❝ In the night the stormy night she'll close her eyes In the night the stormy night away she'd fly❣ ❞
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Quem olhasse de fora, provavelmente veria Sojin como uma adolescente mimadinha cujos pais negaram emprestar o cartão de crédito para fazer compras no shopping. Mas a verdade passava bem longe de ser essa. Em partes, até era, pelo fato de sua expressão se assemelhar muito à de pessoas que se encontravam naquela situação. Os braços cruzados defensivamente sobre o peito e um bico formado em seus lábios enquanto batia os pés impacientemente denunciavam que algo estava errado com a garota sempre sorridente e calma. Os olhos nunca se fixando no professor que falava algo sobre Shakespeare, mas não tinha certeza, pois não prestava atenção.
jeokinx:
Primeira etapa: concluída. Agora, se não o mais difícil, era a vez do segundo passo que consistia em carregá-la normalmente para que acabassem aquilo logo de uma vez. É aquele velho ditado que na teoria é uma coisa, na prática é outra. Na sua cabeça a ideia parecia desdobrar-se com a maior facilidade, sem problemas, sendo menos estranho do que realmente era. Mas na hora em que sentiu a menor em suas coisas e viu que era pra valer, o impacto fora ainda maior. Não o impacto físico, mas um outro tipo de sensação que nem mesmo conseguiu distinguir. Estava tão concentrado em não dar qualquer sinal que denunciasse o quanto estava perplexo, que as palavras de Sojin estrondaram em seus ouvidos. Jinseok lançou-lhe um sorriso curto em resposta, sem saber o que aquilo significava direito. E por um minuto agradeceu a si mesmo por estar de costas e assim evitar que Lee visse aquela expressão ridícula estampada em sua cara.
A partir disso as coisas ocorreram tão depressa que mal deu pra ver se o achocolatado estava em mãos ou não, logo atendendo o pedido e colocando-a de volta ao lugar. Enquanto ainda terminava de se ajeitar, a outra trabalhava numa velocidade dez vezes mais rápida do que a dele, sendo extremamente ágil e fazendo com que Jin não desse conta de acompanhar outra coisa a não ser apenas o barlho da colher contra a panela. Pronto, já não entendi mais nada, perdera-se no que vinha em seguida, quais ingredientes colocar e em tudo mais. Enrugou a testa ao tempo em que olhou para Sojin, tentando entender aquela mudança toda. Mas logo deu de ombros e aproximou-se do fogão, movimentando a colher em círculos. Entender a pequena cozinheira era difícil às vezes, inclusive entender o seu humor. O que havia de errado? Ah! Será que era por sua causa ou pelo o que eles fizeram há dois minutos atrás? Bom, só saberia caso perguntasse e certamente não o faria.
Virou-se para ela e inclinou-se para tentar visualizar a massa e compreender o que ela queria dizer quanto à espessura. ‘’Ótimo, porque o brigadeiro já está quase pronto.’’ Pensando no quão quente poderia estar, Jeon deslizou a ponta do indicador na beira da colher e levou-o direto para a boca, saboreando com um certo cuidado. ‘’Toma, experimenta.’’ Pegou a colher em uma fração e segundos, só que agora era a vez de Sojin experimentar o doce. Não sabia se ela criaria uma certa repulsa, ou quem sabe poderia até jogar a colher para longe. Quer dizer, havia possibilidades. Mas no fundo, ele nem se importava. Estava apenas checando o sabor, certo? ‘’Hmmmm, está muito bom.’’ Sorriu e voltou-se para a pia, lavando as mãos em seguida. Até onde lembrava, não havia mais nada para fazer a não ser colocar a cobertura, parte que querer atenção e capricho, logo deduzindo que já não havia mais nada o que pudesse participar. Por isso, moveu-se para o balcão, pronto para assistir os passos finais.
Assentiu em resposta, tentado esvaziar sua mente. Estavam ali só para fazer um bolo, oras! Tudo bem que a história tinha meio que tomado um rumo novo e ela ganhou a missão de ensiná-lo a não ser um completo desastre na cozinha e... Droga, ela também havia falhado naquilo. Sem qualquer intenção, acabou deixando-se levar pelo nervosismo e não o ensinou como fazer o brigadeiro. O que a fez a se perguntar: como ele sabia o ponto, sendo que ela não tinha falado nada sobre? Olhou-o meio desconfiada, se perguntando o quanto ele sabia sobre a arte da culinária e o quanto ele fingia não saber. De qualquer forma, a aula teria que ficar para outra ocasião.
Virou seu corpo e deu de cara com uma colher quase sendo enfiada em sua boca. O que havia de errado com o maior naquele dia? Agindo precipitadamente, fazendo coisas que ela jamais imaginaria ele fazendo. E uma dessas era alimentá-la de qualquer maneira existente. Sempre vira cenas em filmes e achava fofo quando um casal estava jantando e um deles resolvia servir o outro, mas não sabia que o sentimento era tão diferente assim. Casal? Sojin pensou em casal? Não, não... Ela quis dizer... Enfim, o que importa é que Lee soprou a colher por alguns instantes na tentativa de diminuir a temperatura do doce, para assim experimentá-lo. “Jinjja, está bom mesmo!” Falou com a destra em frente à boca, tentando impedir o mais velho de vê-la quase mastigando enquanto falava. “Você sabe mesmo como mexer um brigadeiro.” Soltou uma risada baixa, a sua brincadeira nitidamente melhorando um pouco a atmosfera que os envolvia.
“Agora é hora de cobrir. Na verdade, essa é a parte mais fácil de tudo. Quer tentar sozinho?” Agora voltando ao seu estado de espírito normal, Sojin conseguia falar olhando diretamente para Jinseok. Entretanto, não ficou parada esperando uma resposta, por medo do bolo queimar. E também sabia que a resposta viria, de uma forma, ou de outra. Com o auxílio de um guardanapo, retirou a assadeira de dentro do forno e a colocou sobre a bancada, esperando esfriar um pouco antes de tentar desenformar. “Acho melhor você tirar aquele brigadeiro do fogo antes que ele queime e a gente tenha que começar tudo de novo.” Apontou para a panela que continha o doce, um tom divertido dominando sua voz.
jeokinx
Apesar de notar uma pequena vermelhidão no rosto da menor, ele continuou a encara-la normalmente, como se não estivesse fazendo nada de espetacular ou até mesmo proposital. O tempo que levou para secar as mãos não foi a metade do que ela precisou para voltar ao trabalho, mostrando-se extremamente ligada o que fazia. Tão ágil que chegava a ser engraçado a forma como ela mexia nas coisas, dando a impressão que havia treinado aquilo umas mil vezes antes de começar a colocar em prática. Jinseok estava tão preso em seu próprio mundo que mal conseguiu sair do lugar, demorando alguns minutos para que finalmente se desencostasse da bancada e entendesse o quê ela havia dito. Se antes ele acreditava estar ajudando em alguma coisa, agora então essa ideia havia acabado. Revisou a geladeira duas vezes até localizar onde estava a bendita margarina que nem lembrava mais em qual parte havia colocado, parecendo um completo demente com a cara enfiada na porta. Depois de deixar o pote sobre a bancada, virou-se para a menor novamente e segurou-se para não soltar uma risada assim que viu Sojin na pontinha dos pés com o maior esforço. No fundo, ele adoraria fazer piada da situação pois como havia pensado antes, era um detalhe que poderia usar como vantagem quando bem quisesse. Mas o simples fato dela ter arriscado o dela arriscar mesmo vendo que não conseguia alcançar sem ajuda de um banquinho, tornava tudo mais adorável, mais fofo, se preferir. Aproximou-se do armário e agachou de lado, indicando com os braços o quê faria em seguida. ‘’Venha, vou te ajudar a pegar.’’ A ideia não parecia lá muito normal, uma vez que seria muito mais fácil se ele mesmo erguesse o braço e pegasse seja lá qual ingrediente ela queria. Até para o próprio Jinseok parecia loucura, mas por algum motivo ele quis seguir com o plano, imaginando no que isso poderia gerar.
‘’Respondendo sua pergunta, já faz alguns meses. Mas depois que eu conversei com Jinhyuk, fiquei aliviado por saber que ainda existem almas caridosas e que gostam de cozinhar.’’ Comentou enquanto entrelaçava seus braços nas perninhas pequenas, tomando o maior cuidado para não aperta-las ou passar a mão em qualquer outra região. Na verdade, o comentário era só uma forma de tentar amenizar a cena embaraçosa que se estendia. Jinseok não costumava sentir vergonha de muitas coisas, mas aquilo com certeza o deixava sem jeito e nem sabia direito o motivo. Talvez fosse porque o nível de intimidade entre os dois ainda não chegara a ser tão alto assim, ou talvez porque ela era a irmã do seu melhor amigo. Mas mesmo assim, o moreno estava brincando quando se referiu, já que antes ele mal conhecia a menor, que dirá suas habilidades.
Sojin parou e ficou olhando para a cara de Jinseok, incrédula. “Mwo?” Perguntou com os olhinhos arregalados, achando que ele estava fazendo algum tipo de brincadeira. Então logo percebeu que não, ele não estava brincando. Sua primeira reação foi pensar em recusar aquela ideia sem pé nem cabeça, mas seu cérebro parecia ter congelado, sentindo-se impossibilitada de dizer “não”. Engoliu a seco e já se arrependendo, pulou nas costas do outro, que a segurou sem muito esforço. A única pessoa com quem fez aquilo na vida, foi Jinhyuk. E o mais estranho era que parando para pensar, aquela era a primeira vez que havia contato físico entre eles. Sojin já estava morando ali há algumas semanas, mas o máximo que fazia era cumprimentá-lo de manhã ou trocar algumas palavras durante o dia. “Aish, desde quando você ficou tão galante assim?” Sussurrou mais para si mesma, esquecendo-se de um detalhe: estava bem próxima dele, então a probabilidade das palavras chegarem ao ouvido alheio era mais do que grande. Queria esconder seu rosto, mas a única opção disponível era o pescoço dele e bem, aquela não era sequer uma opção.
Logo se arrependeu de ter pensado alto e resolveu acabar com aquilo logo, pegando o achocolatado em pó em cima do armário e dizendo alto o suficiente para ele ouvir: “Já pode me colocar no chão.” Assim que seus pés tocaram o piso da cozinha, fez questão de voltar a colocar a mão na massa, esquecendo-se da proposta de ensiná-lo. Colocou todos os ingredientes necessários na panela, acendeu o fogo, pegou uma colher de madeira e começou a mexer. Não sabia o porquê, mas seu pobre coração estava acelerado e suas bochechas queimavam tanto que achava possível que elas explodissem a qualquer instante. Não tinha o que reclamar de Jinseok, porém, sentia-se totalmente envergonhada com ele ali. E pensar que aquele poderia ser um gesto muito comum para ele. Respirou fundo, contou até dez e tentou se acalmar. “Hm, você pode mexer aqui, sunbae? Eu vou dar uma olhada no bolo.” Indagou sem olhá-lo e assim que ele pegou a colher, foi ver como estava a massa. Estava alta e bonita, do jeito que gostava. “Acho que daqui uns cinco minutos eu já posso tirá-la!” Disse enquanto um sorriso surgia em seu rosto, esquecendo momentaneamente do que acabara de acontecer.
cr: 유주의 예쁜 꿈나무 | Do NOT Edit!
jeokinx:
De volta à bancada, continuou observando a menor trabalhando. O simples fato de ter pego as assadeiras, de certa forma o deixou satisfeito consigo mesmo justamente por significar que ele estava contribuindo com alguma coisa. Não era lá grande coisa, mas para ele representava algo muito maior. Concordava mentalmente com cada palavra introduzida na explicação de Sojin, apesar de não balançar a cabeça. Ali na cozinha, ele era apenas um mero aprendiz interessado em aprender o básico, enquanto ela era uma chefe experiente e cheia de lições a ensinar. O quê tornava a situação ironicamente engraçada, já que Jinseok era o mais velho e o que menos sabia. Wow, mais um ponto a favor dele por acertar a diferença entre cobertura e recheio. Claro, tinha certeza que estava certo, mas receber a confirmação da outra tornava tudo mais interessante.
Achava que a assadeira seria o suficiente para dar continuidade ao próximo passo, mas notou um pequeno detalhe que parecia fazer toda a diferença no percurso. Não sabia exatamente o nome do processo que envolvia a farinha e a manteiga, porém a ideia começou a fazer sentido assim que a viu pronta e compreendeu a importância de ter que analisar tão de perto algo que talvez não conseguiria aprender caso olhasse na internet. Voltou-se para Sojin com um sorriso de canto. ‘’Como apartamento tem seguro, por que não arriscar? É a oportunidade perfeita pra botar fogo em tudo e culpar o fogão, já que antes eles não acreditariam que eu estaria utilizando a cozinha.’’ Fez piada da sua própria situação que chegava a ser um tanto trágica. Apesar da aparência neutra de sempre, agora estava de bom humor e animado por estar entusiasmado com algo que antes não dava a mínima. E por isso, não se deu ao capricho de desviar sua atenção mesmo quando falava com a menor. ‘’Nee..’’ A voz arrastada de quem aparentemente entendia, mas na verdade ainda não via diferença nenhuma. Só conseguia pensar no sabor que esse bolo teria depois de pronto. A forma colocada dentro do forno funcionou como uma espécie de aviso para que ele levantasse em direção a pia. ‘’Brigadeiro? Hmmm, anya.’’ Bancou o pensativo ao responder, mal ela sabia que era mentira. Ele sabia fazer, quer dizer, talvez o modo de preparo fosse diferente do dele, mas ele sabia. Entretanto, não perderia a chance de vê-la explicar manualmente. Colocou as mãos debaixo da torneira e em seguida, transpassou o braço entre o corpo da garota afim de pegar o rolo de papel do outro lado da pia, fazendo com que seus corpos ficassem bem próximos. Não fora sua intenção, a princípio, mas também não desaprovava a experiência. Assim, encostou na pia e passou a encara-la sutilmente enquanto secava as mãos.
Depois daquele comentário, Sojin passou a ter certeza que Jinseok possuía um senso de humor bem único. “Ual... Fazia quando tempo que o sunbae não comia algo decente, então?” Perguntou mais por curiosidade, era fácil de deduzir que ele não se preocupava em cozinhar, mas será que a mãe ou alguma namorada não faziam nada para ele? Se bem que, nada daquilo era da sua conta.
Afastou tais pensamentos e resolveu focar no que estava fazendo. Não foi uma novidade ouvir a resposta negativa, desde que colocara os pés naquela casa, só o via entrar na cozinha para pegar água ou comer o que já estava pronto. O que não fazia muita diferença, já que Sojin gostava de cozinhar e de aprender coisas novas; melhor ainda pelo fato de não ter ninguém em seu pé, não deixando que ela cortasse legumes ou ficasse muito próxima do fogo, como Jinhyuk tinha o costume. “Você se orgulharia de mim, maninho.” pensou, com um sorriso discreto acabando por surgir em seus lábios. “Então, eu preciso...” Sua frase foi cortada enquanto olhava surpresa para o rapaz. O que ele estava tentando fazer, ficando tão próximo daquele jeito? O corpo retraiu-se quase que automaticamente e só relaxou quando o outro se afastou e Sojin viu o papel toalha em suas mãos. Mas ainda assim, seu coração batia mais forte do que o de costume e a garganta estava seca. Comprimiu seus lábios e sentia suas bochechas queimando, afinal, estava sendo uma boba. Nunca tivera nem um tipo de namoradinho nem nada, seu contato com outros garotos era quase nulo e convenhamos, qual a probabilidade dele a ver como algo além de uma criança? O gesto deveria ter sido totalmente natural para Jinseok, não deveria ficar se preocupando com tais coisas. Mas ainda assim, se sentia envergonhada e para piorar, ele ainda estava fazendo o favor de ficar olhando para ela.
Quase que como uma luz, lembrou-se do que estava dizendo e rapidamente seus pensamentos se organizaram para repassar a receita mentalmente. Abriu a porta do armário acima da bancada e começou a procurar pelo leite condensado. “Eu preciso da margarina, você pode pegar para mim, por gentileza?” Conseguiu perguntar como se nada tivesse acontecido, só que sem fitá-lo por um segundo sequer. Mesmo de costas, sentia que os olhos dele estavam sobre si, e essa se tornara uma sensação desconfortável. No final das contas, conseguiu pegar o tal do leite condensado, mas o achocolatado em pó estava um nível acima e baixinha do jeito que era, seria um pouco difícil de alcançar. Só que mesmo com dificuldades, não daria o braço a torcer.
jeokinx:
Jinseok absorveu muito bem o quê ela queria dizer com aquela risadinha, mas deu de ombros. Afinal, ela tinha mesmo o direito de zombar à vontade dele pela explicação leiga que denunciava claramente sua deficiência com assuntos relacionados a culinária. O rapaz deu mais uma rápida olhada no que Sojin colocava dentro da tigela. Todos aqueles ingredientes, as medidas certas e panelas em volta lhe dava a clara imagem de um bruxo preparando suas poções. Era uma coisa mágica e ao mesmo tempo indecifrável, sem garantia de bons resultados, mas que a menor executada sem esforço algum e na maior tranquilidade. Antes que começasse atrapalhar, deu a meia volta e debruçou-se sobre a bancada, passando a ter uma visão melhor da cena bem à frente. e assim não perderia nenhum movimento sequer. ‘’Nee, eu gosto… Quando você diz recheio, não está se referindo aquela cobertura de brigadeiro por cima não, né?’’ Pensou duas vezes antes de falar por dois motivos: dar a impressão de não saber o que é recheio e cobertura, apesar de ver a clara diferença, e não querer insinuar algo que na verdade já estava insinuando. Sim, ele estava implorando para que ela não deixasse de colocar a cobertura de brigadeiro maravilhosa que tanto gostava. E até pediria mais uma vez, discretamente, caso fosse preciso. Qualquer outra pessoa que estivesse assistindo, perceberia que não havia nada de mais no simples ato de juntar os ingredientes e mexe-los. Porém, para o garoto, aquilo era absurdamente fascinante. Percorreu o olhar de volta a Sojin, desmanchando a testa enrugada e o biquinho curioso de antes para concordar com um sorriso perspicaz de quem via vantagem sobre isso. O jogo virara no momento em que se viu, mais uma vez, preso dentro de uma equação. Havia três formas encaixadas umas nas outras de forma decrescente e Seok não sabia qual delas era a certa. Antes de abrir brecha para mais uma asneira, pegou logo as três. ‘’Pode pedir o quê quiser, afinal eu vou ficar por aqui mesmo. Se você não se incomodar com a minha presença, claro.’’ Havia uma certa mudança no tom com que falara, na tentativa de mostrar que por mais que ela achasse, ela nunca incomodava. E também, de que ele estava muito mais interessado naquele bolo do que parecia.
Não era o tipo de pessoa que se sentia incomodada com facilidade, mas ter Jinseok debruçado bem à sua frente, observando tudo o que fazia, a deixava um pouco intimidada. Não que fosse ficar nervosa e estragar tudo, o problema é que não tinha o costume de ter alguém por perto enquanto cozinhava, levando em consideração que sempre fazia o que tinha que fazer antes mesmo de Jinhyuk chegar em casa. “Any, any...” Deu uma risada um pouco alta ao ouvir a pergunta alheia. Achava engraçada a forma como ele parecia completamente perdido dentro daquele ambiente, mas ao mesmo tempo achava fofa a maneira como ele também parecia interessado em saber mais sobre. “O recheio é o que vai no meio da massa e... Você respondeu sua própria pergunta. A cobertura é o que vai por cima, no caso, o brigadeiro.” Respondeu ao pegar no ar o que ele estava querendo dizer com aquela história. E aos poucos, começou a ficar menos encucada com a questão de ser “disciplinada” perto de Jinseok, afinal, ele era um cara legal, só suas expressões que não eram lá tão amistosas.
Dentre as assadeiras postas sobre a bancada, Sojin escolheu a do meio, que tinha o tamanho perfeito para o bolo que queria fazer. Pegou margarina para untá-la e em seguida jogou um pouco de trigo, girando a forma e dando leves batidas para o pó espalhar. “Até parece que você conseguiria me incomodar.” Terminou seu trabalho com a assadeira e a deixou ao lado, indo lavar suas mãos. “Ainda mais sabendo que você acabou de se oferecer pra ser meu ajudante.” Disse como quem não queria nada, secando as mãos em uma toalha de papel. Não sabia o quão longe ia o conhecimento do outro sobre culinária, mas tentaria ensiná-lo ao menos um pouco, só para não dizer que ele “só lavou a louça”. Desligou a batedeira e desencaixou o recipiente, despejando a massa na assadeira com a ajuda de um pão duro. Ela estava bonita e bem homogênea, do jeito que queria. “Está vendo como está lisinha? Significa que provavelmente vai sair um bom bolo daqui.” Sentia-se contente, gostava quando acertava as coisas de primeira, ainda mais se tratando de comida. Até porque não suportava a ideia de desperdiçar alimentos. Levou a massa até o forno, ajustando a temperatura e ligando o cronômetro do celular para avisá-la quando desse a hora certa. “Enquanto o bolo assa, melhor ir preparando a cobertura. Você sabe fazer brigadeiro, sunbae? Porque se não sabe, vai aprender hoje.”
ig: shimg93
jeokinx:
A chance de um raio cair duas vezes no mesmo lugar era a mesma que Jinseok repassar a matéria em casa todos os dias. Nenhum raio havia caído, mas com certeza um milagre acontecera para que naquele dia, ele optasse por fazer exatamente isso. Já não aguentava mais ver tantos números e sinais na sua frente e tinha a impressão de que aonde quer que batesse o olho, eles sempre estariam lá. Decidiu dar uma pausa antes que começasse a escalar as paredes ou saísse rasgando suas revistas, sem qualquer intenção de voltar para o quarto tão cedo. Seguiu o corredor tentando acostumar suas pálpebras com o ambiente super iluminado pela luz do dia que pareceu cega-lo nos primeiros segundos. Antes de descer as escadas, Jin parou e olhou para as suas roupas que vestia. Provavelmente Sojin já se acostumara essa imagem ‘relaxada’ de ficar em casa, o que por sinal não era tão bom assim. O cabelo era a única coisa que deixa sua aparência menos pior naquele momento. ‘’Batedeira?’’ Parou por um instante, sentindo como se estivesse voltando a resolver uma nova equação. Ele não tinha certeza do que exatamente ela estava perguntando, por isso demorou alguns segundos para pensar. ‘’Batedeira é aquela coisa que tem duas ‘pernas’?’’ Gesticulava com as mãos na tentativa de explicar o objeto que havia pensado. Só assim foi perceber o quanto parecia um burro com uma pergunta daquelas. Mas a quem ele poderia jogar a culpa? Não entendia absolutamente nada de cozinha. Conforme foi se aproximando da cozinha, visualizou melhor o que a menor fazia, ainda sem entender muito. ‘’É, deve ser isso.’’ Fechou a porta do armário próximo à pia, para em seguida deixar na bancada.
Uma risada inevitável entrecortou seus lábios ao ouvi-lo tentar explicar – mais para si mesmo – o que era uma batedeira. E mais uma vez, se perguntou se ele sabia pra quê ela servia. Saiu do meio do caminho e aproveitando o tempo gasto por ele para procurar o objeto, terminou de medir os ingredientes. “Isso, é isso mesmo! Agora acho que você não vai esquecer mais, hm?” Piscou de forma divertida para ele, sorrindo logo em seguida. Pegou a tigela que acompanhava o objeto e começou a colocar os ingredientes dentro, quase pronta para começar sua atividade, quando resolveu parar. “Esqueci de perguntar, mas você gosta de bolo de chocolate? É que eu não consegui pensar em nada melhor e acha massa branca meio sem graça sem recheio. Eu ainda não sei fazer recheios direito, então achei melhor não arriscar, né? Vai que o sunbae acaba passando mal e quem vai se sentir mal sou eu.” Mordeu o interior de sua bochecha, sustentando um silêncio constrangedor que a fez desviar o olhar para a bancada à sua frente. Tinha o mau costume de tagarelar sem parar e nem sempre isso era bem-vindo, ainda mais se tratando de alguém recluso como Seokjin. Terminou de colocar tudo no recipiente e antes que pudesse ligar o aparelho, lembrou-se de um pequeno detalhe. Queria terminar sua ideia mirabolante sem incomodá-lo novamente, mas não teria como sem um objeto específico.“Jinseok-ssi? Você poderia fazer outro favor pra mim? Poderia pegar aquela assadeira média ali em cima? Não alcanço e não se se subir nessas cadeiras seria muito legal. É a última coisa que eu te peço, juro.”
Apesar de prometer – quase de mindinho – que faria vários bolos para o dono da casa, Sojin não fez foi é nada. No máximo algumas sobremesas simples, daquelas que você pega tudo pronto da geladeira, bate no liquidificador e coloca para gelar numa travessa. Começou meio acanhada, tomando cuidado ao abrir as portas do armário e da geladeira, só que aos poucos, foi conseguindo enfiar em sua própria cabeça que ali agora também era sua casa, oras. Por mais que evitasse fazer esse tipo de coisa na frente do “primeiro dono”, como se estivesse fazendo algo de errado. Mas hoje não, estava resolvida que iria fazer um bolo de chocolate. Checou a receita mais uma vez na tela de seu celular e começou: pegou os ovos, leite, trigo e tudo o mais que precisava para fazer a massa. Foi aí que apareceu o problema: não sabia aonde estava a batedeira ou sequer se Jinseok tinha uma batedeira em casa. Será que um cara como ele tinha esse tipo de coisa em casa? E se tivesse, será que ele usava? De qualquer forma, agradeceu por vê-lo descendo as escadas. Queria fazer tudo sozinha, mas pelo jeito não ia ter outro remédio. “Jinseok-ssi! Desculpa incomodar, mas você tem batedeira aqui? Tentei procurar, só que ela deve estar bem escondida.”
jeokinx:
Por mais que não fizesse o mínimo esforço, havia alguns costumes do qual Jinseok não conseguia fugir. Como por exemplo, sua mania de reparar nas outras pessoas. O gesto era tão automático que podia ser considerado uma habilidade do rapaz, pois era realmente difícil saber o momento certo que ele apenas olhava ou enxergava mais a fundo. Sendo um dom ou não, seu trabalho discreto e silencioso permitia que ninguém descobrisse e assim saia ileso. E essa habilidade agora estava funcionando com Sojin. Por mais que o moreno não quisesse fazer essa ‘’leitura’’, era estranho a maneira que ele criava a visão da garota como uma figura fofa. Ainda mais estranho para ele, que não costumava usar o adjetivo ‘’fofa’’. Mas o jeitinho dela empolgada enquanto falava e o modo como gesticulava, não poderia ser descrito melhor. ‘’Nee. Se tem uma coisa que não vai faltar nessa casa, essa é bolo.’’ Concordou com um sorriso curto, realmente bem despreocupado caso ela decidisse fazer um ou mais bolos por semana. Se dependesse apenas dela, claro, já que ele mal sabia usar a batedeira. Não conseguiu disfarçar uma expressão de espanto ou qualquer coisa que substituísse a cara neutra de sempre para simbolizar a resposta a menor, mas arqueou as sobrancelhas, se divertindo com a cena. ‘’Certo. Vou confiar em você e fazer de tudo pra controlar o desejo insano de assassinar mais uma pessoa aqui dentro.’’ Brincou esperando que Sojin entendesse a brincadeira e quem sabe até seu espírito humorístico meio estável que vez ou outra decidia dar as caras. É claro que ele não deixaria que as coisas chegassem a esse ponto, tentaria ficar por perto da garota para impedir que ela ao menos se machucasse. Até mesmo quando ela insistisse o contrário, como agora. Pareceria um perseguidor? Provavelmente. Mas arranjaria um jeito de sempre checar o que a menor faria na cozinha, ou até mesmo fora dela. ‘’Ah, Jinhyuk…’’ Retirou a mão do bolso e coçou o nariz, prestes a soltar uma risada nervosa sobre o comentário de Sojin. Jinhyuk era mesmo um canalha, adoraria ter a oportunidade de ver aquele rosto e dar uma entortada naquele queixo alinhado. Nem mesmo ele saia porquê havia, de uma certa forma, se irritado com o comentário. Só sabia que o incomodara. ‘’6 meses? Que ótimo. Espero que as coisas funcionem e logo ele poderá ver nossa casa.’’ Completou demonstrando que ficara satisfeito por ouvir um ‘nos’ na frase da garota. Queria que ela se adaptasse o mais rápido possível, não apenas na parte física, mas também no sentido de sentir-se em um lar. ‘’Bem provável que ele ligue pra cá depois, ou no seu celular, não sei. Mas de qualquer forma, vou te deixar à vontade pra terminar de arrumar suas coisas e seja lá o quê.’’
Fez um “joinha” com a destra, como quem diz: é isso aí! Apesar de seu gosto pela confeitaria, também não abusaria, já que os ingredientes não eram seus. Todavia, faria questão de sempre deixar uma sobremesa prontinha dentro da geladeira para aproveitarem ao final de cada refeição. O sorriso discreto que trazia anteriormente, transformou-se em uma expressão de espanto. “Então além de me preocupar com você, eu vou ter que me preocupar com os fantasmas das pessoas que morreram aqui?” Cobriu a boca com a mão, fingindo estar pasma com aquilo. Mas logo outra risada foi solta. Um pouco nervosa, vale ressaltar. Bem, Sojin era o tipo de pessoa que temia mais os mortos do que os vivos e somente a palavra “fantasma”, já fazia um calafrio subir por sua espinha. Tentaria não pensar muito naquilo, mas sabia que no primeiro ruído estranho que ouvisse no meio da noite, agarraria seu ursinho de pelúcia e fecharia bem seus olhos. Ainda mais se esse viesse do andar inferior.
Por uma fração de segundos, se perguntou se fizera bem em repassar a Jinseok o comentário do irmão, pois notou uma reação um pouco diferente vinda do outro. De qualquer forma, ela só estava fazendo o que lhe fora pedido. E novamente se sentiu estranha ao ouvir a expressão “nossa casa”. Por mais gentil que fosse, Sojin não era exatamente o tipo de pessoa que compartilhava muitas coisas e muito menos ouvia algo sendo chamado de “nosso”. Por esse motivo, acabou encolhendo um pouco seus ombros, a sensação nova causando efeitos diferenciados dentro de sua cabecinha. “Tomara, assim dá pra matar um pouco da saudade.” Assentiu ao que um sorriso tímido surgia no canto de seus lábios. Na verdade, já sentia saudades de seu irmão, mas não queria encher aquela conversa de sentimentalismos. Até porque estava bem claro que o outro não era muito chegado nesse tipo de coisa. “Se ele me ligar, eu te aviso ou quem sabe até te empresto o celular para vocês conversarem.” Sua cabeça acabou tombando levemente para o lado sem que percebesse. Olhando para o outro mais uma vez, se perguntava como ele o irmão, duas pessoas de personalidades bem distintas acabaram se tornando melhores amigos. “Ah, nee. Eu tenho muita coisa pra arrumar mesmo.” Agora fora sua vez de ironizar, seus olhos se voltando para a mala que até então estava esquecida. “Mas tudo bem, é melhor o sunbae voltar ao que estava fazendo antes de ser interrompido. Não quero atrapalhá-lo.”
jeokinx
Era curioso o modo como Sojin parecia profundamente agradecida com cada detalhe a sua volta. O gesto que até então não era de grande importância para o rapaz, agora parecia certifica-lo que havia feito a coisa certa, e que pelo menos uma vez havia feito alguém sorrir sem ter segundas intenções por trás. O fato de sempre ter tido tudo de mão beijada colaborou para que ele observasse a cena e pensasse como algumas pessoas se contentam com as pequenas coisas e que nem todos tinham tudo. Claro que, ele conhecia a família dos irmãos o suficiente pra saber que não eram sempre que extravasavam e dormir despreocupados. Se não funcionasse assim, Sojin não estaria ali. Mas talvez o fato dela estar ali, de ser ela quem agora ocupava o quarto e de ser ela quem o agradeceu, que tornava as coisas muito mais interessantes de serem absorvidas.’’Não se preocupe, não foi nada. E se quiser, pode até fazer algumas alterações e deixar do jeito que preferir.’’ Não reprimiu um sorriso ao ver a criaturinha de olhinhos brilhantes também sorrindo. Mas claro, não exagerou.
Uma característica presente desde criança em Jinseok é que ele mais escuta do que fala, e talvez por isso conseguia absorver mais detalhes, os implícitos, na menor. Número um: ser cauteloso nos assuntos que citar pais e família -mesmo sendo um dos últimos assuntos que tocaria. Provavelmente ele quebraria o clima alegre e receptivo caso já começasse a apontar os motivos pelo qual não aceitaria qualquer tipo de oferta em toda, pois precisava deixar claro que essa não era a intenção… contudo, afastou tal pensamento ao imaginar Jinhyuk, todo esperto e meticuloso, dentro da cozinha. Na versão do amigo, as tentativas de cozinhar sempre eram muito bem sucedidas e ele se gabava mesmo sabendo que era péssimo naquilo. ‘’Péssima crítica pra quem se rotulava um ‘’quase masterchef’’’. Soou bem menos engraçado do que queria, sorrindo mais para si mesmo do que para a outra. Digamos que fora pego de surpresa pelo o que surgiu depois, uma surpresa interessante, a propósito. ‘’Sim, bem ocupado…’’ Zombou formando uma careta estranha, torcendo para que ela realmente acreditasse naquilo. Ele poderia até ser ocupado às vezes, mas isso não significava que eram com coisas mais convenientes de um ser humano normal. Pensou um pouco antes de responder, tentando se lembrar qual fora o último século que comera algo caseiro e acima de tudo, que tinha um gosto bom. ‘’Eu não queria que você se preocupasse com os deveres de casa, mas se está tudo bem pra você, então pra mim também. Será legal comer tortas e bolos de vem em quando… essas coisas bem feitas. Mas, você precisa ter cuidado ao utilizar o fogão e os cortadores. Eu não quero que seu irmão inaugure a coleção de facas cortando minha cabeça caso você se machuque. Promete?’’
Olhou-o de soslaio, achando engraçada a forma como ele chamara seu irmão de “masterchef”; o que definitivamente, era um título que passava bem longe de ser aplicável a ele. Reprimiu uma risada e deu mais uma olhada à sua volta. “Jinhyuk tem esse costume. Sempre quer ser o melhor em tudo.” Deu de ombros, a imagem do mais velho insistindo em ficar estampada em sua mente. Ele sempre dizia fazer coisas extraordinárias para impressionar seus amigos e Sojin concordava, o ajudando em sua farsa. Mas por alguma razão, não conseguiu sustenta-la naquele momento. Talvez porque a figura que amava de todo o seu coração, era a de seu irmão. Seu puro e verdadeiro irmão, não aquele ser de terno e gravata que falava difícil com as outras criaturas de terno e gravata.
Mais uma vez, seu olhar foi parar sobre o outro. Ele não era ocupado? Ou era? O tom utilizado por Jinseok deixou Sojin confusa, que preferiu deixar aquela questão de lado. “O sunbae gosta de bolos? Porque, não é por nada não, mas é minha especialidade!” Soltou em um tom alegre, fazendo uma expressão inocente, como se não quisesse se gabar nem nada. Realmente não queria, mas tinha consciência de que seus doces eram uma maravilha. Não sabia dizer se eram as receitas incríveis da sua avó ou aquele ingrediente secreto chamado “amor” que colocava em tudo o que fazia, que tornava sua comida um tanto quanto saborosa. Uma risada entrecortou os seus lábios com o comentário alheio. “Eu prometo. Só não precisa se preocupar, eu sei bem como mexer nessas coisas. E caso algo aconteça, na pior das hipóteses, é só eu contar que a culpa foi minha. A não ser que você tente me atacar com uma faca, ou algo do tipo.” Semicerrou os olhos, fingindo analisa-lo por alguns segundos antes de desmanchar sua feição e voltar a sorrir. Não o conhecia direito, mas algo dentro de si dizia que o assassino em potencial na porta de seu novo quarto não teria coragem de fazer nada contra ela. Tudo bem, ele tinha aquela cara de durão e todo jeito sério, só que a jovem já tinha um certo costume em lidar com pessoas que possuíam tal personalidade. Em sua concepção, essas eram as mais intrigantes porque sabia que a camada externa geralmente não condizia com a camada interna. Isso a levava a pensar que Jinseok escondia muito mais do que aquele jeito de garotinho milionário que tem tudo de mãos beijadas passava a impressão. “Esqueci de dizer, mas o Jinhyuk te agradeceu mais uma vez por me deixar ficar aqui. E também te mandou um abraço, por mais que ele saiba que você não gosta. Ele também disse que vai tentar te... nos visitar pelo menos a cada seis meses.”
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Jinseok se lembrava claramente de como era a convivência entre família na sua infância, antes dele crescer e começar a enxergar as coisas com um pouquinho mais de clareza. Seus pais, sua mãe principalmente, cuidava dos filhos como quem os ama a ponto de entender que a educação se torna muito mais válida quando vinda da própria criação do que esperar que uma babá ou escola a faça. Ele e o irmão mais velho, de quem nunca falava, receberam uma criação diferente, dentro de uma bolha gigante que praticamente os restringiam de qualquer coisa a suas voltas, as boas e inclusive a capacidade de perceber que nem tudo estava em tão bem quanto aparentava. As pessoas com que conviviam na maioria das vezes eram adultas, poucas crianças podiam ser consideradas amigas dos irmãos. Mas claro, quem diferença isso tinha? Ou melhor, quem via algo de errado nisso? Afinal, crianças ricas não precisavam de nada mais brinquedos caros e desnecessários e uma brecha no assunto de domingo à noite na roda de pais que enchem o peito de orgulho sobre o quão exemplar e perfeito seus filhos são. A mãe, que depois de um tempo ficou doente de tanto desgastamento mental, já não era capaz de exercer o papel de mãe que acreditava ter ao menos, dificultando ainda mais a comunicação entre eles. Ele não culpava os pais por tudo isso, mas também não os polpavam de grande parte dela. Todo esse ambiente fora razão para o desenvolvimento de garotos individualistas e sem ânimo algum para ver o que acontece depois. Sendo assim, Seok entendia o que era dizer o ‘adeus’ a alguém, a dor de deixar algo para trás e ficar exposto ao que vem em seguida; mas ele ainda não sabia o que aquilo realmente significava. Ninguém jamais deixara essa marca profunda em sua vida a ponto dele sentir na pele, não de verdade. E por mais que ele entendesse a dificuldade de Jinhyuk deixar a irmã e dela também ter que desapegar do irmão, o lance de ‘’se colocar no lugar do outro’’ era muito vago. Quando Seok viu o que poderia fazer pelo melhor amigo, inconscientemente viu que poderia compreender com o outro, mesmo ele não estando envolvido. Imaginou que veria o melhor amigo acompanhado da irmã ao abrir a porta e ficou um pouco aborrecido no fundo, pois queria se despedir mais uma vez, mas ele deveria estar ocupado com os últimos detalhes. ‘’Annyeonghaseyo, Sojin. Como você já deve saber, sou Jinseok.’’ Fora relativamente rápido em sua apresentação, não quis deixar as reverências tão formais como de costume. Em seguida, tomou a liberdade de carregar as bagagens para dentro do apartamento sem que fosse preciso uma permissão dela. ‘’Bom, é isso. Você pode andar em qualquer cômodo da casa, comer a hora que quiser, olhar tudo o que tiver vontade, sem restrições. A partir de hoje, essa casa também é sua, ou melhor, é nossa.’’ Concordou ao gesticular com as mãos antes de ergue-las para cima, espreguiçando num gesto mais automático possível. Subiu as escadas da sala em direção ao piso acima que dava para os três quartos da sala, o cheio de móveis que ninguém usa, o dele e o especialmente preparado para Sojin. ‘’Este aqui é o seu quarto.’’ Virou-se para ela tentando manter a simpatia estampada no rosto, na intenção de faze-la se sentir mais à vontade no novo ambiente e girou a maçaneta da porta. Não era lá grande coisa, mas ele realmente havia feito ajustes para deixar o cômodo com uma vibe mais feminina. ‘’ Eu não conheço seus gostos mas soube que você gosta de flores, então acho que deu pra fazer alguma coisa.’’ Escorou no batente da porta, observando as paredes decoradas junto com os enfeites da escrivaninha. Há algumas semanas tinha pedido uma ideia a Jinhyuk do que colocar como decoração, e a ideia só surgiu depois de tanto implorar para o amigo que insistia ser um capricho que só daria trabalho. Mas pelo o contrário, aquilo não seria nada de extraordinário para ele e muito menos o fez para impressionar alguém.
Apenas assentiu em resposta, sua timidez assumindo a frente de todos os outros sentimentos, como de costume. “Não, não...” Ia dizer que ele não precisava se preocupar com suas bagagens, mas somente pelos poucos minutos que passara com ele, já estava bem evidente que ele não era o tipo de pessoa que voltava atrás em suas decisões. E para ser sincera, as bagagens estavam um pouco pesadas, então resolveu aceitar o gesto de bom grado. Assim que colocou os pés dentro do apartamento, Sojin ficou olhando à sua volta, encantada com cada detalhe do lugar. Teria muito tempo para descobri-los um a um, mas ainda assim, queria absorver o máximo de informações para quando se lembrasse da “primeira vez que entrei na casa do Jinseok”, tivesse uma imagem clara e rica. Talvez por ter morado sua vida toda na mesma casa, era estranha a sensação de conhecer um espaço novo que agora, poderia ser chamado de seu. Na teoria, claro. Demoraria um bom tempo até que se referisse àquele lugar como minha casa ou conseguisse fazer tudo o que ele sugerira. “Daebak...” Soltou baixinho ao olhar para baixo enquanto subia a escada. Do alto, o loft parecia ser bem maior do que aparentava de início.
Assim que avistou a parte de dentro do quarto, Sojin ficou boquiaberta. Entrou vagarosamente, como se achasse que ele não poderia ser real e a qualquer momento fosse desaparecer de vista.O cômodo era bem maior do que o seu antigo, a cama era mais espaçosa e todos os móveis também pareciam ser mais novos. “Oh, jinjja! Elas são lindas!” Aproximou-se de onde as flores estavam e inclinou-se um pouco para sentir melhor o doce perfume que elas exalavam. Por um instante, teve vontade de abraçá-lo para transmitir o quanto achara lindo aquele gesto. Só que não o conhecia e estava ali como uma instrusa que ainda por cima, acabara de chegar. “Realmente não precisava ter se preocupado com isso, sunbae. Já está fazendo demais só pelo fato de me aceitar aqui. Mas de qualquer forma, muito obrigada. Pelos dois. Você tem um coração gentil.” Sojin olhou para o rapaz com um sorriso amarelo, se perguntando o que o levara a aceitá-la ali, sendo que sequer a conhecia. E ainda por cima, sem pedir nada em troca. “Acho injusto eu ficar aqui sem te dar nem um tipo de retribuição, então estava pensando em propor uma coisa. Desde que meus pais...” Interrompeu-se no instante em que percebeu que as poucas palavras a afetaram, pensando em uma forma de reformular sua frase. “Desde que eu e Jinhyuk passamos a morar sozinhos, eu acabei ficando responsável por algumas coisas. Como ajudar na limpeza da casa e com a parte da comida, já que ele não leva lá muito jeito na cozinha.” Soltou uma curta risada ao lembrar-se de alguns episódios apertados em que seu irmão, tentando impressioná-la com um jantar incrível, acabara quase colocando fogo na casa. “Eu não sou a melhor cozinheira do mundo, mas consigo fazer algumas coisas. Creio que é melhor do que ficar comendo fast-food por aí. Enfim, a minha proposta é essa: dar uma mão aqui nas coisas da casa, até porque o sunbae deve ser muito ocupado, não? E ah, eu não aceito “não” como resposta.”
jeokinx:
Iogurte e moletom preto. Duas coisas que resumiam os primeiros minutos após Jinseok levantar do colchão, sem sequer dar o trabalho de calçar os chinelos e evitar de sujar as meias. Os raios de sol ultrapassando a vidraça na parede anunciavam que o dia seria extremamente quente e por isso mesmo passaria dentro de casa, trancado e fielmente casado com a procrastinação. Os cotovelos desapoiaram da bancada quando o som da campainha cortou o silêncio, automaticamente limpando o resto do danone que caíra no canto da boca. Não, não eram cobranças, nem o porteiro e mui… Espera, como podia ter esquecido? Grunhiu em homenagem a sua memória falha. Hoje era o dia em que, tudo que havia prometido há semanas para Jinhyuk, finalmente sairia dos planos e pularia à pratica. Sentia que estava decepcionando o amigo a partir dali. Mais pelo fato de se esquecer sobre a ligação que tiveram ontem e que travava exatamente desse assunto, do que pela irmã dele, que agora aguardava na porta e mal imaginava que sua chegada não era tão aguardada assim. Passou a mão livre sobre o fios castanhos e virou a maçaneta. Tudo bem, Seok não esperava uma criança de um metro e trinta de altura com a mochilha do pikachu nas costas acenando amistosamente. Mas também, não a imaginava daquele jeito. Sua expressão era neutra de sempre transformou-se numa espécie de sorriso que dizia ‘’seja bem-vinda.’’
A cabeça estava encostada na janela do carro, enquanto olhava para a rua sem muita emoção. Por dentro, estava borbulhando de sentimentos, dentre eles, uma certa tristeza, mas tentava não demonstrar aquilo para Jinhyuk. Por essa razão, resolveu arrumar sua postura e puxar assunto com o rapaz. Conversaram sobre muita coisa, riram bastante e até começaram uma mini briga, como sempre acontecia. O motivo? A estação de rádio, obviamente. Os gostos musicais divergiam, assim como quase tudo entre dois. Só que isso não era motivo para impedi-los de se amarem e cuidarem um do outro como dois irmãos devem fazer. Ainda mais no caso deles, quando não tinham mais nenhum familiar em que se apoiar. A perda era muito recente e pensar nos pais fazia o corpo de Sojin doer. Não uma dor física, mas algo interno que parecia cortar todos os seus membros e que vira e mexe aparecia para lembrá-la que estava praticamente sozinha no mundo, se Jinhyuk não estivesse ali. E mais um problema, também o perderia. Sabia que poderia fazer uma ligação e ouvir a voz do mais velho, entretanto, nada se comparava a ele a seu lado, bagunçando o seu cabelo, a abraçando e dizendo que tudo ficaria bem dali em diante. Queria acreditar fielmente nas palavras dele, mas ainda era jovem, sabia que o mundo era grande e nada amistoso, só que sentir na pele era bem diferente de ouvir notícias no jornal. Mas não poderia reclamar, poderia? Ele tinha que construir o seu próprio futuro e tornar-se um homem bem-sucedido; e se isso significasse ter que deixá-la, compreenderia. Se seus pais estivessem observando-os, queria que eles se sentissem orgulho de seus filhos. E além do mais, teria um lugar para ficar e uma companhia, certo? Então estava tudo bem, uma hora ou outra se acostumaria com a falta do irmão, assim como se acostumaria com a dos pais. O caminho longo tornou-se curto quando Jinhyuk estacionou o carro e deu um beijo na testa de Sojin, brincando que se seu amigo não cuidasse bem dela, deveria ligar imediatamente para ele. A garota soltou uma risada e agradeceu, despedindo-se com o coração pesado e em seguida descendo do carro. Acenou uma última vez e observou enquanto seu irmão ia embora, perguntando-se quando o veria novamente. Soltou o ar pesadamente e entrou no prédio indo diretamente para o elevador, repetindo mentalmente o número do apartamento que deveria procurar. Não demorou para encontrá-lo e parada em frente à porta, hesitou um pouco antes de tocar a campainha com uma mão enquanto a outra apertava o puxador de sua mala. Não sabia quem a esperava do outro lado, afinal, só sabia o nome da pessoa que a aceitara de bom grado em sua casa. Estava um pouco nervosa sobre o que esperar e assim que a porta foi aberta, teve certeza que nem nos seus sonhos mais doidos, imaginaria ser recebida por um cara como ele. Desde quando seu irmão tinha amigos com um sorriso tão bonito assim? Curvou-se respeitosamente enquanto dizia: “Annyeonghaseyo, sunbae-nim. Eu sou a Sojin, irmã do Jinhyuk.” Apresentou-se formalmente para em seguida retribuir o gesto simpático do outro.
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