~ Swami Abhishiktananda ~
TRANSCENDENDO O CRISTIANISMO
O tempo que o monge católico francês, Swami Abhishiktananda, passou em Arunachala - levou-o a uma profunda experiência de iluminação no final da sua vida.
Recebeu o 'darshan' de Bhagavan em 1949 e, no início da década de 1950, regressou a Arunachala para passar algum tempo a meditar nas suas grutas. Um relato do seu encontro com Bhagavan (que lhe causou uma enorme e muito positiva impressão), e dos meses que passou a meditar nas grutas de Arunachala, pode ser encontrado no seu livro ‘O Segredo de Arunachala’, publicado no final da década de 1970, alguns anos após o falecimento do seu autor.
Antes de vir para a Índia, Swami Abhishiktananda passou mais de vinte anos como monge beneditino num mosteiro francês, onde era conhecido por Padre Henri le Saux. Depois de algum tempo na Índia, adotou as vestes e o estilo de vida de um 'sannyasi' hindu e auto-intitulou-se ‘Swami Abhishiktananda’. Apesar da mudança de roupa e de nome, durante muitos anos agarrou-se tenazmente aos princípios básicos da fé católica em que foi educado, sentindo que a mais elevada experiência e ensinamentos cristãos eram superiores aos seus homólogos hindus.
Em 1973 teve um ataque cardíaco nas ruas de Rishikesh que o deixou inconsciente e temporariamente paralisado. Quando finalmente recuperou as suas faculdades, tomou imediatamente consciência de que o Abhishiktananda que se tinha agarrado firmemente à doutrina católica ao longo da sua vida tinha desaparecido, deixando apenas uma experiência impessoal do subjacente “eu sou”. Foi assim que escreveu sobre isso em cartas a amigos:
'Quem pode suportar a glória da transfiguração, da morte do homem como transfigurado; porque o que Cristo é EU SOU! Só se pode falar disso depois de se ter acordado de entre os mortos… .
‘Foi uma experiência espiritual notável… Enquanto esperava na calçada do meu caminho, na fronteira dos dois mundos, fiquei magnificamente calmo, pois EU SOU, aconteça o que acontecer no mundo! Encontrei o GRAAL!’ (‘Swami Abhishiktananda’, por James Stuart, ISPCK, 1989, p. 346)
A descoberta do Graal esteve indissociavelmente ligada à perda de todos os conceitos anteriores que tinha sobre Cristo e a Igreja. Comentando esta experiência no mesmo livro, escreveu:
‘Enquanto não aceitarmos a perda de todos os conceitos, de todos os mitos – de Cristo, da Igreja – nada poderá ser feito.
'A partir deste novo ponto de vista experiencial, ele foi capaz de dizer, a partir da experiência direta, que foi o 'Eu', e não uma colecção de ensinamentos e crenças sectárias, que deu realidade a Deus:
‘Acredito verdadeiramente que a revelação de AHAM [“Eu”] é talvez o ponto central das Upanishads. E é isso que dá acesso a tudo; o “saber” que revela todo o “saber”. Deus não é conhecido, Jesus não é conhecido, nada se conhece fora deste AHAM terrivelmente sólido que eu sou. Só a partir disto todo o verdadeiro ensinamento obtém o seu valor.’(‘Swami Abhishiktananda’, por James Stuart, ISPCK, 1989, p. 358)
Para além de ter escrito vários livros que tentavam preencher a lacuna entre o hinduísmo e o cristianismo, Abhishiktananda contribuiu regularmente para seminários e conferências sobre o desenvolvimento futuro do cristianismo indiano. Depois da sua grande experiência, recebeu um convite para participar num encontro muçulmano em França para apresentar um ponto de vista cristão. Ao recusar o convite, revelou como todas as suas antigas ideias tinham sido varridas e como já não se sentia capaz de expor um ponto de vista especificamente cristão:
‘Quanto mais prosseguir, menos capaz serei de apresentar Cristo de uma forma que ainda seria considerada cristã… Pois Cristo é primeiro uma ideia que me vem de fora. Mais ainda depois da minha “experiência para além da vida/morte” de 14.7 [.73], só posso ambicionar despertar as pessoas para aquilo que “elas são”. Tudo o que seja sobre Deus ou a Palavra em qualquer religião, que não se baseie na experiência profunda do “Eu”, está condenado a ser uma simples “noção”, e não existencial.
‘Não estou interessado em nenhuma cristologia. Tenho tão pouco interesse numa ‘Palavra de Deus’ que desperte o homem na história… A Palavra de Deus vem do/para o meu próprio “presente”; é esse mesmo despertar que é a minha autoconsciência. O que descubro acima de tudo em Cristo é o seu “EU SOU”… é esta experiência EU SOU que realmente importa. Cristo é o próprio mistério “Aquele EU SOU”, e na experiência e no conhecimento existencial toda a cristologia se desintegrou.’ (‘Swami Abhishiktananda’, por James Stuart, ISPCK, 1989, pp. 348-9)
Depois, confirmando que as convicções de uma vida tinham sido abandonadas, prosseguiu explicando que a experiência cristã final do “eu sou” não podia diferir do seu equivalente hindu:
‘Qual seria o significado de um despertar “com a cor do cristianismo”? No processo de despertar, toda esta coloração não pode deixar de desaparecer… A coloração pode variar de acordo com o público, mas o essencial vai mais além. A descoberta do EU SOU de Cristo é a ruína de qualquer teologia cristã, pois todas as noções são queimadas no fogo da experiência… Sinto demasiado, cada vez mais, o fogo ardente deste EU SOU em que todas as noções sobre a personalidade de Cristo, ontologia , história, etc., desapareceram. (‘Swami Abhishiktananda’, by James Stuart, ISPCK, 1989, p. 349)
Depois de uma vida inteira de meditação e investigação, admitiu finalmente que nenhuma explicação ou experiência poderia interferir com a realidade fundamental, “eu sou”. Anos antes, previra que este ponto de vista seria a consequência inevitável de uma experiência plena do “eu sou”:
‘As doutrinas, as leis e os rituais só têm valor como sinais, que apontam o caminho para o que está para além deles. Um dia, no íntimo do seu espírito, o homem não poderá deixar de ouvir o som do "eu sou" proferido por Aquele-que-é. Contemplará o brilho da Luz cuja única fonte é ela própria, é ele próprio, é o Ser único… Que lugar resta então para as ideias, obrigações ou atos de adoração de qualquer tipo?' (‘Saccidananda’ by Abhishiktananda, ISPCK, 1974, p. 46)
‘Quando o Ser brilha, o “eu” que ousou aproximar-se já não pode reconhecer o seu próprio eu nem preservar a sua própria identidade no meio dessa luz ofuscante. Ele, por assim dizer, desapareceu da sua própria vista. Quem resta para estar na presença do próprio Ser. A reivindicação do Ser é absoluta… Todos os desenvolvimentos posteriores da religião [judaica] – doutrina, leis e adoração – são identificados pelo advaita simplesmente com as palavras originalmente reveladas a Moisés no Monte Horeb: “Eu sou o que sou”.’
(«Saccidananda» por Abhishiktananda, ISPCK, 1974, p. 45)
Página FB de David Godman: Arunachala Cave-Dwellers and Sadhus