Levei Myles até a casa que ficava no morro, longe de toda a cidade. Deixei claro que isso precisava ficar em segredo e Cora jamais poderia saber. Sei que eles eram amigos e não, não era algo que eu aprovava, mas tinha a certeza de que nunca passariam disso.
Não demorou muito até a gente chegar na tal casa. Estacionamos o carro longe dali, silenciosamente pulamos a grade e fomos subindo o morro, em silencio, pois ao longe ouvíamos uma música tocar, tinha gente por lá. Precisávamos ser cuidadosos. O que não ajudava muito, as folhas caídas no chão faziam barulho enquanto andávamos e como estava escuro dificultava.
Chegamos até a frente apenas uma luz estava acesa, enquanto um rádio reproduzia uma música desconhecida, mas a pessoa parecia adorar, pois cantarolava trechos. Ao que tudo indica, era uma mulher. Myles acabou pisando em um galho, fazendo um enorme barulho e chamando a atenção da mulher, que levantou apressadamente e pegou sua arma.
Corri com Myles até atrás de uma árvore e ficamos, cada um de um lado, observando a atitude da mulher. Ela vestia uma roupa de moletom, um lenço na cabeça e um óculos escuro, praticamente impossível de reconhecê-la. Segurava sua arma e olhava para a janela, na nossa direção, até que disparou, mas não nos atingiu, deu mais uma olhada e foi para o outro comodo, foi nessa hora que nós dois decidimos correr. Como se não houvesse amanhã. Pulamos a grade e andamos até o carro, porque nessa altura e com minha idade eu não aguentava correr desse jeito. Entramos no carro e seguimos viagem.
- George, aquela mulher não é qualquer uma, tem uma mira boa, olha o que conseguiu fazer.- Então Myles me mostrou o braço ensanguentado, o tiro havia pego de raspão.- Eu não podia me mostrar, cair no chão ou xingar, se tivesse feito isso estaríamos mortos.- eu apenas ri, enquanto ele lutava pra parecer forte e não estar sentindo dor.
- Não exagera, vamos pra cede que lá a Lola ou o Bon te ajudam com os machucados.
- O Bon? Mas... ele não estava preso ? -perguntou.
- Infelizmente foi liberado hoje, por mim ele passava o resto dos seus dias por lá.
E seguimos em silêncio. Myles era muito inocente e não sei como deixei que ele trabalhasse comigo, ele podia ser corajoso e etc, mas mesmo assim era frágil e muitas vezes eu o via como um filho e sei que ele me via como um pai.
FINAL DO GEORGE SAYS
Assim que cheguei na boate, fui recepcionada por uma das funcionárias. Se apresentou como Ruby, eu sabia de sua fama mas apenas sorri. Me apresentei como a mulher de George, logo fui tratada extremamente bem. Pedi pra chamar Jerry, mas fui informada de que ele estava ocupado com uma das garotas.
- Obrigada Ruby, pode deixar que me viro aqui, preciso pegar uns documentos.- ela sorriu e saiu, desconfiada, mas sumiu. Eu precisava achar os registros das antigas funcionárias. Provavelmente estariam na sala de Jerry, então segui até lá.
A porta estava entre aberta, resolvi abri-la, me arrependi. Jerry estava no meio de uma transa, com uma das garotas, em sua mesa, estavam tão empolgados que não me viram. Comecei a rir e fechei a porta.
- Droga, quem foi a vadia que abriu a porta?- ele falava, eu controlava meu riso.
- Mais respeito comigo, querido Jerry.- Abri a porta novamente e encostei na mesma, enquanto a moça se vestia e saia as pressas, Jerry se sentou na cadeira e não se importou de fechar o zíper da calça, esse homem realmente me dava nojo.
- Não sabe bater na porta?- perguntou, enquanto ajeitava a mesa por cima.
- Não, seria bom se você fechasse esse zíper.- eu disse.
- Tá com medo de não resistir, Cora? Só estamos nós dois aqui...- caminhou até mim, fechou a porta e acariciou meu rosto.- Aposto que George não iria se importar de dividir a vadiazinha dele comigo, aquela que eu sempre desejei...- ele se aproximou demais, quase me beijando, não me afastei, o que fiz foi dar uma bela joelhada em seu lugar mais sensível.
- Jerry, Jeery...- eu ri.- Onde estão os registros das funcionárias antigas? E não tenta me enrolar, que posso te acertar mais uma vez.
- Filha da puta, isso dói sua vadia.- quase chorava, mas nem se ele estivesse agonizando do meu lado eu sentiria dó.- Ficam com o George, lá na cede, nada disso fica aqui.
- Obrigada !- respondi, caminhando até ele.- Logo essa dor passa.
- Cora, da um beijinho que passa.- ele riu, enquanto ainda se contorcia de dor.
- Pede pra sua mãe.- e finalmente saí daquele lugar. Indo direto pra cede.
Assim que cheguei fui até a sala de George e ele não estava lá. Resolvi caminhar pelos corredores e ter a certeza de que ali ele não estava. Enquanto passava pela enfermaria ouvi a voz de Lola, ela estava desesperada por algum motivo. Assim que cheguei na porta, encontrei um Myles sangrando e rindo do desespero da amiga.
-Ei, o que houve? -perguntei, Myles nunca pareceu tão feliz em me ver.
- Ainda bem que chegou, ajuda ele Cora, eu fico muito nervosa e não posso ver sangue.- Lola saiu da sala desesperada.
- Que isso Myles.-peguei em seu braço e vi o estrago que estava.- Caramba como conseguiu um tiro de raspão ?
- Como sabe?
- Esse machucado é tipico de quem leva um tiro de raspão.- peguei o algodão, junto com o produto pra limpar o sangue e comecei a passar, enquanto ele gemia de dor.- Como aconteceu isso ?
- Nem eu sei direito, mas está doendo pra caramba.- passei mais remédio e eu sabia que iria doer.- Cora! Para! Isso arde.- ele falava enquanto cerrava os dentes.
- Para de ser frouxo, me deixa cuidar de você.
- Eu sempre deixo, só você não percebe.- ele respirou fundo e eu tinha certeza que não era pra aliviar a dor.
- Bom eu vou enfaixar pra evitar que sangre mais e tenta não usar esse braço.- passava a faixa com todo o cuidado, enquanto ele me olhava fixamente.- O que foi ?
- Cora eu preciso te falar uma coisa...- parei e fiquei o encarando, seus olhos brilhavam e então eu percebi o quanto eles eram bonitos, pareciam azuis, talvez um verde, eu não tinha certeza, mas era lindos. Voltei a enfaixar o braço, enquanto ele parecia criar coragem pra falar algo, que eu já podia adivinhar.
- Vamos lá Myles, diga.- a voz vinha da porta, era George e ele olhava pra nós com uma pequena raiva, ou até mesmo ciume.- Fiquei curioso.- entrou na sala e parou ao meu lado, acariciando meu ombro com uma das mãos.
- Bom... é que ela esta apertando muito a faixa no meu braço...- ele disfarçou e eu entrei na dele.
- Ah me desculpa, não tinha percebido.- eu ri, ele também.
- Não era só isso que eu ia falar, tem mais... to começando a não sentir o meu braço.
- É só a Cora afrouxar a faixa e você não ficar mexendo o braço, logo a circulação volta ao normal Myles, não se preocupe, manhã quero saber como te acertaram. Agora precisamos ir, não é mesmo Cora?- fiz que sim com a cabeça e me levantei.- Melhoras, descansa rapaz, quero você bem.- George saiu andando na frente.
- Myles se cuida, não força o braço pra evitar que sangre e até amanhã, tenha uma boa noite.- eu disse, depositando um beijo em seu rosto e ouvindo ele suspirar, agora eu tinha certeza do que ele queria me dizer. Sorri e sai da sala, indo ao encontro de George.
Ele parecia cansado, até mesmo distante. Comecei a conversar mas ele não me ouvia, me calei e entramos no carro. Ele ligou o rádio e começou a cantarolar a música que tocava. Sorri e fiquei o observando.
- Você não acha estranho? - ele perguntou, como não tinha entendido, fiquei o olhando.- Não acha estranho o jeito que Myles te olha ? Acha que ele pode estar gostando de você ?
- George...- eu ri.- Eu não reparo nessas coisas, até por que só tenho olhos pra você e não me importa se algum homem gosta ou deixa de gostar de mim.- ele se segurou pra não sorrir, respirou aliviado.
- Ok.- foi a ultima coisa que ele falou, continuou quieto até em casa.
Eu não iria discutir, queria evitar esse tipo de coisa. Estava focada em achar os registros antigos da boate, mas isso era assunto pra outro dia. Agora, a única coisa que eu iria fazer era dar atenção pra George e tirar da cabeça dele qualquer pensamento idiota. Pois eu sei do que ele seria capaz de fazer com Myles e eu não iria permitir. Nesse caso, teríamos mais uma noite maravilhosa.