Jace se arrependeu quase imediatamente de chamar o rei de tio de maneira tão casual. Mesmo que seu pai não fosse dado a broncas, imaginou o suspiro desapontado de Henri ao vê-lo cometendo tal gafe, como ele sempre fazia — mesmo que fizesse um bom trabalho ao tentar esconder — quando o filho do meio se deixava cometer deslizes como aquele. Odiava quando descobriam quem ele era porque, nas raras ocasiões em que ainda não tinha arruinado a conversa até ali, era neste momento que as coisas desandavam. Quando descobriam que ele era o sobrinho do rei. Ou filho do carismático mestre dos sussurros e da amada princesa do povo. Ou irmão dos brilhantes Viserys e Saera. Ou melhor amigo do charmoso Emory. A partir desse momento, passavam a esperar algo dele, e ele nunca era capaz de alcançar as expectativas das pessoas. Por isso a ideia de se tornar um meistre se tornava ainda mais tentadora, quando ele deixaria de ser o algo de alguém, e seria apenas ele mesmo.
Tentou sorrir educadamente para a menina ao dizer: — Eu posso lhe conceder essa leniência como um ato de piedade, milady. Mas aconselho tomar cuidado com o olhar das septãs da Fortaleza, não posso garantir que elas terão a mesma bondade. — novamente fazia uma tentativa de brincadeira, levando em consideração que ela parecera interpretar suas tentativas anteriores da maneira certa e ainda não tinha lhe dado uma bofetada ou saído do recinto enfurecida. Mas sentiu-se murchando ligeiramente, o que torcia para que ela não tivesse percebido, quando ela lhe perguntou quem ele era. Claramente seu deslize não tinha passado despercebido como havia esperado. — Não se preocupe, ninguém esperaria que se lembrasse do nome de todos os muitos sobrinhos do rei. Além do mais, o erro é todo meu por não ter me apresentado antes. — ao ouvir seu nome, repassou mentalmente e de maneira rápida o nome de todos os Stark. Aquela era a segunda filha mulher de Lorde Griffin, atualmente a segunda mais velha depois de tantas tragédias na família. Tinha observado duas de suas irmãs mais cedo. A que julgava ser a mais velha e herdeira de Winterfell, Francesca, observava Rhagael com um olhar predatório, como uma loba que assiste sua presa. No momento em que o príncipe pareceu ficar um segundo sozinho, incentivou a irmã mais nova a ir até ele. Tinha achado graça do momento, mas sentia pena do primo por precisar passar por isso.
— É uma honra conhecê-la, Lady Wylla. — disse, curvando-se educadamente ao cumprimentá-la. — Eu sou Jacaerys. — disse, acrescentando rapidamente: — Hightower. Mas pode me chamar apenas de Jace. É como os amigos me chamam.
A menção às septãs arrancou de Wylla uma risadinha, que ela tratou de cobrir com a mão livre, pois a outra ainda ocupava-se no abanar incessante do leque – pelos deuses, ela se acostumaria a aquele clima algum dia? — Certamente tomariam o leque das minhas mãos e o usariam para atingi-la antes de tentarem me ensinar a forma apropriada de manuseá-lo. O senhor, porém, não faria isso, faria? — Atirou, ousada. Descobriu-se confortável na presença do outro e suas piadas sutis, veladas em seu tom de seriedade. — Afinal, me prometeu leniência e piedade. — O sorriso, ainda em seu rosto, deixava clara a provocação. Wylla ponderou a ideia de que talvez nem todos em Porto Real fossem as cobras que lhe diziam ser. É claro que ainda existia a possibilidade de que o rapaz à sua frente, apesar de aparentemente tímido e extremamente cortês, assumisse essa imagem como uma fachada, afinal, ouvira dizer que era muito comum no Sul. Contudo, a postura dele não parecia fingimento ou atuação, o que deixava-lhe somente duas opções possíveis: aquela era sua verdadeira personalidade, ou ele era um excelente ator. Wylla precisaria descobrir qual das duas era a verdade.
A expressão se suavizou ao ouvi-lo falar novamente, deixando de mostrar seus gracejos para dedicar-lhe sua atenção e erguendo levemente as sobrancelhas ao que ele entrava no tópico das expectativas de seu conhecimento sobre a família real e seus membros adjacentes. — Isso é o que você diz, mas as septãs com certeza ficariam ainda mais decepcionadas comigo. — Era sua nova tentativa de uma brincadeira, tentando, talvez em vão, suavizar o peso que os títulos oficiais dariam àquela interação. Jacaerys Hightower, dos Hightower com dragões. Localizou-o na sua lista mental de parentes com herança Targaryen, finalmente atribuindo um rosto ao nome. Retribuiu a breve mesura com uma própria antes de respondê-lo. — A honra é minha. — Houve, então, uma breve pausa de sua parte enquanto considerava o que ele havia acabado de lhe dizer. — Então, se devo chamá-lo de Jace — testou o som do nome alheio, sem títulos ou formalidade. — Devo assumir que somos amigos, então? — O pequeno sorriso despontando em seus lábios deixava claro que não era uma pergunta realmente séria; sabia que amizades eram complexas demais, envolvendo desde confiança até lealdade, para serem resumidas no uso de um simples apelido.











