A gentileza podia melhorar o mundo. Se os homens cultivassem a gentileza seria possível atenuar um pouco tudo quanto a vida tinha de áspero e brutal.
Érico Veríssimo, em 'Olhai os lírios do campo'.

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A gentileza podia melhorar o mundo. Se os homens cultivassem a gentileza seria possível atenuar um pouco tudo quanto a vida tinha de áspero e brutal.
Érico Veríssimo, em 'Olhai os lírios do campo'.
Mas o grande milagre que ainda acontece é o amor. No meio da vida cheia de tanta encrenca, tanta coisa triste, e sofrimento e doença e lutas mesquinhas, ele aparece de repente, não se sabe como. Aparece como um pássaro que pousa em nossa janela e começa a cantar.
Rubem Braga
flower power! ‧₊˚❀༉‧₊˚.
As coisas que procuro Não têm nome. A minha fala de amor Não tem segredo.
Perguntam-me se quero A vida ou a morte. E me perguntam sempre Coisas duras.
Tive casa e jardim. E rosas no canteiro. E nunca perguntei Ao jardineiro O porquê do jasmim — Sua brancura, o cheiro.
Queiram-me assim. Tenho sorrido apenas. E o mais certo é sorrir Quando se tem amor Dentro do peito. Hilda Hilst
In: Roteiro do silêncio (1959)
Há dentro de mim uma paisagem entre meio-dia e duas horas da tarde. Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água, entram e não neste lugar de memória, uma lagoa rasa com caniços na margem. Habito nele, quando os desejos do corpo, a metafísica, exclamam: como és bonito! Quero escavar-te até encontrar onde segregas tanto sentimento. Pensas em mim, teu meio-riso secreto atravessa mar e montanha, me sobressalta em arrepios, o amor sobre o natural. O corpo é leve como a alma, os minerais voam como borboletas. Tudo deste lugar entre meio-dia e duas horas da tarde. O amor no éter, Adélia Prado
In: Terra de Santa Cruz (1981)
Clube da Esquina | Clube da esquina II
imnhi.98
• Guimarães Rosa
“Que o tempo nos permita milhares de encontros e reencontros de amor. Que a vida nos permita enxergar além do que podemos ver ou tocar. Que nossos corações nos permitam amar sempre, cada vez mais, a quem for ou o que for. Que as pessoas nos permitam proximidades, porque a vida vive exigindo de cada um de nós isso. Que a distância nos permita a saudade mas nunca o esquecimento.”
— Aghata Paredes. (via cher-la-vie)
Angela Ro Ro, Ana Terra • Amor, Meu Grande Amor
Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho familiar da saudade, pequeninas coisas me prendem, uma tarde num café, um livro. Devagar te amo e às vezes depressa, meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no amor como em casa. Amor como em casa, Manuel António Pina
Fernando Pessoa O fado cantado à guitarra
O fado cantado à guitarra Tem um som de desejar. Vejo o que via o Bandarra, Não sei se na terra ou no ar.
Sou cego mas vejo bem No tempo em vez de no ar. Goze quem goza o que tem. A nau se há-de virar.
Canto às vezes sem dar voz Como penso sem falar. A cegueira que Deus me pôs E um modo de luz me dar.
Vejo claro quanto mais deixo O corpo cego às escuras. Rogo pragas, mas não me queixo. As pedras são todas duras.
Vejo um grande movimento Em roda de uma árvore alta. Das estrelas no firmamento Há a mais nova que falta.
A preguiça (?) anda de rastos, Os mortos gemem na cova. Os gados voltam aos pastos Quando desce a estrela nova.
Lei[o] no escuro os sinais Do Quinto Império a chegar. O Bandarra via mais, Mas Deus é que há-de dar
Sinto perto o que está longe, Quando penso julgo que fito, Meu corpo está sentado emhoje Minh'alma anda no Infinito.
Ando pelo fundo do mar, Pelas ilhas do avesso, E uma coisa que há-de chegar Tem ali o seu começo.
Há no fundo d'um poço em mim Um buraco de luz para Deus. Lá muito no fundo do fim Um olho feito nos céus.
E pelas paredes do poço Anda uma coisa a mexer. Rei moço, lindo rei moço, Só ali te posso ver!
Meu coração está a estalar, Minha alma diz-lhe não. Vejo o Encoberto chegar No meio da cerração.
Vendidos à Inglaterra, Caixeiros da França vil, Meteram a gente naguerra Como num cesto aos mil.
Este vem trôpego e cego Lá das Flandres e das Franças, Só para o Leotte do Rego Endireitar as finanças.
Este, que aos muros se encosta, Veio doido lá da tropa, Só porque o Afonso Costa Queria sergente na Europa.
Anda o povo a passar fome E quem o mandou para a França Não tem barriga para o que come Nem mãos para o que alcança.
Metade foi para a guerra, Metade morreu de fome. Quem morre, cobre-o a terra. Quem se afoga, o mar o some.
Ninguém odiava o alemão. Mais se odiava o francês. Deram-nos uma espada para a mão E uma grilheta para os pés.
É inglesa a constituição, E a república é francesa. É d'estrangeiros a nação, Só a desgraçaéportuguesa.
E a raça que descobriu O oriente e o ocidente Foi morrer de balas e frio Para a cama dos Costas ser quente.
Mas a verdade há-de vir, O mal há-de ser descoberto E Portugal há-de subir Com a vinda do Encoberto.
Hão-de rir dos versos do cego; Hão-de rir mas hão-de chorar, Quem não for o Leotte do Rego E tiver Pátria a que amar.
M[ija]ramna pia da Igreja, Escreveram na porta do Paço É em linha recta de Beja Que está quem traz o baraço.
Era dez réis por cada homem Para o Chagas ter fato novo. Cada prato que eles comem É tirado da bocado povo.
Quem é bom nunca é feliz, Quem é mau é que tem razão; O Afonso vive em Paris E o Sidónio está num caixão.
Pobre era Jesus Cristo E ainda o puseram na cruz. De dentro de mim avisto O Princípio de uma luz.
Um dia o Sidónio torna. Estar morto é estar a fingir. Quem é bom pode perder a forma Mas não perder o existir.
Depois de quarenta e oito Quando o sol estiver no Leão, Há-de vir quem traga o açoite, Até os mortos se erguerão.
Não riam da minha praga, Os que viverem verão Porque toda a Bíblia acaba Na visãode S. João.
Sou cego mas tenho vista Com os olhos de ver no escuro. Falta o melhor da conquista Que é ver para lá do muro.
Falo na minha guitarra Só com o meu coração, Vejo o que via o Bandarra E no fim há um clarão.
Vejo o Encoberto voltar, Vejo Portugal subir, Há uma claridade no ar E um sol no meu sentir.
Por que mesmo quem não acredita É preciso acreditar; Quando a gente endoidece de aflita, Até se abraça ao ar.
Até que para o lado da barra Há-de vir um grande clarão, E voltar, como diz o Bandarra, El-Rei Dom Sebastião.
No seu dia veio o segundo, No outro será o terceiro, Se o segundo foi para o fundo, O terceiro será o primeiro.
Eu não quero nenhum estrangeiro, Francês e inglês é o demónio, Cuidado com o Terceiro Que não é o Pimenta ou o Sidónio.
Logo que a Lua mudar De onde não mostra valia, No meio do meio do ar Há-de aparecer o dia.
Na sua ilha desconhecida O Encoberto já vai acordar. Inda tem a viseira subida E o ar de dormir a pensar.
Seu olhar é de rei e chama Pela alma como uma mão. Não é português quem não o ama. Viva D. Sebastião!
Minha esquerda é a direita De quem corre para mim. Do futuro alguém me espreita, Portugal não terá fim.
s.d.
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| Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
| 1ª versão: Poesia Profética, Mágica e Espiritual. Fernando Pessoa. (Poemas estabelecidos e comentados por Pedro Teixeira da Mota.) Lisboa: Ed. Manuel Lencastre, 1989.
▪︎ ᵛᶦ́ᵈᵉᵒ ᶦⁿ ᵖᶦⁿᵗᵉʳᵉˢᵗ
Maria,
nos encontramos na solidão e nos perdemos em poesia
viver não é dolorosamente bonito?
O ponteiro da uma volta
A terra contorna o sol
E num segundo foi o ano
..
O tempo voa sem volta
E a gente nem lembra
Que se perdeu, amou e sofreu
..
Que este ano novo
Algo mais revolucionário
Quebra nossos relicários
..
Que a gente nasça mais uma vez
Em novo amor próprio suave
Para que tudo seja mais leve
..
Que faça parar o relógio
Os ponteiros e a terra
Findando as nossas guerras
..
Venha logo ano novo e belo
Funda em nossa alma um tempo
De luz em cada sentimento
..
..
Edison Botelho
Chorar ajuda por um tempo, mas depois é preciso parar de chorar e tomar uma decisão.
— As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis.