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@spacegirrrl
TWIN PEAKS
“ Fear and loathing in LAS VEGAS ”
a entrevista.
Atravessei a Boa Vista, as mãos tremendo e a mente questionando se aquilo daria certo; eu preciso do emprego.
A loja fica no começo da avenida, o letreiro preto destaca-se. Será que eu estou bem vestida o suficiente? Respiro fundo e me dirijo a entrada, sendo logo abordada por um dos vendedores. Ele gentilmente pergunta o que eu procuro e com a voz falha digo que estou lá para a entrevista; ele sorri e indica o local para onde devo ir.
Lembro-me da primeira vez que fui naquela loja. O ano era 2014 e meus braços ainda não tinham cicatrizes; eu era uma jovem no florescer da idade, procurava por uma touca vermelha, acho que era a moda da época, e me encantei por todas aquelas camisas de banda e alargadores ofensivamente grandes, os atendentes com tatuagens e o ar transgressor que havia se tornado uma referência para a juventude que me moldou. Era como uma resistência, uma pequena vitória que meu eu de 15 anos poderia conquistar.
Perdida nesses pensamentos, tento afastar o nervosismo que me consome. Minha psiquiatra estaria orgulhosa do meu progresso em sociabilização. Eis que uma bela mulher se dirige a mim, me convidando para uma sala onde inicia a nossa batalha pessoal.
Ela gentilmente me pergunta sobre minha vida e sem aviso questiona:
‘‘Quem é Alice?’‘.
Em um segundo pensei em todas as respostas ensaiadas, todas as entrevistas sem fim que fiz durante a pandemia onde precisava cobrir as artes no meu corpo e prender meu cabelo crespo. O que eu responderia daquelas ideias copiadas de alguém, qual modelo seria mais adequado para aquela situação? Respirei.
‘‘Eu estou tentando descobrir’‘. - disse-lhe. - ‘‘Acho que é por isso que estou aqui, contando esta verdade para mim mesma. Alguém precisava dizer em voz alta. Sabe, toda a minha vida foi de certezas, de decisões tomadas por alguém que não eu. Viver era um exercício capturado em vídeo, minha própria versão do show de horrores do truman. E agora encontro-me perdida em mim, minha mente ansiando por uma nova possibilidade para se reinventar, criar um novo mundo onde eu possa explorar, participar, exercer meu direito sobre a existência. Penso que, neste lugar, posso conhecer a mim, na igual intensidade em que posso demonstrar e provar o valor do qual tanto prezo. Honestamente, candidatei-me a este emprego por dois principais motivos, sendo o primeiro e mais difícil de lidar: eu preciso do emprego. Eu preciso do emprego porque, como uma jovem brasileira diabética insulinodependente, preciso adquirir meus insumos através da indústria paga, uma vez que o sistema público de saúde não os disponibiliza. Eu preciso do emprego porque minha universidade perdeu verba e minha bolsa de pesquisa foi cancelada, além disso, meu trabalho como professora substituta não é mais necessário. Professores não recebem nem emprego, imagina reconhecimento. Eu preciso do emprego porque eu preciso me sentir útil novamente, preciso encontrar o prazer em acordar todos os dias e ter um motivo incrível para sair da cama. Eu preciso do emprego porque eu preciso provar a mim mesma que tenho a capacidade de crescer em algo, de superar minhas próprias expectativas. O segundo motivo, e não menos importante, é que eu sei que posso fazer algo extraordinário. Eu me comprometo com meus princípios: gentileza e coragem. São estes os dogmas a que sirvo. Ser gentil vai além das cordialidades diárias, é uma batalha constante contra sua própria sabotagem; acredito nas pessoas e acredito que há algo de especial na existência humana e suas interações. É por isto que pratico o ato de ser gentil com todos aqueles que me cercam, ou pelo menos tento. Lhes ofereço minha coragem também, pois é ela que me coloca aqui na tarde de hoje, despida de qualquer convenção ética comportamental, contando-lhes as verdades que fazem ondas dentro de mim. É a coragem que me coloca diante dessa plateia que é a vida, sozinha num palco iluminado demais para meu astigmatismo. E é a minha coragem que tenho a ofertar.
A moça me olhava, intrigada ou talvez assustada. Ela sorri.
‘‘Entraremos em contato’’.
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