CENA INICIAL
Por dez longos minutos ele encarou o próprio reflexo no espelho do banheiro. Reparando em cada ruga, cada mancha no rosto, as bolsas abaixo dos olhos cansados, alguns cabelos grisalhos lhe surgindo nas têmporas. Ele estava um completo desastre, isso era fato. Comparado há vinte anos, este homem refletido no espelho era certamente irreconhecível. O tempo não lhe foi piedoso. Passou rapidamente e poucas eram suas conquistas. Não que seu trabalho fosse ruim, afinal, ele era o chefe do departamento, o melhor detetive inspetor de toda a região, e cada caso que caia em suas mãos era resolvido, nisso ele podia se considerar brilhante. Mas quando se tratava de família funcional, bom relacionamento com a filha e sorte no amor, bem, essas coisas estavam todas perdidas. Petyr se arrastou até a sala, passando pelo estreito corredor do apartamento alugado, o carpete vagabundo cor de areia quase se desfazendo sob seus pés descalços. Apoiou as mãos sobre o balcão da cozinha, como se por um momento não se lembrasse do que era necessário para fazer o café matinal. Normalmente Julia fazia essa parte, mas as coisas haviam mudado drasticamente. Ele olhou por cima do ombro, visualizando ao longe o envelope pardo sobre a mesa. Aquele maldito envelope que estava lhe dando tanta dor de cabeça, o qual ele se negava a abrir de toda forma. Voltou para a produção desengonçada do café, aquilo lhe tomaria mais algum tempo e precisava chegar ao escritório as sete, já estava atrasado. Sentou-se a mesa como de costume. Sem Julia, muito menos Hannah. Tudo estava silencioso. Então não era mais “como de costume”. Mordeu sua torrada queimada e terminou seu café aguado rapidamente, quem sabe pra não sentir o quão ruim tudo aquilo estava. A aparência era pior que o sabor, com toda certeza. Banhou-se rapidamente no chuveiro queimado de onde só saía água gelada, vestiu roupas amassadas que ninguém mais passava e pegou o distintivo sobre a mesa junto com as chaves do carro. Precisava sair, antes que parasse para considerar a tamanha merda que estava sendo reaprender a viver sozinho. Quando chegou à entrada do seu departamento, havia um pequeno tumulto, muitas pessoas se mobilizando para sair, muito acontecendo ao mesmo tempo. Como Petyr odiava aquele caos. Assim que avistou o primeiro subordinado ao alcance de suas mãos, o puxou pela farda de maneira nada amistosa e o mesmo o encarou com pânico e surpresa no olhar. “S-senhor Quin!” o rapaz gaguejou, suor se acumulando em sua testa. Pela reação e toda a comoção, era obviamente um assassinato e dos grandes. “Onde?” Ele requisitou entre dentes e assim que obteve sua resposta, voltou às pressas pelo mesmo lugar onde havia entrado, bateu a porta do carro e voou para o endereço indicado. Um dia agitado esse seria. A situação no local do crime não era nada atrativa. Tiveram que afastar uma horda de curiosos, além de requisitar ajuda médica aos que viram o ocorrido e não reagiram de forma agradável. Uma dúzia de pessoas colocando a última refeição para fora, contaminando a cena do crime. Outras desmaiaram e bateram com a cabeça. De toda forma, mais gente contribuindo para a continuidade do caos. Petyr estava próximo de perder a paciência e nem mesmo tinha visto o corpo ainda. Abriu caminho por entre os outros guardas os olhos fixos no chão. Sentia que essa não seria uma imagem muito boa. Ele estava certo, como sempre. A moça, em seus vinte e poucos anos e nenhum minuto a mais, se encontrava nua e pendurada, ou de certa forma, crucificada em uma das árvores do Central Park, usando uma coroa na cabeça feita do que aparentava ser pedaços de sua caixa torácica, atualmente aberta e repleta de tulipas vermelhas. Seus olhos estavam costurados, suas pernas banhadas em carmim, sangue que aparentava vir todo de suas partes íntimas e mais nenhum outro lugar. Seu rosto estava pálido e seus cabelos ruivos contornavam aquilo tudo de forma delicada. Era em si um trabalho bem arquitetado, cuidadoso. Petyr ficou a encara-la petrificado, sem saber o que dizer ou como agir depois. Em todos os seus anos de serviço nunca havia presenciado coisa igual. “Anderson?” Petyr chamou sem tirar os olhos da vitima e o mesmo veio correndo em sua direção “senhor?” “e essa é..?” “Annelise Farris, 22, achamos seus pertences enterrados na base da árvore, parece que..” o rapaz engoliu a seco antes de continuar, aquilo não era comum para qualquer homem à serviço naquele momento “ela sofreu um aborto.. nada cuidadoso.” Foi o único momento em que Petyr Quin conseguiu tirar os olhos da menina para encarar seu subordinado. “Alguém..?” Antes que ele terminasse o rapaz acenou com a cabeça, uma expressão enojada na face. O chefe suspirou e voltou a olhar para a falecida senhorita Farris. “Isso não pode estar acontecendo..”
~
< voltar









