deitado sob a enorme cama de casal, tomás tinha a sensação de que os músculos cansados pareciam afundar entre as milhares de camadas de algodão do colchão, sentia-se como naqueles comerciais de programas de talk-show do meio da tarde de plateia majoritariamente feminina – seu tipo preferido, para ser sincero – em que são vendidos os travesseiros que os astronautas usam quando estão em alguma missão espacial ou coisa do tipo. aquele era seu lugar preferido, não apenas porque sentia-se cansado após um longo dia de trabalho, em que havia dividido sua atenção entre os projetos da feira de ciências dos gêmeos e a fornada de biscoitos caramelizados que havia prometido levar para a reunião de pais e mestres de charlie na quarta-feira, mas porque para além das manhãs exageradamente caóticas no lar do demir-garcía, aquele era o único momento do dia em que verdadeiramente tinha algum tempo com anastasia. à distância os olhos castanhos do homem observavam a silhueta esguia da esposa no cômodo ao lado, ao que a outra ia de um lado para o outro no espaçoso closet enquanto trocava o roupão de banho pelo pijamas. a conversa que trocavam tinha pouco valor, tom falava sobre as peculiaridades de seu dia e a mulher respondia com ocasionais “uhuns” e outras inflexões para deixar o marido saber que ouvia o que dizia, mas que não prestava muita atenção assim. tom mantinha a cabeça apoiada sob um dos braços, divertindo-se com a cena, assistindo-a como um sorriso suave nos lábios enquanto falava sobre seus desafios com papel machê. — descobrir a proporção correta de água e cola branca é mais complicado do que você imagina, mas no final das contas eu peguei o jeito… tá secando lá, então espero que amanhã esteja pronto para podermos pintar o vulcão. — a seriedade com que explicava o processo de montagem do vulcão de bicabornato de sódio era um tanto cômica, como um devaneio alucinante de quem havia respirado cola quente demais por um dia inteiro. — eu ouvi dizer que a tracy miller vai fazer um vulcão também, mas se aquela foto no grupo de pais é indicador de alguma coisa… pfft. — o deboche continha um elemento de orgulho, ao que tomás sentia-se um pouco competitivo demais em feiras culturais, muito provavelmente por influência de callisto. — mas isso é sobre as crianças, é claro. — confirmou, rapidamente espairecendo os pensamentos após sentir-se culpado.
quando a esposa deixou o outro cômodo o perfume floral e fresco sutilmente invadiu o ambiente, como se um buquê de tulipas amarelas tivesse sido entregue no mesmo instante. tom sorriu com a visão da mulher, que mesmo após um longo dia fora de casa parecia tão reluzente quanto nas primeiras horas da manhã. — como foram as coisas hoje? — o homem rapidamente deslocou-se para uma das extremidades da cama, deixando que a outra se acomodasse entre os lençóis brancos. — você estava ótima no segmento da hora do almoço hoje! você fica muito bem em azul capri, sabia? o figurino fez uma excelente escolha. — tom fazia questão de assistir stass sempre que podia, sentindo-se sempre tão animado quando a via na TV como se fosse a primeira vez, memorizando até mesmo as cores do figurino e o jeito que o cabelo estava arrumado. — eu não me importo muito com os esportes, então não posso falar sobre o texto, mas… — uma risada interrompeu o pensamento do garcía, este que não poderia estar sendo mais honesto. — tenho certeza que estava tão bom quanto! — completou, dando um beijo delicado no ombro da esposa. toda vez que tomás ligava a televisão no canal em que anastasia trabalhava, o homem não podia, senão, em sentir-se como aquele universitário de vinte e pouco anos que havia a visto pela primeira vez em um campo de futebol; mesmo após todos aqueles anos e quatro filhos depois, tom era perdidamente apaixonado por anastasia, ao ponto de esquecer tudo aquilo ao seu redor em seu favor. o riso ingênuo do homem calou-se ao ouvir a porta do quarto se abrir, com a sombra de uma pequenina habitante perfurando o estreito da porta. — eu te acordei, querida? — o volume de sua voz rapidamente fora trocado por um sussurro débil. — porque você não vai pro quarto, huh? eu já vou lá e aí podemos ler alguma coisa, tudo bem? — a filha caçula arrastava o coelho de pelúcia pelas orelhas e mantinha os olhos mais fechados do que abertos, o que indicava ao casal de que não restaria muito tempo até que o sono tomasse conta de seu pequeno corpo. quando a porta se fechou tom riu baixinho, esfregando os dedos contra os olhos cansados. — se ela quiser ler rapunzel mais uma vez eu acho que sou capaz de enlouquecer. — embora a fala de tom fosse uma exageração, nada o podia preparar para mais uma leitura do conto de fadas alemão.
@stassxdemir
A rotina era pouco gentil com Anastasia — acordava cedo e imediatamente a correria do dia a dia iniciava. O café da manhã geralmente era tomado com alguma pressa a fim de não arriscar se atrasar, a imagem devia estar sempre impecável e todo o decorrer do dia tinha de ser dedicado a aperfeiçoar seu trabalho cada vez mais. Porque não havia espaço para falha; não naquele meio, não com tantos olhares céticos esperando apenas a oportunidade para apontar que era de se esperar a sua falha. Ainda se recordava - tão claramente como se há poucos dias - a época da faculdade, em que o objetivo profissional era tão claro em sua mente. Faria tudo o que fosse preciso para alcançar aquela posição, para se tornar uma grande jornalista esportiva e finalmente trabalhar com sua maior paixão. De alguma forma, quando pensando tão a frente, era como se compreendesse haver um caminho repleto de obstáculos até chegar lá. Apenas não havia se dado conta de que ocupar a tão sonhada cadeira não apenas não a livrava de todas as dificuldades, mas inclusive as intensificava. Se precisara lutar para mostrar que merecia chegar ali, então passou a ser uma necessidade diária se provar ainda digna daquele espaço que vários dos colegas deixavam claro através de olhares e comentários piadistas o quanto desconfiavam ser além de seu potencial. E céus, como era cansativo! Esforçar-se o dobro, e receber apenas metade do reconhecimento em comparação a outros na emissora naquela mesma área. Com os dias pesados daquela forma, ao cair da noite era compreensível que o cansaço lhe abatesse com força. Os músculos dos ombros doíam, os pés embora acostumados com o salto tambem reclamavam e a cabeça latejava um pouco. O banho quente era razoavelmente reparador, ainda que sentisse precisar de uma semana inteira dormindo para de fato descansar.
Com a mente esgotada, esforçava-se para absorver o assunto que Tomás falava tão incansavelmente. Após um dia inteiro ouvindo tantos sons, barulhos, gritos e conversas, silêncio era algo que a loira muito apreciava pouco antes de dormir. Mas ao mesmo tempo, aquela voz parecia lembrá-la de que estava tudo bem porque no final do dia, era para seu marido que retornava. Gostaria de conseguir prestar mais atenção como sabia que ele merecia, mas o cansaço deixava quase impossível raciocinar demais naquela hora. Tentava gravar algumas informações chaves o suficiente para se inteirar no assunto e não chatea-lo caso percebesse que ela não ouvia tudo com a máxima atenção. Já tinha terminado de espalhar a local hidratante quando enfim deixou de lado o roupão para vestir a camisola, soltando alguns murmúrios que confirmavam que ela o ouvia, instigando que o rapaz prosseguisse. Um pequeno sorriso quando conseguiu absorver por inteiro uma das frases, fazendo com que um breve olhar complacente fosse direcionado a ele. “Sobre as crianças, sim.” Concordou, achando graça, e finalmente caminhou na direção da grande e confortável cama. Colocou-se por baixo do edredom pesado, o corpo imediatamente agradecendo ao perceber que poderia descansar logo menos, mas ao invés de se deitar completamente, Anastasia apoiou-se lateralmente em um dos braços, para que pudesse observar Tom. “Corridas.” Replicou, sorrindo em seguida pelos elogios e pelo beijo carinhoso em seu ombro. Não sabia quando exatamente, mas havia feito algo realmente bom para merecer que alguém como Garcia fosse a pessoa com a qual dividia seus dias. “Ah! Georgie disse que ouviu da assistente de Kellan que talvez eu possa cobrir a transferência de Joseph Anders para os Rams” Falou com visível animação. Àquele ponto, podia muito bem parecer que os dois falavam línguas diferentes — mas da mesma forma que Stass compreendia o suficiente dos dizeres alheios para interpretar o contexto completo, ele com certeza compreenderia que sua assistente pessoal havia escutado diretamente da assistente pessoal de um dos outros jornalistas que provavelmente Anastasia faria a matéria sobre a transferência do jogador de futebol de um dos maiores times da Califórnia. Ou no mínimo vinte porcento daquelas informações. A mão esquerda da loira apoiava em sua cabeça para mantê-la erguida naquela posição, enquanto a direita espalmava contra a lateral do abdômen alheio por baixo da camisa, apenas para sentir a sensação agradável da pele quente do homem. Virou a cabeça na direção da porta ao ouvir o som, observando a pequena garotinha com o ursinho que ela mal conseguia carregar pela fraqueza do sono. Não tardou até sua atenção voltar ao Garcia, que parecia tão cansado quanto a própria Demir. Se Stass fechasse os olhos, poderia dormir em poucos minutos, mas além de não parecer justo deixar aquele trabalho apenas para o esposo, também queria dividir daquele momento com a caçula. Já eram poucos os que passava com os filhos nos últimos tempos, não gostaria de perder a oportunidade.
A mão ainda em seu abdômen fez uma carícia no local, antes da loira se inclinar para beijar sua mandíbula devagar, em seguida deixando um selar breve no canto de seus lábios. “Será que é por isso que ela não queria cortar o cabelo?” Falou então, pensativa, enquanto se levantava para acompanhá-lo até o quarto da garota. “Pelo menos é melhor do que a obsessão com a Ariel daquela vez” A risada era por recordar da insistência da jovem em dormir na banheira, mas o medo de que a pequena tentasse de fato fazê-lo (com água!!) foi suficiente para que várias noites fossem mal dormidas pela preocupação. “Quer ir fazendo o achocolatado dela? Eu começo a história” Sugeriu, com um riso nos lábios que demonstrava o bom humor relacionado ao esgotamento do homem em relação à história repetitiva. A loira foi, então, até o quarto da garotinha que embora sonolenta, lutava com determinação para se manter acordada para a história e o leite quente. ‘Mamãe, você vai me contar a história hoje?’ A pequena pareceu animada, o que era gracioso e ao mesmo tempo lhe lembrava (tristemente) que não tinha momentos como aquele tanto quanto deveria. Stass assentiu, os olhos repousando no livro da Rapunzel estrategicamente colocado na mesa de cabeceira. “Sabe de uma coisa? Eu tenho uma história diferente para te contar hoje, se você quiser.” A menina encarou a mãe com desconfiança, ponderando com o indicador minúsculo contra o queixo, e finalmente decidiu arriscar, com o semblante atento que intensificava a semelhança de seus traços ao rosto do marido. “É a história de uma princesa que morava em uma ilha, bem pequena e um pouco afastada. Lá era muito bonito e a princesa gostava muito de viver com o rei no castelo, mas queria mesmo viajar para um outro reino. Um bem grande, em que ela poderia realizar qualquer sonho que tivesse. Pra isso, a princesa foi estudar nessa enorme escola cheia de gente diferente, que…” A caçula inclinou o rosto, animada demais para alguém com tanto sono. ‘E lá ela conheceu o príncipe?’ Indagou, ansiosa, o que fez Demir rir. O som de passos fez com que a mais velha olhasse para a porta a tempo de ver Tomás ali, e então sorrir. “Sim, querida, lá ela conheceu o príncipe.”









