Arrume seu quarto
Ontem fui à manifestação contra o golpe e, mesmo que o motivo dela seja importante, esse texto não é sobre isso. Nós gritamos, fizemos o máximo de barulho que conseguimos. Até onde vi tudo de forma pacífica e, mesmo assim, parecia que não tínhamos chamado atenção o suficiente. Será que alguém fora do movimento parou e refletiu o porque estávamos ali em coro? Horas depois da manifestação ainda estava inquieta e não consegui dormir. Como toda pessoa que não consegue dormir faz, fui ver o que estava rolando no Facebook. E ali, na madrugada, com meu computador no colo e metade do meu guarda roupa espalhado pelo chão- sem diferença entre peças limpas e sujas - vi um post reclamando de pichações corridas na cidade. Veja bem, se tem uma pessoa que não gosta de confronto essa sou eu, sério. Meus atos mais rebeldes foram feitos sob medida para parecer descolada sem correr risco de ir para a cadeia. Sou aquela que sempre acha que tem um outro caminho, acha que conversar é melhor, educação vai mudar o mundo, manifestação é um saco, etc. Mas quais são os caminhos que restaram? Então me ocorreu que o vandalismo, de uma forma geral, não é contra o “morador de bem” é um grito de socorro é o “ei, nos existimos e queremos ser ouvidos”. É mais ou menos assim: quando vamos receber visita minha mãe reclama da bagunça no meu quarto, mas meu quarto sou eu e eu sou uma bagunça, arrumar ele é dizer “eu não sou uma bagunça”. Então deixo meu cafofo do jeito que está, meu pequeno ato de rebeldia. A visita chega, sinto uma pontada de vergonha e me pergunto porque não posso fingir ser um quarto arrumado, é tão mais bonito! Não poderia porque essa não sou eu, e qualquer coisa além daquela bagunça seria uma mentira. A lógica se aplica para as cidades. Porque uma cidade tem que ter seu espaço público impecável quando por trás da aparecia todo o resto desmorona? Reclamar dos atos de vandalismo sem refletir o que eles significam é negar quem nós somos como sociedade, é arrumar seu quarto quando a visita vem. Não levem isso para o lado pessoal. Não é sobre a santa pichada na avenida, nem sobre os impostos que todos pagamos, é sobre um pedido de ajuda que a maioria resolve ignorar. É claro que quero uma cidade dos sonhos, quero a que criei quando jogava SinCity nos primórdios do Facebook. Mas (já fiz isso bastante então me sinto no direito de falar) embolar todas as roupas e jogar no armário não faz com que elas estejam organizadas. Cedo ou tarde elas vão estar esparramadas pelo chão de novo. Então da próxima vez que se sentir incomodado com pichações lembra da frase do meu parça Malcom X “não confunda a violência do opressor com a resistência do oprimido”.
Obs: se a frase não for dele sorry o Google falou que é.









