Eu vi cordialidade naqueles olhos orientais, algo não muito comum nos tempos atuais, tinha um ávido desejo de ser mais, muito mais que só um garoto, ou um homem, que passa pelo mundo sem deixar suas marcas registradas. Aqueles olhos eram treinados a conseguir não apenas ver, mas enxergar, beleza nos lugares mais improváveis e/ou obscurecidos pela natureza humana. Eram olhos que registravam toda uma sentença de fatos, e filtravam com magnitude toda a essência de um ser. E não eram apenas os olhos! Existia um conjunto todo, dando ênfase ao sorriso, aquele sorriso carregava traços de gentileza, afeto e bondade. Era um sorriso simples, extremamente tímido e acolhedor, aliás, o conjunto inteiro da face era acolhedor, e estendia-se pelos membros do corpo, dando a impressão de aconchego mesmo sem o envolvimento em um abraço afável. Então, eu percebi que ele era diferente, ele me fez lembrar de algo que eu havia esquecido e me fez retomar o desejo de ir além do físico, ele não queria coisas frívolas, ele queria poesia subjetiva, cheia de cores, aromas e fantasias. Ele me olhou como quem ultrapassa as barreiras carnais, despiu-me não o corpo; a alma, entrou bem no fundo, como se já soubesse o caminho, seguro e tranquilo. Algo dentro de mim reconheceu algo dentro dele e com isto eu soube que poderia dizer algo que jamais havido dito para outrem, livre de julgamentos, livre de concordâncias, eu poderia dizer coisas que talvez não fizessem sentido e ele poderia não entender, tudo bem, ok, eu tinha a certeza que ele sabia que às vezes algumas coisas são, apenas são, o que e como tem que ser. E novamente, estaria tudo bem porque ele sabia disso, e eu não ouviria questionamentos que me fizessem procurar justificativas. Eu disse tudo que meu coração pulsava naquele instante, com a maravilhosa sensação de que alguém estava naquele momento me ajudando a dar sentido nas minhas impressões existenciais. E então, veio o processo reverso, a troca de experiências e vivências, um momento de novos aprendizados para ambos. Eu vi o mundo de uma forma diferente, eu me senti diferente e gostei daquilo. Ele cantou canções, algo do tipo “Head Over Heels”, em um tom não muito afinado, me olhando daquele jeito de quem não quer nada querendo o mundo. Eu gostei, sorri, e recebi um convite para dançar, foi uma dança lenta, algo meio sem padrão ou estilo, apenas seguindo o ritmo, tentando o famoso dois para lá, dois para cá, um para frente, outro para trás. Eu senti um cheiro de colônia masculina misturada com cigarro, respirei fundo, fechei os olhos, era tão familiar que me deu uma aconchegante paz. Está aí uma palavra bem interessante para descrever a nossa cena: aconchegante. Um sentimento que eu não esperava sentir tão cedo, não naquela noite, daquela maneira. E nisso ele me surpreendeu, tornando-o admirável aos meus olhos, tivemos bons momentos. Eu dormi pensando estar vivendo um conto de fadas, feliz por estar tendo um sonho maravilhoso, e quando acordei percebi que foi mais do que um sonho pois ele ainda estava lá...
Swiller












