(via https://www.youtube.com/watch?v=P8sHH-a3Ztg)
Sweet Seals For You, Always
we're not kids anymore.
macklin celebrini has autism
Not today Justin
EXPECTATIONS
Fai_Ryy

★
NASA
Show & Tell

PR's Tumblrdome

Discoholic 🪩

Product Placement
2025 on Tumblr: Trends That Defined the Year
$LAYYYTER
PUT YOUR BEARD IN MY MOUTH
Stranger Things
I'd rather be in outer space 🛸

ellievsbear

izzy's playlists!
official daine visual archive
seen from Malaysia

seen from Malaysia
seen from United States
seen from Malaysia

seen from Germany

seen from United Kingdom

seen from Malaysia

seen from Germany
seen from Russia

seen from United States
seen from Malaysia
seen from United States
seen from United States
seen from United States
seen from France
seen from United States
seen from United States
seen from Germany
seen from United States

seen from United States
@shergomes
(via https://www.youtube.com/watch?v=P8sHH-a3Ztg)
Poética eleitoral
Agora está pertinho a eleição
E os ânimos exaltam-se ainda mais
Quem era cordeirinho tá um leão
E é tanto desrespeito, tá demais!
Nenhum destes dois polos me atrai
Nem Lula nem Jair me representam
Porém tenho queridos dos dois lados
Espero que algum dia eles se entendam.
Tomara que bom senso obtenha
Quem porventura queira militar
Que evite de causar vergonha alheia
E conte até dez pra não brigar.
Que pense na família, seus amores
No exemplo que é deixado aos pequeninos
Pois cada atitude dos senhores
Irá redesenhar vossos destinos.
Perdoem qualquer adversidade
Ao expressar alguma opinião
Não ouso ser o dono da verdade
E o tempo há de mostrar quem tem razão.
São tantas as postagens de ataque
As fake news viraram rotineiras
É tanta cena feia e de maldade
Chega de perder tempo com besteiras!
Por isso um "jejum" hoje começo
Pensando em auto-preservação
E até do Facebook desconecto
Até que passe o dia da eleição.
---//---
Ah! Declaro que também sou candidato!
"Pra quem pretende música aprender"
Garanto que bem tocará, de fato!
Se como professor me eleger. ;-)
Não dá pra confiar só na Internet
Não dá pra interagir com um DVD
Nem sempre quem bem toca ensina bem
Escolha quem se importa "com você".
Há trinta anos honro esta missão
Nenhum aluno se decepcionou
Ensino musical é vocação!
Buscava um professor? Então achou!
;-)
Abraço. Lucidez e paz!
O grito - Uma crônica poética
Ela tinha um grito preso, não gritado. Tal não-som sedimentou-se com o tempo e solidificou feito pedrinha no rim. Por mais vontade que tivesse de gritar (e era muita), o específico grito jazia ali, entalado. Não era nem na garganta, como tantos. Este arredio vivia na ponta da língua. Mesmo assim, tão perto de escapar, nunca saía. "Quem sabe siga outros", pensou esperançosamente. E logo pôs tal ideia em prática. Fosse brigando, torcendo, orando, festejando, transando ou dando topadas em quinas, nada deu certo. Por mais que gritasse, na tentativa de fazê-lo ir no embalo de um grito irmão, o dito-cujo não saía. E a pedra engritada crescia de tantos jeitos peculiares... Tinha jeito de "grito de jogar tudo pro alto", mas como poderia? Tinha jeito de grito de medo, mas medo de quê? Tinha jeito de "Botão do foda-se", mas foda-se quem? Por que? Pra que? Se a tal pedra se materializasse em sua mão, ainda teria dúvida e provavelmente titubearia antes de tacá-la na testa de alguém. Pra falar a verdade, até o alvo sempre lhe foi obscuro. O ex-marido já fora alvo. Seu amante também. Seu filho também. Sua mãe também. Seu ex-chefe também. A melhor amiga também. Seu outro amante também. A diarista também. Uma desconhecida demorando no caixa eletrônico também. O motorista do carro que a fechou também. O prefeito da cidade também. Deus também. Não... Prováveis alvos não faltaram, foram todos testados exaustivamente, algumas vezes até à rouquidão. Mas se "o" grito não era nenhum daqueles, tampouco os alvos. E a pedra crescia e pesava... Ela tentou engolir, parar de pensar nisto e até fingir que tudo era fruto de sua fértil imaginação. Mas que dificuldade para engolir pedras! Já tentaste? Pois é, esta não descia de jeito nenhum. Ficou ali, na pontinha da língua mesmo, sempre como que pronta pra sair. Mas nunca que sai, a danada! É feito um violão esquecido no canto, louco pelo acorde de resolução que não foi tocado. Quem conhece harmonia sabe que há acordes de tensão/preparação que "resolvem-se" no acorde seguinte, precisando dele muitíssimo, urgentíssimo, ou a música fica mal acabada, com a tensão vagando no ar, como que doendo. A sua era uma dor madura e já doía há tanto tempo que certas vezes ela nem reparava e até se esquecia (coisas de longa convivência, de um longo cozimento em banho-maria e de um certo calejamento na alma). Este "intervalo de não sentir" durava pouco, pois toda dor não resolvida, como bem sabemos, fatalmente volta a doer, geralmente ainda mais. Caiu na burrada de aceitar conselhos, a pobrezinha. Quando lhe contaram do chá do Santo, sem pestanejar suplicou: "Pois dai-me já deste chá!". Daí foi pro meio da floresta, intercalar gritos e jorradas intermináveis. "Nunca mais!" Quando lhe falaram que era coisa do capeta, correu pra berrar no culto de exorcismo mais próximo. Saiu de lá tonta do tanto que a chacoalharam. "Nunca mais em dobro!" Fez esporte radical, terapia de todo tipo, comprou livro barato de auto-ajuda e até um bem caro. Fez promessas mirabolantes, retiros miraculosos e caía de cabeça em tudo que é crença. Tudo mesmo! Chegou a reformar e remobiliar a casa toda durante a "fase Feng Shui", paranóica com o lado certo pra tudo. Vai que seu problema magicamente se resolvesse ao guardar os sapatos embicados para o Sul, enquanto a cabeceira da cama ficasse vinte graus pro Leste, em harmonia com o novo espelho do corredor... (Que custa tentar?) Após cada novo reposicionamento de sofá, estantes e outras mobílias, tudo feito "no muque", quem gritava mesmo era sua coluna. Finalmente deu-se conta de que tantas tentativas nada mais eram do que "anestesias", pura e simplesmente. O problema é que o efeito das anestesias passa. Como tudo aliás, passa. Só não passava este grito empedrado pra fora da boca. Tentou diluí-lo, para que saísse pelos olhos. Já chorou um oceano! Mas grito não sai água. Grito sai som. Injuriada, passou a virada de ano na praia, premeditando fundir som e água. Quando deu meia-noite em ponto, mergulhou por entre uma centena de oferendas e, plenos pulmões, deu um grito submerso digno de acordar Poseidon. Nessa, engasgou-se e, de um gole só, bebeu um litro d'àgua salgada. "Nunca mais triplo!", jurou-se. Cá pra nós, desconfio que foi castigo do Deus, visto que não suporta que gritem com ele (Ulisses que o diga). Pensou em gritar contra a vida. Mas a vida não se personificava, não encarnava forma, não descia ao mundo concreto. Além disso não adiantaria, pois a vida é mais surda do que uma porta e, portanto, imune à gritos. "Ah é? Pois a vida me ouvirá agora!", exclamou ao ingerir um pote de comprimidos tarja-preta. Encontraram-na babando e balbuciando no piso frio da cozinha (mas como já disse, grito não sai água). Após uma traumática e humilhante lavagem intestinal, uma chuva de sermões de parentes e amigos (e totalmente pê da vida por ter falhado), acabou descartando novas "rotas de fuga". "Nunca mais quádruplo!" "Fazer o quê?", "A vida segue.", "Há que resignar-se.", "Amanhã é outro dia.", isto e mais tudo o que couber num etcétera, pode acreditar, ela pensou. E a vida vai mesmo seguindo adiante, incólume, com dias repletos de Sol, outros repletos de chuva e, às vezes (para alegria das viúvas) dos dois ao mesmo tempo. E assim outro dia termina, saturado da gritaria errada, enquanto o grito certo que é bom, nada. "Maldita mudeza na hora que mais preciso!", costumava pensar ao cobrir-se indignada, após outro longo dia de trabalho e passatempos vãos, como todos os dias metropolitanos costumam ser. Ela sabia que dormir não garantia nada, de tanto que já acordou aos gritos por causa de um pesadelo. Pois é, até dormindo, inconscientemente buscava seu grito. Que estava exausta, não admira. Gritar errado é exaustivo, buscar pelo grito certo é mais exaustivo e colecionar arrependimentos então... é super-exaustivo. Mesmo assim, antes de cair no sono, tinha por hábito ouvir "À flor da pele", do Chico. Seus pelinhos do braço sempre eriçam e ela toda vez exclama, enquanto expele a fumaça da última tragada, já amolgando a guimba: "Caraca, Buarque! Essa foi feita pra mim!". De tanto que se identifica, sorri internamente, julgando-se "a tal" por ser (segundo ela) a única pessoa neste mundo que entende exatamente sobre "o que será" que eles estão falando. E finalmente adormece. Na madrugada de sexta passada, porém, debruçou-se insone no parapeito da janela e gritou para a Lua, exatamente assim: "Oh, reluzente farol, de quê te gabas tanto, se esta luz que carregas nem é tua? Exalto ao teu bundão de Vagalume, com o uivo mais agudo desta loba encanecida e ensandecida, conhecedora de teu segredo e complacente da tua vergonha! Auuuuu!" Um vizinho fez "Xiu!". Outro bradou "Vá dormir, sua maluca!" Ela nem ligou. Ou nem ouviu, desligada que estava. Deitou-se ofegante, cobriu a cabeça e, encolhida feito um tatu-bola, dormiu um pouco melhor (Só um pouco). Ainda não era o grito certo. Mas era novo e, como todo ineditismo, era animador. Por enquanto e na falta de anestesia melhor, serve. Assim, a partir daquela noite, para desespero dos vizinhos e meu pessoal deleite, ela grita na janela, antes de deitar-se. Ela ainda busca o grito certo. A saber: O que vive na ponta da língua. O que pesa uma tonelada. O que resolveria tudo. O que procura até no fundo do mar, mas não acha. O que não sai com choro e nem com reza brava. O que não faz sentido. (Ela, ultimamente, está se lixando pra sentido!) Parece que desistiu (ao menos por enquanto) dos impropérios. Percebeu que para nada serviam, além de machucar ouvidos alheios e fazer corar as velhinhas mais pudicas do bairro. Tão bom ouvir seu grito diferente... Agora tá do jeito que o poeta gosta... Ela grita metáforas.
(via https://www.youtube.com/watch?v=zEhd7nbWgMU)
Soneto da Obstinação
Soprai, oh Ventos do Norte Lufadas de Lobo Mau Se é este teu golpe fatal Não precisarei nem de sorte
Tocai, Trombetas celestes Trovão, furacão, temporal Se é este o alarido final Nem cócegas me fizestes
Finquei meus pés neste chão Enraizaram com o tempo Tentais demovê-los em vão
Sou planta, mas não lamento Vôo, a despeito da prisão Mui livre no pensamento
Canto do adormecer
Surge o anoitecer com a promessa de um novo dia. A mesma promessa furada de sempre, já que nem esta pobre certeza podemos ter, já que para alguns o novo dia não chega, os olhos não abrem, o Sol não desperta... É por isto que o primeiro sentimento do dia deveria sempre ser o da gratidão. Ah, como esquecemos justamente das obviedades, das coisas que deveríamos. E há sempre tanto que deveríamos..... Mas já é tarde pra filosofadas. Aliás, sem um bom vinho, sempre é tarde pra filosofadas. E a sonolência não combina com coisa séria. A pulsação vai baixando e a respiração se prolonga, enquanto os olhos semicerrados vislumbram imagens oníricas misturando-se ao embaçamento daquelas tidas como reais. A boca sorri "Monalisamente" e lá vou eu, sem resistências, para os braços de Morfeu. Hoje não tenho pedidos e nem desejos escondidos. Nem tampouco farei promessas ou falarei dos meus projetos. Aliás, falar cansa, divulgar planos cansa (e é inútil) e até sonhar demais cansa. Por isso vou hoje apenas descansar. Dispenso sonhos e rejeito pesadelos. Só descansar... Algo em mim dormirá enquanto algo despertará. Algo de mim voará até o monte mais alto e silenciará num isolamento profundo. Daí baterá o bico contra a dura rocha, feito a fajuta estória da renovação da águia. Baterá até que caia, para que um novo surja. E o bico novo arranca as unhas e as penas velhas, renovando tudo. Ou é isto ou a morte, não há outra opção. A moral da estória é o que vale. Algo falece, algo renasce. Hoje estou oriental. Adeus palavras que lancei ao vento. Adeus ideias que nem tive tempo. E adeus vícios que não vingaram. Não há mais tempo. Não há mais tempo algum. O juiz apitou o final do primeiro tempo, sem prorrogação. E assim terminou o quadragésimo quinto minuto: sem nenhuma grande reviravolta no placar. Viajante... Quero a bagagem leve, pois longa é a caminhada. Alma! Escute-me bem e cumpra a única ordenança que te dou: Mergulha fundo no rio, bem fundo! E, ao voltar para a margem, sacode-te feito cachorro molhado. Retorna deste banho mais alva do que a neve, livre de pulgas e de carrapatos. E assim, limpa, leve e cheirosa, retorna para tua casa, seja ela onde for. Se retornares pra mim, prepara-te, impecavelmente brilhante! É justamente assim que é gostoso sair para brincar: sem medo de sujar-se novamente. Isso mesmo, sujar-se! Não haverá tempo nem para secar direito tuas penas e já sairemos para brincar. Gostou da ideia? Eu sabia que gostaria. Viver é brincar na terra. Viver é brincar na chuva. Chuva faz da terra lama. E daí que a lama suja?
Alma penada
Sempre tive medo de não sei o quê. Sou ressabiado com não sei o que lá. Sempre incomodou-me a sensação de que esquecia alguma coisa... "Mas o que será?" Esta pulga danada instalou-se atrás de minha orelha, ela ainda menina e eu ainda menino. Acho que gostou, pois ficou ali durante toda a nossa vida. Eu tinha uma ferida incicatrizável e que não tratei quando devia. Ela era invisível, mas que havia, havia. Sua causa, sempre indecifrável, cada dia num canto doía. Era um nó no peito apertado. E era com tais argumentos furados, que eu mesmo me mentia: "Calma! Pra que pressa? Vá levando! Por acaso desatou sangria?" Não foi de uma vez, não mesmo. Eu fui morrendo aos poucos, só o passamento é que foi súbito. E logo percebi que, neste mundinho insano, um louco a mais, um louco a menos, não faz diferença. Aliás, parece que pra cada louco que sai, têm dois que entram. Meu velório foi modesto. Uns poucos gatos pingados, nenhuma Coroa de flores, um caixão de compensado, numa sala de paredes descascadas e encardidas, com luz branca fluorescente, daquela que dá cefaléia e deixa todo mundo cinzento e com olheira. Parece até que quiseram, esses miseráveis, fazer combinar com o ambiente lúgubre do almoxarifado em que trabalhei por tantos anos. E todas estas lâmpadas incômodas estavam acesas. Mas vela, que era bom, nada! E nem velar! Tirar um cochilo num velório é contrassenso duplo, pois desrespeita-se ao morto e à língua ao mesmo tempo. Pois quem deu sua pescada que me aguarde... Farei questão de puxar o pé numa madrugada dessas. Um Zé Ninguém cochichou: "Esse já vai tarde!" Outro, com o dedo em riste: "Eu bem que avisei!". Velhas carpideiras choraram borbotões de lágrimas fingidas. E claro, tinha gente que só veio pelos canapés. Destes, mesmo frios, comprados numa padaria de quinta, não sobrou migalha. "E, se ao morrer eu não tiver um puto, para que minh'alma faça a travessia, dai-me uma moeda ao invés do luto." Um pedido apenas e tão simples... Quem o negaria? Mas que nada! "Dane-se o defunto!" Ninguém lembrou de colocar a bendita moeda em minha boca. Pois a Caronte não se dá calote. Vagarei cem anos às margens deste rio, uma verdadeira eternidade. Oh sentença injusta! Conta que não fecha! Pago cem por quê? Vivi nem metade!
Aquela viagem de barco? Não fiz! O tal curso que iria fazer? Tampouco! O salto de paraquedas? Não dei! O beijo que acorda a princesa? Tampouco! O discurso tão ensaiado? Não fiz! O livro que iria escrever? Tampouco! O vício que iria deixar? Não quis! O balde que iria chutar? Tampouco! Maldito futuro do pretérito do indicativo, na primeira pessoa do singular! "Eu iria" há de ressoar cem anos nesta cabeça oca. Sim, será preciso pelo menos um século para evaporar da minha consciência esta culpa por tudo aquilo que eu iria e não fui, tudo aquilo que eu faria e não fiz. Espere um pouco, pensando bem... "É isto! Acabou de fazer sentido, meu caríssimo barqueiro! A tua matemática do além, afinal, é perfeita."
Fechado para reforma
Estou fechado pra reforma E nem sei quando reabro Tudo em mim é tão disforme Por que tudo foge à norma? Virou normal ser anormal?
Meus olhos estão com goteira O peito tá descompassado A voz sai fora de hora Não junta mais lé com cré E falha bem na hora H.
Estou fechado pra balanço O rendimento anda baixo O nó no peito apertou E por falar em aperto Fiz outro furo no cinto.
Os meus ouvidos têm fome Qual é mesmo aquela música? Qual é mesmo minha estória? Qual era o som do silêncio? Agora só faz barulho.
Quem me tacou nesse mundo? Eu não pedi pra nascer Male male dei uns passos Caí num poço sem fundo Despenco infundamentado.
Estou fechado por luto Porque uma parte de mim Morreu. E nem pra avisar! E a parte que me mantém Já encomendou Réquiem.
Mas eis que algo me pulsa Coração sai pela boca Eu fecho a cortina dos olhos E passo a olhar-me do avesso Que será que me sacode?
Penetro um escuro tão denso Tateio por meu labirinto Piso por cima dos medos E, se não me falha o sentido, Um rastro de brilho avistei.
Sim! Tem um farol lá distante Além do chão pantanoso "Preciso chegar até a luz!" E quanto mais me aproximo Mais profundamente afundo.
Estou aos pés do farol Encaro seus mil degraus A luz tá quase minguando E de soslaio, num canto Vejo uma lâmpada nova.
As piscadelas fraquinhas Suplicantes juntam forças Pra guiar-me até a reserva Que com cuidado apanho Como a um recém-nascido.
Mas titubeio e questiono: Renovo-te ou deixo apagar? Talvez mereças descanso Talvez nem queiras brilhar Já foste farol o bastante É a chance de não sê-lo mais.
"Vês?" - A lâmpada nova me fala: "Sempre dependeu de ti Nunca houve farol fora Tens a luz em tuas mãos Luz prenha do teu destino!
Preciso contar um segredo: A parte que julgavas morta Só está carente de mim Ponha-me à prova, confia! O que mais tens a perder?
Permita que te ilumines Assim, de dentro pra fora Não existe melhor forma Já passaste pelo inferno Não desista logo agora.
Decida, homem! Decida! A velha está por um triz Eu já vi medo de tudo Mas vê se tem cabimento Ter medo de ser feliz!?"
Cenário político e a gente
A coisa mais evidente (e não estou defendendo o partido) é que, com tudo ficando às claras com a prisão do marqueteiro e a lei não deixando brecha para campanhas sujas ("se for cumprida" o impeachment é inevitável), é que provavelmente diriam que qualquer outro partido teria feito o mesmo, se beneficiaria de propina e afins. É o tal de esquivar-se de responder pelos próprios erros apontando para os erros do coleguinha. Mas o triste é que, em seu passado, o PT era sim o que mais alardeava honestidade, o que mais posava de ser "pelo povo" (ser "pelo povo" vai além de assumir-se "Estado-mamãe", pois a mãe que nunca quer que o filho cresça não está sendo boa mãe de fato, só querendo o filho ali no ninho, para sempre dependente e a apoiando. Isto reflete uma mãe insegura. Se chegou a dar uns peixes não lembrou de ensinar a pescar, ou melhor, não tem interesse em ensinar mesmo, pois no fundo esta dependência eterna a faz sentir-se importante. A tal "Pátria educadora" foi só outra ideia de marqueteiro, a "mamãe" não sabe - e as vezes nem parece querer - educar.) Não é irônico tudo isto acontecer justamente com o partido mais declaradamente contra a corrupção de todos? E ainda hoje seu chefe afirma que não há alma mais honesta neste brasil. (minúscula proposital) Então tá, nenhum partido presta! E a dança das cadeiras por apoio no congresso só comprova isto, já que ninguém veste a camisa e não há a mínima fidelidade partidária hoje em dia. A sede por ministérios, o toma lá, dá cá... Todos estamos carecas de saber. Tenho a sensação de que o PT era muito mais útil como oposição, não deveria ter provado do mel e se lambuzado tanto. Antes eu até usaria as máximas "O poder corrompe" e "A ocasião faz o ladrão", mas as aulas de filosofia me ensinaram que não é a ocasião, pois o ladrão já cresce feito. E o poder é uma força que "esfarela" ao corrupto, joga luz sobre seu caráter e uma hora o desnuda. Uma hora cai. E caem todos. Se o poder realmente corrompesse, porque falhou com José Mujica, lá no Uruguai? E historicamente, com alguns reis e imperadores que foram tão bons e amados pelo povo. São raros, mas existiram. Ao povo (todo o povo! Eu e você!) seria mais útil aproveitar tal cenário e passar a estudar mais. Estudar história e política, sem ficar dando desculpa de que é chato ou de que não tem tempo. Aprender como a "máquina" funciona, ler "A Republica" e "O banquete" fazendo comparações com o mundo atual. Ler a biografia de grandes líderes (como George Washington, Julio Cesar, Gandhi, Robespierre, Adenauer, etc.) e também dos maus, por contraste e também como "vacina". Ler a história de grandes impérios que ruíram e descobrir como eram em seus tempos áureos. Ler e adquirir prazer nesta leitura enriquecedora. Ler agora de livre e expontânea vontade e sede de saber, não mais porque foi leitura chata e obrigatória na escola (se é que foi). Ler como adulto. Hoje está tudo à mão, a Internet tem livros, documentários, aulas gravadas maravilhosas, como as que o prof. Clovis de Barros dá na USP, a Lúcia Galvão na Nova Acrópole e outros, como o prof. Leandro Karnal. Cavuque! Procure! Aprenda! Sem dúvida ficaria muito mais difícil para ser enrolado na próxima. E haverá próxima! Nunca deixarão de tentar uma nova manipulação, mas nosso preparo pode dificultar muito para os próximos manipuladores. Então não quero ser mal interpretado aqui, mas realmente acho que toda energia usada pra bater panela, fazer passeata e entrar em discussão inflamada seria melhor aplicada em estudo. Pra quem não abre mão de se manifestar, que canalize esta energia "também" no estudo. Em outras palavras, nos acostumamos a dizer que a educação no Brasil é uma bosta. Mas e quem pode tomar a iniciativa pela própria educação e não o faz? Quem poderia melhorar a educação dentro de casa e não o faz? Só xingar de ladrão e corrupto ou só fazer piada e bagunça não parece ser a solução mais digna para um povo que almeja ser grande. Ou nos reeducamos e investimos um pouco de tempo em mais crescimento pessoal ou nos extinguiremos. "Ah, tá pedindo muito! Já estudei na escola, chega! Haja saco pra ler tanto! Tô nem aí com política!" são pensamentos que revelam muito sobre a gente. Não é fácil? Quem disse que seria? Não tem tempo? Dê menos tempo para os outros e priorize-se. Não tem pique? Comece mesmo assim, é provando que se toma gosto. A imagem que ilustra este post não poderia ser melhor. Tem regado sua plantinha? E tá florescendo? O insight após escrever este "textão" (como diria minha querida Fi), é um só:
A verdadeira revolução é interna. Urra!
E.vidência
Seu João acerta as notas Percorre longas escalas Inverte todos acordes Exibe seus dedos ágeis. Seu João viverá mais 413 dias. Ainda tem 413 chances de experimentar o que é "música".
Seu Pedro escreve bonito Elege palavras fresquinhas Coloca o pingo nos is É obcecado por rimas. Seu Pedro viverá mais 5043 dias. Ainda tem 5043 chances de experimentar o que é "poesia".
Seu Tarcísio é bem legal Ouve todo o melodrama Aconselha, bota pilha E até paga o cafezinho. Seu Tarcísio viverá mais 8 dias. Ainda tem 8 chances de experimentar o que é ser "amigo".
Seu Antônio visita igrejas Decora livros sagrados Paga promessa pra Santo E tem joelhos calejados. Seu Antônio viverá mais 700 dias. Ainda tem 700 chances de experimentar o que é "Deus".
Seu Carlos é inteligente Tem diplomas na parede Domina quatro idiomas E até releu A Odisseia. Seu Carlos viverá mais 20222 dias. Ainda tem 20222 chances de experimentar o que é "sabedoria".
Dona Anastácia viaja Deu a volta pelo Mundo Tem selfie na Torre Eiffel E até com aborígene. Dona Anastácia viverá mais 97 dias. Ainda tem 97 chances de experimentar o que é "estar presente".
Dona Olga é cozinheira Cozinhou em casa e "pra fora" Choraminga com a cebola E coleciona receitas. Dona Olga viverá mais 1130 dias. Ainda tem 1130 chances de experimentar sua "alquimia".
Seu Marco tem casa própria Tem redes pela varanda Um belo jardim no quintal E a piscina cheia de gente. Seu Marco viverá mais 3 dias. Ainda tem 3 chances de experimentar o que é um "lar".
Seu Ramirez manda e desmanda Rege mil subordinados Sabe que tempo é dinheiro É atolado em compromissos. Seu Ramirez morreu ontem. Morreu sem experimentar o que é "liberdade".
Meu caro João... Música se faz quando o seu coração toca o coração do ouvinte. Não a confunda com “circo” ou mero entretenimento. Você realmente ouve o que toca? E o que você sente ao se ouvir? Tudo resume-se à equação "ritmo, melodia e harmonia"? Você ouve suas pausas? E o que elas te dizem? Música é algo que te arrebata e que vibra junto contigo. Música faz o espírito dançar.
Meu caro Pedro... Poesia aperta o peito, deixando a alma sem ar. Com poucas palavras diz muito, nas entrelinhas diz muito e até sem palavras diz muito. A poesia continua depois do ponto final. E o poeta é um instrumento e um escravo voluntário da poesia, sendo que tais papéis nunca se invertem.
Meu caro Tarcísio... Um amigo sente a dor do outro e se compadece, não é um reles ouvinte. Não se delicia com desgraças. Sabe quando falar, sabe quando calar e sabe até quando não deve dar ouvido. Sabe quando ajudar e sabe quando a melhor ajuda é não interferir, para que o outro finalmente evolua. Sabe que ajudar com o pensamento em lucrar lá na frente não é amizade, é apenas investimento.
Meu caro Antônio... Ser "um" com Deus é perceber que não há separação nem entre você e Deus, nem entre eu e você. É encontrar o divino em si e com isto despertar. É perceber finalmente que nenhum dogma ou doutrina garantirá tal encontro. Encontrar Deus envolve mudança e é no teu olhar, não em teus atos, que esta mudança ficará evidente.
Meu caro Carlos... A sabedoria eleva ao outro e, sendo assim, é uma dádiva à quem cruzar teu caminho. Pode faltar nos eruditos e sobejar na vovó analfabeta, no pajé da tribo distante e até no cortador de cana. O sábio é um entregador de sementes e detesta reter tais sementes para si. Ele divide o que sabe não por vaidade, mas por puro amor à sabedoria.
Minha cara Anastácia... Estar presente é vivenciar a comunhão entre você e o lugar que estiver, é sentir a energia do “agora”. É sentir-se parte e capturar aquele precioso momento através de todos os sentidos disponíveis. Você não está totalmente em um lugar se tua cabeça estiver em outro.
Minha cara Olga... Essa alquimia não vem explicita na receita, ela depende de “intuição”. Você ouve sua intuição? Sabia que sua comida fica impregnada de seu estado de espírito? Pense nisto ao sovar teu próximo pão. E nunca cozinhe triste, nem cheia de amargor, culpa ou rancor. Melhor esperar tais sentimentos evaporarem. Pois o prato sente e recebe a tua energia e quem comerá não merece partilhar desse fel. Nunca esqueça de colocar amor, o único ingrediente que, à medida em que é usado, mais renderá na dispensa. Se o mantiver estocado aí sim ele escasseia. Então cozinhe como se homenageasse seus antepassados. Cozinhe como se homenageasse a Natureza. Cozinhe com gratidão pelo alimento. Ou nunca desconfiou que esta deveria também ser uma experiência espiritual?
Meu caro Marco... Um lar é pra onde retornamos felizes ao fim de um dia produtivo. É onde os sons não irritam, pois são vozes, latidos, risadas e até bagunça de seus bem amados. Você pode evitar “voltar pra casa”, procurando o que fazer e onde se distrair, sem perceber do que ou de quem está fugindo. Quem tem um lar não tem porquê fugir. Pois um lar sempre te convida a voltar, sempre te acolhe e é ali que o seu coração bate mais tranquilamente. Tanto faz se fica em bairro nobre ou periferia, se é revestido em mármore ou se ainda falta o reboco. Tampouco o tamanho importa. Tudo isto só define sua casa. Lar é algo diferente.
Meu caro Ramirez... O senhor foi um escravo da própria mente, na ilusão de ser rei nunca percebeu a falta de domínio próprio. Cumpria suas obrigações, mas só por serem obrigações. Achava que um dia elas dariam uma brecha para sonhos distantes e perdidos no tempo, como aquele curso de violão, aquela viagem pra conhecer a terra de seus avós, aquele desejo de plantar uma árvore e cuidar dela até que lhe fizesse sombra. E tudo isto ficava pra depois, sempre pra depois... Viveu por setenta anos. Viveu mesmo, tem certeza? Ou apenas sobreviveu? Rodeado de regras, seu orgulho o aprisionou num casulo morno e gostoso, isolando-o da vida lá fora. E, dentro deste casulo, teu próprio ego alimentava tua ilusão de ser livre. Não viu teus filhos crescerem, não teve tempo pra férias, aliás, nunca tinha tempo pra nada. Acumulou seu dinheiro, sem dele usufruir. E agora se engalfinham por ele, feito pombos sobre migalhas. Mas e do senhor, quem sentirá falta? Quanto durará sua lembrança? E qual sentimento a tua lembrança evocará? Aliás, já que tinha tantos bajuladores, te surpreenderia saber quantos amigos disputaram as alças de teu caixão. Mas te poupo de tal vexame. Também te poupo de conselhos. Nenhum conselho te serve mais, pois tuas chances de fazer diferente esgotaram. Descanse em paz, seu Ramirez.
E a falta de rima era tanta
O mundo que hoje descrevo
Apesar de sua Natureza
Tão imensamente farta
Carece de tanta coisa
Não deixa de ser irônico
Já que tanto ele produz
Mas é terra de insaciáveis
Consomem, logo descartam
Daí querem mais e mais.
O que mais tem lá é doente
Tratando só dos sintomas
E a doença progredindo…
Percebi que ninguém mais “poesia”
De repente olhei ao redor
E a falta de rima era tanta…
Se as crianças estavam inquietas
Tacavam nelas remédio!
Jovens estavam deprimidos?
Tacavam remédio neles!
Aos sedentários hipertensos
Que se entopem de trash-food
Dá-lhe desentupidor de artéria!
E se a preguiça chegar ao intestino
Há um tiro e queda pra caganeira!
Aos que morriam de medo, pasmem
A solução era ter um revólver!
E os países, mais doentes de medo ainda
Teimavam em ter sua própria bomba!
Havia mil e uma soluções equivocadas
E a falta de rima era tanta…
Não era só eu que afirmava
Que mais poesia curaria o mundo
Vez ou outra surgia um bom “médico”
Repleto de rimas em sua maleta
Doutor Fernando Pessoa
Doutoras Florbela e Cecilia
Doutores Drummond e Machado
Inclusive uns mais saidinhos
Como Bocage e Gregório
Todos, sem a menor cerimônia
Distribuíam todas as suas rimas
Porém não foi o bastante.
Em um mundo cada vez mais doente
É normal faltar remédio.
E a falta de rima era tanta…
Tamanha era a falta de rima
Que até Deus compadeceu-se
Desceu ao andar dos profetas
Pra ver quem “dava sopa” por ali
Vasculhou toda a repartição
E quando quase desistia
Deparou-se com um velhinho
Humilde e de olhar perdido
Aquele olhar jogado além, bem além
Jeitão meio maluquinho, mas inofensivo
“Acho que serve”, pensou o Soberano
E foi assim que o Profeta Gentileza surgiu
Pra fazer diferença no mundo
Mas o mundo era só correria
E a falta de rima era tanta…
Para mim, poesia fica melhor rimada
Tanto que resolvi testar
E talvez por causa disto
Vocês nem tenham atentado
Que tudo isto aqui fosse poesia
No meu mundo ninguém mais dá bola
Poesia lá virou bobagem
Coisa dos de antigamente
De desocupado e de tantã
Por isto mudei-me e vim de vez
De mala e cuia pro Mundo da Lua
E admito: não faço a mínima falta!
Sei muito bem o que falam de mim:
“Aquele poeta era estranho
Tinha tanta utopia em sua pena
E a falta de rima era tanta...”
"A" de mim
Eu arvoredo
Se acordo tarde
Eu alvorada
Se acordo cedo
Eu alvoroço
Quando não saio
Eu arquiteto
Quando não chego
Eu arremesso
Quando me empato
Eu arcabouço
Quando me imputo
Eu avacalho
Se me entedio
Eu Amazonas
Se me comovo
Eu amarelo
Se o monstro é bruto
Eu acalanto
Se o monstro é manso
Eu abstrato
Se me reparto
Eu azulejo
Se me rejunto
Eu amoreco
Quando apaixono
Eu advento
Quando renasço
Eu assassino
Quando me minto
E amadureço
Quando me escuto.
Religares
Esta semana ouvi “de passagem” uma turma malhando uma tal religião, que nem convém dizer qual era. Os minutinhos de “ouvido esticado” acabaram ficando na cabeça. Daí já viu, só tiro da cabeça se escrevo. Apesar de assunto delicado e de saber que cutuco um vespeiro, escrevo mesmo assim. Oras, ninguém precisa comprar minha opinião. Ela nem está à venda mesmo! ;-) Iniciando….
É comum debocharem afirmando que religião pega aos não instruídos, gente de mente pequena e afins. Até parece… Você já ouviu falar de Dianética? E de Cientologia? Caiu no conto da mente reativa contra a analítica? (Calma que fica pio!) Entrou nessa “viagem” de que “Thetans” invadiram seu corpo quando você nasceu, enviados pelo Deus Xenu e que você precisava se limpar e se reprogramar inteiro? Tudo isso veio da mente fértil de L. Ron Hubbard, que criava estórias de ficção científica lá no começo dos anos 50. Virou uma febre nos EUA, mas sabe como é, por aqui as coisas chegam atrasadas. Pior! Mesmo já desmascarada e desgastada por lá, eu mesmo vi amigos curtindo estas teorias depois dos anos 2000 por aqui. E nenhum destes amigos era exemplo de gente ignorante, inculta ou facilmente influenciável, pelo contrário. Mesmo assim… A Cientologia, por mais absurda que fosse, pegou gente como John Travolta, Tom Cruise (só pra citar os casos mais famosos) e várias outras pessoas cultas, estudadas, formadas, ricas e por aí vai… Poderia ousar a afirmar que o foco dela é justamente gente “de nível”. O “doidão” do Aleister Crowler, por exemplo, não fascinou um monte de artistas? (Inclusive o próprio Hubbard). Pois é! E o Joseph Smith e seu anjo Morôni!? Putz, até uma parente próxima minha já foi mórmon e acreditou nessa religião, praticamente feita para os americanos. Sempre comento sobre a baita igreja linda que fica na Vila Mariana, a Happy Science. Já entrei de curioso e fiquei pasmo com a gigantesca estátua dourada no altar. Mas pasmado mesmo fiquei com a estória do El Cantare e toda a turma vinda de outros planetas envolvida na doutrina. Detalhe importante, a Coreia do Norte irá colonizar o Japão em breve, segundo seu líder. XD Tá bom, você pode dizer que estas religiões modernas não podem ser comparadas às milenares. Mas veja se não soaria estranho se eu te contasse a criação descrita no Genêsis, caso você nunca a tivesse escutado: “Deus pegou um punhado de barro, moldou o homem, soprou-lhe vida, esperou-o dormir e arrancou-lhe uma costela. Desta costela fez a mulher, que foi enganada por uma cobra falante e daí o mundo tá essa bagunça toda por causa de uma mordida numa fruta!” Seja sincero, se ouvisse isto pela primeira vez na vida, como se fosse um dos exemplos mirabolantes que descrevi antes, o que acharia? Só outro exemplinho vai… (Lembre-se, imagine-se ouvindo isto pela primeira vez, ok?) Digamos que inventei de estourar umas pipocas e assim que você exclama animado “Oba! Pipoca panóis!” eu contenho teu avanço, pego a tigela e digo que não é pra gente. “É pra uma entidade que vai sair de seu reino pra vir fazer um lanchinho à luz de velas ali na esquina.” O quanto isto parece absurdo pra você? Veja, religiões são absurdas em essência. Acontece que, enquanto você ri dos absurdos da religião alheia, esta provavelmente também ri dos absurdos da tua. (É por isto que nenhum religioso deveria debochar ou desrespeitar uma religião diferente. Vira o roto a falar do rasgado!) Mas nenhuma novidade aqui e não é isto que importa. O que importa é que tem oferta pra todo o gosto. E eu sinceramente não duvido que, se souber usar de bom marketing, até eu poderia criar uma nova religião. Algo como afirmar que alienígenas vieram aqui em casa e me escolheram, daí me levaram ao planeta Elohim e lá me apresentaram Jesus, Buda, o Joseph Smith e até Confúcio! Após confessarem que todos são aliens, ainda revelaram que o ser humano foi criado no laboratório deles, 25000 anos atrás. Daí quiseram mudar meu nome e ganhei o sonoro apelido de Rael. Sendo designado por eles para ser o porta-voz e nosso intermediário interplanetar, mandaram-me de volta e fundei o Raelismo. O que achou da minha ideia? Bizarra, né? Pois já existe faz tempo! Não foi ideia minha não! E tem uns 30 mil membros! (Não se preocupe, não irei lançar uma religião nova. Já há mais de dez mil pelo mundo. É muita concorrência. Como se fala na Índia, “Há tantos deuses aqui que mesmo dando um pra cada pessoa, ainda sobraria deus.”) Sabe por quê? O ser humano adora ter um guru. Busca por um o tempo todo. E troca assim que aparece um mais iluminado. Sente-se órfão sem um. Gosta de sentir-se parte de algo importante. Numa era onde tudo é descartável, por que não religiões? (Agora dei uma de Zigmunt Bauman) Hoje em dia até ateu não percebe, mas vira um “missionário do ateísmo”, tentando (re)converter aos já convertidos. Aliás, já criaram uma igreja. É sério! Fica em Londres. Juro!
Ah, o sábio Krishnamurti… Sempre alertou quanto a isto, sempre disse pra ninguém ir atrás dele e de mais ninguém. Adianta? Também virou guru e inventaram uma seita pra ele! (Tudo que ele sempre quis evitar.) Ah, o sábio Jesus… Disse que o reino de deus era dentro da gente, que o verdadeiro templo éramos nós. (Tolstoi reafirmou, pra quem prefere Tolstoi a JC) E adianta? Que nada! Olha quanto templo majestoso foi erguido em todo o mundo, começando pelo suntuoso Vaticano e culminando com “nosso” exemplo paulistano erguido no bairro do Brás. Ah, sábio Zarathustra… (este nem existiu. Mas isto importa mesmo?) disse que martelássemos todos os ídolos e os deixássemos em pedacinhos e que nosso salvador super-homem só poderia surgir de dentro da gente. Mas seria um parto sofrido, sofrido da gota serena! Por isso a maioria nem tenta. (E por favor, interprete direito! Ele não está te mandando sair por aí quebrando estátua de gesso! É dos SEUS ídolos que ele fala! Sabe aquela “muleta” que você adora, idolatra e acha que não viveria sem? Seja coisa visível ou não, como um sonho de futuro que nunca chega, como uma assombração em forma de um diploma ou um troféu empoeirado ou de uma simples foto desbotada. E até um ressentimento (pois há quem idolatre até ressentimento). Ou mesmo um pai, mãe, tia, amor, ex-amor, amigo ou professor que involuntária e injustamente (pros dois) foi rebaixado de pessoa à muleta. Vamos além, contextualizando, poderia ser até uma rede social, as curtidas em sua foto de perfil e até seu sinal de Wi-Fi. Vixe, tu viveria sem isso? Se identifica com algo listado acima? Pronto, eis aí o seu ídolo! “Despedace-o!” é o que nosso profeta Zara recomendaria. (De nada, Mano Nietzsche! É nóis!) Constato que tantos mestres até tentaram ensinar algo de bom no intuito de alertar-nos sobre tanta “pegadinha do malandro” espalhada pelo mundo. Imagino-os com mãos na cintura, lá no planeta Elohim, gritando cá pra baixo: “Tô falando com as parede?”
Finalizando, só me resta crer que o negócio é estar alerta, afinal a próxima religião (ou onda reciclada e reaproveitada para nosso querido terceiro mundo) pode sim pegar você, eu, seus parentes e amigos, enfim, qualquer um. Ter um Qi alto não garante nada. Aliás, ele poderia até ser útil dentro da igreja. Seria arrogância julgar-se imune por se achar muito esperto e inteligente pra essa coisa de religião. Elas estão cheias de gente muito mais esperta e inteligente do que eu ou você. Não tem jeito, “Me engana que eu gosto!” faz parte do humano. Por isto viva sua religião, por mais absurda que seja (menos pra você) e respeite a absurda religião do outro. Não precisa brigar pra ver qual é mais, né? A menos que você seja um Alien, é claro. Aí desconsidere esta mensagem.
Think about it.
Humanoides
A gente complica
Complica a dor
Complica o choro
Complica o amor
Quisera extirpar da gente
O agente complicador
Ninguem cura o sofrimento
Fazendo um outro sofrer
Pare só por um momento
Sê sincero ao responder:
Ameniza teu tormento
Atormentar outro ser?
Somos raça complicada
De polegar estendido
Sempre pedindo carona
Sempre buscando sentido
E o sentido tá na estrada
A própria estrada é o sentido
O que queremos, no fundo?
Sem delongas enumero
Só peço que me desculpe
Se peco sendo sincero
Tentai digerir a lista
Que criei com tanto esmero:
Mestres para seguir
Mártires pra matar
Judas para pôr culpa
“Jobs” para invejar
Pobres que nos invejem
E causas para brigar
Jogo palavras ao vento
Atiro pra todo lado
Sou refém do pensamento
Um tanto manipulado
O que penso é meu de fato
Ou pensamento roubado?
Me disseram para crer
E eu cri, sem questionar
Fiz-me boa marionete
Fui jogado ao deus-dará
Fui baixar noutros terreiros
Fui bóia lançada ao mar
Conheci a deus menino
Brincando de esconde-esconde
Despiu-se do ar divino
Falou-me com olhar pidão:
“Tava ‘mó tédio no Além
Me deixa brincar tambem?”
Antes tivesse negado
“…nove, dez, e lá vou eu!”
Abri meus olhos e nada
Sobrevoei nuvens e nada
Desci ‘té o inferno e nada
Foi passando o tempo…
E nada
Vim o ver já adultado
Esse sim se esconde bem!
Eu que olhei pro lado errado
Nunca o encontraria assim
Pois não é que esse levado
Se escondeu dentro de mim?
E tão logo o encontrara
Feliz de ver meu colega
Sem a menor cerimônia
Quis brincar de pega-pega!
Antes de sumir de novo
Em uma atitude clichê
Tocou de leve em meu ombro
E disse “Tá com você!”
Descascando grão-de-bico
1, 2, 3, 4...
Uma das coisas que deixam qualquer comida mais gostosa é sem duvida a "mão" de quem cozinha.
E uma das coisas que me faz preferir preparar minha própria comida em casa é que, quando comemos na rua, não conhecemos esta mão.
Só nos resta confiar e torcer para que a mão desconhecida seja limpa, talentosa, não passe sentimentos ruins para o que prepara e, principalmente, que faça com gosto, como se o fizesse pra si.
Agora, imagine o cozinheiro lá do boteco da esquina, que acaba de levar uma dura do patrão... Uma pitada de sal, outra de raiva... Uma pitada de orégano, outra de azedume.. Argh!
Se não dá pra garantir capricho e carinho via mãos alheias, imagine então com a comida industrializada! Afeto ali só aparece mesmo na propaganda. E olhe lá!
Vejo muita diferença em alimentos processados e industrializados em comparação àqueles feitos em casa, desde o início, alquímica e ritualisticamente.
A começar pelos ingredientes. Ou será que alguém teria na dispensa corantes, acidulantes, conservantes e vidrinhos com sabor artificial "idêntico ao natural" disso ou daquilo? Creio que não. Não se acha nada disso na feira.
A "praticidade" virou desculpa para disfarçar a preguiça, em muitos casos.
Comida pronta de supermercado? Tô fora!
Eu concordo que abrir uma embalagem e enfiar o prato pronto e congelado no microondas é uma tendência justificada pela falta de tempo atual. Mas esta falta de tempo também é geralmente uma desculpa, que tenta desviar-nos do problema real, chamado "falta de organização". Ui! (Aproveitei para puxar minha própria orelha! Quem nunca?)
O dia, para todos os seres deste mundo, tem exatas vinte e quatro horas, nem mais e nem menos. Os que dão conta de muitas coisas diferem daqueles que nunca tem tempo pra nada em quê? Organização, oras!
É simples (pra quem simplifica) e ao mesmo tempo é complicado (pra quem complica).
...23, 24, 25...
Dia desses puxei conversa com o dono de um restaurante árabe (cozinha que aprecio muitíssimo). Em meio aos elogiosos comentários que eu tecia sobre sua cultura gastronômica, tentei pegar alguma "dica de ouro" para o preparo de um Homus impecável.
Pra quem não conhece (e não sabe o que está perdendo), Homus é uma pasta feita essencialmente de grão-de-bico.
Eu já tinha feito do meu jeito antes, seguindo minha intuição. Mas já que estava falando com um profundo conhecedor desta culinária, por que não tirar uma casquinha?
Há um empório árabe ao lado de seu restaurante. As vezes paro ali e fico reparando em tanta coisa que ainda não provei...
Como gosto de experimentar e assim conhecer coisas novas! Não dá pra se surpreender sem dar abertura para o novo. E a vida fica meio chata sem surpresas.
67, 68, 69, 70...
Algumas coisas requerem muita paciência, mas muita mesmo. Melhor dizendo, elas exercitam sua paciência e acabam sendo até terapêuticas. Descascar grão-de-bico é uma delas.
Não só isto. Quando fiz meu primeiro leite de amêndoas, por exempo, lá estava eu descascando uma por uma. Dá trabalho? Dá! Mas quando você não perde o resultado de vista, ou a “recompensa”, melhor dizendo, aí tira-se o trabalho de letra!
Cozinhar assim agrega valor ao alimento.
Quanto disto passa para o resultado final eu não sei afirmar, mas que se come com mais gosto, não há dúvida.
Será que ao cozinhar eu entro em estado de meditação?
Não duvido, já que experimento momentos de foco dedicado apenas ao ato, como agora, descascando estes grãos de bico.
102, 103...
Volto para minha conversa com aquele árabe...
– Perdoe minha curiosidade... O senhor costuma tirar as cascas do grão de bico, antes de preparar o Homus?
Perguntei tão naturalmente, mas de bate-pronto ele negou. Pior, desdenhou do ato descascatório.
Disse que não faz sentido, dá muito trabalho, que faz com a casca mesmo e que dá na mesma.
O tom era mais ou menos o de quem queria dizer "Imagine que vou ser trouxa de ficar descascando cada grão-de-bico!"
Fiquei meio decepcionado e arrependido por ter perguntado. Mas tal sentimento esvaiu-se ao ver seu semblante iluminando, de repente.
É que minha pergunta o fez voltar no tempo e relembrar a infância, assistindo seu pai a preparar Hommus em grandes quantidades para o restaurante.
Me contou que o pai tinha uma máquina própria para descascar os grãos. Enorme, ficava no celeiro. Quando a usava, subia uma poeirada só, composta de inúmeras cascas esvoaçantes, feito revoada de siriri.
Contemplava-o absorto enquanto relembrava tal cena e por nada deste mundo iria interrompê-lo. Quem sou eu para encurtar sua viagem?
Quando ele voltou para o presente, me encarou com olhar amigo. (Eu gosto tanto de colecionar olhares assim...)
E eu realmente quis lhe perguntar porque não seguiu os costumes tradicionais do pai, mas ele poderia encarar como uma crítica, portanto fiquei quieto.
Também quis contar, sem intenção de me gabar, que eu tenho por hábito descascar manualmente os grãos, sem máquina mesmo. Aliás, nem sabia que existia uma.
Refreei a língua. Uma porque achei por bem respeitar os motivos dele. Outra porque ele não pediu minha opinião.
144, 145, 146...
147! Ufa! Pronto!
A quem interessar possa, estes 147 grãos ficaram treze horas de molho e, depois de cozidos, foram descascados um a um, pacientemente.
Agora é só processar ou bater num liquidificador potente.
Deixa eu ver... Pra cerca de meio quilo eu uso umas quatro colheres de sopa de Tahine, meio limão e dois dentes de alho, mais uma pitada de sal. Salpico gergelim por cima e adorno com folhas de hortelã fresca.
Fica um Homus maravilhoso. O pão árabe já está reservado e meu Zaatar já se desmancha no azeite, à nossa espera.
Cabe ressaltar que a intenção aqui vai bem além de simplesmente divulgar este prato tão gostoso. Há que saborear a metáfora e alimentar também a mente.
Pois, se você ainda não percebeu, entre estas linhas o que menos importa são os grãos-de-bico em si. Nas entrelinhas - abençoadas entrelinhas - falei de paciência, tradição, saudade, respeito e principalmente de colocar amor em tudo o que se faz.
No fundo, caso esta despretensiosa leitura tenha te dado vontade de saborear um bom Hommus, sei que não me compete te convencer a fazer um "todo seu", em sua casa e com grãos-de-bico sem casca. Se a tal praticidade impera, faça com casca mesmo e nem deixe de molho da noite pro dia. Tá certo que fica mais indigesto e provoca gases, mas cada um sabe do seu. Não é assim?
Além do mais, essa coisa de certo e errado é tão relativa...
Certa feita falei para um relógio parado "Você está errado!"
Ao que ele respondeu:
"Tudo bem, mas eu, pelo menos duas vezes ao dia estou certo, com certeza. Já você, humano insolente, pode afirmar o mesmo?"
Bom apetite.
Eu peço licença ao cronista e passo a palavra ao poeta...
Meu caro grão-de-bico
Perdoe a indiscrição
Que foi que te falaram
Para te deixarem assim:
"De bico"?
Foram as ervilhas, não é?
Malditas falastronas!
Aposto que foram elas...
No afã da verborragia
Só falam, falam e falam
Uma por cima da outra
E nessa ninguém se escuta
"Eu acho assim!"
"Eu acho assado!"
Uma diz sim, outra diz não
Pra quê? Outra disputa!
Todas cheias de opinião
Bateriam o pé, se o tivessem
Te apontariam o dedo, se o tivessem
Bando de ervilha-torta!
Tanta opinião formada
Claro que não foi por elas
Sempre um puxa a manada
E as conduz enfileiradas
Conduz como lhe condiz
Vão pastar dentro da lata!
Elas não questionam nada
Sei que é dureza entender
Releve o que te disseram
E tente não se esquecer:
Elas têm cérebro de ervilha!
E não há como impedir
Uma ervilha de falar.
Posso te contar segredo?
É você, bom grão-de-bico
Que precisa se blindar
Setas vem de todo lado
Basta não deixar entrar
Então sacuda a poeira
E como um bom grão-de-bico
Deixe as ervilhas pra lá!
Agora vou despedir-me
E de coração espero
Que na próxima visita
Eu te encontre noutro astral
Que dentro de seu mundinho
Brilhe um reluzente sol
Faça um dia bem bonito
Com direito a piquenique
Num campo de girassol.
Que tenha como música
O cantar de um passarinho
E aí, provavelmente
Ao te avistar ao longe
Ficarei aliviado
Pra nossa felicidade
Esse teu bico amuado
Já terá se transformado:
Será bico de beijinho.
Aventuras de músico
Definir um repertório de Cover é um dos processos mais interessantes e excitantes de um novo projeto musical que tenha esta proposta. E confesso que há muito tempo não vivia esta aventura. Mas nossa vida é feita de ciclos, que se renovam em forma e conteúdo, enquanto preservam sua essência. Esta "Roda da fortuna" é algo lindo de se tomar consciência. A roda gira, um ciclo se renova e você ainda é você, mas também já é outro. Pode estar mais maduro, mais experiente e, dependendo do que viveu, estará mais amargo e desanimado, desconfiado e descrente, indiferente e fechado para o novo. Ou suas vivências e experiências te lapidaram, te deixando mais aberto pra vida, mais amigo e confiante, alguém que ainda não parou de sonhar e de sorrir, pois aprendeu a aproveitar e valorizar ainda mais os dias ensolarados, justamente porque sabe que há os dias cinzentos. Vê que está tudo certo na Natureza, é o Yin-Yang na prática. Dias cinzentos passam e o Sol volta, sem dúvida. E dias ensolarados passam e o dia cinzento volta, sem dúvida. Entender isto faz seus valores mudarem, concorda? Voltando ao tema principal...
Há duas maneiras básicas de fazer um Cover. Numa você é fiel ao original, querendo mostrar que executa cada nota, assim como o autor da obra faz, ou melhor ainda, querendo lhe render um tributo. Muitos acham esta uma atitude respeitosa, acima de tudo. "Quem sou eu para ousar mudar uma única notinha nesta partitura de Mozart?" é um pensamento comum na música erudita. Outro pensamento recorrente é "Se o próprio Mozart me ouvisse, aprovaria minha execução?" Quem já assistiu ao filme "Crossroads" lembrará da cena em que o personagem do Ralph Macchio "ousa" fazer um final típico de Blues na peça erudita que tocava e leva uma reprimenda severa do professor, com direito ao alerta bíblico de que não é possível servir a dois senhores. Faz todo sentido o erudito ser assim tão rígido. "Interprete direito!" e "Não invente sobre o que já está perfeitamente acabado!" são diretrizes do músico que segue por este caminho. No outro polo temos o jazz, onde a liberdade reina. Mesmo que escolha tocar uma composição do Miles Davis, por exemplo, você ensaia basicamente para acertar o mapa da música, definir quantos Chorus, a ordem de quem vai solar primeiro, algumas convenções de grupo, coisas assim. Mas será valorizado justamente mostrando a sua linguagem, o seu improviso, a sua inspiração. Pois se fosse pra ouvir um clone do Miles, perderia-se a tão valorizada espontaneidade jazzística. Costumo resumir dizendo que o Jazz é liberdade e o Erudito é prisão. Digo isto sem nenhum demérito, hein! Pois quem gosta se aprisiona voluntariamente, vale ressaltar, sem sofrer com isto. Assim como de nada adianta se lançar no território do jazz e não saber o que fazer com tanta liberdade. Dito isto, não tem melhor ou pior e nem certo ou errado. Da mesma forma que tem quem cozinha muito bem seguindo a receita, tem quem o faz de um jeito mais alquímico e intuitivo (meu caso). "Eu" adoro improvisar. Logo, não espere de mim um Cover ao pé da letra, onde pelo menos não o tempere do meu jeito. Eu ficaria desmotivado, cedo ou tarde, se não colocasse meu toque pessoal.
Voltando ao repertório que, digamos, seja de vinte músicas... Você vai selecionando cada uma, carinho e criteriosamente, até que chega ao número proposto. Pronto! Etapa concluída? Quem dera! Bem aí começam os dilemas. Pode ser que aquela música que você julgasse maravilhosa não funcione tão bem ao vivo, pois na hora de tocar você percebe que a tal é mais gostosa de se ouvir do que de ser tocada. Sua mão não gostou. Fazer o quê? Faz pensar naqueles casos de paixonite juvenil, onde a pessoinha que você achava a mais bonita da rua ou da sua classe e que te fez fantasiar tanto sobre como seria maravilhoso se te desse bola, quando acaba finalmente dando, você cai na real e vê que não era nada daquilo. Sabe aquele suposto garoto ou garota "ideal", que finalmente você chegou junto, mas na primeira semana de namoro se mostra um chato, com manias esquisitas, nada gentil e ainda por cima beija mal? Ahahah! A moral da estória é que não está na fantasia, mas sim na intimidade, o essencial para que músicas ou pessoas se confirmem como a melhor escolha. Claro que isto é muito relativo. Afinal o que você julgou não ser tão bom para o teu show poderia ser o auge da apresentação de outra pessoa. Portanto seria injusto jogar a culpa toda na música. Mesmo assim você deve seguir a sua intuição (aliás, sempre) e tal música acaba sendo cortada do repertório. E sem melindres, por favor!
Outro problema, no bom sentido (Sim! Problemas também podem ser no bom sentido!) é quando você completou o número de músicas e acha que já pode relaxar, que é só partir pro ensaio. Sei... Eis que sorrateiramente, pode ser durante o banho ou uma caminhada contemplativa, de repente se lembra de um musicaço! E agora? Esta "tem" que entrar no repertório! - Anima-se. "Mas então uma terá que sair!" - Aflige-se. Qual daquelas primeiras será sacrificada em prol do bem maior? É caso sério! A gente risca a coitada quase se desculpando, a risca com dó e piedade. Foi a música mártir. É a santa descartada, a des-Aparecida. Estou dramatizando de propósito, claro. Tudo isto é só para expressar as doces aventuras de ser músico. É que meu lado escritor é abusado e já vai transformando uma simples ideia numa nova crônica. E, depois de todo repertório definido, virão as aventuras de timbrar, dos ensaios solitários e das lapidações. Sim, cada música deve ser vista como joia preciosa. E assim me autoproclamo seu joalheiro. Depois virá o desafio de apresentar e vender o show, selecionar o espaço, checar a estrutura da casa, etc. E tudo isso carece também de aprender a ouvir não (e a saber dizer não, vale ressaltar). É essencial fechar um bom negócio para todas as partes envolvidas. E é possível. Meus colegas músicos... não percam a fé!
Tantas etapas até chegar ao Dia D, até chegar naquele friozinho no estômago que dá antes de subir no palco. (Vejam a linda e sincera declaração da Carla Bruni na imagem que escolhi) Tem gente que trava nesta hora, sua frio, tem dor de barriga, tem tremedeira e o escambau. Já outro desmaia, enche a cara, toma um calmante, cheira um pó, etc. Evito entrar numas de julgar. Há de se convir que tem gente que faz um showzaço, justamente por conta destas ajudinhas "mágicas". Eu só não entendo os que precisam "ficar altos" para tocar pois, em meu caso, não admito nenhum alterador sintético/artificial/externo de consciência me atrapalhando. Eu simplesmente me conecto à música, assim como conecto o instrumento ao amplificador. Daí fecho os olhos e vou para outra dimensão, respiro lentamente e então me entrego ao abrir do volume. Assim, inversamente ao volume do instrumento aumentando, o volume mental vai silenciando. Fica nada na cabeça. Esqueço os problemas cotidianos, qualquer discussão ou preocupação, esqueço de tudo. Até do que treinei tanto. Imagino que deva ser como voar de Parapente ou Asa-delta. Claro que toda instrução e treinamento prévio foram importantes, mas lá em cima você não quer ficar pensando em cada detalhe técnico, quer mais é viver a deliciosa sensação de voar. Não sei explicar, mas já "acordei" de shows e nem lembrava do que fizera. Nem me dei conta daquele trecho específico, que era tão assustador quando apareceu no repertório, lá no comecinho, onde geralmente tudo é mais assustador. Nada a ver com o ato robotizado e mecânico dos tempos de imaturidade musical, pois não sou maquina! Dentro de mim, perguntas como "Quem sou eu tocando?" e "Como meu som te afeta?" são recorrentes. Mas isto é pensamento pra antes ou depois do show. Ao subir no palco, o segredo é se jogar e curtir a viagem. Você sai do corpo, não sente o tempo passar, não se preocupa com bobagens, só deixa fluir e vira também instrumento, alem de instrumentista. Se virão aplausos é outra estória. Agora é momento de se doar, não de receber. Então finalmente você relaxa. E, musicalmente falando, goza.
Cordel de um sulista abestado
Eu não saí do Nordeste Nem venho lá do Sertão Nunca fui cabra da peste Tampouco risquei o chão Minha peixeira, coitada Desconhece pelejada Num corta bucho, só pão.
Por isso peço a licença Aos maiorais do Cordel Licença, Cego Aderaldo Que hoje rima no céu Perdoem minha ousadia É que dá tanta alegria Escrivinhá no papel...
Encarem como homenagem Feita com todo o respeito Cresci na cidade grande Pra lida não levo jeito Os calos da minha mão São de tocar violão Por isso não estufo o peito.
E daí que sou sulista? Sou brasileiro, isto é fato! Minha família tem preto, Tem branco, indio e mulato E de tamanha mistura Saiu esta formosura Mãinha me achava um gato.
Se tento dançar forró Falta molejo à cintura Não ligo de ser pé-duro Remexo na cara dura Pegado numa morena A noite passa serena E nem sinal de gastura.
Tem povo bem palpiteiro E outros mangando fica Uns fica em cima do muro É tudo couro-de-pica As amizade sincera Vem donde menos se espera É gente que o bem pratica.
E assim a vida segue Cada um faz o que pode Cada um com suas crença E que menos se incomode Em cuidar da vida alheia Isso sim é coisa feia O resto a gente sacode.
Agora que tamo em junho Tem festa de São João Num sô devoto de santo Mas devo-lhes gratidão A morena que namoro Comeu Pão de Santo Antonho E ganhou meu coração.
Se foi milagre não sei Só sei que hoje sou dela Se gosto mais do Nordeste Um tanto é devido à ela A mãe, até sua madrinha Brava gente nordestina Lhes tenho amor por tabela.
Pela luz que me alumia Pela paz que me reveste Registro aqui a promessa De conhecer o Nordeste Eita viagem arretada Com eu mais a minha amada Nada e ninguém nos conteste!
Arre égua! Quem diria? Já era de se supor Quis posar de cordelista Enrolei ao meu leitor Peço perdão, minha gente Mas no fim, por mais que tente Desando a falar de amor.