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Angela Carter, from The Bloody Chamber and Other Stories; “The Erl-King,”
se eu te enviar uma mensagem do nada com aquele trecho de baby 95 você larga tudo e vem me ver?
vem?
chega bem cedo pra gente pegar sol deitado na cama
beija meu ombro, inunda o meu olfato, você tem esse cheiro de chá e alguma coisa que eu não sei
mas aquece
e eu sinto tanto tanto tanto frio sem você
mas tá fazendo 24 graus na tijuca e meu ventilador tá ligado
e eu exagero e você sempre gostou que eu exagerasse
você sempre gostou de mim, até quando foi ruim
por que?
vou rodar o mundo, sumir, parar de rogar seu nome, mas esse amor vai seguir inalterado
você... você... me amaldiçoou?
se eu te mandar aquele trecho de baby 95 você esquece que nunca demos certo e volta a me amar daquele jeito de antes?
li esses dias um poema que escreveu pra mim
acho que nunca te disse, acho que nunca tive confiança pra te contar
tu foi o único homem que escreveu pra mim
não foi por isso que te amei,
mas acho que é por isso
que ninguém consegue ser
qualquer coisa maior
que você
Ota Janeček (Czech, 1919 - 1996)
aquela noite num outro abril quando eu olhei nos seus olhos e disse you're the sunshine on my life e você riu e perguntou se daniel caesar tinha me dado o direito de cantar best part como se fosse minha. eu disse: ele deu. e você sorriu. cheguei a pensar quantas outras tinham visto esse mesmo sorriso e seria cinematográfico se eu te ouvisse dizer algo como "sabe, eu nunca sorri pra ninguém assim", mas você não disse. porque a nossa vida não era a porra de um filme e nenhum de nós era, de fato, a melhor parte da realidade um do outro. éramos, talvez, a mais honesta. e isso soava como bom, não soava? eram tantas ilusões, confortava não sermos mais uma. o que também não nos tornava suficientes. porque a outra verdade curiosamente reconfortante entre nós é que não cabíamos nas expectativas um do outro porque não tínhamos a mínima vontade de caber. eu não queria ser a sua pessoa e você não queria ser a minha. tínhamos essa espécie de acordo. quase silencioso. de descumprimento. nesse espaço, universo, mundinho, eu seria capaz de dizer eu te amo sem que parecesse mais pesado do que é. porque eu amava sua voz e seus olhos e a sua respiração vacilante quando minhas mãos se espalhavam e eu amava sua rouquidão pela manhã e o cheiro do amaciante da sua cama que mesmo depois de perguntar nome marca fragrância ainda parecia diferente nos meus lençóis porque, basicamente, faltava você. faltava o seu cheiro que, obviamente, eu também amava. tudo em nós era muito óbvio e inquestionável e era exatamente por isso que era bom. era exatamente por isso que eu podia dizer coisas como i just wanna see how beautiful you are sem que fizéssemos uma promessa. porque não faríamos. eu nunca te prometeria nada. eu te amava. você acreditava em mim, não é? eu acreditei em você. nunca me arrependi. nosso fim foi um dos grandes começos dos infinitos eus que aprendi a cuidar. eu te amei. eu vou sempre te amar. não é uma promessa. é só outra grande imensa e infinita obviedade.
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(C.B)(4.19.19)
minha mãe passou a comprar leite sem lactose pra mim depois de eu ter dito uma única vez que ele era o único que não me fazia mal
minha amiga leu um tuíte aleatório em que eu disse que estava triste e mandou chocolate pra que me sentisse melhor
minha tia falou comigo no telefone durante quase uma hora quando tive uma crise de ansiedade e não tinha ninguém em casa
meu afilhado aparece do nada, diz que estava por perto, só pra vir me ver e ficar sentado durante uma tarde toda do meu lado
e quando eu penso nisso, nessas coisas, nessas pessoas, eu me pergunto quantas vezes eu acreditei que não era digna de ser amada
quantas vezes me senti vazia porque você, especificamente, não me amou. quanta coisa eu nivelei por você, quantas pessoas eu rebaixei por você, quanto amor eu não vi, eu não quis ver
então quando você tem a cara de pau de me questionar como que eu pude te amar tanto pra de um dia pro outro nada
eu quero que você me diga
quanto você me amou
porque essas pessoas, nenhuma delas me perdeu
todas elas recebem de mim tanto ou mais do que me dão
então sou eu que te pergunto
o que você me deu
que eu só pude devolver
com um adeus?
I still hope that one day you’re gonna be sorry for the things you did to me
don't look at me with those brown eyes or I might just spend the rest of my life keeping your hands warm
oh no!
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When Kafka said All language is but a poor translation and when Murakami said It is not that the meaning cannot be explained. But there are certain meanings that are lost forever the moment they are explained in words.
uma coisa que eu percebi é que não é possível forjar o movimento das vísceras: algumas coisas comem a carne por dentro, outras ardem em chamas, outras acalmam. existem os exercícios de respiração e as frases que provam que a palavra tem poder. existem algumas coisas que te colocam no controle do corpo e domam os espasmos do peito, do diafragma, da língua. ajuda - de fato. muito, até. mas não é possível forjar o movimento das vísceras. outra hora vi uma foto e lembrei que era isso. meu celular vibrou e só de olhar a tela eu sabia que era isso em outra forma. engraçado que já faz tanto tempo que eu achei "isso", que por um tempo eu pensei que era um dado e que eu sempre teria. mas se perde. e depois volta em outro hábito, outras pessoas. às vezes trabalhando, às vezes lavando feijão, às vezes deixando baba na virilha. varia tanto. mas não se inventa, não se cria, não se desenha. não se aperta um botão e diz: roda a cena. está ali. como se ciência & religião & magia fossem três avessos de si e no tremor das entranhas houvesse a certeza. a verdade. o fim. ainda que seja por vezes necessário ignorar cada espasmo e caminhar na direção contrária porque nem tudo é movido a músculo e força e tato. existem, afinal, todos os outros critérios pra felicidade. mas há alguma coisa de muito fatal aqui, nisso, de não poder forjar o movimento das vísceras. a paixão, por vezes, nos obriga a nascer de novo pra vivê-la. e a paixão, por vezes, nos obrigada morrer de novo para matá-la. e inevitavelmente, pra permanecer vivos, nos sujeitamos a seus caprichos porque tão simplesmente não é possível forjá-la.