Black | Silver Puppy and Red Thief
sorpuppy:
O riso de mulher perturbou-o. Virava a cabeça para encontrá-la, mas era impossível. Nem mesmo seu cheiro forte – um tanto quanto exótico, diria – o dava uma boa pista, pois quando virou para a esquerda, sentiu o calor de suas palavras no ouvido direito. Impaciente, virou-se novamente, mas nada encontrou. Sua frustração era visível em seu rosto, e teve de respirar fundo. Adoração. A adoração de Arian se dava na guerra e na arte das armas, e nenhum dos grandes nomes naquelas áreas seria o dela. Se estivesse de bom humor, teria rido. E então a sua frente ela apareceu, idêntica a mulher da festa, como previra. O rosto alongado, pescoço fino e comprido. Vestes vermelhas. Em contra-partida, Arian, corpulento, inteiro em negro. Seu rosto estava fechado. A pergunta dela era no mínimo, irônica, tratando-se de Arian como um licantropo. “Deveria.” respondeu simplesmente. Com os punhos cerrados, deu passos lentos na direção da moça – que no fim, apenas continuava seguindo em linha reta o caminho que anteriormente já seguia. “Talvez eu seja um criminoso.” disse. “Talvez eu apenas esteja fazendo algo importante que não lhe diz respeito. Mas não é porque eu decidi não te expulsar daquele salão que você possa me seguir. Naquele horário eu estava de bom humor. Se você soubesse de quem se trata…” parou imediatamente a sua frente, “Sua arrogância seria trocada por medo. Nunca ouviu falar que a curiosidade matou a gata?” permitiu-se entortar a boca de maneira irônica, quase como um sorriso de mal gosto. E voltando a si, o sorriso desapareceu. Tomou ciência do que estava fazendo, e de quem estava falando por ele, escolhendo aquelas palavras, aquele tom de voz. “Por favor, me deixe em paz.” Sem olhá-la, tentou contorná-la para seguir caminho e deixá-la para trás, antes que fosse tarde demais.
Talvez fosse importante ressaltar que, diferente de muitas outras criaturas que já tiveram o infortúnio de cruzar seu caminho, Arian não era indiferente à ladra. Havia se divertido quando a pegara roubando a bolsa daquela pobre mulher adarliana, a assustando apenas por divertimento. De verdade – talvez até ela mesma tenha visto isso – ele não se importava com o que ela fazia ou deixava de fazer, apenas se divertia a observando roubar os outros e tirá-lo do tédio era algo que o cavaleiro via positivamente. Mas tinha que admitir que a garota não devia entender muitos limites, isso irritava-o profundamente. E no momento, sentia que ela havia perdido todos os “pontos” que ganhara de sua simpatia. Até porque, ela havia o pego em um momento delicado. Focado daquela maneira? Era muito mais lobo do que homem. Na verdade, temia no momento já ser inteiramente lobo. E por isso, estava fazendo um tremendo esforço para mantê-la afastada. Não queria perder o controle e acabar matando uma garota inconsequente. Porém… Porém… Ele já não sabia mais responder por si. O pedido havia sido o latido de aviso. Da próxima vez, viria a mordida.
No entanto, a ladra não respeitara seu pedido. Aproximara-se mais uma vez, surgindo ao seu lado direito. Trazia consigo ainda aquele mesmo tom provocativo que era característico de seu ser, voz mansa de veludo onde se escondiam afiados cacos de vidro. “Medo?” disse ela. “Ora, rapaz, teu tamanho não me assusta, ou esse teu rosto fechado. O que fazes de tão importante que não posso saber? Continuarei te seguindo, querendo ou...” Arian não a deixou terminar a frase – avançou em seu pescoço antes que pudesse.
A mulher em vermelho cutucou a onça – ou melhor, o lobo – de vara curta. Este, que já se encontrava inquieto, saltando de um lado para o outro em seu âmago para buscar uma saída, que já havia tensionado demais as correntes que o prendiam quando o soldado mandou-a afastar-se, quebrou-as, estando agora no controle do corpo do homem. O prateado tinha um pavio extremamente curto, e o loiro tinha um grande sentimento de dever e urgência para com seu rei, o que não dava margens para atrasos ou brincadeiras. Soma-se os dois, e têm-se um bomba que não apenas está prestes a explodir, mas que quer explodir. E oh, deuses, como Arian estava necessitado de sangue. Como estava necessitado de enfiar os dentes na garganta da ladra. Como estava desejoso de, com as garras, dar um tom a mais ao vermelho de suas vestes. Foi o que vez.
Em uma agilidade sobre-humana, a mão direita fechou-se sobre o pescoço esguio da mulher, a chocando contra uma árvore que se tornou próxima devido a velocidade do licantropo. E com sua força, a erguia como se fosse uma boneca, tirando seus pés do chão e deixando os olhos de ambos em mesmo nível. Apertava-a, sufocando-a com gosto. Se ela olhasse em seus olhos, veria: não era mais Arian Hündchen, guarda real de Temeria, detentor de gélidos olhos azuis. Era um lobo prateado, sedento de sangue, o qual possuía um par de olhos azuis cintilantes, fortes, saturados. “Pois seria prudente estar assustada”, rosnou ele. Os dentes, a mostra, cresceram, se tornando maiores e mais pontiagudos. “Tuas habilidades de ladra não poderão te salvar de minha força de lobo, de minha agilidade incomparável. Um desafio, pedes?! Não és digna de um desafio! Frente a mim, tão impotente quanto um filhote de corça.” A moça debatia-se, débil, seu rosto se tornando roxo sem ar. As unhas femininas nem faziam cócegas em seu braço direito, rijo e forte, protegido pela placa de armadura, e incansável em seu trabalho de sufoca-la. E unhas tais que não se igualavam as dele, que igual seus dentes, também cresciam e a espetavam o pescoço. Nariz e boca projetaram-se a frente, formando um incompleto focinho, mas funcional o suficiente para envolver toda a garganta da moça. E pelos prateados cresceram ao lado de sua face, emoldurando aquela transformação incompleta, fruto de correntes e mais correntes sobre seu lobo em uma tentativa de adestra-lo, de um lobo mais irracional e sanguinário do que qualquer um visto, e pior, de um humano conivente. “Dei-te o aviso de deixar-me em paz. Certificarei de que irá segui-lo!” E então, um grito. O qual não era feminino.
Sua presa caiu de seus dedos e pôs-se a correr, ainda zonza e desesperada por ar, mas a cada passo mais distante. O predador tentou segui-la, mas não pode. A faca de prata fincada na articulação de seu braço o impedia, sugava sua força, sua agilidade, sua vitalidade. Forçou a tão natural semi-transformação a regredir, dando lugar apenas ao fraco, impotente, porém racional humano. Arian arrancou a faca e largou-a no chão, embebida em seu quente e fresco sangue, tão vermelho quando o vestido da ladra que escapara. Bem, ele não tinha mais vontade de matá-la, de caçá-la. Pressionou com a mão esquerda seu ferimento e encostou-se na árvore em qual tentava matá-la anteriormente. E chorou. Sim, chorou.
Pela primeira vez, pensou em seu licantropismo como uma maldição, invés de uma bênção divina. Sempre sentiu-se tão forte e poderoso, porque agora sentia-se tão fraco? Descontrole, era essa a resposta. Porque sentia-se preso constantemente, e quanto mais se prendia, mais se debatia. Porque sentia-se pequeno, inútil em não conseguir controlar-se, inferior perto do auto controle impecável de Davon, Signa e Jorunn. Sentia-se, sobretudo, falho – para consigo mesmo e para com seu mentor. E agora, para com a garota, que em um primeiro momento havia estimado tanto e agora havia a machucado imperdoavelmente. Isso tudo sem nem ao menos saber seu nome.
E ainda havia a sua missão, a de seguir e encontrar o marinheiro, a qual também estava sendo incapaz de completar. O efeito da prata em seu sangue tirava-lhe o faro, e agora não tinha sequer resquício do cheiro que perseguia. E, bem, será que importava? Com os olhos inchados e vermelhos, o menino olhava para o caminho que anteriormente seguia, sendo agora, sem sua visão apurada, apenas um interminável breu, com certas pinceladas aqui ou ali de luz lunar. Demoraria algumas horas até que prata o suficiente saísse de seu sangue para que recuperasse a visão. Outras tantas mais para que recuperasse o olfato. Até lá, o dia já teria raiado, e Jorunn teria sentido sua ausência. E além disso, estava cansado, emocionalmente falando. Estava cansado de lutar contra seu espírito, de lutar contra seu desejo de sangue e carnificina, e principalmente de lutar contra os estímulos incessantes e torturantes daquela festa. Bem, ao menos, o lobo prateado parecia tão cansado quanto seu humano agora. Sentia-o rolar dentro de si, irrequieto. Lamber suas feridas, e por vezes, uivar um tanto, mais lamentoso do que raivoso. Talvez fosse sábio continuar ali por um tempo, vencer seu animal pela persistência. Esperá-lo dormir. E ao mesmo tempo, ele mesmo descansar sua mente, recobrar forças para a batalha contínua que lutaria mais tarde, e também para sobreviver ao vexame de dizer a seu rei que não fora apto de completar seu trabalho. Vexame até demais, sentia. Insuportável. Prudente certamente não seria, mas talvez, não fosse mais simples mentir? Pouparia o garoto da vergonha. Imaginava que seria mais fácil conta-lo a mentira de que perdera seu rastro no porto olhando em seus olhos do que contar a verdade olhando para o chão. Não importa, pensou ele, mais tarde decidirei. Por agora... Apenas preciso descansar.
Ele suspirou longamente e fungou, encostando a cabeça no tronco da árvore, enquanto ainda segurava o ferimento em seu braço, sentindo-se ligeiramente tonto. Em seus olhos úmidos, confusos e angustiados, cintilava o reflexo da lua. Minguante.









