Assim que entrou no quarto, ficou imóvel por alguns instantes, observando o os movimentos alheios enquanto desfrutava do ambiente calmo e simples, porém bem aconchegante. Deu de ombros com o fato das cortinas, dando a entender que mesmo esses raios de sol não seriam suficientes para acordar o corpo cansado de Gunter. Acompanhou-a até a suíte, pegando a escova com um sorriso largo. –“Obrigado!” – de fato havia adorado a escolha e referência que a escova trazia para sua aparência. Escovou os sentes em companhia da ruiva, dividindo o espaço e pia de forma agradável e harmônica, como melhores amigos que eram. Não ficou para esperá-la, e assim que enxaguou a boca, voltou para o quarto sozinho, não tardando em se jogar na cama e puxar o cobertor felpudo até cobrir a maior parte do corpo desprovido de altura. Os olhos miravam a aproximação da companheira, cedendo espaço no tecido que o aquecia para envolver também o corpo da amiga. –“Estou confortável e com muito frio.” – corrigiu, a frase liberada entre pequenos risos divertidos. Virou o corpo para ficar de frente para Ababella, um braço envolvendo o corpo alheio com um abraço, aceitando as carícias suaves da mesma. – “Não é exagero! Aqui é bem mais frio do que a cabana onde eu moro, chega a ser bizarro.”
Ergueu uma sobrancelha com o bocejo da amiga, sorrindo contente. Levou a mão que a abraçava até a nuca alheia, acariciando os curtos fios alaranjados, observando a mesma começar a fechar lentamente as pálpebras. –“Boa noite…?” – ficou extremamente confuso com o último termo utilizado, sabia o idioma utilizado, porém estava agoniado por não conseguir traduzir. –“…Certo.” – deu de ombros, fazendo um pequeno bico ao liberar um leve bufada. Sorriu com o beijo em seu pescoço, mas não retribuiu, apenas ficando naquela posição confortável e entrelaçado com o corpo alheio. Não demorou para dormir, o corpo estava bem cansado, porém camuflado pela sensação de euforia dos andares subidos na relação da amizade com Arabella, assim que esse sentimentos cederam, o cansaço lhe atingiu com força, não conseguindo lutar contra as pálpebras pesadas, e assim adormecendo. O bruxo tinha um sono super pesado, e não tinha costume de sonhar ( ou se lembrar deles, como dizem algumas reflexões ). Seu sono era pesado, e dado a forma relaxada a qual dormia, encontrava-se de boca aberta, um filete de saliva escorrendo pelo canto dos lábios, em uma quantidade que não pararia tão cedo.
Quando o corpo foi gradualmente retornando para a realidade física, antes de abrir os olhos, estendeu um dos braços pela cama, procurando pela companhia feminina que dividia a cama. Ao constar com sua ausência, o bruxo abriu os olhos rapidamente e sentou-se sobre o colchão com um salto; os olhos buscando com certo desespero por Arabella, até que encontrou um pequeno bilhete que chamou-o a atenção. Pegou o pequeno pedaço de papel e leio com atenção, suspirando aliviado com as informações contidas. – “Meh… Ainda me deve um boquete matinal.” – resmungou sozinho. Ainda sentado, com as pernas postas para fora da cama, esticou os braços para cima, espreguiçando-se folgadamente em conjunto a um bocejo longo e lento. Antes de ir atrás da amiga, se preocupou em direcionar primeiro para o banheiro onde lavou o rosto, para tirar os vestígios da saliva de sua bochecha e escovar os dentes, usando novamente a escova escolhida especialmente para ele. O recado havia tranquilizado ao ponto de não se preocupar com a outra, tinha certeza que ela estava bem e já iria encontrá-la onde havia avisado que estaria. Até então, não sabia que existia um porão na residência, porém, caminhou despreocupado até a sala. – “Bella?” – chamou em um tom consideravelmente alto, não raciocinando a sequência de acontecimentos que se deu. Primeiramente, o tapete abaixo de si moveu-se bruscamente, quase o derrubando, por sorte conseguiu dar um pequeno salto para sair dele, soltando uma fila de palavrões altos em meio ao grito dado pelo susto. A voz conhecida lhe confortou, porém o coração ( se é que esse ainda realmente funcionasse ) estava frenético, colocando a mão direita sobre o peito para sentir a pulsação; a respiração levemente ofegante. –“Ta… Okay… Mas avisa quando for fazer essas coisas!” – estava desesperado, ainda que ria descontraidamente entre as palavras falhadas.
As expressões mudaram rapidamente para as típicas feições travessas do jovem. –“Por que eu preciso sentar e fechar os olhos se não vou ganhar o boquete prometido?” – deu uma piscadela com o olho esquerdo e dirigiu-se ao sofá, desfilando de forma despojada. Obedeceu ao pedido e sentou-se no acento confortável e fechou os olhos, o sorriso sugestivo ainda presente. Sentiu um objeto diferente pousa em sua palma, abrindo os olhos assim que fora autorizado. De início se assustou com a caixinha, muito semelhante as utilizadas para guardar alianças. –“Olha… Eu sei que fodo muito bem, mas pedido de casamento não está muito cedo?” – comentou rapidamente antes de ser pressionado a abrir o tal presente. O brilho de encanto era surpreendente nos olhos do garoto, vidrado no amuleto bem representado e a pedra que combinava completamente com o seu estilo. Não estava prestando a mínima atenção nas instruções passadas, apenas admirando o colar em si, não se segurando em pendurá-lo em seu pescoço. –“Ta, ta… Eu amei! Muito obrigado, Bella.” – sorria totalmente encantado e de forma totalmente larga.
O clima agradável foi destruído rapidamente pelo som da barriga jovem dar indícios que necessitava da refeição matinal. Fitou a própria barriga e depois para a garota, repetindo a ação uma três vezes. –“Você fica no sofá agora, o café é por minha conta… Sem bacon!” – anunciou animado caminhando em direção a cozinha. Antes de sumir do cômodo, puxou levemente o corpo da garota para baixo, assim conseguindo desferir um beijo carinhoso e molhado na bochecha alva. –“Muito obrigado… Pode ter certeza que vou usar quando julgar necessário.” – dito isso, seguiu a caminhada tranquila para provar de seus dotes culinários.
Arabella revirou os olhos diante da declaração de Gunter, rindo logo em seguida. - Tenho que estar completamente fora de mim pra te pedir em casamento! - Devolveu a provocação, acertando-lhe no ombro com o punho fechado e pouquíssima força. Quando recebeu o beijo na bochecha, sorriu contente, corando suavemente. - Não precisa agradecer... É só não tirar do pescoço e lembrar de pensar em mim quando estiver com problemas. - Acompanhou com os olhos enquanto o rapaz se levantava, franzindo suavemente o cenho ao perceber que ele se encaminhava para a cozinha. - Só não põe fogo em nada, ok? - Respondeu rindo da expressão contrariada do bruxo, deitando no sofá confortavelmente, procurando o coberto para enrolar-se.
Esperou pacientemente até que a voz animada do rapaz lhe chamasse para comer, admirando o delicioso aroma que vinha do fogão. Sentando-se na bancada, ergueu as sobrancelhas em surpresa ao notar o quão gostoso tudo parecia estar. Olhando Gunter com uma expressão de aprovação, sorriu com o canto dos lábios. - Pelo visto você faz jus ao sangue, hein? Confesso que eu não esperava por isso, mas imaginei que ser francês te daria alguma vantagem na cozinha... O cheiro ‘tá incrível, vamos ver o gosto! - Com um assovio animado, deu uma garfada na comida, tomando algum tempo para saboreá-la. Arregalou os olhos ao constatar que o sabor era ótimo, os grandes olhos cor de caramelo brilhando. - Caramba, isso aqui ‘tá uma delícia, Gunter! Você é mesmo um bom cozinheiro! - Foi obrigada a dar o braço a torcer, esperando já pelo pronunciamento orgulhoso do garoto. Revirou os olhos enquanto ria diante da fala alheia, tratando de devorar todo café da manhã com vontade.
Quando enfim terminaram a refeição, Arabella espreguiçou-se de forma preguiçosa, levantando-se logo em seguida. - Que tal lavarmos a louça e depois sairmos para uma voltinha na floresta? Minha comunidade foi embora a muitos anos... Mas eu queria te mostrar a cidade onde eu nasci, dentro da barreira, e a cidade lá embaixo, perto da floresta. Acho que você vai gostar! - Com o aceno positivo do rapaz, pôs-se a levar os pratos sujos para a pia, tratando de abrir a torneira logo em seguida. Lavaram toda louça do jantar e café da manhã enquanto conversavam distraidamente sobre amenidades, Arabella vez ou outra espirrando um pouco da água gelada no rosto do rapaz, recebendo a devida retaliação imediatamente. Os minutos passaram rapidamente e, entre risadas, terminaram a tarefa, deixando os pratos para escorrerem e a pia limpa.
Saindo da cozinha, puxou Gunter pelo pulso, levando-o de volta para o quarto onde dormiram. Abrindo uma das portas do grande armário, procurou por dois pares de botas para neve, uma muda de roupas mais quente para si e para Gunter, além de pegar dois cachecóis. As botas aparentavam ser do mesmo tamanho, e de fato eram, mas com um movimentar de dedos e algumas faíscas azuis, Arabella entregou o par de cor preta para Gunter. - Vai ficar do seu tamanho, é só calçar. - Logo em seguida, entregou-lhe uma grossa calça cinza, um casaco confortável também cinza e o cachecol branco. Acenando com a cabeça, indicou as roupas e, após apoiar sua própria muda de roupas na cama ainda bagunçada, agarrou a barra do próprio vestido, um sorriso travesso lhe tomando os lábios. - Vê se não fica distraído com a visão e se troca, ok? Vou me trocar também e depois vou escovar os dentes e lavar o rosto... Não quero demorar muito parar sair, porque a neve reflete demais a luz do sol e, apesar de ser lindo, fica completamente insuportável conforme o meio-dia se aproxima. - Sem mais nem menos, puxou a peça de roupa para cima, não se importando em ficar nua na frente do rapaz.
Vestiu rapidamente a grossa calça preta que havia separado para si, colocando a blusa de mangas comprida de um tom claro de cinza logo em seguida. O casaco fofo e confortável seria vestido depois, junto com as botas. Terminando de se vestir, deu uma olhada em Gunter, emitindo um “uau, que delícia!” quando este se esticou, revelando parte do abdômen definido. Rindo, desviou do corpo alheio ao ir em direção ao banheiro, escovando os dentes e lavando o rosto de forma metódica. Quando sentiu-se decente novamente, ajeitou os fios curtos, o laranja do cabelo destacando-se diante das vestimentas mais sóbrias. Quando percebeu que Gunter estava pronto, agarrou seu par de botas brancas e indicou a porta com um aceno de cabeça, pedindo para que ele a seguisse.
Uma vez na sala, encostou-se na parede para calçar as botas, tratando de vestir o casaco logo em seguida. Ajeitando pequenos detalhes aqui e ali, empertigou-se quando estava finalmente pronta, enrolando o cachecol em volta do pescoço por último. - Possivelmente você verá várias pequenas criaturas mágicas... E elas vão se interessar por você, porque você é humano, apesar de ter bastante magia no corpo. Não toque em nada que se mexa e sem dúvida nenhuma não coma nada que te derem, entendeu? Parece tudo muito bonitinho e fofo, mas fadas são traiçoeiras e gnomos adoram dar cogumelos venenosos para os outros! - Aviso dado, abriu a porta de entrada em seguida, o ar gelada da manhã lhe atingindo o rosto imediatamente.
Com um sorriso, saiu da cabana, descendo os pequenos degraus de madeira com pulinhos animados. Havia nevado no noite anterior, e o chão estava ainda mais coberto do que antes, a trilha que levava à casa tendo desaparecido por completo. A floresta parecia em paz, e estava extremamente brilhante com todo aquele gelo espalhado. Parando a poucos metros da cabana, respirou fundo o ar frio, as bochechas corando imediatamente. Com um sorriso, virou-se para onde estava Gunter, estendendo-lhe uma mão, os dedos longos e delicados descobertos. - Vem... Não quero que você se perca. E, além do mais, meus dedos estão gelados e você tem as mãos mornas. É sua obrigação moral me esquentar! - Riu alto com a careta feita por Gunter, que veio resmungando em sua direção. Quando entrelaçou os dedos com os dele, sentiu-se grata pelo calor amigo, acariciando-lhe as costas da mão com o polegar, levando a outra mão para dentro do bolso do casaco imediatamente.
- Acho que você deve saber, mas levante bem o pé ao caminhar. A neve não nos deixa ver os galhos e as pedras, então é perigoso andar com passos arrastados... - Comentou enquanto se punha a caminhar em um ritmo tranquilo, a respiração formando nuvens brancas ao deixar suas narinas. - A minha comunidade se chamava Mondlicht, que significa Luz do Luar... Alguns elfos são noturnos, e esse era o caso do pessoal do meu clã. - Seus dedos apertavam suavemente os do bruxo, as memórias agradáveis lhe inundando a mente. - Aliás, eu te chamei de “meu estranho” ontem a noite. Mein komischer. - Olhou para ele com um sorriso no rosto, piscando com um dos olhos, as bochechas vermelhas por causa do frio. - Você é estranhíssimo, mas é meu amigo... E provavelmente vai se tornar uma das pessoas mais importantes da minha vida. Então vou usar esse apelido a partir de agora, assim como você me chama de Bella... Mais ninguém faz isso além de você.
Estavam se aproximando de uma colina conforme andavam, o que a obrigou a ficar em silêncio por causa do esforço que fazia para superar o frio e a pequena inclinação. Quando chegaram ao topo da colina, Arabella olhou para baixo com um sorriso suave nos lábios, os olhos vagando pelas ruínas do que um dia fora uma próspera vila mágica. - Seja bem-vindo a Mondlicht, Gunter. - Apertou a mão do rapaz conforme sentia o próprio coração apertar. A ruínas eram bonitas e pareciam bem conservadas, os tetos de cada edificação de pedra cobertos de neve. - Eu nunca mostrei esse lugar pra ninguém... Nem mesmo pras pessoas com quem me casei. - Seu tom era sério e seus olhos indicavam um misto de melancolia e saudade. - Mas ninguém iria passar mesmo tanto tempo comigo, então nem fazia sentido mostrar. Mas com você vai ser diferente. - Pela primeira vez em muitos minutos, encarou as orbes escuras do rapaz, a expressão indicando esperança, por mais que não sorrisse, deixando seus olhos se encarregarem do recado.
-Você não precisa passar o resto da eternidade comigo e, mesmo que nos afastemos, ainda teremos um ao outro ao longo dos séculos. Não seria justo eu não te mostrar isso aqui... - Voltando o olhar para as múltiplas ruínas, puxou suavemente a mão do rapaz. - Vamos? Quero te mostrar as coisas lá embaixo... Eu uso magia pra manter tudo em ordem, estão os principais edifícios estão arrumados. Quero te levar até a biblioteca, lá tem um retrato pintado de cada membro da comunidade... Quero te mostrar mamãe e papai. - Iniciou a descida com calma e cuidado, pisando firme antes de andar, com receio de que ela ou ele pudessem se machucar. Sem coração batia com força conforme ela se aproximava da vila, a saudade lhe apertando o peito com força.