UMA CARTA PARA AS DESVIADAS
@najaimekim
Durante a quarentena, tive que ir à Pizzaria de um dos meus clientes, pois estavam precisando de fotos para fazer a divulgação no Instagram. Estava um pouco frio e parecia que ia chover. Sair de casa na quarentena e com chuva parece que fica mais perigoso. Mas não sei muito bem explicar o motivo de ter essa impressão.
Cheguei junto com a esposa do proprietário da Pizzaria. Ela, como uma boa evangélica, estava com o óleo ungido na mão. Falando bem baixo e com a voz abafada por causa da máscara, percebi que estava orando. Ungiu os motoboys, a recepcionista e perguntou se eu queria também. Na mesma hora, aproximei minhas mãos e ela me ungiu. A frase que consegui ouvir foi que o coronavírus não me atingisse e para que Deus pudesse me guardar de todo mal.
Essa cena me levou imediatamente para a minha infância, já que literalmente nasci e fui criada na Igreja Evangélica. Passei por Igrejas grandes e famosas, e por Igrejas pequenas também. Meus pais são pessoas totalmente comprometidas e leais, porém, por muitos anos, pertenceram ao sistema religioso (no mal sentido mesmo).
Éramos submissos aos pastores que traíam suas mulheres e no púlpito falavam que adultério era pecado. Líderes que maldiziam as pessoas, mas eles próprios espalhavam os segredos dos membros e ainda falavam mal. Acredito que se não fosse a vida íntegra que meus pais sempre tiveram, dentro da igreja e também dentro de casa, hoje estaria odiando esse deus que a Igreja me apresentava.
Mas nem tudo tem seu lado ruim.
Fui líder de adolescentes, organizei retiros de carnaval e a gente só zoava o plantão dos responsáveis por cuidar da gente. Sempre rolavam beijos escondidos. Era um fogo no cu danado. Meus domingos eram sagrados. Já perdi muito churrasco por estar na igreja full time. Não tinha noção, só queria fazer o que falavam que era certo para mim. Nas igrejas grandes, só os ricos tinham espaços. Nas igrejas pequenas, sentia mais pertencimento.
E o gabinete do pastor? Se algum casal transasse antes do casamento, era exortação na certa. Fora os encontros de evangelismo. Já entreguei TANTO papel na rua. Já disse tanto “Jesus te ama, e eu também.” Já chorei muito no momento do louvor e passei mal de rir no Culto de Santa Ceia onde não era para comer o pão antes que o pastor falasse. E sim, comi o pão antes, engasguei de nervoso... que cena!
Tantas lembranças.
Tantas feridas...
Confesso que saí revoltada, não queria saber de crente. Comecei a militar nas redes sociais e tive um resultado zero de atenção. Pelo contrário, as amigas da minha mãe começaram a me chamar no Messenger perguntando se queria oração, pois o demônio estava se manifestando na minha vida.
Varoa...
É laço!
Está no deserto?
O Anjo da Igreja está no altar.
Reteté
Só vitória!
A paz do Senhor, igreja.
É uma cultura imensa. Uma linguagem só da gente. Pelo vocabulário já dava para sentir: ESSE É CRENTE!
Um coletivo gigante e muitas histórias para contar. Quando consegui enxergar tudo isso como um propósito, meu coração foi desacelerando. Entendi que a minha verdade imposta se tornava prejudicial. Já perceberam a quantidade de igreja dentro das comunidades? A grande questão é que os caminhos nos são dados e a vida é responsável por (co)criar em cima deles.
Óleo ungido? Sim, eu aceito.
Mas não frequento mais a Instituição, não concordo com a dinâmica imposta pelos líderes, não acho certo a proposta financeira entre a igreja e os membros, porém respeito quem permaneceu. Mas não quer dizer que não posso visitar. Quando escolho visitar, eu vou. Flui muito melhor do que algo imposto. Não quero generalizar. Já conheci lugares que realmente fazem o seu papel na sociedade. Que ajudam sim e alimentam a viúva e o órfão. Tenho amigos que permaneceram, outros não. Uns que concordam comigo e outros que discordam. E isso não deveria ser um problema! Ainda tenho um laço forte no ambiente gospel, pois minhas memórias afetivas são desse espaço. Me sinto bem com a oração da minha mãe. Algumas músicas me levam a lugares onde estive segura em alguns momentos. Não é tão fácil desligar. A espiritualidade que hoje busco só tende aumentar, conforme a minha demanda de entendimento e noção de tudo o que acontece fora da minha bolha. O fato de ser chamada de desviada não me faz menos ou mais espiritual. Ou menos ou mais cristã. Pelo ao contrário... me desviei de um sistema religioso que só me trouxe mágoas, e Jesus mesmo nunca teve a ver com isso. Acredito que não preciso de algum espaço para ter conexão com Cristo. Isso é totalmente material. Mas está tudo bem se você quiser ser membro. É um direito de escolha que cabe somente a você! Hoje, não vejo como algo ruim que passei. Mas foi necessário para encontrar o Jesus preto de Nazaré, que ama todo mundo sem fazer distinção e que não anda armado. Ele não é europeu, nem tem olho azul. Ele destruiu as mercadorias e as derrubou num momento de fúria. Eu sinto Ele todos os dias e Ele me ensina a respeitar o meu próximo (de verdade). Esse Jesus me mostra que ninguém é melhor que ninguém e que o amor é a forma mais preciosa que temos uns com os outros.



















