duas garotas testemunharam que ele estava armado com uma faca e carregava vários metros de corda no carro. Ivan Milat havia sido inocentado desse caso por falta de provas.
O suspeito foi colocado sob vigilância durante as 24 h do dia, por uma equipe de quatro policiais. Este esquadrão ficou conhecido como “Dog Squad”, e não saía da cola de Milat nenhum segundo.
Foram chamados o Dr. Rod Milton e o Dr. Richard Basham, psiquiatras, além de Robert Young, sociólogo e analista de dados. Os investigadores queriam saber qual era o motivo dos crimes.
Todos os depoimentos já dados para a polícia foram examinados por esta equipe. Um deles chamou a atenção do Dr. Basham: o de um homem chamado Alex Milat. Ou aquele senhor tinha memória fotográfica, para que se lembrasse de tantos detalhes com perfeição, ou... teria participado dos acontecimentos!
O Dr. Basham também concluiu que mais de uma pessoa estava envolvida nos assassinatos, talvez um irmão. Milton contou a teoria para o detetive superintendente Clive Small, responsável pelas investigações, dizendo a ele que os irmãos Milat poderiam sair juntos para caçar ou praticar tiro ao alvo em latas e garrafas. Small logo se lembrou dos Milat que Gordon estava investigando.
O uso de um silenciador, comprovado pela balística, fez com que os dois doutores concordassem que aquele assassino vivia em um mundo de fantasias. Também deduziram, pelo material estudado, que o criminoso provavelmente possuía uma motocicleta.
Outra dedução era que o criminoso se considerava acima da lei.
O Dr. Milton sugeriu que o criminoso não necessariamente morava na floresta, mas devia ir até lá com freqüência ou ter alguma propriedade alugada naquela área. Depois de estudar vários mapas, deduziram que o assassino provavelmente vivia no norte. O fato de que todas as vítimas haviam sido vistas perto de Liverpool e que seus corpos foram encontrados na Floresta de Belangalo corroborou essa teoria.
Cada vez mais a família Milat se encaixava no perfil montado por aqueles especialistas.
Os investigadores conseguiram os registros de todos os carros que os irmãos Milat possuíram no passado. Um dos veículos, um Nissan Patrol 4x4 que havia pertencido a Ivan Milat, foi localizado com o novo dono. Ele mostrou à polícia uma bala encontrada embaixo do banco do motorista. Era uma calibre .22, mais tarde analisada e análoga com as das caixas vazias de balas encontradas nas cenas dos crimes.
Também descobriram que eles tinham em seu nome uma pequena propriedade a 37km de Belangalo.
O detetive Gordon continuava a juntar evidências, mas precisava de alguma coisa que amarrasse todas elas, que colocasse Ivan Milat e seu veículo na cena do crime.
Em 13 de abril de 1994, Gordon encontrou o relatório do telefonema de Paul Onions, cinco meses antes, para a linha quente da polícia. Ao lê-lo, reconheceu em Paul uma testemunha com credibilidade suficiente e levou a informação imediatamente para seu chefe, Clive Small.
Este, ao perceber a importância da evidência perdida até ali, ficou furioso. Pediu os originais do boletim de ocorrência de Paul Onions da delegacia de Bowral.
Sabendo que os dois irmãos Milat, Richard e Ivan, eram fisicamente muito parecidos, checaram que, na data do ataque a Paul, Richard estava trabalhando, mas Ivan estava de folga. Também descobriram que Ivan estava trabalhando na área de “Galston Gorge” quando a mochila de James Gibson foi encontrada perto dali.
Vários colegas de trabalho de Ivan Milat foram entrevistados, e todos contaram à polícia sobre seu interesse por armas. Um amigo dele, Tony Sara, disse aos investigadores que Ivan também possuía uma motocicleta, além de um verdadeiro arsenal de armas em sua casa. Ivan, em conversa com ele, também tinha se referido de maneira estranha e misteriosa à Floresta de Belangalo.
No fim do mês de abril, a polícia contatou Paul Onions na Inglaterra, pedindo que ele fosse até Sydney o mais rápido possível.
Ao chegar, mostrou aos investigadores todo o caminho que andou no carro de seu agressor, além do local onde havia escapado, que ficava distante l,5km da entrada da floresta.
No dia seguinte, 13 fotos numeradas de suspeitos foram mostradas a Paul Onions. Ele separou duas, resolvendo-se depois pela de nº 4: Ivan Milat.
Small tinha agora evidências suficientes para prender Milat pelo ataque a Paul Onions. Conseguiram um mandado de busca para a sua residência, para a de sua mãe e irmãos, pois se suspeitava que ele não agia sozinho.
A logística para que todas as buscas dessem certo foi extremamente complicada. Trezentos oficiais de polícia estariam envolvidos na caça, e para que o sigilo fosse mantido, a maioria não foi informada do local e hora das buscas.
Como as horas de trabalho de Ivan não eram regulares, foi decidido que sua casa seria vasculhada às 6h30min do dia 22 de maio de 1994, um domingo.
O Dr. Rod Milton instruiu o chefe das negociações, Wayne Gordon, para a rendição de Milat, sobre qual deveria ser a melhor maneira de aproximar-se de Ivan, que seria contatado por telefone. Milton sugeriu que Gordon usasse um tom de voz firme e autoritário, pois acreditava que Milat tentaria exercer o controle da situação.
A turma de vigília na casa de Milat reportou à polícia que sua namorada, Chalinder Hughes, também estava lá dentro. O plano era pedir a eles que calmamente viessem para fora, efetuar a prisão e fazer a busca, tudo nesta ordem.
Precisamente às 6h36min, o time inteiro da polícia estava no local. O detetive Gordon discou o número de telefone de Ivan Milat. Uma voz de homem atendeu a chamada. Quando perguntado se quem falava era Ivan Milat, o homem respondeu que... NÃO!!!
Gordon confirmou o endereço. Estava correto. Apresentou-se, e avisou ao homem que a polícia já tinha cercado sua casa, e que estavam de posse de um mandado de busca, o qual pretendiam executar. Ele aconselhou a Ivan que saísse com sua namorada, e se rendesse à polícia. Ivan murmurou alguma coisa, e desligou o telefone.
Depois de vários minutos, nada havia acontecido. Gordon então telefonou novamente para Milat, perguntando por que não havia saído. Este respondeu que tinha achado que aquilo era um trote. Gordon esclareceu que nunca falara tão sério em toda a sua vida.
Alguns minutos depois, a porta da casa se abriu, e ele e a namorada se entregaram para a polícia. Ivan foi algemado e informado de seus direitos. A busca em todas as casas da família Milat teve início.
A Busca
O primeiro item encontrado na casa de Ivan foi uma bala, em um dos quartos. A polícia perguntou a Ivan se ele possuía armas de fogo. Ele negou. Quando perguntado sobre a bala, disse que devia ser da ocasião em que havia saído para atirar com o irmão.
Os quartos foram vasculhados. No segundo quarto, dois sacos de dormir estavam guardados no armário. Depois, seriam identificados como pertencentes a Simone Schmidl e Deborah Everist.
Em outro quarto, uma bolsa contendo vários artigos pessoais parecia ser a maleta de trabalho de Ivan. Ele confirmou. Na bolsa, foi encontrada uma faca “Bowie” com 12 polegadas de comprimento.
No mesmo local, havia um manual técnico para a utilização de uma Ruger .22. Ivan recusou-se a comentar o achado.
Havia também um álbum com fotografias bastante esclarecedoras: uma delas mostrava Ivan em sua motocicleta, armado de sua Colt .45, mesma arma descrita por Paul Onions.
Mais tarde acharam uma caixa de munição para esta arma.
Também havia uma foto de Chalinder Hughes, namorada de Ivan, vestida com um top Benetton idêntico ao que pertencia a Caroline Clarke.
A próxima busca se deu na garagem, onde estava uma capa de saco de dormir contendo uma barraca enrolada. Em volta dela, uma bandana roxa idêntica à que estava amarrada ao redor do crânio de Simone Schmidl. Quando Milat foi questionado, disse nunca ter visto aquela barraca antes. Dentro de uma fronha de travesseiro, encontraram faixas similares àquelas com que os corpos foram amarrados. Uma delas estava manchada de sangue, que depois se comprovou ser de Caroline Clarke.
Outro item encontrado foi o rifle Ruger .22. Ele estava desmontado, escondido num porão de inspeção do telhado da garagem, juntamente com uma revista sobre a arma.
Milat foi levado para a delegacia de Campbelltown, onde foi interrogado. O interrogatório foi gravado em vídeo e áudio, e durante todo o tempo Ivan não cooperou em nada. Os trabalhos se encerraram uma hora depois, e Ivan Milat foi acusado formalmente de roubo e tentativa de homicídio de Paul Onions.
As buscas na casa dos Milat continuaram. Foram encontradas, na casa de Ivan, fitas elétricas, cabos e um saco de cordas azuis e amarelas, semelhantes àquelas encontradas na cena de um dos crimes. Outras partes do rifle Ruger .22 também foram encontradas, além de equipamentos de camping e cozinha, pertencentes a Simone Schmidl.
Conforme as buscas progrediam, mais e mais evidências eram descobertas: a câmara fotográfica de Caroline Clarke, um cantil com um nome apagado (Simi), uma arma Browning automática, rifles, revólveres, facas e uma incrível quantidade de munição. Um dos objetos encontrados que mais impressionou os investigadores foi uma espada curva de cavalaria, provavelmente utilizada na execução de Anja Habschied. A espada foi encontrada trancada em uma vitrine na casa de Margaret Milat, mãe de Ivan.
A balística depois comprovaria que as balas extraídas dos corpos das vítimas procederam da Ruger de Milat.
Na propriedade rural de Walter, foram encontradas armas e munição, além de partes do rifle de Ivan. Três meses antes de ser preso, Ivan, Richard e Walter teriam levado caixas de munição e revólveres da casa de Ivan em Sydney para uma alcova escondida na casa de seu irmão. Também ali foi encontrada uma mochila que pertencia a uma das vítimas. Quando questionado, Ivan disse nada saber sobre aquela mochila, que nunca havia visto aquele objeto. Walter alegou que a mochila veio com as caixas de munição e armas trazidas da casa de Ivan.
O Julgamento
Ivan Robert Marko Milat foi formalmente acusado pelo assassinato dos sete mochileiros. Desconfia-se que, antes de matá-los, gostava de caçá-los.
A primeira testemunha a depor no julgamento do pior assassino da história da Austrália foi Paul Onions, que identificou positivamente Ivan Milat como o homem que o atacou.
Depois disso, os pais de cada vítima foram chamados para subir ao banco de testemunhas. Todos na corte se emocionaram ao ouvir os relatos das últimas vezes que aqueles pais viram seus filhos vivos.
O júri foi levado para a Floresta Belangalo, a 100km de Sydney, para que visse a cena dos crimes e conseguisse entender melhor todas as evidências que seriam expostas. Foram apresentadas ao júri, num total de 356, e centenas de fotografias foram explicadas em detalhes.
Houve uma grande comoção quando o Dr. Bradhurst mostrou a camiseta toda esfaqueada de Joanne Walters e a espada que provavelmente decapitou Anja Habschied. A cabeça de Anja nunca foi encontrada.
Outro depoimento que chamou a atenção de todos foi o da ex-esposa de Ivan, Karen Milat, divorciada dele desde 1989. Ela descreveu o ex-marido como um homem atlético, que praticava halteres todas as noites, e que só se separava de suas armas quando ia tomar banho. Ivan dormia com uma arma debaixo do colchão, tinha outra sob o assento de seu carro e, até quando ia ao cinema, usava uma arma enfiada na calça jeans ou nas botas. Ivan negou essas declarações, mas a mala descrita por Karen como aquela que ficava embaixo da cama guardando a arma dele, foi trazida como prova. Era idêntica à descrição feita pela moça.
Karen também descreveu o acusado como ávido matador de cangurus, coisa de que se orgulhava, tanto que chegou a levá-la junto com o filho Jason para ver uma demonstração de suas habilidades na mesma floresta em que se deram os crimes. O que mais espantou Karen foi que Ivan não precisava de mapas para andar nas trilhas internas da Floresta de Belangalo.
A defesa tentou desesperadamente provar que o responsável pelos assassinatos não era Ivan, e sim Richard e Walter Milat. Estes teriam “plantado” provas na casa do irmão para incriminá-lo.
Doze semanas de julgamento, 145 testemunhas... a acusação terminou de expor seu caso.
A primeira testemunha de defesa a ser chamada foi o próprio Ivan Milat. Ele negou cada acusação que lhe foi feita. Ao ser questionado sobre como tantas evidências foram parar em sua casa, Ivan respondeu que alguém pretendia fazer com que ele parecesse mau.
Também foi chamada como testemunha a cunhada de Ivan, Carolynne Milat. Ela havia alterado datas de fotos no álbum de família, para que servissem de álibi para o cunhado. As fotos em questão, em que Ivan aparecia numa confraternização familiar, tinham se dado na Páscoa de 1991. Carolynne havia dito para a polícia que as fotos eram de 1992, para que Ivan tivesse um álibi na data do desaparecimento de Joanne Walters e Caroline Clarke.
Carolynne Milat também testemunhou sob juramento que Ivan teria passado todo o dia 26 de janeiro de 1993 com a família. Era a data do desaparecimento dos mochileiros alemães.
Os irmãos Milat eram tão unidos, que trocaram seus nomes com freqüência nas declarações dadas à polícia e ao júri, confundindo a todos com a intenção de beneficiar Ivan.
Na 15a semana de julgamento, começaram os pronunciamentos finais. Em 27 de julho de 1995, o júri considerou por unanimidade que Ivan Milat era culpado.
Ivan, que já havia ficado em completo silêncio durante todo o julgamento, não demonstrou qualquer emoção.
Pelo ataque a Paul Onions, Milat foi condenado a seis anos de prisão. Pelos sete assassinatos, uma sentença de prisão perpétua para cada um deles, ou seja, ficará preso até a sua morte.
Foi levado para uma prisão de segurança máxima em Maitland, sudoeste de Sydney. Pareceu óbvio até para o juiz que ele não teria cometido os crimes sozinho. Existem mais de uma dúzia de mochileiros australianos, japoneses e europeus desaparecidos na mesma região nos últimos 15 anos.
Diane Pennacchio, 29 anos, desaparecida depois de sair de um bar em Camberra, teve seu corpo encontrado em 1991. A forma como estava disposto era exatamente igual à de todas as vítimas de Ivan Milat: foi esfaqueada, estava de bruços ao lado de um tronco de árvore caído, com as mãos atrás das costas. Um dossel triangular de gravetos foi construído sobre seu corpo, e sobre ele folhas de samambaia. Perto do corpo, foram encontrados restos de uma fogueira feita de pedras formando um círculo perfeito.
Ivan Milat agia sozinho? Será que algum dia se provará que um de seus irmãos era seu cúmplice?
Em 17 de maio de 1997, envolveu-se numa tentativa de fuga, e foi transferido para a prisão de Goulburn, local de segurança máxima ao lado da Floresta Belangalo.
Até hoje ele alega ser inocente, e formou um grupo que luta pela sua soltura junto ao governo australiano. Milat sempre declarou que fugirá na primeira oportunidade que tiver. A polícia ainda investiga se a família de Ivan tomaria parte nessa investida.
Parece impossível para todos que apenas um homem conseguiria dominar sempre duplas ou trios, como no caso dos mochileiros alemães. O pai de Gabor chegou a declarar para a imprensa que achava difícil que apenas um homem conseguisse dominar seu filho ao mesmo tempo que subjugava Anja. Ele era bastante forte e bom de briga.
A prova cabal contra Ivan nestes crimes foi seu reconhecimento por Paul Onions, que o colocou na cena do crime e modus operandi similar. Todas as outras provas são circunstanciais, e isoladamente talvez não o tivessem condenado.
Outro irmão de Ivan, Bóris Milat, que se afastou da família, declarou para a mídia que ninguém pode imaginar a violência de sua família. Ele acredita que tenham matado pelo menos 28 mochileiros, mas não tem fatos nem provas para fundamentar suas suspeitas.
A polícia australiana ainda tenta obter provas que comprometam Walter ou Richard Milat. Os seis fios de cabelo castanho-claro encontrados nas mãos de Joanne Walters foram examinados por laboratórios forenses, na tentativa de extrair seu DNA e confrontá-los com os do suspeito. Quatro fios foram danificados nessas tentativas, e agora a polícia espera que novas técnicas sejam desenvolvidas para testar os dois fios restantes sem o risco de ficar sem provas.
Muitos mochileiros que viajavam pela Austrália continuam desaparecidos. Ninguém sabe o que teria acontecido a eles.
Ivan Robert Marko Milat continua preso na Penitenciária de Segurança Máxima em Goulburn, Austrália.
Em fevereiro de 2001, foi levado às pressas para o hospital da penitenciária, depois de ter informado às autoridades que havia ingerido lâminas de barbear, grampos para papel e uma pequena corrente que unia dois cortadores de unha.
Em maio de 2001, engoliu uma mola da descarga da privada de sua cela. Segundo Milat, estes atos de automutilação fazem parte de uma campanha para que sua apelação seja ouvida pela Corte Superior da Austrália. Já as autoridades da penitenciária Supermax, de Goulburn, acham que o objetivo deste facínora é ser transferido para um hospital ou outra penitenciária, o que facilitaria sua fuga. Esta teoria ganhou peso quando os médicos descobriram que Milat havia embrulhado as lâminas de barbear com plástico adesivo antes de engoli-las, e por isso não sofreu danos em seu trato digestivo. O pior serial killer da Austrália hoje varre o chão da cadeia e, infeliz, tenta manipular o sistema penitenciário.
Em novembro de 2002, processou o Estado por desrespeito à sua privacidade ao permitir a publicação das fotos dos raios-x a que foi submetido quando se automutilou. Por causa desse processo, discute-se hoje, na Austrália, até onde vão os direitos de quem cometeu assassinatos tão brutais.
Em dezembro de 2003, Ivan Milat foi interrogado sobre o desaparecimento de duas enfermeiras em 1980: Gillian Jamieson e Deborah Balkan. Colegas de quarto, as jovens de 20 anos de idade desapareceram depois de terem sido vistas saindo do Hotel Tollgate, em Parramatta, Sydney. Elas estavam acompanhadas por um homem vestindo sujas roupas de trabalho e usando chapéu preto estilo caubói. Nessa época, Milat usava um chapéu similar e trabalhava a menos de 2 quilômetros do local, no Departamento de Estradas Principais, em função braçal.
Milat também é o principal suspeito na morte de outro mochileiro, Peter David Letcher, de Bathurst. Ele foi encontrado morto por tiro, na Floresta Estadual de Jenolan, em 1988.
Fonte: Livro Serial Killer - Louco ou Cruel? de Ilana Casoy
IVAN MARKO MILAT - O Assassino de Mochileiros
IVAN ROBERT MARKO MILAT
1990 — Delegacia da Cidade de Bowral — Austrália
Entram na delegacia um homem e uma mulher, Paul Onions e Joanne Berry. O rapaz está bastante aflito. Conta sua história para o investigador de plantão.
Paul, inglês, resolveu passar suas férias na Austrália, levando apenas uma mochila e pouco dinheiro. Sua intenção era conhecer o país pegando carona. Era um método barato e eficiente.
Na estrada, esperando ter um pouco de sorte, ficou aliviado ao ver um carro parar. O motorista era bem apessoado, musculoso e usava bigodes estilo “Zapata”. Simpático, concordou em dar carona a Paul.
No caminho, iniciou-se uma agradável conversa. O homem disse ser divorciado, descendente de iugoslavos e proprietário de terras perto de Liverpool. Paul também contou que veio da Inglaterra para aproveitar bem suas férias, conhecendo a Austrália. Não, não tinha nenhum parente ou amigo naquele país.
No meio da conversa, e antes que Paul percebesse o que estava acontecendo, o homem tirou uma arma de baixo do banco do carro e anunciou um assalto.
Paul, assustado demais para lembrar-se das recomendações de nunca reagir a um assalto, agiu por puro reflexo: abriu a porta do carro, pulou para fora e começou a correr desenfreadamente pela estrada.
Joanne Berry vinha pela mesma estrada, quando viu o rapaz entrar com desatino na sua frente. Freou o mais rápido que pôde, desconfiada.
O rapaz, desesperado, disse estar sendo perseguido por um assaltante, e implorou sua ajuda. Joanne, ao mesmo tempo penalizada e desconfiada, resolveu ajudar. Deixou o moço entrar no seu carro e levou-o até a delegacia mais próxima onde fizeram um boletim de ocorrência.
16 de Setembro de 1992 — Floresta de Belangalo — Austrália
Sábado. Ken Seily e Keith Caldwell, parceiros de motocross, participavam de uma corrida na mata. Numa de suas paradas, sentiram um forte odor de carniça. Ao procurarem por uma carcaça de animal, encontraram o que parecia ser restos mortais humanos.
Assim que a corrida terminou, a polícia de Bowral foi informada sobre os restos mortais encontrados na Floresta de Belangalo.
Para investigar a cena do crime descoberta pelos dois motoqueiros, foi designada uma unidade policial de Goulburn, a maior e mais próxima cidade de Bowral, juntamente com uma equipe de investigadores de homicídios. Naquele momento, nenhum deles tinha idéia de que estava se iniciando a maior investigação criminal da história australiana.
Sua primeira providência foi imediatamente levantar se havia mochileiros desaparecidos naquela área.
No dia seguinte, a 40 metros da cena do crime que estava sendo analisada, outro corpo foi encontrado. Estava parcialmente encoberto por um tronco de árvore, e só se via um pedaço de perna e um sapato, saindo por debaixo das folhas secas espalhadas pelo chão.
A mídia logo sugeriu que seriam os corpos de duas mochileiras inglesas que haviam desaparecido na Austrália cinco meses antes: Caroline Clark e Joanne Walters. Elas haviam partido juntas de King Cross em direção ao sul, tentando encontrar trabalho para pagar suas despesas de férias.
Antes que a identidade das vítimas fosse confirmada, a notícia já tinha se espalhado pelo mundo. Várias famílias começaram a acompanhar o noticiário atentamente.
A família Neugebauer, na Alemanha: seu filho Gabor e a namorada Anja sumiram sem deixar vestígios depois de sair de um albergue para mochileiros em King Cross, em 26 de dezembro de 1991.
A família Schmidl, de Regensburg, perto de Munique: sua adorada filha Simone havia desaparecido ao sair de Sydney, em 1991.
A família Everist, de Frankston, Vitória, Austrália, que não tinha notícias de sua filha Deborah e seu amigo James Gibson desde 1989.
Em 20 de setembro de 1992, a polícia identificou os corpos como sendo de Caroline Clark e Joanne Walters.
Os pais de Joanne, já completamente desesperados com o desaparecimento da filha, encontravam-se na Austrália, onde alugaram uma van para tentar, sozinhos, encontrar sua menina.
Ian e Jackie Clarke, pais de Caroline, receberam a triste notícia pelo telefone. Voaram imediatamente da Inglaterra para a Austrália.
Quando as autópsias foram feitas, ficou claro que as duas meninas tinham sido assassinadas de forma violenta e cruel.
Joanne Lesley Walters
Joanne tinha sido esfaqueada repetidamente no coração e nos pulmões. Os cortes eram tão profundos, que um deles seccionou sua espinha dorsal.
Ela ainda usava suas jóias; vestia blue jeans e sapatos pretos. Curiosamente, o zíper de sua calça estava aberto, mas o botão não.
Seu corpo estava em adiantadíssimo estado de decomposição. Foi pesada e radiografada, em busca de balas ou outros objetos metálicos, mas nada foi encontrado.
O Dr. Peter Bradhurst, legista encarregado do caso, iniciou então um exame externo, buscando quaisquer evidências que pudessem trazer alguma pista para as investigações.
As mãos e roupas de Joanne continham cabelos escuros. Um pedaço de pano usado como mordaça foi retirado de seu crânio, e outros restos de pano foram encontrados em sua garganta, sugerindo claramente tratar-se de um caso de estrangulamento.
No exame interno não foram encontrados sinais de penetração vaginal ou anal, mas o grave estado de decomposição do corpo poderia facilmente mascarar esses fatos.
Amostras de unha e cabelo foram retiradas e arquivadas. Também foi feita uma lâmina com material vaginal, pois indícios de sêmen podem ser descobertos até meses depois da morte.
O peito de Joanne mostrava três facadas do lado direito, uma do lado esquerdo e uma no pescoço. Quando o corpo foi virado de bruços, o Dr. Bradhurst não pôde acreditar no que via... Mais duas facadas do lado esquerdo, cinco do lado direito e duas na espinha, na base do pescoço. Ao todo, foram contadas e medidas 14 facadas, cinco delas propositadamente tinham atingido a espinha dorsal. O Dr. Bradhurst conjeturou se o assassino primeiro paralisou sua vítima, para depois esfaqueá-la até a morte.
Duas costelas de Joanne foram totalmente cortadas. Mãos e braços não continham ferimentos defensivos, daqueles que aparecem quando as pessoas tentam se defender de um ataque à faca com as mãos. Este fato e as amarras de tecido corroboravam a teoria de que o assassino estava em pleno controle da situação no momento do crime.
As medidas e o formato dos cortes indicavam que uma faca Bowie ou similar havia sido utilizada.
Caroline Jane Clarke
Caroline havia sido esfaqueada e levou inúmeros tiros na cabeça.
Debaixo de sua cabeça, foram encontrados três cartuchos de bala.
Em seu corpo, mais quatro balas. O estado de decomposição do corpo de Caroline era mais grave do que o do corpo de Joanne.
Os braços de Caroline estavam estendidos acima da cabeça, que estava envolvida por um pano vermelho. Os buracos de bala eram visíveis no tecido, indicando que sua cabeça estava coberta no momento dos tiros.
O pano foi cuidadosamente removido da cabeça de Caroline, deixando à mostra 10 buracos de entrada de balas, e apenas quatro de saída. Quatro cartuchos completos de calibre .22 foram retirados de dentro de seu crânio. Sua face e maxilares estavam esmigalhados, como resultado dos estragos provocados na saída das balas.
Caroline tinha levado uma facada na base do pescoço, idêntica àquela sofrida por Joanne.
As balas foram imediatamente enviadas para testes balísticos, e posteriormente foi concluído que os tiros foram dados de três direções diferentes. O estranho é que as balas foram encontradas todas juntas, indicando que o assassino tinha utilizado a cabeça de Caroline como um alvo, apenas mudando a posição de tiro. Até os profissionais forenses mais experientes ficaram chocados com a violência e crueldade dos crimes.
A Cena do Crime
Distante aproximadamente 4 metros do corpo de Caroline Clarke, os detetives encontraram seis bitucas de cigarro, todas da mesma marca. Obviamente, o assassino havia passado bastante tempo ali.
Não muito longe, acharam o cartucho deflagrado de uma arma calibre .22, e perto dele um plástico verde do tamanho de uma moeda.
Especialistas em balística exploraram a área com um detector de metais, até recolherem mais nove cartuchos da mesma arma, a menos de 4m do corpo de Caroline.
Restos de uma fogueira feita de pedras estavam a 35m da cena do crime.
A polícia vasculhou toda a área, procurando mais corpos e objetos pessoais das vítimas. Nada encontrou. Anunciaram para a mídia que, naquela área, nenhum corpo mais seria encontrado, declaração que colocaria o departamento de polícia de New South Valley em maus lençóis pouco tempo depois.
O Perfil do Criminoso
Sem conseguir mais nenhuma pista, os trabalhos da polícia na captura do assassino de Caroline Clarke e Joanne Walters estavam completamente emperrados. Foi chamado então o Dr. Rod Milton, psiquiatra forense com 20 anos de experiência, para fazer o perfil criminal.
Em 1989, o Dr. Milton tinha tido sucesso ao montar o perfil de John Wayne Glover, que havia estrangulado seis senhoras de idade avançada e foi capturado graças à sua ajuda.
O Dr. Milton foi até a cena do crime, pois, apesar da farta documentação, preferia trabalhar in loco para obter deduções precisas sobre o assassino em questão. Depois de andar calmamente por ali durante bastante tempo, sentou-se no local para tentar imaginar a seqüência dos fatos, por que a escolha daquele local e do modo e quais seriam as motivações do assassino.
Sua primeira conclusão foi a de que a área escolhida era familiar ao assassino, que raramente age em áreas que não conhece, e aquele não era um crime de oportunidade, e sim um assassinato planejado com extremo cuidado.
Seu passo seguinte foi comparar o modo como as duas vítimas haviam sido mortas.
Caroline Clarke foi morta de modo frio e calculado. A maneira como o pano vermelho envolvia sua cabeça indicava que o assassino tinha a intenção de despersonalizá-la antes de matá-la. O ângulo dos tiros sugeria que ela estava de joelhos quando foi dado o primeiro tiro. Suas roupas estavam intactas, exceto pelo fecho frontal de seu sutiã, que estava aberto. Suas roupas da parte inferior do corpo estavam intocadas na hora de sua morte, o que demonstrava que aquele não era um crime de motivação sexual. Tratava-se de uma execução.
O ferimento de faca nas suas costas havia sido feito após a sua morte, para demonstrar que o assassino estava no total controle da vítima durante o crime. Se assim não fosse, havia um cúmplice.
A maneira como foi encontrado o corpo de Caroline, com os braços acima da cabeça, também indicava para o Dr. Milton que o assassino havia planejado e controlado todo o crime, com a vítima suplicando por sua vida até ser morta.
O local e o modo como o corpo de Joanne Walters foi encontrado indicavam uma situação totalmente diferente. Aqui, em comparação com o assassinato de Caroline, havia marcas de frenesi e ódio descontrolados.
O desarranjo das roupas de Joanne indicava um ataque sexual. Sua camiseta e sutiã estavam puxados para cima, com o fecho do sutiã ainda abotoado. O zíper da calça estava aberto, mas o botão fechado. Nenhuma calcinha foi encontrada no corpo ou nas proximidades.
O Dr. Milton teorizou que as calças de Joanne não foram tiradas, pois seus sapatos estavam calçados e amarrados. Deviam ter sido simplesmente abaixadas para permitir o ato sexual antes ou depois da morte. A calcinha provavelmente havia sido cortada, arrancada e levada como troféu.
O único motivo no qual o Dr. Milton pôde pensar para a motivação do crime foi... prazer!
Se havia dois assassinos envolvidos neste crime, então um era mais velho e dominante e o outro, apesar de igualmente sádico, mais submisso. Sugeriu que poderia se tratar de dois irmãos, que dividiam o mesmo interesse por armas de fogo e caça, além de anteriormente já terem se envolvido em crimes sexuais, juntos ou separadamente.
Segundo o perfil elaborado, o assassino:
Seria morador de área semi-rural.
Estaria empregado em trabalho de média habilidade, provavelmente externo.
Estaria envolvido numa instável e insatisfatória relação.
Seria homossexual ou bissexual.
Teria histórico de agressão a autoridades.
Teria entre 30 e 40 anos.
Em nenhum momento, o Dr. Rod Milton imaginou que se tratasse de um assassino serial. Com o fim do ano se aproximando e o caso longe de uma solução, os investigadores começaram a pesquisar crimes parecidos.
Outubro de 1993
Bruce Pryor, morador local da Floresta de Belangalo, coletava lenha nas proximidades de sua casa sempre que podia. Acompanhou minuciosamente o noticiário sobre os corpos encontrados naquela região, mas. notou que as buscas tinham diminuído consideravelmente. Não que o número de mochileiros desaparecidos fosse menor.
Foi então que decidiu, ele mesmo, em suas incursões na floresta, pesquisar áreas ainda inexploradas à procura de novas evidências. Seu trabalho teve êxito. Descobriu um esqueleto humano.
Bruce chamou imediatamente a polícia. As buscas recomeçaram, bem como a cobertura do caso pela imprensa.
Ao verificar o local para onde Bruce Pryor os levou, a polícia logo encontrou um par de sandálias e um chapéu de feltro preto. Um investigador foi mandado de volta para pesquisar os arquivos, até concluir que aquele chapéu pertencia a James Gibson, desaparecido em 1989 juntamente com sua amiga Deborah Everist.
Anteriormente, a polícia havia descartado Gibson como vítima deste assassino, uma vez que sua mochila e câmara fotográfica foram encontradas à beira de uma estrada a 120km ao norte daquela floresta. A polícia estava confusa: se Gibson era uma das vítimas ali encontradas, por que seus pertences estavam do outro lado de Sydney? Teria o assassino agido premeditadamente ao fazer a polícia crer que Gibson não era sua vítima?
As buscas continuaram, e logo mais um corpo foi encontrado. Foi chamado um dentista forense, para exame da cena do crime.
Os dois esqueletos estavam incompletos, o que poderia ter sido causado por animais da área.
Ao lado do primeiro esqueleto, foram encontrados uma corrente de prata, um bracelete de pedras semipreciosas e um crucifixo de prata. Devido aos tipos de objetos encontrados e ao pequeno tamanho do esqueleto, presumiu-se que se tratava de restos mortais de uma mulher.
O segundo esqueleto era maior, e ainda estava calçado com tênis brancos nos pés, devidamente amarrados. Comparando a arcada dentária documentada de James Gibson com aquele esqueleto, a identificação foi positiva.
A identificação do corpo feminino seria feita depois, mas todos tinham certeza de que se tratava de Deborah Everist.
Todos os itens da área do crime foram recolhidos, inclusive a calça jeans de Gibson, que estava com o zíper aberto, mas o botão fechado.
No dia seguinte, os legistas iniciaram seu trabalho.
James Harold Gibson
Seu esqueleto foi montado e os ossos, lavados com uma solução que evidenciaria qualquer ferimento neles.
Um ferimento à faca estava localizado no meio de sua coluna, secionando três vértebras e separando o canal da espinha dorsal. Como nas outras vítimas, o Dr. Bradhurst conjeturou que esse tipo de ferimento havia paralisado o rapaz. Fazer tamanho estrago na coluna de um jovem forte como aquele requeria força.
Dois ferimentos de faca haviam perfurado os ossos do peito de James, com cortes nas costelas. Apareciam mais cortes de faca nos lados esquerdo e direito da frente do peito, e dois mais no alto das costas. Ao todo, sete ferimentos maiores marcavam o esqueleto. Muitos outros poderiam ter sido feitos ali sem atingir nenhum osso, impossibilitando que fossem identificados tanto tempo depois da morte da vítima. O ferimento do peito foi medido, e era bastante similar àqueles encontrados nos corpos de Caroline e Joanne.
Deborah Phyllis Everist
Este esqueleto estava em péssimo estado. Parte da mandíbula estava quebrada, e faltava um pedaço. Várias fraturas foram encontradas na parte de trás do crânio. Quatro “talhos” na testa, dois de cada lado, foram constatados. Não eram profundos o suficiente para serem mortais, mas haviam marcado o crânio na linha do cabelo. Uma facada havia penetrado o corpo na região lombar, perto da espinha.
A Cena do Crime
Foi designado o superintendente Clive Small como responsável pelas investigações. A investigação foi chamada oficialmente de “task force Eyre”, nome de um lago australiano, mas informalmente logo passou a ser chamado “task force air”. Small nomeou Rod Lynch como seu auxiliar, e montaram uma equipe.
O mapa da floresta foi dividido em partes, e quarenta oficiais andaram por cada pedaço, examinando centímetro por centímetro do chão da floresta. Se algo estranho era encontrado, as equipes forenses eram chamadas imediatamente para fotografar o local, marcar posições dos objetos no mapa principal e levar a evidência.
Times acompanhados de cães especializados ajudaram nas buscas, para detectar a presença de fósforo e nitrogênio no solo, cheiros que corpos em decomposição exalam mesmo muito tempo após a morte.
A dez metros dos corpos, a polícia encontrou um sutiã preto com a marca de uma facada em um dos lados e cápsulas deflagradas pela arma do crime, que demonstravam tratar-se de uma. “Ruger” de repetição. A polícia levantou que 50.000 armas daquele tipo tinham sido importadas para a Austrália entre 1964 e 1982. Foi feita uma lista das lojas que venderam esse tipo de rifle, pois era obrigatório o registro completo da venda. Era como procurar uma agulha num palheiro, pois venda particular muitas vezes não tem registro.
Membros do clube local de tiro foram contatados, suas armas examinadas. Um dos membros comunicou à polícia que um amigo seu havia testemunhado algo suspeito na floresta, no ano anterior.
A polícia entrou em contato com o sujeito. Ele lhes deu uma acuradíssima descrição de dois veículos, um Ford Sedan e outro com tração nas quatro rodas, que havia visto entrando numa trilha da floresta. Contou em seu depoimento que, quando o primeiro carro passou, viu um homem dirigindo e no banco de trás dois homens com uma mulher entre eles. Ela estava com uma roupa amarrada em volta de sua cabeça, como se fosse uma mordaça. No segundo veículo, segundo a testemunha, havia dois homens. Um dirigia, outro estava sentado atrás com outra mulher, também amordaçada.
O homem deu à polícia detalhes de todos os ocupantes dos carros, inclusive suas roupas, cores e idade aproximada. Afirmou que, na época dos fatos, havia anotado as placas dos veículos num cartão, mas que acabou perdendo-o. Depois do depoimento oficial, a testemunha assinou: Alex Milat.
Novembro de 1993
O sargento Jeff Trichter, em suas buscas, encontrou um par de jeans femininos cor pink, juntamente com uma corda azul e amarela, largada ao acaso. Perto dali, foi encontrada uma caixa de munição calibre .22.
Ao entrar mais naquela clareira, outros artigos foram encontrados: latas vazias de bebida com furos de bala, arame enrolado em laçadas, cápsulas de balas deflagradas e garrafas vazias. No fim da clareira, restos de uma fogueira feita de pedras.
Logo adiante, no fim do caminho, jazia um osso humano. Três metros depois, um crânio. Todas as equipes foram chamadas ao local. Dentro de uma bota de caminhar de couro, outro grande osso. Nada mais foi localizado nesta área.
Ao serem levados ao laboratório forense, os ossos foram identificados como sendo femininos. A mulher parecia ter estado ali sozinha. O crânio tinha uma bandana roxa à sua volta.
De posse da bandana e das roupas encontradas, a polícia começou a procurar nas fotos de pessoas desaparecidas alguém que estivesse usando algum desses itens. Logo encontraram a fotografia da alemã Simone Schmidl em que usava uma bandana semelhante.
Outros equipamentos mencionados na queixa do desaparecimento, como uma grande mochila e equipamento para camping, não foram encontrados. Pela arcada dentária, o corpo foi oficialmente identificado como sendo o de Simone. Esta jovem aventureira, chamada carinhosamente pelos pais de “Simi”, tinha sido vista pela última vez em 20 de janeiro de 1991, em Liverpool, oeste de Sydney, caminhando em direção ao sul. Os pais de Simone, que estavam na Alemanha, souberam do caso do pior modo possível: pelo rádio. Sua filha voltou para casa apenas para ser enterrada.
Simone foi encontrada ainda parcialmente vestida, com sua camisa e roupa de baixo enroladas em seu pescoço. Um par de shorts verdes estava sobre sua pélvis, com o cordão desamarrado. Várias jóias e duas moedas foram encontradas perto do corpo. O par de jeans pink não combinava com a descrição do desaparecimento de Simone, e sim com o de outra alemã, Anja Habschied. Ela e seu namorado, Gabor Neugebauer, estavam desaparecidos desde dezembro de 1991.
Simone Loretta Schmidl
Nas análises feitas pelo legista Dr. Bradhurst no corpo de Simone, não restaram dúvidas de que se tratava do mesmo assassino.
Não havia ferimentos no crânio. O peito e as costas mostravam inúmeras facadas, dos lados direito e esquerdo, frente e costas, incluindo o famoso corte da espinha dorsal.
Antes de terminar sua análise, o Dr. Bradhurst foi chamado novamente na floresta: mais dois corpos haviam sido encontrados!
A Cena do Crime
No fim da área demarcada no mapa da polícia como “área A” estavam os corpos de Gabor e Anja, como depois ficou confirmado pelos registros dentários.
Os restos mortais de Gabor estavam embaixo de uma pilha de folhas, parcialmente cobertos por um grande tronco de árvore. Foram necessários vários policiais para que o tronco fosse afastado do corpo.
O esqueleto estava completo, com os restos das roupas ainda aparentes, inclusive uma calça jeans com o zíper aberto e o botão fechado. Este parecia ser o modo como o assassino assinava seus crimes.
O segundo corpo tinha as roupas levantadas até os ombros, e nenhuma roupa íntima foi achada por perto. O jeans pink tinha sido deixado longe dali.
A 60 metros do local dos corpos, foram localizadas 90 cápsulas de balas deflagradas e pacotes vazios de munição. Depois de serem examinadas no microscópio, a balística concluiu que essas balas eram as mesmas encontradas perto do corpo de Joanne Walters. A mesma arma que havia matado Joanne Walters foi utilizada a apenas 60 metros dos restos mortais de Anja e Gabor...
Anja Habschied
A novidade nesta cena é que estavam faltando o crânio e as primeiras duas vértebras do esqueleto feminino. O Dr. Bradhurst deduziria depois que a cabeça da moça foi separada do corpo por um instrumento afiado, provavelmente um machado ou uma espada. O ângulo de decapitação indicava que a vítima estava de joelhos com a cabeça abaixada quando o corte foi feito.
Eram os sinais de uma decapitação ritual. Nenhum outro ferimento era evidente.
Gabor Kurt Neugebauer
Ao examinar o corpo de Gabor, o Dr. Bradhurst descobriu que sua boca continha duas mordaças: uma amarrada sobre a boca, com um nó “reef”, e outra dentro da boca. Desta vez, a mordaça estava amarrada com um nó diferente das outras: um nó “granny”
Gabor havia sido estrangulado, fato concluído observando-se a fratura do osso hióide, na garganta, o que ocorre em decorrência de estrangulamento manual.
A mandíbula estava fraturada em vários lugares. O crânio mostrava seis entradas de balas, três pelo lado posterior esquerdo e as outras por baixo. Um buraco de saída foi encontrado do lado direito. Quatro balas foram recuperadas de dentro do crânio de Gabor, e uma quinta se alojou nos ossos da parte de cima do corpo.
Um especialista em balística não encontrou nada mais na cena do crime, e o alinhamento entre os buracos de entrada e saída de balas no corpo de Gabor indicava que ele havia sido alvejado sete vezes. Concluiu-se que ele não havia sido morto no mesmo local em que seu corpo foi encontrado.
A Investigação
A mais terrível conclusão dos médicos e investigadores foi que sete pessoas haviam sido assassinadas de várias maneiras pelo mesmo homem: espancadas, estranguladas, alvejadas por arma de fogo, esfaqueadas e decapitadas. A maioria foi molestada sexualmente de alguma maneira, homem ou mulher.
Como o número de ferimentos era crescente em cada vítima, o time de investigação deduziu que o assassino passava cada vez mais tempo com elas. Esse fato indicava que, além de cruel e sádico, era calculista e tinha um bocado de autoconfiança!!!
A força-tarefa para investigar o crime era tão grande que a confusão eventual era inevitável. Perdiam-se dados importantes.
Dois telefonemas vitais efetuados para a força-tarefa passaram despercebidos.
O primeiro era de uma mulher, pedindo para a polícia verificar o antigo patrão de seu namorado. Ele era um homem estranho, que tinha uma propriedade perto da floresta, guiava um carro tipo 4x4 e colecionava armas. Seu nome era Ivan Milat.
O segundo telefonema foi dado por Joanne Berry, contando a história da carona que havia dado para um inglês mochileiro que havia sido atacado... lembram-se? O oficial que pegou seu depoimento não anotou seu nome ou endereço, apenas agradeceu e desligou o telefone.
As buscas oficiais foram suspensas em 17 de novembro de 1993. Não foi encontrado mais nenhum corpo ou evidência.
Em dezembro daquele ano, as pistas não pareciam levar a lugar nenhum. Os telefonemas dados à linha quente da polícia foram listados, e 200 deles foram selecionados como importantes. Todos foram relidos e reavaliados. Os depoimentos de Paul Onions e Joanne Berry foram separados. Paul também havia ligado para a Austrália depois das notícias internacionalmente divulgadas, relatando sua história.
1994
No ano de 1994, 37 detetives trabalhavam nas investigações do assassino de mochileiros. Em três depoimentos revistos por eles constava o nome Milat.
Logo descobriram que se tratava de uma enorme família: uma viúva já de idade com 14 filhos, homens e mulheres.
As pesquisas da polícia mostraram que todos os homens integrantes da família Milat eram familiarizados com armas de fogo desde a mais tenra idade. Todos gostavam de atirar e colecionar armas.
O pai, Stephen Milat, era imigrante croata, que serviu no exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial. Educou os filhos sob disciplina militar.
A polícia também levantou os endereços dos irmãos, e muitos deles viviam em subúrbios perto de Sydney, próximos aos locais onde os mochileiros assassinados tinham pegado carona pela última vez.
A atenção dos investigadores logo se prendeu nos dois irmãos mais velhos, Richard e Ivan. Ambos haviam trabalhado juntos numa empresa de nome “Readymix”.
Em seus questionamentos na empresa, souberam que os irmãos Milat tinham trabalhado ali ao mesmo tempo. Ivan era trabalhador duro e respeitado, enquanto seu irmão Richard era lembrado como meio louco e imprevisível.
A ficha de trabalho dos dois homens foi requisitada. Na sua conferência, Richard estava trabalhando em cada ocasião pesquisada pela polícia. O mesmo não acontecia com Ivan.
A folha de serviço de Ivan Milat mostrava que ele estava de folga em cada ocasião em que houve um desaparecimento e morte de mochileiro. Ele acabava de se tornar o suspeito nº 1 da polícia.
Ivan Milat
O detetive Wayne Gordon, responsável por investigar a família Milat, logo descobriu que Ivan era um trabalhador de estradas, ávido caçador, não fumante e abstêmio.
Ao verificar seus antecedentes criminais, descobriu-se que havia sido condenado por vários crimes, e passado anos na prisão. Nenhum de seus crimes anteriores indicavam que ele se tornaria um serial killer.
Gordon aprofundou sua pesquisa, e logo se arrepiou com o resultado: em 1971, Ivan tinha dado carona para duas mochileiras, de Liverpool para Melbourne. Foi acusado de estuprar uma delas. As duas garotas testemunharam que ele estava armado com uma faca e carregava vários metros de corda no carro. Ivan Milat havia sido inocentado desse caso por falta de provas.
O suspeito foi colocado sob vigilância durante as 24 h do dia, por uma equipe de quatro policiais. Este esquadrão ficou conhecido como “Dog Squad”, e não saía da cola de Milat nenhum segundo.
Foram chamados o Dr. Rod Milton e o Dr. Richard Basham, psiquiatras, além de Robert Young, sociólogo e analista de dados. Os investigadores queriam saber qual era o motivo dos crimes.
Todos os depoimentos já dados para a polícia foram examinados por esta equipe. Um deles chamou a atenção do Dr. Basham: o de um homem chamado Alex Milat. Ou aquele senhor tinha memória fotográfica, para que se lembrasse de tantos detalhes com perfeição, ou... teria participado dos acontecimentos!
O Dr. Basham também concluiu que mais de uma pessoa estava envolvida nos assassinatos, talvez um irmão. Milton contou a teoria para o detetive superintendente Clive Small, responsável pelas investigações, dizendo a ele que os irmãos Milat poderiam sair juntos para caçar ou praticar tiro ao alvo em latas e garrafas. Small logo se lembrou dos Milat que Gordon estava investigando.
O uso de um silenciador, comprovado pela balística, fez com que os dois doutores concordassem que aquele assassino vivia em um mundo de fantasias. Também deduziram, pelo material estudado, que o criminoso provavelmente possuía uma motocicleta.
Outra dedução era que o criminoso se considerava acima da lei.
O Dr. Milton sugeriu que o criminoso não necessariamente morava na floresta, mas devia ir até lá com freqüência ou ter alguma propriedade alugada naquela área. Depois de estudar vários mapas, deduziram que o assassino provavelmente vivia no norte. O fato de que todas as vítimas haviam sido vistas perto de Liverpool e que seus corpos foram encontrados na Floresta de Belangalo corroborou essa teoria.
Cada vez mais a família Milat se encaixava no perfil montado por aqueles especialistas.
Os investigadores conseguiram os registros de todos os carros que os irmãos Milat possuíram no passado. Um dos veículos, um Nissan Patrol 4x4 que havia pertencido a Ivan Milat, foi localizado com o novo dono. Ele mostrou à polícia uma bala encontrada embaixo do banco do motorista. Era uma calibre .22, mais tarde analisada e análoga com as das caixas vazias de balas encontradas nas cenas dos crimes.
Também descobriram que eles tinham em seu nome uma pequena propriedade a 37km de Belangalo.
O detetive Gordon continuava a juntar evidências, mas precisava de alguma coisa que amarrasse todas elas, que colocasse Ivan Milat e seu veículo na cena do crime.
Em 13 de abril de 1994, Gordon encontrou o relatório do telefonema de Paul Onions, cinco meses antes, para a linha quente da polícia. Ao lê-lo, reconheceu em Paul uma testemunha com credibilidade suficiente e levou a informação imediatamente para seu chefe, Clive Small.
Este, ao perceber a importância da evidência perdida até ali, ficou furioso. Pediu os originais do boletim de ocorrência de Paul Onions da delegacia de Bowral.
Sabendo que os dois irmãos Milat, Richard e Ivan, eram fisicamente muito parecidos, checaram que, na data do ataque a Paul, Richard estava trabalhando, mas Ivan estava de folga. Também descobriram que Ivan estava trabalhando na área de “Galston Gorge” quando a mochila de James Gibson foi encontrada perto dali.
Vários colegas de trabalho de Ivan Milat foram entrevistados, e todos contaram à polícia sobre seu interesse por armas. Um amigo dele, Tony Sara, disse aos investigadores que Ivan também possuía uma motocicleta, além de um verdadeiro arsenal de armas em sua casa. Ivan, em conversa com ele, também tinha se referido de maneira estranha e misteriosa à Floresta de Belangalo.
No fim do mês de abril, a polícia contatou Paul Onions na Inglaterra, pedindo que ele fosse até Sydney o mais rápido possível.
Ao chegar, mostrou aos investigadores todo o caminho que andou no carro de seu agressor, além do local onde havia escapado, que ficava distante l,5km da entrada da floresta.
No dia seguinte, 13 fotos numeradas de suspeitos foram mostradas a Paul Onions. Ele separou duas, resolvendo-se depois pela de nº 4: Ivan Milat.
Small tinha agora evidências suficientes para prender Milat pelo ataque a Paul Onions. Conseguiram um mandado de busca para a sua residência, para a de sua mãe e irmãos, pois se suspeitava que ele não agia sozinho.
A logística para que todas as buscas dessem certo foi extremamente complicada. Trezentos oficiais de polícia estariam envolvidos na caça, e para que o sigilo fosse mantido, a maioria não foi informada do local e hora das buscas.
Como as horas de trabalho de Ivan não eram regulares, foi decidido que sua casa seria vasculhada às 6h30min do dia 22 de maio de 1994, um domingo.
O Dr. Rod Milton instruiu o chefe das negociações, Wayne Gordon, para a rendição de Milat, sobre qual deveria ser a melhor maneira de aproximar-se de Ivan, que seria contatado por telefone. Milton sugeriu que Gordon usasse um tom de voz firme e autoritário, pois acreditava que Milat tentaria exercer o controle da situação.
A turma de vigília na casa de Milat reportou à polícia que sua namorada, Chalinder Hughes, também estava lá dentro. O plano era pedir a eles que calmamente viessem para fora, efetuar a prisão e fazer a busca, tudo nesta ordem.
Precisamente às 6h36min, o time inteiro da polícia estava no local. O detetive Gordon discou o número de telefone de Ivan Milat. Uma voz de homem atendeu a chamada. Quando perguntado se quem falava era Ivan Milat, o homem respondeu que... NÃO!!!
Gordon confirmou o endereço. Estava correto. Apresentou-se, e avisou ao homem que a polícia já tinha cercado sua casa, e que estavam de posse de um mandado de busca, o qual pretendiam executar. Ele aconselhou a Ivan que saísse com sua namorada, e se rendesse à polícia. Ivan murmurou alguma coisa, e desligou o telefone.
Depois de vários minutos, nada havia acontecido. Gordon então telefonou novamente para Milat, perguntando por que não havia saído. Este respondeu que tinha achado que aquilo era um trote. Gordon esclareceu que nunca falara tão sério em toda a sua vida.
Alguns minutos depois, a porta da casa se abriu, e ele e a namorada se entregaram para a polícia. Ivan foi algemado e informado de seus direitos. A busca em todas as casas da família Milat teve início.
A Busca
O primeiro item encontrado na casa de Ivan foi uma bala, em um dos quartos. A polícia perguntou a Ivan se ele possuía armas de fogo. Ele negou. Quando perguntado sobre a bala, disse que devia ser da ocasião em que havia saído para atirar com o irmão.
Os quartos foram vasculhados. No segundo quarto, dois sacos de dormir estavam guardados no armário. Depois, seriam identificados como pertencentes a Simone Schmidl e Deborah Everist.
Em outro quarto, uma bolsa contendo vários artigos pessoais parecia ser a maleta de trabalho de Ivan. Ele confirmou. Na bolsa, foi encontrada uma faca “Bowie” com 12 polegadas de comprimento.
No mesmo local, havia um manual técnico para a utilização de uma Ruger .22. Ivan recusou-se a comentar o achado.
Havia também um álbum com fotografias bastante esclarecedoras: uma delas mostrava Ivan em sua motocicleta, armado de sua Colt .45, mesma arma descrita por Paul Onions.
Mais tarde acharam uma caixa de munição para esta arma.
Também havia uma foto de Chalinder Hughes, namorada de Ivan, vestida com um top Benetton idêntico ao que pertencia a Caroline Clarke.
A próxima busca se deu na garagem, onde estava uma capa de saco de dormir contendo uma barraca enrolada. Em volta dela, uma bandana roxa idêntica à que estava amarrada ao redor do crânio de Simone Schmidl. Quando Milat foi questionado, disse nunca ter visto aquela barraca antes. Dentro de uma fronha de travesseiro, encontraram faixas similares àquelas com que os corpos foram amarrados. Uma delas estava manchada de sangue, que depois se comprovou ser de Caroline Clarke.
Outro item encontrado foi o rifle Ruger .22. Ele estava desmontado, escondido num porão de inspeção do telhado da garagem, juntamente com uma revista sobre a arma.
Milat foi levado para a delegacia de Campbelltown, onde foi interrogado. O interrogatório foi gravado em vídeo e áudio, e durante todo o tempo Ivan não cooperou em nada. Os trabalhos se encerraram uma hora depois, e Ivan Milat foi acusado formalmente de roubo e tentativa de homicídio de Paul Onions.
As buscas na casa dos Milat continuaram. Foram encontradas, na casa de Ivan, fitas elétricas, cabos e um saco de cordas azuis e amarelas, semelhantes àquelas encontradas na cena de um dos crimes. Outras partes do rifle Ruger .22 também foram encontradas, além de equipamentos de camping e cozinha, pertencentes a Simone Schmidl.
Conforme as buscas progrediam, mais e mais evidências eram descobertas: a câmara fotográfica de Caroline Clarke, um cantil com um nome apagado (Simi), uma arma Browning automática, rifles, revólveres, facas e uma incrível quantidade de munição. Um dos objetos encontrados que mais impressionou os investigadores foi uma espada curva de cavalaria, provavelmente utilizada na execução de Anja Habschied. A espada foi encontrada trancada em uma vitrine na casa de Margaret Milat, mãe de Ivan.
A balística depois comprovaria que as balas extraídas dos corpos das vítimas procederam da Ruger de Milat.
Na propriedade rural de Walter, foram encontradas armas e munição, além de partes do rifle de Ivan. Três meses antes de ser preso, Ivan, Richard e Walter teriam levado caixas de munição e revólveres da casa de Ivan em Sydney para uma alcova escondida na casa de seu irmão. Também ali foi encontrada uma mochila que pertencia a uma das vítimas. Quando questionado, Ivan disse nada saber sobre aquela mochila, que nunca havia visto aquele objeto. Walter alegou que a mochila veio com as caixas de munição e armas trazidas da casa de Ivan.
O Julgamento
Ivan Robert Marko Milat foi formalmente acusado pelo assassinato dos sete mochileiros. Desconfia-se que, antes de matá-los, gostava de caçá-los.
A primeira testemunha a depor no julgamento do pior assassino da história da Austrália foi Paul Onions, que identificou positivamente Ivan Milat como o homem que o atacou.
Depois disso, os pais de cada vítima foram chamados para subir ao banco de testemunhas. Todos na corte se emocionaram ao ouvir os relatos das últimas vezes que aqueles pais viram seus filhos vivos.
O júri foi levado para a Floresta Belangalo, a 100km de Sydney, para que visse a cena dos crimes e conseguisse entender melhor todas as evidências que seriam expostas. Foram apresentadas ao júri, num total de 356, e centenas de fotografias foram explicadas em detalhes.
Houve uma grande comoção quando o Dr. Bradhurst mostrou a camiseta toda esfaqueada de Joanne Walters e a espada que provavelmente decapitou Anja Habschied. A cabeça de Anja nunca foi encontrada.
Outro depoimento que chamou a atenção de todos foi o da ex-esposa de Ivan, Karen Milat, divorciada dele desde 1989. Ela descreveu o ex-marido como um homem atlético, que praticava halteres todas as noites, e que só se separava de suas armas quando ia tomar banho. Ivan dormia com uma arma debaixo do colchão, tinha outra sob o assento de seu carro e, até quando ia ao cinema, usava uma arma enfiada na calça jeans ou nas botas. Ivan negou essas declarações, mas a mala descrita por Karen como aquela que ficava embaixo da cama guardando a arma dele, foi trazida como prova. Era idêntica à descrição feita pela moça.
Karen também descreveu o acusado como ávido matador de cangurus, coisa de que se orgulhava, tanto que chegou a levá-la junto com o filho Jason para ver uma demonstração de suas habilidades na mesma floresta em que se deram os crimes. O que mais espantou Karen foi que Ivan não precisava de mapas para andar nas trilhas internas da Floresta de Belangalo.
A defesa tentou desesperadamente provar que o responsável pelos assassinatos não era Ivan, e sim Richard e Walter Milat. Estes teriam “plantado” provas na casa do irmão para incriminá-lo.
Doze semanas de julgamento, 145 testemunhas... a acusação terminou de expor seu caso.
A primeira testemunha de defesa a ser chamada foi o próprio Ivan Milat. Ele negou cada acusação que lhe foi feita. Ao ser questionado sobre como tantas evidências foram parar em sua casa, Ivan respondeu que alguém pretendia fazer com que ele parecesse mau.
Também foi chamada como testemunha a cunhada de Ivan, Carolynne Milat. Ela havia alterado datas de fotos no álbum de família, para que servissem de álibi para o cunhado. As fotos em questão, em que Ivan aparecia numa confraternização familiar, tinham se dado na Páscoa de 1991. Carolynne havia dito para a polícia que as fotos eram de 1992, para que Ivan tivesse um álibi na data do desaparecimento de Joanne Walters e Caroline Clarke.
Carolynne Milat também testemunhou sob juramento que Ivan teria passado todo o dia 26 de janeiro de 1993 com a família. Era a data do desaparecimento dos mochileiros alemães.
Os irmãos Milat eram tão unidos, que trocaram seus nomes com freqüência nas declarações dadas à polícia e ao júri, confundindo a todos com a intenção de beneficiar Ivan.
Na 15a semana de julgamento, começaram os pronunciamentos finais. Em 27 de julho de 1995, o júri considerou por unanimidade que Ivan Milat era culpado.
Ivan, que já havia ficado em completo silêncio durante todo o julgamento, não demonstrou qualquer emoção.
Pelo ataque a Paul Onions, Milat foi condenado a seis anos de prisão. Pelos sete assassinatos, uma sentença de prisão perpétua para cada um deles, ou seja, ficará preso até a sua morte.
Foi levado para uma prisão de segurança máxima em Maitland, sudoeste de Sydney. Pareceu óbvio até para o juiz que ele não teria cometido os crimes sozinho. Existem mais de uma dúzia de mochileiros australianos, japoneses e europeus desaparecidos na mesma região nos últimos 15 anos.
Diane Pennacchio, 29 anos, desaparecida depois de sair de um bar em Camberra, teve seu corpo encontrado em 1991. A forma como estava disposto era exatamente igual à de todas as vítimas de Ivan Milat: foi esfaqueada, estava de bruços ao lado de um tronco de árvore caído, com as mãos atrás das costas. Um dossel triangular de gravetos foi construído sobre seu corpo, e sobre ele folhas de samambaia. Perto do corpo, foram encontrados restos de uma fogueira feita de pedras formando um círculo perfeito.
Ivan Milat agia sozinho? Será que algum dia se provará que um de seus irmãos era seu cúmplice?
Em 17 de maio de 1997, envolveu-se numa tentativa de fuga, e foi transferido para a prisão de Goulburn, local de segurança máxima ao lado da Floresta Belangalo.
Até hoje ele alega ser inocente, e formou um grupo que luta pela sua soltura junto ao governo australiano. Milat sempre declarou que fugirá na primeira oportunidade que tiver. A polícia ainda investiga se a família de Ivan tomaria parte nessa investida.
Parece impossível para todos que apenas um homem conseguiria dominar sempre duplas ou trios, como no caso dos mochileiros alemães. O pai de Gabor chegou a declarar para a imprensa que achava difícil que apenas um homem conseguisse dominar seu filho ao mesmo tempo que subjugava Anja. Ele era bastante forte e bom de briga.
A prova cabal contra Ivan nestes crimes foi seu reconhecimento por Paul Onions, que o colocou na cena do crime e modus operandi similar. Todas as outras provas são circunstanciais, e isoladamente talvez não o tivessem condenado.
Outro irmão de Ivan, Bóris Milat, que se afastou da família, declarou para a mídia que ninguém pode imaginar a violência de sua família. Ele acredita que tenham matado pelo menos 28 mochileiros, mas não tem fatos nem provas para fundamentar suas suspeitas.
A polícia australiana ainda tenta obter provas que comprometam Walter ou Richard Milat. Os seis fios de cabelo castanho-claro encontrados nas mãos de Joanne Walters foram examinados por laboratórios forenses, na tentativa de extrair seu DNA e confrontá-los com os do suspeito. Quatro fios foram danificados nessas tentativas, e agora a polícia espera que novas técnicas sejam desenvolvidas para testar os dois fios restantes sem o risco de ficar sem provas.
Muitos mochileiros que viajavam pela Austrália continuam desaparecidos. Ninguém sabe o que teria acontecido a eles.
Ivan Robert Marko Milat continua preso na Penitenciária de Segurança Máxima em Goulburn, Austrália.
Em fevereiro de 2001, foi levado às pressas para o hospital da penitenciária, depois de ter informado às autoridades que havia ingerido lâminas de barbear, grampos para papel e uma pequena corrente que unia dois cortadores de unha.
Em maio de 2001, engoliu uma mola da descarga da privada de sua cela. Segundo Milat, estes atos de automutilação fazem parte de uma campanha para que sua apelação seja ouvida pela Corte Superior da Austrália. Já as autoridades da penitenciária Supermax, de Goulburn, acham que o objetivo deste facínora é ser transferido para um hospital ou outra penitenciária, o que facilitaria sua fuga. Esta teoria ganhou peso quando os médicos descobriram que Milat havia embrulhado as lâminas de barbear com plástico adesivo antes de engoli-las, e por isso não sofreu danos em seu trato digestivo. O pior serial killer da Austrália hoje varre o chão da cadeia e, infeliz, tenta manipular o sistema penitenciário.
Em novembro de 2002, processou o Estado por desrespeito à sua privacidade ao permitir a publicação das fotos dos raios-x a que foi submetido quando se automutilou. Por causa desse processo, discute-se hoje, na Austrália, até onde vão os direitos de quem cometeu assassinatos tão brutais.
Em dezembro de 2003, Ivan Milat foi interrogado sobre o desaparecimento de duas enfermeiras em 1980: Gillian Jamieson e Deborah Balkan. Colegas de quarto, as jovens de 20 anos de idade desapareceram depois de terem sido vistas saindo do Hotel Tollgate, em Parramatta, Sydney. Elas estavam acompanhadas por um homem vestindo sujas roupas de trabalho e usando chapéu preto estilo caubói. Nessa época, Milat usava um chapéu similar e trabalhava a menos de 2 quilômetros do local, no Departamento de Estradas Principais, em função braçal.
Milat também é o principal suspeito na morte de outro mochileiro, Peter David Letcher, de Bathurst. Ele foi encontrado morto por tiro, na Floresta Estadual de Jenolan, em 1988.
Fonte: Livro Serial Killer - Louco ou Cruel? de Ilana Casoy
Caso Von Richthofen
Reportagem de 10 anos do crime (Record)
Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5
Investigação Criminal (A&E)
Vídeo
Fotos de Ted Bundy
Vídeos sobre Ted Bundy
Assassinos em Série
A história sobre a vida, crimes e morte de Ted Bundy. Vídeo Legendado
A Última Entrevista de Ted Bundy
17 horas antes de ser eletrocutado, Ted Bundy, um dos piores serial killers do século 20, deu uma entrevista exclusiva para o psicólogo e religioso evangélico norte-americano James Dobson. Vídeo Legendado
Filme - Ted Bundy
Baseado na história real do mais terrível assassino em série dos Estados Unidos, este chocante filme fala da vida de Ted Bundy, um universitário atraente que matou dezenas de mulheres para satisfazer suas fantasias sexuais, tendo conseguido fugir por duas vezes da prisão. Vídeo Legendado
Fotos de Jeffrey Dahmer
Dahmer e seu advogado Gerald Boyle
Vídeos sobre Jeffrey Dahmer
Confissões de um Serial Killer
Em fevereiro de 1994, Stone Phillips da NBC encontrou o serial killer Jeffrey Dahmer para a sua única entrevista para a televisão. Ele viajou para a prisão com o pai de Jeffrey Dahmer, Lionel, e sua madrasta, Shari. Um inocente garoto de Midwester e adolescente retraído e peculiar, Jeffrey Dahmer viveu uma medonha vida dupla como adulto, e acabando por tornar-se conhecido como um dos assassinos em série mais notório e grotesco da América. Dahmer matou 17 jovens homens, e até mesmo virou canibal. Através de uma entrevista exclusiva com Dahmer, bem como com sua mãe e seu pai, este programa faz uma análise extensa dentro da mente de um serial killer.
Vídeo Legendado
Dementes
Dementes estuda em profundidade alguns dos mais terríveis assassinos em série por intermédio de relatos em primeira mão e testemunhos de pessoas que os conheceram bem. Para revelar a psicologia de cada assassino, “Dementes” procura entender o que levou esses serial killers ao impulso de matar. Sua natureza ou o foi algo mais? Investigadores de polícia, jornalistas, amigos de infância, companheiros de quarto, promotores e advogados dão sua visão pessoal sobre esses indivíduos que representam o mal na sociedade.
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Julgamento
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Frases de Jeffrey Dahmer
“Eu fiz a minha fantasia de vida mais poderosa do que a minha vida real.”
“Eu realmente ferrei tudo desta vez!” — (para seu pai)
Fonte: Livro Serial Killer - Louco ou Cruel? de Ilana Casoy
Frases de Ed Kemper
“Mesmo quando ela estava morta, ela ainda estava sendo mordaz comigo. Eu não pude fazê-la calar a boca.” — (sobre sua mãe)
“Se eu as matasse, você sabe, elas não poderiam me rejeitar como homem. Isto é mais ou menos produzir uma boneca a partir de um ser humano... e levar adiante minhas fantasias com uma boneca, uma boneca humana. Com uma garota, fica muita coisa em seu corpo mesmo sem a cabeça. Obviamente, a personalidade desaparece.”
Fonte: Livro Serial Killer - Louco ou Cruel? de Ilana Casoy
Lista de itens encontrados na casa de Jeffrey Dahmer
— Crânios escalpados de cabelo e pele, arrumados nas prateleiras da geladeira. — Um balde cheio de mãos amputadas. — Um torso na pia da cozinha, rasgado do pescoço até a pélvis. — Um pote contendo diversos pênis em conserva. — Um pênis fatiado sobre a pia. — Outros pênis fatiados numa lata de lagosta na geladeira. — Dois tonéis com capacidade de 189,5 litros repletos de torsos humanos apodrecendo.
Fonte: Livro Serial Killer - Louco ou Cruel? de Ilana Casoy