❛ Eu ainda não acredito que a sua mãe deixa a gente entrar aqui. ❜ As palavras de Manon cortaram o silêncio confortável, não muito mais altas que um sussurro.
❛ Ela deixava a gente correr por essas alas quando éramos mais novos, no meio de todas essas obras de arte extremamente valiosas e frágeis. ❜ Quentin deu de ombros em resposta, a fala praticamente acariciando sua face num toque tão suave quanto o de seus dedos, que dançavam, distraídos, por baixo de sua blusa, tão cuidadosos sobre a área ainda ardida após sua última crise. Os dois estavam tão próximos que ela podia ver diversão brilhando nos orbes azuis dele com as memórias deles pelos corredores do grande Louvre, cada tonalidadezinha que competia para ser sua favorita. ❛ Pelo menos agora ela acha que não colocamos mais nenhuma delas em risco. ❜
❛ Mesmo assim. Eu amo estar aqui, mas tem certeza que não dá nenhum problema estarmos aqui quando ele tá fechado? ❜ Era uma pergunta desnecessária, é claro. A família de Quentin era praticamente dona do renomado museu e isso lhes rendia inúmeras vantagens, poder se demorar sem pressa alguma após seu fechamento era apenas uma delas. Ainda assim, era impossível para a loirinha não querer confirmar quando toda a vida parecia ter sido feita seguindo regras e mais regras.
Para o crédito de Quentin, ele nem mesmo revirou os olhos — era uma vida toda juntos, afinal, ele já estava acostumado com Manon sendo Manon. E o coração dela pulou uma batida quando, ao invés disso, ele abriu aquele sorriso quase galante ao falar: ❛ Mesmo se fosse, era só eu falar que foi para te deixar feliz, que minha mãe deixaria na hora. ❜ Ah, a Bourgeois podia sentir as bochechas ficando coradas, e foi inevitável que desviasse o olhar até suas mãos entrelaçadas, sem conseguir conter o sorriso bobo que nascia.. ❛ As vezes, ela até parece preferir você a mim, e olha que eu tenho quase certeza que sou o filho favorito! ❜
O comentário arrancou uma risada melodiosa, que pareceu tomar conta da ala Denon antes de voltarem aquele silêncio gostoso. O moreno não havia mentido quando disse que aquilo a deixava feliz;; eram aqueles pequenos momentos, quando não havia mais ninguém ali, apenas eles dois, completamente vestidos e visíveis a qualquer um que entrasse, e ainda assim presos num emaranhado de corpos tão íntimo, onde não era nem possível dizer onde terminava Quentin e onde começava Manon ( e será que havia mesmo tal distinção? ), que ela se sentia verdadeiramente em paz, como se o mundo se resumisse a eles e mais ninguém. Se pudesse, ficariam assim para sempre. E, ah, como ela queria poder!
❛ Você sabe, as vezes eu invejo a sua relação com a sua mãe…. ❜ Ela confessou de repente. Não era o tipo de coisa que vocalizava com frequência, contudo, a presença de Quentin sozinha parecia lhe roubar todos os seus segredos, derrubar todas as paredes que havia construído tão cuidadosamente ao longo de sua vida. Não havia porque elas existirem com ele — nunca com ele! ❛ Desde que p- ❜ papai morreu, ela quis terminar, mas a palavras ficaram presas na garganta, e não demorou para que sentisse uma pontada no coração — sempre o fazia quando pensava em Ronan Bourgeois.
Novamente, ela se demorou em alguns momentos a mais de silêncio, tentando colocar os pensamentos e emoções em ordem antes de continuar. E ele tampouco a apressou! Não era como se precisasse dizer algo para Quentin entendê-la, especialmente quando era um assunto tão delicado para ela quanto aquele. Droga, ele a conhecia melhor do que qualquer um, melhor do que ela própria, até.
❛ Bem, mamãe já era ocupada antes, mas agora mal pára em casa, sempre tão ocupada com trabalho ou qualquer outra coisa extremamente importante. Eu, eu quase não nem vejo mais ela. E quando ela chega, tem alguma crítica para fazer, algum comentário. Como se nada do que eu fizesse fosse bom o bastante. ❜ A loira havia compreendido ainda nova que não deveria dividir seus problemas com os outros;; por mais que sempre oferecesse seu ombro e apoio que precisasse, ela própria fazia de tudo para evitar fazer o mesmo e assim causar algum transtorno, porque quando você pesa em alguém, se torna mais fácil de ser abandonado. Todavia, com o Penthièvre mais novo, aquele medo nunca existiu, pois bastava um toque suave ou um olhar compreensivo para calar todas as suas ansiedades e medos. Manon jamais compreendeu aquele efeito que ele tinha sobre ela, mas também não era como se ainda questionasse. Ele estava ali, como sempre esteve;; mesmo com todas as mudanças e confusões, Quentin era sua constante, seu porto seguro, e aquilo jamais mudaria. E por isso ela era grata, pois não ousava imaginar onde estaria sem ele, seu melhor amigo e guardião, ao seu lado. ❛ Eu nem me lembro a última vez que ela disse que me amava. ❜ A voz carregava mais dúvidas do que tristeza. Deus sabia que depois do que havia feito não merecia o amor da mãe e nem de ninguém, no entanto, era uma criatura tão miúda e tola, que ainda ainda se agarrava em esperanças e ideias que pareciam existir apenas para frustrá-la.
Foi só quando sentiu os dedos dele alcançarem sua bochecha que ela ergueu o olhar, encontrando os mares dele presos nela, tão gentis. Ah, a violinista adorava a forma com a qual ele a fitava — como se tivesse algo que valesse a pena observar, mesmo entre todos aqueles quadros e estátuas tão belos. ❛ Eu te amo. ❜ Ele disse, a voz tão suave nem parecia que despertava todo aquele vendaval de sentimentos em seu interior. Não havia pena ali, só uma certeza que tornava impossível para ela questionar. Não foi preciso que ele puxasse seu rosto, o corpo dela se movia em direção ao dele por conta própria. E uma coisa não havia como negar: o beijo de Penthièvre se assemelhava mais como um lar do que a casa de Manon jamais poderia ser.