All that's left is a ghost of us
Personagens: Dokyun (Ryong) & Aika Classificação: +14 (cigarro, álcool, palavrões) Observações: Parcialmente público (esconderijos da escola).
As horas dormidas no voo, junto com o seu fuso horário bagunçado – outra vez – tornava toda a situação perfeita para se “aventurar” com Aika. Depois da inspeção estava só esperando a confirmação, que não tardou a vir. Então, trocou as latas de cerveja da mala para uma mochila e pôs-se a ir para o local marcado. Vestindo roupas simples, tal como uma camisa larga e um jogger, precisou apenas por um tênis já que teria de sair do prédio. Pediu ajuda para seus colegas de banda, que estavam agora no primeiro andar para que pudesse sair sem problemas, mas claro que tivera de mentir sobre a companhia.
Evitando as áreas com câmera, chegou finalmente atrás da arquibancada da galera de futebol. Era o lugar perfeito para as fugas noturnas, já que poucos inspetores iam ali e ficava longe das câmeras. Porém, para enxergar melhor, precisou ligar a luz do celular e lá, um pouco mais distante estava à japonesa que havia sido bem mais rápida. — Boatos de que você sentiu minha falta nesse fim de semana. — Brincou como de praxe, retirando sua mochila e colocando no chão de tal forma que pudesse sentar no mesmo junto da garota. — Cerveja argentina primeiro ou saquê?
Quando chegou na Coréia, a primeira coisa que fez foi comprar duas garrafas de água de dois litros e trocar o conteúdo destas pelo das garrafas de saquê que tinha trazido. Teve medo de não passar pelas inspeções da escola e, portanto, encontrou a medida de segurança mais plausível possível. A cor da bebida facilitava seu trabalho, afinal de contas, ninguém decide checar garrafas de água. Depois do horário da inspeção e dos inconveniente do dia apresentados no chat da escola e, ainda, depois do dia que Aika teve, só aquilo de álcool parecia muito pouco. Tinha passado parte da madrugada se acertando com o ex-namorado e parte da tarde com o melhor amigo deste. Aparentemente, tudo estava bem e haveria uma espécie de esforço mútuo para fazer com que as coisas chegassem a ser próximas do que elas eram antes.
Pegou a garrafa mais vazia, que tinha sido cheia com o que sobrou do que a japonesa tinha bebido com o amigo de infância e sentou-se no chão, no escuro mesmo e tomou um belo de um gole. Lembrou-se de quando não bebia, nem fazia muito tempo que tinha começado, mas a cada dia que passava, parecia mais difícil não pensar que seria melhor se passasse grande parte do tempo bêbada. Até mesmo riu consigo própria ao lembrar frases de personagens da série de livro que gostava. “Por mais impossível que pareça, houve um tempo em que eu não estava habituado a beber vinho”, era a que evocava com mais facilidade.
Finalmente, quando seu amigo chegou, ela abriu um sorriso no escuro. — Desculpa, comecei antes pra comemorar que eu muito provavelmente ganho a competição em um certo quarto aí. — Disse com um humor ácido que não era ofensivo ao baterista, mas que ele entenderia seu azedume por conta daquilo.
Depois de tantas besteiras lidas, já sentia-se vazio outra vez. Era como se a Argentina tivesse sido um sonho distante e muito rápido, daqueles que parecem durar apenas alguns minutos. Entretanto não podia simplesmente abandonar o sorriso, ou o humor, não agora pelo bem de Aika. Precisavam dar o jeito deles de esquecer aquilo por uma noite. E já estava quase virando um lema para os dois.
— Tudo bem, você merece bem mais. Afinal, eu não tenho problema com o sol me dando tchau... Bem prefiro a noite. — Deixou um fraco riso escapar enquanto retirava as cervejas da mochila, dando um lugar para elas próximo ao saquê. Inclusive pegou uma e se serviu, aliviando a garganta já seca. Iria dar preferência para que a japonesa ficasse livre para a bebida mais forte, pelo menos por hora.
— Mas vamos falar de coisa boa... Tipo cadê meu presente? Porque eu não te comprei nada, mas ajudei a Flora. Me perdoa ‘tá? — O tom tranquilo revelava que não ligava pela falta de presente. Até porque Ryong sempre se foi péssimo em escolher. Tinha receio de acabar decepcionando os amigos com escolhas loucas.
— Mereço, tô comemorando uma vitória, não é mesmo? — Fechou a cara e suspirou, escutando-o e colocando em prática o que ele disse. Precisava pensar em algo positivo, por mais que na sua cabeça só ecoasse a palavra que andava lhe deixando nauseada e a beira de um ataque de nervos. Desde a época da Empreus, aquele mesmo adjetivo a perseguia e assombrava. Estava cansada de ser considerada vadia ou qualquer coisa do tipo. Mesmo que fosse, aquilo não era da conta de ninguém além da própria Aika.
Por sua vez, a garota tateou a eco bag ao seu lado e tirou a outra garrafa de água, entregando-a ao garoto e logo dando toda a bolsa para ele. — Dentro tem sua camiseta, uns docinhos japoneses e um omamori, que é um amuleto de templo. Eu não sou nada religiosa, mas acredito que eles são feitos com boas intenções de proteger e trazer felicidade a alguém e boatos de que o que vale é a intenção. — Dessa vez seu sorriso foi muito mais sincero e despreocupado com o resto. Além de que, o mais discretamente possível, falava o que ela queria para Ryong: sua proteção e felicidade. Tinha descoberto nele uma amizade que jamais tinha esperado e esperava tê-la por muito mais tempo.
— Eu tive que por numa garrafa d’água porque fiquei com medo de pegarem, sei lá. — Embora soubesse como sair do quarto fora do horário e como sair pra beber e todas essas coisas, muitas regras Aika não sabia direito ainda como quebrar.
Recusou-se a manter-se naquele assunto. Nenhum dos dois provavelmente queria continuar nele. Não era saudável e tudo o que ambos buscavam era paz interna, mesmo que rápido, mesmo que por efeito de bebida e outras possíveis coisas.
Pegou a sacola, colocando o saquê junto das bebidas, já que nada ali iria durar muito mesmo. Já sobre o doce não poderia dizer a mesma coisa, afinal, doce cortava efeito do álcool e era o que não queriam no momento. Retirou a camiseta, colocando-a em seu colo para que assim pudesse despir a própria. Queria mostrar para Aika que realmente havia gostado do presente, por isso iria usar ali mesmo, agora. Por mais que a escuridão não ajudasse muito para que o visual fosse apreciado. Já o amuleto ele preferiu guardar na mochila, no quarto daria um espaço melhor para ser posto. Num geral, estava contente com as lembranças da japonesa, principalmente pelo significado que passava.
Ryong não costumava ter muitas pessoas se preocupando de verdade consigo, pelo menos não de forma a ser mostrada assim. Além dela, talvez só Flora. E se tinha um tipo de amizade qual o baterista realmente apreciava era aquela, por mais que nem sempre soubesse retribuir. — Eu acho essas coisas de templos super legais... Também não sou nem um pouco religioso, mas é uma bela cultura. Principalmente a dos templos budistas. — Comentou por alto, usufruindo entre palavras da cerveja internacional. — E acho que está dando certo já, viu? O amuleto. Eu tô bem feliz de poder estar aqui contigo. — Era um pouco incomum, entretanto sentia a necessidade de mostrar apoio pra Aika, de fazer que se importava também.
— Eu só não fiz essas coisas com a cerveja por ainda estar na mala. Passou batido na inspeção. Mas é o melhor jeito de trazer bebida aqui pra dentro. — Sorriu travesso, matando uma lata e já repondo outra no lugar. Tinham de se virar alguma forma ali dentro, principalmente agora que a inspeção andava sendo com o dobro de atenção dos funcionários. E se não tivessem suas cartas na manga, seria difícil viver ali. — Eu por exemplo tenho que guardar os cigarros em pacote de doce, biscoito e essas coisas. Tipo esvaziar e fechar como se não fosse aberto? É uma morte terrível depois, porque fica o cheiro.
Como Aika não era cega nem boba, ela bem observou o garoto trocar a camiseta, deixando um sorriso simples e discreto no rosto que era em parte pelo que ela conseguia ver na penumbra e na outra parte feliz por ele tomar tanto interesse na camiseta que ela tinha comprado temendo que ele não gostasse. Ficou mais feliz ainda quando a camiseta pareceu servir. — Ufa. Tive medo de não servir tão bem. Em geral, os japoneses não são tão altos quanto os coreanos. — Era uma diferença que ela sentia muito na pele. Ela própria era uma japonesa muito atípica com seu um metro e setenta e um, quando em geral as garotas japonesas eram bastante baixinhas. Gostava se ser mais alta, entretanto comprar roupas sempre carregou um fator de indecisão na sua terra natal, bem como ganhar presentes. Não raramente, saias lhe ficavam muito curtas.
Mas foi o comentário sobre o amuleto que a fez rir e beber mais um bom gole de saquê. Ela nem se preocupava mais em começar devagar e tampouco ligava para o gosto do álcool ou a ardência na garganta. Pensava que aquilo era água e bebia como se estivesse com sede. Era aquele tipo de pessoa que sua vida fez ela virar. — Nossa, Ryong. Sua capacidade de breguice ‘tá se estendendo de cantadas a outros comentários. — Apesar de ter falado aquilo, aproximou-se um pouco mais dele e não deixou de sorrir. Piegas ou não, ela tinha gostado de ouvir aquilo, bem como andava gostando de passar seu tempo conversando ou na companhia do moreno. Bêbada ou não.
— Bom saber. Foi a primeira vez que eu fiz isso. Trazer bebida pra dentro da escola. Mas fiz mais ou menos isso mesmo, abri com cuidado pra não romper o lacre da garrafa. Errei com essa garrafa aqui. — Levantou a garrafa da qual bebia, que antes estava cheia até pela metade, mas agora a japonesa já tinha dado cabo do que equivaleria a uns dois copos cheios e só agora ela começava a se sentir ébria. — Deixa eu provar essa cerveja.
A primeira impressão que tivera da camiseta era de que talvez ficasse curta, entretanto havia ficado muito boa até. Apesar de não ser a das mais largas que tinha, era confortável e completamente usável. Tinha a vantagem de ser extremamente magro também, por mais definido que fosse quando retirava a roupa, não passava disso. Não havia tanta massa assim, inclusive muito dos fãs ficavam preocupados, apesar de sem necessidade. — Deu certinho e ‘tá bem confortável por enquanto. Tomara que não encolha quando lavar. — Disse com tom descontraindo já que muito provavelmente aquilo não aconteceria. E se acontecesse, não teria problema, era só usar como cropped nas festas a fantasia da vida. Sorriu sozinho com o último pensamento, deixando-o se perder em sua mente.
Deu de ombros diante da resposta, não podia fazer muita coisa. Era quase uma reação automática na sua cabeça criar aqueles tipos de comentários, isso porque ele nunca havia sido o tipo de pessoa comediante. Apenas sentia a necessidade de amenizar sua personalidade naturalmente azeda vista pelos outros, era o seu jeito de cortar aquilo. — Acho que a Argentina me inspirou, sabe? Uns tempos foras e tudo mais sempre ajudam. — E mais um super gole na cerveja, esvaziando-a para metade já, talvez até mais. A viagem realmente havia feito Ryong espairecer um pouco mais, deixar de lado todo o tormento que havia na sua cabeça. Não que tivesse sumido, ainda estava lá, mas tentava não pensar muito e nem se afundar outra vez naquele assunto. Até porque agora tinha a companhia de Aika e Flora, fazendo-o se preocupar mais com elas e esquecer um pouco de si. Preferia assim.
— Não precisou nem aprender pra uma primeira vez... Mas relaxa, pelo menos ainda não estão bebendo água dos alunos pra saber se é saquê. — Não ainda, do jeito que as coisas estavam indo não duvidada que em breve acontecesse algo assim. Passou a latinha para a japonesa, tomando-lhe a garrafa como se fizessem uma troca. — É muito boa a cerveja de lá, digo... É um pouco mais suave, mas aparentemente tem a mesma porcentagem de álcool. — Apesar de o baterista preferir coisas fortes, com cerveja era um pouco diferente. Encheu a boca de saquê em seguida, sentindo a diferença quase de imediato. Porém, para tal tipo de bebida, era bem melhor, talvez preferisse mais que a anterior. — Sabia que eu não sou muito de saquê? Acho que preciso mudar isso, porque já adorei esse aqui.
— Eu vou tomar tudo. — Oficializou verbalmente e bem poderia ter dito “eu quero ficar bêbada até esquecer meu nome” que daria no mesmo tom e intenção. Mas mesmo assim, ela se permitiu bebericar a bebida diferente, atenta às diferenças enunciadas pelo rapaz e o amargor da cerveja se espalhou pela sua boca de um jeito que não combinou muito bem com o saquê de antes. Mesmo assim, ela terminou de beber a latinha, acostumando-se ao sabor nos goles seguintes. — É realmente mais suave. Mas é gostosa, pra uma cerveja. Acho que cervejas não são minhas preferidas... — Disse com um riso baixinho, suave e leve.
Inclinou a cabeça para trás, apoiando-a em um dos suportes da arquibancada e tomou mais um gole, bem grande dessa vez, para acabar com a latinha e fechou os olhos. Concentrou-se voluntariamente no torpor e na leveza que o álcool fazia espalhar pelo seu corpo, aquela sensação leve de que tudo ficava um pouco mais lento... Como ela queria que as coisas ficassem mais lentas. Sua vida andava agitada demais e ela sentia como se tivesse o dobro da idade que tinha, que logo nasceriam fios brancos em sua cabeça de tanta loucura. — Nunca quis ser idol. — Confessou do absoluto nada. — Sempre soube que era difícil e eu nunca quis. E nesses últimos dias eu ando pensando muito em porque eu fui na onda da minha mãe. — Já falava mais abertamente, provavelmente porque tinha bebido mais do que ele e porque estava fraca para bebida. Não comia direito faziam muitos dias, então o efeito parecia mais forte e mais rápido.
— Saquê é foda de acertar fora do Japão, sério. E tem um que é próprio pra cozinha e que não é muito bom de beber, mas eu sempre vejo as pessoas usando esse pra bebida aqui na Coreia. Me dá vontade de sair oferecendo as marcas certas... Mas elas costumam ser caras e nem todo mundo entende do saquê. — Ela mesma não compreendia, mas por ser japonesa, conhecia as marcas mais tradicionais e mais elogiadas.
Nem se importou com o anunciado, na realidade, apenas deu apoio com um gesto de mão como se dissesse “vai fundo”. Depois do ocorrido, não era nenhuma surpresa que Aika quisesse se embebedar e dava o total apoio. Afinal, não precisava tanto assim naquela noite, não queria acabar mais uma vez no quarto já bem conhecido, qual não queria marcar presença nem tão cedo, mas sempre acabava lá quando muito bêbado. Enquanto isso bebericava um pouco do saquê, com um pouco mais de calma, apreciando mais o líquido transparente. — Cerveja não é bom mesmo, é mais algo de costume. — Lembrava-se fácil da sua primeira vez e principalmente da careta que fazia a cada gole. Hoje em dia, descia como água.
Deixou a garrafa um pouco de lado, pegando por um cigarro no bolso da calça. Ofereceu um para a garota, bem diferente do anterior. Não sentiu necessidade de comentar, já que a cor e todo o jeito “fancy” denunciavam ser daqueles que tinha gosto – mais especificamente de cereja. Já para si, pegou o de sempre. Não iria se saciar com algo que só adocicaria sua boca. Ouviu atentamente ao que a garota falava enquanto ascendia e, por um momento se identificou. Andava fazendo muito isso, sentia-se cada vez mais próximo de Aika, mesmo que as experiências não fossem a mesma. — Digo o mesmo. — Acrescentou, ainda com a droga entre os lábios, tragando-o profundamente e deixando a fumaça preencher o seu redor à solta-la para continuar. — Eu ainda tive um pouco de sorte em conseguir entrar na banda... Queriam que eu me aprofundasse como ator, seria ainda pior do que já anda sendo. — Confessou, deixando claro que não gostava daquela vida. Eram muitas máscaras a se vestir, uma coisa que não costumava lhe agradar tanto. Além de não poder ser ele mesmo em muitos momentos, odiava aquilo e odiava sua família que o enfiou naquela furada até o ultimo fio de cabelo.
— Vou passar a te pedir conselhos quando quiser comprar algo diferente para beber, tipo saquê. — Concluiu, deixando um tanto claro que iria continuar chamando-a para beber enquanto ela continuasse aceitando. Era uma péssima influência. Sorriu travesso com o pensamento, acomodando novamente o cigarro aos lábios. Não podia fazer nada se a companhia da japonesa era ótima, quase reconfortante. Afinal, nenhum dos dois insistiam em falar sobre os problemas, vinha tudo naturalmente de acordo com a vontade como tinha de ser.
Aceitou o cigarro completamente consciente de que ia tossir e engasgar e todas essas coisas, mas só aceitou porque viu que era algo diferente do primeiro que ela tinha provado. Percebeu que era daqueles com sabor e a primeira coisa que fez quando tirou um do maço foi cheirar, esperando encontrar algo incrivelmente diferente. Mas ainda parecia ter cheiro só de cigarro. — Obrigada. — Tinha medo daquilo virar um hábito e acabar prejudicando-a, porém logo pensou que aquele tipo de prejuízo era bem pouco a se pagar considerando o alívio que lhe proporcionava. A sensação maravilhosa que era ter emoções nubladas, indistintas. Emoções que ficavam confusas com o álcool e que não doíam tanto. Apoiava-se por completo agora no suporte da arquibancada, ainda sentada, mas sentia como se estivesse deitada. Acendeu o cigarro e tragou, tossindo e engasgando um pouco, mas parecia estar encontrando eficiência depois das experiências anteriores.
— Eu acho que eu teria ligado menos se fosse só atriz. Afinal de contas, ser idol em música te cobra não só a música como a atuação também. — Diariamente já andava tentando ensaiar a peça de sua vida onde tudo estava bem. — Pelo menos eu sei peças de Shakespeare de cor. — E sabia mesmo, algumas, pois adorava-as. Não tinha a menor ideia se poderia encená-las, mas considerando o modo como lidava com problemas, sabia que boa atriz ela com certeza seria. Vez ou outra tragava o cigarro, mas suas tosses passavam a ser bem mais fácil de controlar. O gosto de cereja não era muito forte, mas, em geral, o cigarro era mais suave. Adocicado, até.
— Esse não me faz engasgar, já gostei muito mais. — Riu, acabando por soltar a fumaça e engasgar mesmo assim. — Ok, ele não faz isso tanto quanto o outro. — Disse quando se recuperou e abandonou a latinha vazia, voltando a beber um pouco do saquê.
A relação dela e de Ryong era baseada em uma má influência. Ele não a impedia de beber nem de fumar, mas a ouvia como ninguém andava ouvindo. E ela também, quando ele decidia partilhar algo. Ficava curiosa e ansiava por conhecê-lo mais e mais, mas não forçava nada. Tomou um grande gole e agora intercalava tragar o cigarro, bebericar o saquê e ficar de olhos fechados, aproveitando um momento de paz tão raro. Ryong ali não a deixava se sentir sozinha, o que simplesmente melhorava tudo. E de repente, o álcool evocou alguma culpa. — Eu deveria te pedir desculpas por ter beijado o Hayato? — Bebeu mais um gole grande, como que para tomar coragem e voltou o olhar ao moreno. — Quero dizer, eu beijei ele, uma única vez. Eu não lembro nem porque, acho que porque ele me desafiou. Mas foi tão... Estranho. É tipo... Ele é meu amigo demais e beijos não rolam. — Sua sinceridade e leveza nas palavras garantiam que ela não falava aquilo apenas para amenizar as coisas. — Meu deus, acabo de colocar o Hayato na friendzone.
Nunca havia parado pra pensar naquele ponto e então percebeu que talvez sua vida não tivesse sido tão difícil se seguisse os passos que seus pais queriam. Afinal, todos os seus problemas, tal como vícios vinham da única coisa que gostava de fazer. Àquela altura, a ideia de ser o filho perfeito não soava tão ruim e uma ponta de arrependimento surgiu. Porém foi embora tão rápido que não dava para se sentir mal. Apesar dos baixos, gostava da vida que levava e do que fazia a ponto de não conseguir se arrepender de nada, inclusive faria quantas vezes fosse necessário. Talvez evitando certas pessoas, mas era só um detalhe. — Acho que deve ser pior pra vocês do Pop... Digo, a cobrança de imagem é mais forte. — Não significava que a EDEN ou outras bandas não tinham disso. Principalmente levando em consideração que todos na sua banda tinham porte para serem visuais, chamando muito mais atenção por isso. Entretanto, muitos entendiam que pelo estilo era okay ser um pouco mais “rebelde” – na medida do possível da cultura coreana.
Riu enquanto soltava à fumaça entrecortada, graças ao ato. Surpreendia-se minimamente por Aika ainda não ter pegado a prática, de certa forma. Mas levando em consideração que ela já estava aparentando embriagues, já era de se esperar que não se concentrasse tanto e acabasse quase como da última vez. — Esse é melhor mesmo, pra quem começa. Alguns nem saem dele. — Comentou, referindo-se mentalmente a Taeyang, que só fumava deles. — Eu tenho mais alguns, se quiser fumar sem mim eu te dou. — Não esperava uma resposta positiva, já imaginando que era realmente a única péssima influencia a deixá-la fumar sem se importar, vezes incentivando. Então apenas deixaria de lado caso a resposta fosse “não”.
E aquele momento, de paz, onde a japonesa parecia relaxar finalmente, decidiu abrir mais uma cerveja e fazer o mesmo. Não da mesma forma, porém usava aquele meio tempo para não pensar em nada, aproveitando-o entre goles e tragadas. Ou pelo menos assim fazia até se engasgar com a fumaça do cigarro e o motivo havia sido aquele assunto inesperado, aquela pessoa sendo citada. Tossiu mais algumas vezes antes de se aliviar, podendo respirar sem a ardência e a fumaça travando outra vez. Em uma situação normal, Dokyun teria levado de letra a situação com uma boa e convincente atuação, porém ali não. Estava sentindo-se livre demais das máscaras a ponto de abaixar a guarda, de não esperar nada além de uma boa conversa diversificada. Então dava pra perceber até de longe o quanto havia ficado desconfortável. — Pedir desculpas por quê? Eu não tenho nada com ele, nunca tive. — Por mais que tentasse ser convincente, bobeava. O tom não muito comum o deixava exposto o deixando fraco, como o lobo solitário que uivava para a lua, mas tinha medo por não ser respondido. Deixou a latinha no chão, levando a mão livre aos fios negros, agora era tarde demais pra deixar a mente vazia novamente.
Tomou mais um gole do saquê e este começou a anunciar através de seu estômago que ela devia começar a, pelo menos, beber mais devagar. Por isso, ela deixou a garrafa ao lado e voltou para sua posição completamente escorada no apoio das costas e agora se concentrava no fumo. Percebeu que não mais engasgava. — Eu gosto de fumar com você, mas eu vou aceitar pros momentos em que eu não posso fumar acompanhada. — Ele era, com certeza, uma péssima influência. Mas ela adorava, mesmo assim. Tinha essa necessidade de ser imperfeita pelo menos em algum momento. Todo o resto do dia, Aika era quase um robô: sua aparência estava sempre boa, ela tinha uma educação exemplar. Seu boletim era invejável, sempre fora uma trainee e idol que era usada como um exemplo a ser seguido, disposta sempre a desafios e novos aprendizados e conceitos impostos. Bancava a filha perfeita para a mãe exibir por aí. Com Ryo, a última preocupação que ela tinha era ser perfeita.
Com ele, ela podia se mostrar como era: fodida por tanta pressão, quebrada emocionalmente, insegura até, que dependia de vias de escape cada vez mais poderosas para poder respirar sem que isso fosse um gesto completamente planejado. Podia realmente largar a máscara com ele. Aika não deveria rir do garoto se engasgando e acabando completamente desconfortável, mas riu mesmo assim, achando graça da tosse e de todo o resto. E mesmo assim, sentiu-se mal por quebrar a bolhazinha de assuntos que não o incomodavam, mas bêbada, ela queria ter uma reciprocidade. Queria poder apoiá-lo como ele lhe apoiava. — Desculpas, eu não queria causar esse efeito. — Tinha realmente falado sem pensar. Pelo menos ela estava conseguindo não pensar em nada.
Pegou a garrafa e ofereceu a ele de forma imperativa. — Me mostra o quanto você consegue virar de bebida. — Queria deixá-lo bêbado de vez, porque agora que tinha tocado no assunto, queria abordá-lo um pouco mais. Além do mais, era o único jeito que ela tinha de pedir desculpas a ele por perturbar-lhe a mente.
Em um rápido movimento, sem intenção de perder tempo, pegou uma caixinha de midi-pocky na mochila, dando-lhe de presente. Era ali que havia guardado o maço do cigarro que comprara justamente para Aika. E como essa não se importou com a péssima ideia de fumar sozinha, de fazer daquilo um hábito – péssimo por sinal –, era todo dela de vez.
Não se conteve com o riso, rindo também. Mas não da forma que costumava fazer sempre perto dela, era novamente aquele humor masoquista, sádico marcando presença novamente. Era claro que uma hora aquele assunto ia surgir, principalmente andando com a japonesa, que era justamente a melhor amiga de Hayato. Não tinha como fugir pra sempre e talvez, não fosse bom continuar assim de fato. Por isso se conformou com uma tragada bem funda, puxando do filtro todo o ar contaminado pela droga que conseguia carregar em seu pulmão. Tudo para que relaxasse, parasse de fazer do tema um tabu. — Tudo bem, não tem problema. — Disse com sinceridade, dando de ombros. Não queria fazer Aika se sentir culpada por algo tão bobo, principalmente por saber que ela só estava tentando aliviá-lo de todo o fardo que visivelmente carregava.
Iria pegar a cerveja, quando a oferta em tom de aposta foi anunciada. Com um sorriso travesso, entendendo com clareza o que realmente era oferecido ali, tomou a garrafa. — Se eu ficar bêbado, não me deixa ir pro quarto dele. — Pediu, mesmo que muito provavelmente fosse em vão. Respirou fundo, tentando ser positivo e sem mais nem menos, virou o líquido da garrafa garganta abaixo. O efeito não era instantâneo, mas não fazia diferença, Ryong já havia decidido antes mesmo o que tinha de fazer. Agora ele só teria mais facilidade com o tempo.
Limpou a garganta, repassando na sua mente por onde começar enquanto observava o objeto cilindro em mãos queimar lentamente, já no final. — Eu não sei como as coisas foram acontecer assim... De verdade. Eu gosto dele, mas ele acha que não, que não tem como gostar de alguém ficando com outras pessoas além. E eu avisei, sabe? — Levou o olhar levemente triste, transbordando de incerteza para Aika por um momento, realmente deixando sua máscara cair mesmo que só aquela noite. — Que eu não sou bom com relacionamentos e que os preferia aberto, avisei várias vezes. — E lá estava o riso seco, vazio, como se achasse tudo irônico mesmo não sendo. Repensou também se deveria continuar, falar tudo o que passava na cabeça e sua resposta foi que sim. Agora que havia começado, sentia que não aguentava mais guardar. — Ele falou que entendia, que não ia me pressionar e que gostava de mim mesmo assim... Que me amava. Mas ele pressionou, não me entendeu e nem fez questão de realmente me conhecer pra isso. Aparentemente ele só estava apaixonado pelo sexo que a gente fazia, porque era sempre só isso ou ele falando da vida dele com o slogan de “quero que você me conheça mais pra se apaixonar por mim também”. Entretanto era zero perguntas sobre mim. — Naquele momento já não tinha mais vontade de continuar fumando, pressionando o cigarro contra o cinzeiro portátil que vivia acoplado no seu isqueiro. O efeito do álcool começava a ser sentido, deixando-o mais aberto tal como visível o nó que se formava em sua garganta, trazendo consigo a dificuldade em continuar de forma seca, metódica. Estava se entregando a tristeza, aos sentimentos de arrependimento, saudade, dentre outros. — Depois ele só desistiu de mim, como todo mundo desiste. Fez de conta que eu não existia e eu só conseguia me sentir um lixo, porque de certa forma a culpa foi minha. Eu me apeguei, eu cai nas palavras dele e mesmo assim não cedi pra que fosse possível continuarmos algo, afinal sou sempre eu que tenho que ceder já que ninguém nunca se esforça pra me entender e me aceitar como eu sou.
Suspirou, deixando o peso sair de suas costas, apesar de tudo ainda continuar ali consigo. Só não tinha mais que carregar sozinho, que guardar até explodir e se autodestruir outra vez. Levou ambas as mãos ao rosto, subindo para o cabelo e bagunçando-os, como se tentasse se reformular, voltar pros eixos do normal e abandonar aquela carga negativa. Era ruim demais para ter que ficar convivendo com ela até mesmo bêbado, enquanto tentava aproveitar a vida que não era lá tão boa quanto diziam as propagandas.
Chocou-se com a entrega de um maço inteira e, confusa, seu olhar pediu por explicações que não vieram. Agradeceu, segurando o maço e, ao contrário dele, despejava as cinzas da droga em um canto do chão, anotando mentalmente que deveria arranjar um daqueles cinzeiros portáteis e um isqueiro, já que estava disposta a se entregar ao péssimo hábito simplesmente pela vantagem, ainda que momentânea, que ele lhe trazia. Também registrou que não deveria fumar se não fosse em casos de se sentir mal, e então quis rir. Quando é que ela andava se sentindo bem nos últimos dias?
— Eu já tô bêbada, eu prometo que vou tentar. Qualquer coisa te arrasto pro meu quarto pra impedir isso. — Mesmo ébria, sabia que os encontros de Hayato com Ryong bêbado não andavam sendo exatamente as coisas mais saudáveis para os dois, então realmente o levaria para o próprio quarto em caso de necessidade. Podia se entender com as outras ocupantes do mesmo no dia seguinte. Manteve o sorriso nos lábios enquanto ele aceitava a aposta, ela também tendo sua parte como má influência.
Não esperava pelo que veio a ouvir. Quer dizer, era sua intenção, mas Ryong já começou tirando-lhe a maior dúvida de todas: o que ele sentia por seu melhor amigo. Era a pergunta que mais matava a japonesa quando conversava com o outro rapaz e ela mesma não entendia o baterista. Estava, no entanto, ali, querendo compreendê-lo. Quando percebeu a incerteza, se aproximou dele, sentada tão perto que os quadris quase se encostavam. Quis contradizer pontos, mas ao mesmo tempo, só queria escutá-lo. Quase não se sentia bêbada mais; sobre ela abateu-se uma preocupação impossível de se por em palavras. O quão sozinho aquele garoto se sentia... Ela sabia como aquilo era ruim. Ela compreendia aquilo perfeitamente, a falta de esforço alheio para entender seus sentimentos, ser colocado como o vilão da história, tudo. Chegou a se sentir mal, pois ela própria já o tinha julgado tão mal...
Perdeu as palavras por um momento e tudo o que fez foi passar o cigarro para a outra mão e abraçar o moreno por cima dos ombros, aproximando o rosto e lhe dando um beijo amigável na bochecha, demorado. — Eu tô aqui pra tentar te entender, ok? — Queria que ele soubesse que não estaria mais sozinho. Aika ainda discordava de muitos pontos, mas todos eram pouco importantes diante daquela cena que ela não imaginava que algum dia veria. Ultimamente, andava vendo Ryong como um exemplo – um mau exemplo em muitas coisas, mas invejava o quanto ele podia guardar para si e seguiu a mesma linha para poder se reerguer – e então compreendeu que a fragilidade existia em todo mundo. — Você não tem ideia, mesmo, né? Do quanto ele gosta de você. — A menina não possuía direito nenhum de comentar aquilo, contudo jogaria a culpa no álcool depois. Sorria, bem discreta e melancolicamente. Apoiou o queixo no ombro dele por não querer se afastar, mas também porque era mais confortável daquela forma.
O braço que o envolvia se ajustou de alguma forma para ousar fazer um carinho nos fios escuros e curtos. — Você ainda quer tentar ter algo com ele?
Chegou a sentir os olhos arderem minimamente, mas segurou-se, não queria ser mais fraco do que já andava sendo. Sua cota de choro já havia sido batida antes da viagem, depois de sair mais uma vez do quarto alheio sem lembrar-se de nada. Agora ele só queria sentir alivio, apoio, suporte. E tinha isso ali, naquele meio abraço, nos lábios de Aika sobre sua bochecha e suas palavras gentis que serviam pra mostrar que, pelo menos naquele momento não estava mais sozinho. Não era mais o lobo solitário por uma noite.
Assentiu com a cabeça para mostrar que havia entendido, era o seu jeito de demonstrar o apreço qual estava tendo por sua companhia. O seu eu de verdade era assim, não era brincalhão, não contava piadas, não fazia trocadilhos; Era quieto, triste, meio depressivo e não sabia se expressar, nem agradecer suporte. Levou uma das mãos a coxa da japonesa, apertando-a levemente e sem segundas intenções, como uma resposta ao abraço. Porém logo riu, ainda naquele tom nada animador. Realmente não tinha ideia do quanto Hayato gostava de si, a não ser que o garoto demonstrasse aquilo da mesma forma que seu ex, o machucando. — Eu não sei se quero esse tipo de gostar... Não se for exatamente como foi da primeira vez. Por isso não liguei de me afastar, de entrar na brincadeira dele e fazer de conta que ele não existe. — Pegou a garrafa outra vez, voltando a bebericar do saquê com vontade. Ainda não estava no seu pior estado, estava longe disso e precisava sentir-se entorpecido no momento. — Sei que ele é seu amigo e você pode não querer acreditar em mim, mas ele nunca demonstrou ligar de verdade. — Soltou, um pouco mais ríspido do que tinha a intenção. — A única vez que ele pareceu ligar um pouco, foi quando eu fiquei puto com ele...
E mesmo assim, mesmo não querendo nada e querendo se afastar, Ryong continuava indo atrás, pensando, sentindo saudades dele. Chegava a ser horrível não conseguir ficar com alguém sem bater aquela visão de que, preferia com o outro japonês. Seu lado vingativo e que prezava a sanidade gritava de forma insistente para manter afastado, para desistir de vez. Havia parado de ir às aulas com regularidade, até mesmo aceitou viajar pro outro lado do mundo de última hora só para se manter longe, para não ceder. Mas uma parte de si, a que sentia falta de carinho, de amor e uma companhia ainda estava ali e ganhava força toda vez que o via. Era tudo tão complicado, apenas queria desistir, fugir e nunca mais voltar. —Não sei, Aika... Eu... Eu Tenho medo. De me foder outra vez, como acontece repetidamente várias e várias vezes. Realmente não me dou bem com relacionamentos, eu sou quebrado com isso desde a primeira vez que tentei. Sempre me machuco e estou cansado de me machucar, eu bebo e fumo compulsivamente aos dezessete anos porque ainda tenho um monte de buracos. Não quero ter mais alguns buracos e acabar comigo mais do que eu já ‘tô acabado... Por outro lado, sinto falta dele. Se não sentisse, não acordava no quarto dele. — Admitiu, soltando-se de vez para a amiga. Nunca fizera aquilo, não para alguém que continuaria próxima a ele depois da confissão. O máximo que fizera fora falar que estava machucado para sua irmã mais velha, ou para bêbados desconhecidos.
Toda a visão era incômoda e partia o coração de Aika, mesmo por detrás das grossas muralhas que ela tinha colocado ao redor de si nos últimos dias. Queria colocar aquele menino para dentro daquela mesma fortaleza e dar alguma força para ele, contudo, por mais que o ouvisse e o entendesse, também entendia Hayato e, no fim das contas, não entendia porque os dois não conseguiam chegar a um acordo. Pior do que tudo era saber que ele era daquela forma, e não o Ryong que ela conhecia de festas e conversas animadas. Sentiu a mão em sua coxa e não a levou a mal de forma alguma, apenas enlaçou o braço ao dele, apagando o cigarro no chão e soltando a última tragada no ar, apesar de ainda absorver cada palavra com atenção ímpar, ainda mais estando bêbada. Pescava no que ele lhe contava, pedaços de seu passado que sua mente ia conectando usando um pouco de imaginação, mas indo pelo caminho mais óbvio.
— Sim, ele é meu amigo, mas você também é meu amigo. Não vou desconfiar do que você me fala. — Apenas deu-lhe essa segurança antes de deixá-lo continuar. Tudo que saía de sua boca parecia querer sair fazia muito tempo; era quase como se as palavras suspirassem de cansaço por terem ficado presas por tanto tempo. Aika já foi exatamente daquele jeito, mas não por estar quebrada, simplesmente por não ter apoio. E o que vinha a seguir, quase lhe atacou: ela agora bebia tão compulsivamente quanto o coreano e começava a fumar, sendo apenas um ano mais velha que ele. Se ele já fazia aquilo há tempos, ela só podia compadecer da dor que ele sentia, pois mal podia imaginá-la.
E a ideia que ele não conseguia fugir daquilo, mesmo bêbado, que acordava ao lado de quem provocava toda aquela confusão dentro dele... Era demais. A empatia fazia aquilo doer na garota, de tão intenso que tudo parecia ser. Inspirou fundo, pensando em suas palavras com dificuldade. Desejou não ter bebido, pois agora o álcool só a atrapalhava a buscar as coisas certas a serem ditas. Contudo, fazia sua sinceridade já enorme ser maior ainda. — Em termos objetivos – porque ser objetiva é a única coisa pra qual eu presto sem ser forçada – e analisando: você gosta dele. Ele gosta de você. Mas você não quer entrar num relacionamento porque já sofreu. E ele queria que você tivesse algo com ele e só com ele. Só que vocês, apesar de brigarem e se evitarem, ainda não desistiram do que sentem um pelo outro. Vocês precisam chegar a um denominador comum, porque é possível.
Pensou um pouco mais, mas sua mente alcoolizada começou a misturar coisas de novo. — Gostar de alguém nunca é algo... Seguro. Sempre se corre o risco de se machucar. Mas... Vocês dois. Vocês já gostam um do outro. Entende? Não é pelo sexo. Ele não gosta de você só por causa disso. — Suspirou. — Me faltam muitas peças pra completar isso, porque eu não sei como você era com ele, e vice-versa, quando estavam sozinhos. Não sei o que rolava, as palavras que eram trocadas, a forma como vocês agiam. Mas se você tentou evitar gostar dele enquanto se envolvia com ele, isso justifica porque ele acha que você transar com ele era algo impessoal. E provavelmente ele pensou que não devia gostar de você também e tentou fazer o mesmo e vocês inventaram essa ideia babaca de que um só gosta do outro por causa de sexo. E como eu disse, a única coisa pra qual eu presto é ir direto ao ponto: não existe isso de evitar sentir as coisas. Eu te provo que fazer algo pra evitar sentir algo é a maior mentira do universo em menos de um minuto, se você quiser. Ao invés de evitar, você tem que saber o que faz com aquilo.













