o meu eu que você não conhece
Tenho pensado bastante sobre isso nos últimos meses. Você não notou, mas já chorei até minha cabeça doer pela frustração que carrego em meu peito. Pela sensação terrível de ser obrigada a guardar um segredo. Eu sei que você odeia segredos, mentiras e omissões. Sei muito bem que desaprovaria minha discrição. E quem dera não fosse preciso mantê-la. Queria eu não ter a necessidade de esconder parte de mim, para começo de conversa. Mostrar a verdadeira eu. De dentro para fora. Confiar-lhe meus mais profundos segredos, que guardo desde criança. Mas não posso fazer isso.
Não é dessa forma que funciona a nossa relação, não é, meu bem?
Omissões e negligencias serão sempre presentes entre nós e estarão a nos acompanhar até o fim de tudo, acredito eu.
Sabe, é doloroso escrever sobre isto. Há muito desejei externar o que penso e sinto sobre me esconder daquela que me fez ser capaz de existir. Engraçado, não? Tudo o que sou, sou porque nasci e se nasci, é porque você me teve. Um vínculo como este é tão admirável e aparentemente forte, que com certeza consegue quebrar a mais alta e espessa das barreiras. Ou pelo menos deveria ser assim.
Preciso confessar, não sei o que estou fazendo neste momento. Há tanta coisa que desejo lhe contar, tantas palavras que queria poder proferir, mas nenhuma parece suficiente para lhe fazer ficar. Para sustentar o amor que afirma ter por mim desde antes de conhecer meu rosto. Devo admitir: se eu pudesse, teria mantido essa primeira fase de amor incondicional por mais tempo. Que mágico me soa, pensar que você me adorou desde a primeira confirmação de minha existência. Desde o primeiro batimento cardíaco, do primeiro sinal de vida.
Quão estranho me soa, imaginar isso agora. Você não me conhecia, não sabia como eu era, mas me jurava amor, me jurava cuidados, me prometia o mundo. E agora, você me vê, mas não me sinto enxergada.
Não sei exatamente em que ponto comecei a ser uma decepção na sua vida. Acho que desde os primeiros momentos, porque sempre fui peculiar demais para alguém que guardava as expetativas altas por longos nove meses. Admito que notei, de fato, algumas vezes, o seu olhar se desviar do meu por um curto instante, quase imperceptível. Sei que não era a sua intenção, mas eu sabia no que estava pensando, mesmo que você achasse que não. Eu sabia que lhe surpreendia, de um jeito nada esperado, e lhe causava estranheza. "Ela é... diferente.", você deve ter repetido inúmeras vezes em sua cabeça. E ainda que me doesse, sentia que, mesmo eu sendo tão incomum, seu sorriso para mim no final do dia, acompanhado de seu "boa noite, flor, dorme com deus" significava que me amava.
Apesar de tudo, você me amava.
Te conheço há dezessete anos e ainda não consigo dizer com certeza se você acredita nessa frase. Se tem noção de seu significado. De seu peso.
A verdade, meu bem, é que temo pela sua reação quando essa bomba que possuo dentro de mim acabar explodindo. Temo que não haverá um simples desviar de olhar num milésimo de segundo, apenas para vir um sorriso torto depois. Temo que não me dirá mais sobre o que lhe aflige ao voltar da rua após uma ida ao mercado. Temo que não serei mais sua confidente, sua amiga. Eu temo que não mais terei o seu amor.
E eu sei que estou divagando.
Sempre fui tagarela, não é o que diz?
Pode não parecer, porque sou teimosa e talvez reclusa demais para lhe dizer isso em voz alta, mas eu sinto muito.
Sinto muito por não ser quem você sonhava. Sinto muito por não lhe causar os sorrisos que imaginou que lhe causaria. Sinto muito por não te orgulhar tanto quanto deveria.
... Por não cumprir com os planos que fez tão cuidadosa e animadamente para mim durante toda a sua vida.
Mas eu não posso ser esse alguém, com o qual você tanto sonhou.
E me dói notar que você talvez me expulse de sua vida quando descobrir minha verdadeira identidade. Quando perceber o quão diferente somos uma da outra e em como aspiro tornar-me alguém e fazer algo que você talvez não entenda.
Me desculpe por não amar quem você queria que eu amasse. Não era a minha intenção causar repulsa em você, eu juro.
E, querida, se eu pudesse, mudaria tudo em mim apenas para ver seu sorriso genuíno uma vez mais. Todo para mim e apenas para mim. Quem me dera ser o motivo de sua felicidade.
Mas isso não é algo que esteja ao meu alcance, e não acho que me agrada a ideia de me tornar alguém completamente oposta ao que sou agora.
Agora eu entendo porque me chamava de "menina complicada" de vez em quando, no fim de nossas conversas.
Eu sinto a sua falta, sabe? Sinto falta de te falar sobre meus medos, minhas incertezas, e de te abraçar. Sinto falta de expressar meu amor por você e eu peço perdão por estar tão longe.
Peço perdão por ser covarde e fugir dessa nossa conversa.
Eu não sei se conseguiria te ouvir chorar de desgosto por minha causa. Não sei se aguentaria ver seu olhar de nojo desviar-se de mim.
Não sei se suportaria o seu ódio.
Eu não queria o seu ódio.
Lamento por não conseguir fazê-la mudar de ideia em relação a mim.
Eu realmente te queria por perto, por mais evaziva que eu me mostre agora.
Mas hey, sempre que sentir a minha falta, você pode me chamar. Eu ficaria feliz em passar um tempo com você.
Só preciso que me dê uma chance.
É tudo o que eu peço. Me dê uma chance, eu te imploro! Uma chance e te mostro que sou capaz de te fazer feliz assim como quando você não conhecia meu rosto!
Uma chance, e serei capaz de recuperar o seu amor...
Mas se for difícil demais para você, eu entendo. Está tudo bem, eu terei paciência. Você também tinha comigo, então não se sinta pressionada.
Eu nunca quis te machucar. Me desculpe por perder você sendo eu.
Espero que um dia possamos conversar na varanda de casa enquanto tomamos um bom café.
Espero que você me aceite, porque eu nunca, nem sequer uma vez, te rejeitei. Realmente espero que possamos encontrar paz nessa nossa relação confusa.