sgt-bartz :
Os passos dele naquele momento foram propositalmente lentos; não tinha pressa alguma de sair dali, tampouco de chegar ao carro e esperar por ela sabe-se lá por quanto tempo, isso é, se Allie de fato surgisse e não o deixasse lá plantando da mesma forma que ele fizera no aniversário de Camile Benett. Poderia culpá-la de se sentir daquela forma tão revoltada e arredia à qualquer coisa que ele tentasse dizer? Gideon, embora tivesse simplesmente tentado cometer um homicídio com as próprias mãos cegado pela raiva, realmente não teve um mísero segundo de lucidez onde poderia ter respondido às mensagens dela e avisado que não poderia buscá-la? Não e não. No fundo ele sabia bem o quanto a mulher estava certa ao todo e no fim das contas. Por isso que sentia-se cansado, não só mentalmente falando. Suas costas doíam e seus ombros estavam sempre tensos como se aquela sensação insuportável nunca fosse embora. Ele sabia que precisaria se desculpar, com todas as letras e não apenas dizer que sentia muito pelo ocorrido. Já não mais era o jovem Gideon Campbell da universidade, que cometia erros e ainda assim seguia em frente, esperando que os mesmos se resolvessem sozinhos. Agora ele precisaria resolve-los por si só. Ninguém mais o faria.
Alguns longos segundos depois ele alcançou novamente sua mercedez benz estacionada em frente ao bart’z, do outro lado da rua para nao atrapalhar a entrada do estabelecimento. Gideon se encostou na parte da frente do veículo escuro e suspirou pesadamente, passando ambas as mãos pelo rosto, exasperado, cansado, tenso e com medo. Medo daquela noite não terminar como esperava desde quando decidira mais cedo que falaria com Allissa, querendo ela ou não. No fim das contas não poderia obrigá-la a nada que não quisesse, como perdoá-lo que na atual situação, era o principal desejo de Campbell. Fitou a rua iluminada apenas pela claridade dos postes sob sua cabeça, algumas pessoas ao longe rindo e conversando enquanto passeavam pela cidade e então o silêncio outra vez tomou conta do lugar, deixando a sensação de medo e desespero crescer ainda mais dentro do peito do homem. Pensou em agarrar o celular dentro do bolso para ver a hora, à quanto tempo ela permanecia lá dentro pensando ou quem sabe até mesmo ligar uma vez, mas se lembrava constantemente de sua promessa de que daria o espaço que ela precisava, se assim fosse seu desejo.
Finalmente se deixando levar pela derrota e a fatiga, Gideon fechou os olhos e virou seu rosto para cima, como se com aquele gesto pudesse respirar um ar mais puro e assim esvaziar sua mente conturbadíssima naquele momento. Por que as coisas em sua vida tinham que ser tão difíceis? primeiro ser abandonado pela mãe em um orfanato, e ter que crescer sabendo que a pessoa que mais deveria amá-lo no mundo preferiu se afastar, do que enfrentar ao lado dele o que quer que estivesse passando; depois crescer em uma família rica, influente e se esforçar ao máximo para conseguir encontrar o seu lugar ali e não apenas se deixar levar pelas circunstâncias da vida. E agora Allissa Bart’z, que de longe fora a primeira mulher que realmente mexera com a cabeça de Gideon estava escorrendo por entre seus dedos feito a areia regular e quente do deserto. Ainda tinha toda sua concentração em não voltar simplesmente para o bar e quebrar sua promessa, agarrar Allie pelos braços e beijá-la até que estivesse ciente de que ele não a deixaria, quando ouviu sons de passos se aproximando. Campbell voltou seu rosto para o lado, encontrando a mulher bastante incerta sobre suas ações, o que não diminuiu a sensação de alivio e ansiedade que surgiu dentro de Gideon. Ele deu a volta e acomodou-se no banco do passageiro, esperando até que ela tivesse feito o mesmo para fechar o cinto de segurança ao redor do seu corpo. “Eu sei. Não estou negando, já disse que não farei isso.” retrucou de volta, utilizando um tom de voz mais baixo e afável. “Obrigado por isso. Não quero justificar o que eu fiz com você, Allie, com o que vou te contar. Apenas gostaria de colocar isso pra fora de uma vez, e como já te disse naquele fim de semana, no momento você é a pessoa que eu mais confio na vida.” Gideon apertou as mãos ao redor do volante e virou o rosto, retribuindo o olhar de Allie. “E depois… bem, se houver algo que eu possa fazer para me redimir com você, eu farei. Não importa o que seja.” ao finalizar seu raciocínio, Campbell ligou o motor do carro e arrancou pela rua à frente, utilizando da velocidade para chegar em meia hora ao seu apartamento na região do Loop.
Sua cabeça acenava como se concordasse mas não entendia direito ainda nada daquilo. Se tinha tomado a decisão correta, se devia ter ido até o carro, se havia feito a decisão certa de resolver tentar continuar tudo aquilo. Pensou que ao minímo ele merecia a oportunidade de ter o benefício da dúvida e ser ouvido. Além de tudo isso, Allissa não podia negar que estava curiosa para saber o que prendera tanto a atenção de Gideon na noite do aniversário de Camile Bennett a ponto de ele esquecer completamente dela e da promessa que fizera de ir busca-la. Precisaria ser algo importante o suficiente ou Allie se sentiria no direito de sentir-se muito mal por ser tão rebaixada nas escalas de importancia da vida do Campbell. Sua mente parecia fritar enquanto a Mercedez dele cortava as ruas de Chicago até o bairro onde o mais velho residia. A Bartz conhecia bem o lugar, já havia ido inúmeras vezes para lá em reuniões entre os dois, fosse para negócios ou lazer. Não conseguir proferir uma frase, ou ao menos raciocinar uma que fosse sensata para ser dita. O caminho até o Loop se fez silencioso e estranho para os dois que sempre tinham algo para dizer um para o outro. Os olhos castanhos da morena estavam fixos nas luzes que surgiam e sumiam no horizonte e maal notou quando apoiou sua cabeça no vidro do carro. Quando viu o prédio pomposo no qual Gideon residia, acomodou-se no banco novamente e aguardou até que o carro estivesse devidamente estacionado na garagem. Ela suspirou profundamente de forma involuntária uma vez antes de sair do carro e outra, após fechar a porta. Aguardou por Gideon na porta do elevador e tomou certo tempo observando os machucados que, apesar de pareceram já bastante curados até, permaneciam muito visiveis. "--- O motivo de ter me deixado sozinha sábado, por acaso, tem a ver com esse monte de roxos espalhados por todo seu rosto e corpo?" Não conseguiu conter a pergunta, que para seu contragosto, saiu um tanto ironica como havia soado em seus pensamentos. Cruzou os braços após adentrarem o espaçoso elevador e esperou por uma resposta dele enquanto subiam. Inclusive, Allissa não pode deixar de notar como a subida parecia interminável, talvez por isso não conseguiu conter também de processeguir falando, respondendo ao que o Campbell havia dito ainda no carro. "--- Não podemos desfazer as coisas que já fizemos com redenções, Gideon. Não é simples assim." Seus olhos fitaram ele por alguns instantes antes de se voltarem para a frente, observando a cor fria e metálica do elevador. "--- Acho que também precisamos parar de comparar as situações com a vida utópica que vivemos naquele final de semana na praia. Além de tudo estar diferente agora, ainda temos a questão de que nossas vidas e relações nunca foram tão ideológicas daquela forma. É diferente viver momentos isolados e momentos com pessoas ao nosso redor. Algumas coisas acabam mudando, não podemos negar."














