Crescendo em uma cidade tão pequena, dificilmente Anastasia tinha a oportunidade de passar noites em claro em festas animadas como aquela. Ainda que os jovens de Avalon tentassem sempre escapar da mediocridade dos dias iguais e quebrar uma e outra regra, beirava o impossível fazer qualquer coisa sem que alguém acabasse delatando aos responsáveis os feitos pelos jovens inconsequentes. Não que Stass evitasse se envolver naquele tipo de situação pelo medo de que alguém lhe dedurasse a seu pai; mas simplesmente porque tinha outras prioridades. Olhando para trás, podia perceber que aquelas situações nunca lhe fizeram falta pois sequer passava em sua cabeça a possibilidade de acompanhar seus amigos naquele tipo de coisa — treinos de futebol e estudos estavam sempre priorizados demais em sua agenda. E por mais que as duas coisas ainda seguiam sendo os pilares de seus dias, as coisas na faculdade eram muito diferentes. Sentia até mesmo uma leveza em conseguir aproveitar coisas tão mundanas quanto uma festa de qualidade duvidosa. E sinceramente, não era como se ela pudesse escapar mesmo se quisesse: a comemoração se dava, afinal, em sua fraternidade. Mas não, Anastasia não pensava naquele momento na prova que teria no final da semana, e nem como precisaria treinar no dia seguinte o chute com a perna esquerda; apenas aproveitava a forma como o coração acelerava em conjunto com a batida meio esquisita de uma música que ela não sabia ao certo o gênero.
A casa estava cheia, como todas as festas; ainda havia comida suficiente para todos e bebidas dos mais variados tipos. O copo vermelho envolvido pelos dedos esguios estava preenchido até pouco menos da metade com um líquido âmbar e gasoso, que não se encontrava na temperatura baixa ideal, mas aquilo era facilmente explicável pelo calor que estava dentro do local. A loira deu mais um grande gole não bebida antes de sentir uma mão em seu ombro, fazendo com que ela instintivamente se virasse. O sorriso preencheu os lábios da garota imediatamente, enquanto ela cumprimentava o homem parado diante de si. Kyle era um compilado de características que normalmente não chamavam tanto a atenção da Demir. A jovem já ostentava seus quase um e oitenta, e ainda sim o rapaz era pelo menos dez centímetros mais alto. Não era grotescamente musculoso, mas mesmo com a camiseta cobrindo seu torso, poderia apostar que havia ali um abdômen definido. O cabelo era tão loiro quanto o seu, com olhos azuis tão claros que pareciam até mesmo lentes de contato. O visual saído de um catálogo de modelos alemães dificilmente a atraia, mas os comentários engraçados enquanto o entrevistava para um de seus artigos do jornal fora o que iniciara o que quer que acontecia ali. Kyle não tinha nenhuma aula em comum com a garota, além de ser um Alpha - e não haver qualquer motivo plausível para que a loira se misturasse com aquela casa. A recente admissão do rapaz no jornal foi ligeiramente suspeita, no entanto, e gerou um número bem maior de encontros nas últimas duas semanas.
Anastasia havia comentado, não exatamente inocente, sobre a festa com o rapaz dois dias antes, e por isso se animava com a presença. “Você veio mesmo” Disse, sorridente e animada. O energético que esquentava cada vez mais em seu copo tinha mais a ver com aquilo do que a presença do homem, se fosse sincera, mas de fato havia apreciado vê-lo. A conversa se iniciou prontamente, passando por diversos assuntos desde os artigos pendentes para a próxima edição do jornal até os respectivos cursos, e os planos após a faculdade. Veja bem: dizer que ela ficava cada vez mais animada com as conversas seria insincero. Kyle não parecia uma pessoa ruim, mas aparentava o nível de superficialidade que ela já esperava na primeira vez que o vira. Se por um lado ele conseguia fazê-la rir bastante, também não apresentava qualquer profundidade quando falavam de outros assuntos. E talvez, ela começou a pensar, não fosse porque ele era uma pessoa desinteressante mas sim porque seu foco não era de fato aquela troca de informações. Anastasia evitou apostar naquela hipótese até que o rapaz começou a alternar o assunto para ‘olhares’ que de acordo com ele, havia notado da parte da mais jovem. E com esse novo rumo da conversa, veio também a mão atrevida na cintura alheia. Stass tentou passar cuidadosamente a mensagem de que, o que quer que ele estivesse fazendo, não era encorajado. Dava um ou outro passo para trás e tentava retornar aos assuntos variados, mas quando Kyle passou o braço por sua cintura, mantendo a mão em sua lombar, a jovem se encheu. Antes que pudesse efetivamente gritar com ele ou empurra-lo, no entanto, a visão periférica apenas a permitiu ver a figura de Tomás se aproximando rapidamente. O soco foi repentino e inesperado, seguido de resmungões dos dois lados enquanto a jogadora encarava a cena confusa.
O mais alto havia dado alguns passos para trás, mas ao retomar o equilíbrio devolveu o ataque ao latino, acertando-o com facilidade. Stass não precisou de muito para perceber que o amigo estava embriagado. “Ei! Parem com isso” Gritou entre a música alta e a animação das pessoas ao redor que clamavam pela briga. Segurou a camiseta do loiro na intenção de afastá-lo do amigo, mas era em vão. Cravou então as unhas nos ombros do rapaz e lhe deu uma joelhada no meio das pernas, forte o suficiente para interromper as investidas contra Tomás. Kylie virou na direção da garota, como se preparado para atacá-la também, mas Anastasia foi mais rápida. Com a mão fechada em punho, ela sabia que sua força não podia se comparar com a do homem - mas se o acertasse da forma correta, com sorte seria o suficiente. Atingiu-o no nariz, de baixo para cima. A pulsação de dor se espalhou rapidamente desde os nós dos dedos até o restante do braço enquanto observava o homem levar as mãos até o nariz quebrado, grunhindo e a xingando dos mais variados nomes. A loira então se aproximou de Tomás, puxando-o para que ele se mantivesse em pé, passando o braço dele sobre seus ombros e caminhando na direção das escadas. Ignorava as perguntas curiosas de quem tentava compreender o que havia acontecido, aceitando apenas a ajuda de uma das colegas da casa que disse que levaria até o quarto uma bolsa com gelo. Subir a escadaria foi um tanto complicado, mas eventualmente estava no quarto de Tomás, ajudando-o a deitar na cama. “Mas que ideia foi essa?”
Com o corpo atirado sobre o assoalho de madeira, o rapazretomou consciência dos próprios sentidos ao perceber que os tacos de madeirajá não mais produziam o ruído esganiçado de instantes atrás, ao contrário, tudoao seu redor parecia ter sido devorado por um estranho silêncio – à distância,porém, um som abafado parecia lentamente preencher o ambiente, assegurando aoestudante de que tampouco estava surdo ou sozinho. Manteve-se imóvel por maisalgum tempo, deixando que os reflexos fizessem conta não apenas da movimentaçãoexterna, mas como da condição em que o próprio eu se encontrava, reconhecendo osom dos batimentos cardíacos acelerados que chacoalhavam seu peito, bombeando aadrenalina que ainda percorria o corpo dos pés à cabeça. As pálpebras se ergueramcom dificuldade, como após um longo período de repouso, deixando que osprimeiros rastros de luz invadissem as pupilas do homem com certaagressividade, imediatamente fazendo-o desejar que não o tivesse feito – à suafrente, porém, tudo ainda assumia um borrão confuso, exatamente como foraminutos antes de ser submetido ao chão, ainda processando os efeitos que asurra e o álcool tinham sobre seu corpo.
A paralisia em que havia sido induzido, tanto pela dor queardia por todo o corpo, como pela resposta do próprio cérebro em reação aotrauma, enfim parecia se desfazer em ritmo lento, com o hispânico conseguindomover os membros periféricos. O esforço necessário para dobrar as articulaçõeso fazia pensar de que não havia antecipado o contragolpe de seu adversário,ponderando se a bebida havia lhe enganado quanto à estatura do outro, já quepoderia jurar que ele não deveria ter mais de cinco centímetros à mais do que asi mesmo. O movimento era acompanhado dos grunhidos pungentes do rapaz, quebalbuciava uma série de xingamentos ao outro e a si próprio, profundamenteperturbado pela própria consciência – “tarde demais”, respondia ao própriocérebro, que não o havia impedido de tomar tal atitude antes. Suspirou. A visãoretomava a nitidez de minutos antes, ao que agora Tomás era capaz de manter osolhos abertos por alguns segundos antes que os nervos os fechassemimediatamente em resposta ao trauma a que fora exposto. A ponta dos dedoscaminharam até o contorno dos lábios, deixando que as digitais fossem manchadaspelo fluido de cor carmim e gosto metálico, os esfregando contra a camisaabarrotada que vestia.
Antes que pudesse se arriscar em levantar, foi alçado dochão com a ajuda de mais outros dois corpos. A substância etílica aindamantinha seus sentidos sob suspeita, com o equilíbrio do homem sendo divididoentre uma perna e outra em um esforço de recompor a verticalidade, vacilando ospés em uma sequência de passos fracassada. Suspirava, ao que o corpo imploravapor repouso e por um bom relaxante muscular, deixando que os dois voluntários oarrastassem em direção às escadas da KTT sem protestos. Fora apenas ao aproximar-seà base da escadaria, onde quase tropeçou mais uma vez, que pode enxergar quem oapoiava de seu lado esquerdo: Anastasia, com os belos fios dourados caídos emfrente aos olhos. Ao dar-se conta da outra, Tomás não pode, senão, sentir-seprofundamente envergonhado por tudo o que havia feito, sentindo a pele do rostoassumir o tom rosado que entregavam seu constrangimento, com sorte esse eracamuflado pelo olho roxo e pelos lábios sujos de sangue, o dando algum senso dealívio momentâneo – ao menos poderia colocar a culpa na série de hematomas quehavia espalhados pelo rosto e não na paixonite juvenil que nutria pela colegade casa, nunca pensou que algum dia poderia sentir gratidão pelo brutamontesque quase o induziu em um coma, mas havia uma primeira vez para tudo.
Ao chegarem aoquarto, Tom deixou que a amiga o guiasse até sua cama, já que jamais seriacapaz de alcança-la sem ao menos tropeçar quinze vezes antes, nocauteando ocorpo exausto em direção ao colchão. Manteve os olhos fechados por algunsinstantes, deixando que os ombros doloridos afundassem no algodão e os ouvidostirassem proveito do breve silêncio, mas não por muito tempo, ao que a presençada outra ao pé da cama se fez através de sua voz e do tom inquisitório de suafala. A indagação da jovem o fez enrijecer todos os músculos novamente. – Ai. – exclamou, espontaneamente. – Que ideia foi o quê? – parecia ser maisfácil devolver-lhe a pergunta e se fazer de idiota do que enfrentar a vergonhade suas próprias ações. – Isso? – o dedoindicador direito apontou para a própria face, como se as feridas em seu rostoprecisassem ser sinalizadas para a outra. – Oh, não. Não é nada, imagina. – deu de ombros, buscando manter umaexpressão serena enquanto cada fibra de seu ser agonizava em dor. – Eu tô bem. – o sorriso covarde buscavaconvencê-la de que sua presença ali não era necessária, ao que o estudantebuscava desesperadamente apagar a terrível sequência de acontecimentos daquelanoite da mente de ambos, com sorte ela não iria se lembrar de mais nada napróxima semana e ele poderia voltar a fingir que nada aconteceu e que eramapenas bons amigos. – Você tá bem, eu tôbem... Tudo ótimo. – seu braço entrelaçou o dela, buscando levantar-se demodo a levá-la até a porta, mas os pés sequer podiam aguentar o próprio peso. –Hum... – arranhou a garganta. – Eu agradeço mesmo, quer dizer, eu tô bem.Não há nada do que se preocupar. – a cabeça chacoalhava para cima e parabaixo em um tentativa de convencimento. –Você vai ver, em alguns dias isso já some e eu tô novo em folha. – o ritmoacelerado com que as palavras escapavam de sua boca entregavam a insegurança deTomás, esforçando-se para conter os sinais de nervosismo que sentia para com agarota.