Personagens: Kim Dokyun (Ryo) & Wen Yeongsuk (Flora)
Classificação: +14
Observações: Privado (quarto de Flora).
Assim que o ensaio da banda acabou entrou direto no carro do manager, tentando evitar os outros membros. Queria evitar questionamentos pela pouca presença do baterista durante o dia, assim como a falta de ânimo do mesmo. O caminho foi sem falar uma palavra, afundado no banco do carona enquanto mandava uma mensagem para a amiga. Avisava por mensagens de sua futura chegada, essa qual felizmente – ou infelizmente – não demorou para ocorrer. O caminho até o quarto alheio também foi rápido, principalmente quando mais parecia um fantasma pelo campus da escola do que alguém realmente vivo, fazendo a maioria das pessoas o evitarem. Estava destruído, com cara de poucos amigos, olheiras profundas e estranhamente cansado.
Parado a porta de Flora, deu algumas batidas apenas para anunciar sua chegada, entrando sem rodeios no quarto já bem conhecido. — Boa noite, Flor. — Sorriu da melhor maneira que conseguia naquele estado, sentando-se sobre a cama da garota enquanto respirava fundo, rindo de forma fraca e soprada de si mesmo. Não conseguia nem mais esconder seu estado através de piadas ruins e sorrisos falsos, que decadência. — Como você ‘tá? Porque eu estou um lixo.
Flora chegou exausta do treino que havia acabado de ter. Tinha treinado por uma hora extra à pedido de Victoria naquela tarde e o esforço feito em combinação com as noites mal dormidas mais a falta de comida havia deixado a menina acabada. No entanto, não si deixara transparecer. Assim que voltou para o quarto, teve certeza de que as coisas que havia comprado naquela tarde ainda permaneciam onde estavam e correu para o banheiro, esperando que a água quente fosse lhe revigorar. Estava penteando os cabelos molhados em frente ao espelho quando Ryo chegou, a voz baixa e o barulho da porta denunciando sua presença.
Ao sair do banheiro, viu o menino se sentar em sua cama, e nos poucos segundos que o encarou foi possível notar a aparência de "lixo", como ele havia descrito. Não é preciso mencionar que apenas aquilo já deixou Flora extremamente preocupada, mas tentou apenas passar conforto enquanto trazia a sacola plástica consigo para a cama. — Você tá com uma carinha péssima. — Foi a primeira coisa que disse ao se sentar na própria cama, um bico em seus lábios enquanto levava uma das mãos para o lado do rosto de Ryong, deixando ali uma carícia leve. — Eu ‘tô bem, um pouco cansada. — Deu de ombros, voltando as duas mãos agora a sacola a sua frente. Tirou dali os kimbaps que havia prometido, assim como alguns doces, refrigerante e o remédio para dor de cabeça. — Aqui, ó. Espero que coma tudo direitinho. — A menina falou brincalhona, esperando trazer um sorriso para o rosto do amigo ao lhe entregar o que havia comprado.
Era difícil acreditar algumas vezes em como Flora ainda mantinha aquela amizade, mesmo Ryo tendo mostrado quase tudo de seu pior lado à ela. E era ainda mais difícil de crer depois do que fizera na festa de sábado, não conseguindo compreender nem um pouco. Mas lá estava ela sendo cuidadosa como sempre, sem pedir por uma explicação ou forçar para que o baterista lhe contasse o motivo da péssima cara que tinha. Como um gato cansado e manhoso, colocou um pouco do peso de seu rosto sobre a mão feminina, fechando os olhos de forma costumeira diante da carícia. Havia sido uma boa escolha passar por ali, no fim das contas. A presença da mais velha conseguia lhe acalmar, mesmo que não por completo, não a sua cabeça que sempre trabalhava a mil com o pessimismo marcado a ferro quente.
— Eu estou péssimo. — Confessou, sem forças para negar qualquer coisa, principalmente por já estar extremamente aparente. Suspirou baixo quando tivera de se recompor, tentando sorrir de maneira um pouco mais amigável que antes. No fim, tomou posse do remédio, retirando uma pílula e bebendo-a com o refrigerante. Em seguida, pegou um dos samgak kimbaps oferecidos, abrindo-o sem a menor pressa e vontade de ingeri-lo. Só iria fazer aquele esforço por não querer preocupar a amiga mais do que já fazia. — Os treinos andam pesados ou só tem dormido mal mesmo? — Tentou sair de uma conversa unilateral, mesmo sabendo que no fim era provável que terminariam onde não gostaria de chegar.
Flora observava os movimentos de Ryo de maneira cautelosa, controlando-se para não deixar a preocupação que sentia transparecer ao ver que o menino não parecia ter nem um pouco de fome. Diferente do menino, Flora abriu o pacotinho de maneira rápida, já dando uma mordida na comida apressadamente. Estava morrendo de fome, não podia negar. Não comia nada que saísse de sua dieta já faziam alguns meses e, sem tempo, mal tivera a oportunidade de colocar qualquer coisa em sua boca nos últimos dias. Com os lábios sujos com grãos de arroz em um de seus cantos, a menina ouviu o mais novo com atenção, e mais uma vez deu de ombros como resposta. — É uma combinação dos dois, acho... mas não é nada que eu não aguente. — Ela respondeu, oferecendo um sorriso seguro ao amigo mesmo que mentisse.
Flora mal conseguia se aguentar em pé nos últimos dias, mas nunca admitiria isso quando Ryong claramente estava em uma situação muito pior do que ela, e a última coisa que queria era colocar mais problemas em seus ombros. Muito menos quando a aparência do menino por si só já parecia como um reflexo das ações da argentina naquele último sábado. Tomou um gole do refrigerante que trouxera e o encarou mais uma vez, a voz serena e reconfortante como costumava ser. — Você quer falar sobre o que aconteceu? Ou quer deixar pra lá? Você não precisa falar se não quiser.
Não pode ficar sem sorrir – mesmo que de forma singela – diante da cena fofa, onde Flora até parecia uma criança. Ao mesmo tempo, abaixou o rosto, querendo esconder o momento. Decidiu mordiscar um pedacinho do Kimbap que desceu pesado, exatamente como imaginava. Assentiu com a cabeça diante da resposta, mesmo percebendo que não era bem assim. A amiga conseguia enganar algumas vezes, mas não daquela vez. Porém decidiu deixar de lado por agora, principalmente quando passava por sua cabeça as possibilidades de motivos. Os olhos quase felinos de Dokyun, entretanto, evitavam olhar nos dela quando direcionados para si. Não tinha uma razão exata para isso, provavelmente só não queria se sentir mais vulnerável do que já estava.
E como imaginava, a pergunta que não poderia evitar – mas queria – era posta em jogo, causando-lhe um nó na garganta onde quase não o permitiu falar. — No caso falar de todas as merdas que eu sempre faço, ou a merda específica que eu fiz com a gente? — Segurou com muita força o riso irônico, ingerindo um pouco do refrigerante aberto antes de deixa-lo de canto junto com o Kimbap. A verdade era que depois de beber sem parar três dias seguidos, o baterista só precisava mesmo de muitos litros d'água. — Quase acabei com a nossa amizade, Flora... E pra piorar, devo ter afundado completamente a sua amizade com o Hayato. Eu... Eu queria te beijar, mas não queria que fosse daquele jeito. Nem sequer sei o que deu em mim na hora, só... Não aguento mais ser tão impulsivo e fazer tudo errado por isso.
As palavras que deixaram os lábios do mais novo acertaram Flora em cheio, fazendo-lhe desviar o olhar por um momento breve. Tudo aquilo havia acontecido por causa dela, e ali estava Ryong, levando a culpa por tudo. A menina sentiu o coração afundar, ver o melhor amigo daquele jeito estava sendo mais difícil do que imaginara que seria. No entanto, logo recompôs a postura que não podia perder, pelo menos não naquele momento. Mais uma vez encarando o mais novo, sorriu serena ao levar a mão ao rosto quente, deixando carícias não apenas em sua pele mas também em seu cabelo agora claro.
— Você não fez merda nenhuma com a gente, Ryo... não fale uma coisa dessas. — Ela falou, sentindo a urgência de abraçá-lo mas mantendo sua distância. — Nossa amizade é importante e forte demais pra acabar por causa de um beijo, você não acha? — A menina perguntou, mas não esperou pela resposta, apenas se aproximou de Ryong, plantando um selar em sua testa. — E a culpa foi minha, aliás. Eu também queria te beijar, até pensei em fazer, mas não deveria ter feito o que fiz... — Flora mordeu o lábio inferior, sem jeito, ao admitir o que falava. Os olhos agora em uma indecisão entre fugir do menino e encara-lo, a mente da menina estava a mil. Só esperava poder tirar um pouco do peso que Ryong carregava em seus ombros, fazê-lo se sentir um pouco melhor.
A respiração de Dokyun logo ficou pesada, deixando-se levar e relaxar o máximo que conseguia diante dos carinhos alheios. Sua mente, entretanto, não parava um minuto. Novamente martelava aquelas dúvidas que andavam lhe atormentado. Estava confundindo tudo, tinha certeza. Desde que Hayato aparecera na sua vida, o baterista não conseguia mais definir nada do que sentia com certeza e isso era um problema enorme. Não respondeu, apenas balançando a cabeça sem muita vontade e reabrindo os olhos. Não queria permanecer daquele jeito, não mais na frente de Flora. Estava frágil há muito tempo, mas nunca havia demonstrado tanto como agora e ele achava que não precisava disso.
Deixou uma gargalhada baixa, irônica e soprada escapar os lábios enquanto se ajeitava, não querendo acreditar no que ouvia. — Você não tem culpa nisso, Flora... Mesmo que quisesse me beijar. Eu provoquei e eu que te beijei, podia muito bem não ter sido assim. — Não tinha mais receio em encarar a argentina, as sobrancelhas juntas em uma expressão triste e ao mesmo tempo preocupada. E mesmo depois de todo o desabafo, não conseguiu segurar o próprio impulso. Provavelmente o seu maior inimigo naquela vida, uma parte de si que parecia nunca conseguir mudar nem com muito esforço. Repousou uma das mãos calejadas pouco abaixo das bochechas femininas, inclinando-se para mais perto. Quando percebeu o que estava realmente fazendo, já tinha os lábios juntos ao da amiga mais uma vez. Porém, não fizera o mesmo que na noite de sábado, não deu pra trás. Encaixou-os de maneira que ficasse melhor para ambos, pedindo da maneira mais gentil possível por uma abertura. Talvez estivesse fazendo a pior escolha da sua vida, mas agora era tarde demais.
Flora estava pronta para responder as palavras do menino. Falar quer não devia ter feito a brincadeira, em primeiro lugar, e que se não tivesse decidido levar a diante, ele não teria a beijado, e estaria tudo bem. No entanto, suas palavras morreram em sua garganta com a proximidade do garoto. Pensou em se afastar, confusa pelas ações do baterista que pareciam contradizer seus dizeres, mas o pensamento não durou muito tempo. Logo, os lábios da menina tocavam os dele, e se rendendo a suas vontades, sua mão foi até a nuca do mais novo, deixando carinhos leves no local, assim como os lábios se entreabriram, dando-lhe a passagem por qual pedia. Naquele instante, a mente de Flora dava voltas, havia mil e um pensamentos correndo soltos em sua cabeça e a menina só conseguia focar na mão em sua bochecha, os lábios que lhe tocavam e o gosto de Ryong.
A menina se sentia em transe, e mesmo hesitando em fazê-lo, partiu o beijo, mas não se afastou. A mão continuava firme na nuca masculina, seus olhos estavam fechados, e as respirações quentes se mesclavam pela proximidade. Se o menino queria voltar atrás, a hora era agora. — Ryo... — Flora falou baixo, as palavras provavelmente lhe tocando a pele por ainda estarem tão perto. Não queria liderar o amigo a continuar algo do qual se arrependeria, e por isso parara. Mas em silêncio, em sua mente bagunçada, era como se implorasse para que o menino não simplesmente levantasse e fosse embora. Que não simplesmente lhe deixasse ali.
Por um momento não acreditou que estava realmente fazendo aquilo, beijando sua melhor amiga. Mas estava e não podia negar, era melhor do que o esperado. As línguas entrelaçadas moviam-se de forma lenta, combinando com o momento de descoberta para Dokyun. Como havia aguentado esperar tanto tempo? Não sabia. Ali, aproveitando as sensações do ósculo ao máximo sua mente finalmente aquietou-se. Não chegava a conclusão nenhuma, ainda era o mesmo baterista confuso e quebrado de sempre, mas finalmente alguma coisa parecia um pouco mais certa. Ou melhor, menos errada. O polegar áspero pelo uso constante de instrumentos acariciava a bochecha de Flora com carinho, algo que sempre nutriu pela garota. E a vontade era de que parasse no tempo apenas um pouquinho, querendo que o ato durasse mais.
Suspirou levemente frustrado quando tinha os lábios livres, porém recusando-se a se afastar, juntando assim ambas as testas. Queria dizer diversas coisas, mas as palavras emboladas igual seus sentimentos nunca acharam suas cordas vocais, era demais para uma noite só. Por isso, preferiu utilizar mais uma vez de atos, que com Ryo muitas vezes funcionavam melhor que palavras. Juntou os lábios aos de Flora mais uma vez, agora com consciência no ato, reiniciando o ósculo tão profundo quanto o outro, carregado de um desejo diferente qual não tinha pressa em matar.
Personagens: Dokyun (Ryong) & Aika
Classificação: +14 (cigarro, álcool, palavrões)
Observações: Parcialmente público (esconderijos da escola).
As horas dormidas no voo, junto com o seu fuso horário bagunçado – outra vez – tornava toda a situação perfeita para se “aventurar” com Aika. Depois da inspeção estava só esperando a confirmação, que não tardou a vir. Então, trocou as latas de cerveja da mala para uma mochila e pôs-se a ir para o local marcado. Vestindo roupas simples, tal como uma camisa larga e um jogger, precisou apenas por um tênis já que teria de sair do prédio. Pediu ajuda para seus colegas de banda, que estavam agora no primeiro andar para que pudesse sair sem problemas, mas claro que tivera de mentir sobre a companhia.
Evitando as áreas com câmera, chegou finalmente atrás da arquibancada da galera de futebol. Era o lugar perfeito para as fugas noturnas, já que poucos inspetores iam ali e ficava longe das câmeras. Porém, para enxergar melhor, precisou ligar a luz do celular e lá, um pouco mais distante estava à japonesa que havia sido bem mais rápida. — Boatos de que você sentiu minha falta nesse fim de semana. — Brincou como de praxe, retirando sua mochila e colocando no chão de tal forma que pudesse sentar no mesmo junto da garota. — Cerveja argentina primeiro ou saquê?
Quando chegou na Coréia, a primeira coisa que fez foi comprar duas garrafas de água de dois litros e trocar o conteúdo destas pelo das garrafas de saquê que tinha trazido. Teve medo de não passar pelas inspeções da escola e, portanto, encontrou a medida de segurança mais plausível possível. A cor da bebida facilitava seu trabalho, afinal de contas, ninguém decide checar garrafas de água. Depois do horário da inspeção e dos inconveniente do dia apresentados no chat da escola e, ainda, depois do dia que Aika teve, só aquilo de álcool parecia muito pouco. Tinha passado parte da madrugada se acertando com o ex-namorado e parte da tarde com o melhor amigo deste. Aparentemente, tudo estava bem e haveria uma espécie de esforço mútuo para fazer com que as coisas chegassem a ser próximas do que elas eram antes.
Pegou a garrafa mais vazia, que tinha sido cheia com o que sobrou do que a japonesa tinha bebido com o amigo de infância e sentou-se no chão, no escuro mesmo e tomou um belo de um gole. Lembrou-se de quando não bebia, nem fazia muito tempo que tinha começado, mas a cada dia que passava, parecia mais difícil não pensar que seria melhor se passasse grande parte do tempo bêbada. Até mesmo riu consigo própria ao lembrar frases de personagens da série de livro que gostava. “Por mais impossível que pareça, houve um tempo em que eu não estava habituado a beber vinho”, era a que evocava com mais facilidade.
Finalmente, quando seu amigo chegou, ela abriu um sorriso no escuro. — Desculpa, comecei antes pra comemorar que eu muito provavelmente ganho a competição em um certo quarto aí. — Disse com um humor ácido que não era ofensivo ao baterista, mas que ele entenderia seu azedume por conta daquilo.
Depois de tantas besteiras lidas, já sentia-se vazio outra vez. Era como se a Argentina tivesse sido um sonho distante e muito rápido, daqueles que parecem durar apenas alguns minutos. Entretanto não podia simplesmente abandonar o sorriso, ou o humor, não agora pelo bem de Aika. Precisavam dar o jeito deles de esquecer aquilo por uma noite. E já estava quase virando um lema para os dois.
— Tudo bem, você merece bem mais. Afinal, eu não tenho problema com o sol me dando tchau... Bem prefiro a noite. — Deixou um fraco riso escapar enquanto retirava as cervejas da mochila, dando um lugar para elas próximo ao saquê. Inclusive pegou uma e se serviu, aliviando a garganta já seca. Iria dar preferência para que a japonesa ficasse livre para a bebida mais forte, pelo menos por hora.
— Mas vamos falar de coisa boa... Tipo cadê meu presente? Porque eu não te comprei nada, mas ajudei a Flora. Me perdoa ‘tá? — O tom tranquilo revelava que não ligava pela falta de presente. Até porque Ryong sempre se foi péssimo em escolher. Tinha receio de acabar decepcionando os amigos com escolhas loucas.
— Mereço, tô comemorando uma vitória, não é mesmo? — Fechou a cara e suspirou, escutando-o e colocando em prática o que ele disse. Precisava pensar em algo positivo, por mais que na sua cabeça só ecoasse a palavra que andava lhe deixando nauseada e a beira de um ataque de nervos. Desde a época da Empreus, aquele mesmo adjetivo a perseguia e assombrava. Estava cansada de ser considerada vadia ou qualquer coisa do tipo. Mesmo que fosse, aquilo não era da conta de ninguém além da própria Aika.
Por sua vez, a garota tateou a eco bag ao seu lado e tirou a outra garrafa de água, entregando-a ao garoto e logo dando toda a bolsa para ele. — Dentro tem sua camiseta, uns docinhos japoneses e um omamori, que é um amuleto de templo. Eu não sou nada religiosa, mas acredito que eles são feitos com boas intenções de proteger e trazer felicidade a alguém e boatos de que o que vale é a intenção. — Dessa vez seu sorriso foi muito mais sincero e despreocupado com o resto. Além de que, o mais discretamente possível, falava o que ela queria para Ryong: sua proteção e felicidade. Tinha descoberto nele uma amizade que jamais tinha esperado e esperava tê-la por muito mais tempo.
— Eu tive que por numa garrafa d’água porque fiquei com medo de pegarem, sei lá. — Embora soubesse como sair do quarto fora do horário e como sair pra beber e todas essas coisas, muitas regras Aika não sabia direito ainda como quebrar.
Recusou-se a manter-se naquele assunto. Nenhum dos dois provavelmente queria continuar nele. Não era saudável e tudo o que ambos buscavam era paz interna, mesmo que rápido, mesmo que por efeito de bebida e outras possíveis coisas.
Pegou a sacola, colocando o saquê junto das bebidas, já que nada ali iria durar muito mesmo. Já sobre o doce não poderia dizer a mesma coisa, afinal, doce cortava efeito do álcool e era o que não queriam no momento. Retirou a camiseta, colocando-a em seu colo para que assim pudesse despir a própria. Queria mostrar para Aika que realmente havia gostado do presente, por isso iria usar ali mesmo, agora. Por mais que a escuridão não ajudasse muito para que o visual fosse apreciado. Já o amuleto ele preferiu guardar na mochila, no quarto daria um espaço melhor para ser posto. Num geral, estava contente com as lembranças da japonesa, principalmente pelo significado que passava.
Ryong não costumava ter muitas pessoas se preocupando de verdade consigo, pelo menos não de forma a ser mostrada assim. Além dela, talvez só Flora. E se tinha um tipo de amizade qual o baterista realmente apreciava era aquela, por mais que nem sempre soubesse retribuir. — Eu acho essas coisas de templos super legais... Também não sou nem um pouco religioso, mas é uma bela cultura. Principalmente a dos templos budistas. — Comentou por alto, usufruindo entre palavras da cerveja internacional. — E acho que está dando certo já, viu? O amuleto. Eu tô bem feliz de poder estar aqui contigo. — Era um pouco incomum, entretanto sentia a necessidade de mostrar apoio pra Aika, de fazer que se importava também.
— Eu só não fiz essas coisas com a cerveja por ainda estar na mala. Passou batido na inspeção. Mas é o melhor jeito de trazer bebida aqui pra dentro. — Sorriu travesso, matando uma lata e já repondo outra no lugar. Tinham de se virar alguma forma ali dentro, principalmente agora que a inspeção andava sendo com o dobro de atenção dos funcionários. E se não tivessem suas cartas na manga, seria difícil viver ali. — Eu por exemplo tenho que guardar os cigarros em pacote de doce, biscoito e essas coisas. Tipo esvaziar e fechar como se não fosse aberto? É uma morte terrível depois, porque fica o cheiro.
Como Aika não era cega nem boba, ela bem observou o garoto trocar a camiseta, deixando um sorriso simples e discreto no rosto que era em parte pelo que ela conseguia ver na penumbra e na outra parte feliz por ele tomar tanto interesse na camiseta que ela tinha comprado temendo que ele não gostasse. Ficou mais feliz ainda quando a camiseta pareceu servir. — Ufa. Tive medo de não servir tão bem. Em geral, os japoneses não são tão altos quanto os coreanos. — Era uma diferença que ela sentia muito na pele. Ela própria era uma japonesa muito atípica com seu um metro e setenta e um, quando em geral as garotas japonesas eram bastante baixinhas. Gostava se ser mais alta, entretanto comprar roupas sempre carregou um fator de indecisão na sua terra natal, bem como ganhar presentes. Não raramente, saias lhe ficavam muito curtas.
Mas foi o comentário sobre o amuleto que a fez rir e beber mais um bom gole de saquê. Ela nem se preocupava mais em começar devagar e tampouco ligava para o gosto do álcool ou a ardência na garganta. Pensava que aquilo era água e bebia como se estivesse com sede. Era aquele tipo de pessoa que sua vida fez ela virar. — Nossa, Ryong. Sua capacidade de breguice ‘tá se estendendo de cantadas a outros comentários. — Apesar de ter falado aquilo, aproximou-se um pouco mais dele e não deixou de sorrir. Piegas ou não, ela tinha gostado de ouvir aquilo, bem como andava gostando de passar seu tempo conversando ou na companhia do moreno. Bêbada ou não.
— Bom saber. Foi a primeira vez que eu fiz isso. Trazer bebida pra dentro da escola. Mas fiz mais ou menos isso mesmo, abri com cuidado pra não romper o lacre da garrafa. Errei com essa garrafa aqui. — Levantou a garrafa da qual bebia, que antes estava cheia até pela metade, mas agora a japonesa já tinha dado cabo do que equivaleria a uns dois copos cheios e só agora ela começava a se sentir ébria. — Deixa eu provar essa cerveja.
A primeira impressão que tivera da camiseta era de que talvez ficasse curta, entretanto havia ficado muito boa até. Apesar de não ser a das mais largas que tinha, era confortável e completamente usável. Tinha a vantagem de ser extremamente magro também, por mais definido que fosse quando retirava a roupa, não passava disso. Não havia tanta massa assim, inclusive muito dos fãs ficavam preocupados, apesar de sem necessidade. — Deu certinho e ‘tá bem confortável por enquanto. Tomara que não encolha quando lavar. — Disse com tom descontraindo já que muito provavelmente aquilo não aconteceria. E se acontecesse, não teria problema, era só usar como cropped nas festas a fantasia da vida. Sorriu sozinho com o último pensamento, deixando-o se perder em sua mente.
Deu de ombros diante da resposta, não podia fazer muita coisa. Era quase uma reação automática na sua cabeça criar aqueles tipos de comentários, isso porque ele nunca havia sido o tipo de pessoa comediante. Apenas sentia a necessidade de amenizar sua personalidade naturalmente azeda vista pelos outros, era o seu jeito de cortar aquilo. — Acho que a Argentina me inspirou, sabe? Uns tempos foras e tudo mais sempre ajudam. — E mais um super gole na cerveja, esvaziando-a para metade já, talvez até mais. A viagem realmente havia feito Ryong espairecer um pouco mais, deixar de lado todo o tormento que havia na sua cabeça. Não que tivesse sumido, ainda estava lá, mas tentava não pensar muito e nem se afundar outra vez naquele assunto. Até porque agora tinha a companhia de Aika e Flora, fazendo-o se preocupar mais com elas e esquecer um pouco de si. Preferia assim.
— Não precisou nem aprender pra uma primeira vez... Mas relaxa, pelo menos ainda não estão bebendo água dos alunos pra saber se é saquê. — Não ainda, do jeito que as coisas estavam indo não duvidada que em breve acontecesse algo assim. Passou a latinha para a japonesa, tomando-lhe a garrafa como se fizessem uma troca. — É muito boa a cerveja de lá, digo... É um pouco mais suave, mas aparentemente tem a mesma porcentagem de álcool. — Apesar de o baterista preferir coisas fortes, com cerveja era um pouco diferente. Encheu a boca de saquê em seguida, sentindo a diferença quase de imediato. Porém, para tal tipo de bebida, era bem melhor, talvez preferisse mais que a anterior. — Sabia que eu não sou muito de saquê? Acho que preciso mudar isso, porque já adorei esse aqui.
— Eu vou tomar tudo. — Oficializou verbalmente e bem poderia ter dito “eu quero ficar bêbada até esquecer meu nome” que daria no mesmo tom e intenção. Mas mesmo assim, ela se permitiu bebericar a bebida diferente, atenta às diferenças enunciadas pelo rapaz e o amargor da cerveja se espalhou pela sua boca de um jeito que não combinou muito bem com o saquê de antes. Mesmo assim, ela terminou de beber a latinha, acostumando-se ao sabor nos goles seguintes. — É realmente mais suave. Mas é gostosa, pra uma cerveja. Acho que cervejas não são minhas preferidas... — Disse com um riso baixinho, suave e leve.
Inclinou a cabeça para trás, apoiando-a em um dos suportes da arquibancada e tomou mais um gole, bem grande dessa vez, para acabar com a latinha e fechou os olhos. Concentrou-se voluntariamente no torpor e na leveza que o álcool fazia espalhar pelo seu corpo, aquela sensação leve de que tudo ficava um pouco mais lento... Como ela queria que as coisas ficassem mais lentas. Sua vida andava agitada demais e ela sentia como se tivesse o dobro da idade que tinha, que logo nasceriam fios brancos em sua cabeça de tanta loucura. — Nunca quis ser idol. — Confessou do absoluto nada. — Sempre soube que era difícil e eu nunca quis. E nesses últimos dias eu ando pensando muito em porque eu fui na onda da minha mãe. — Já falava mais abertamente, provavelmente porque tinha bebido mais do que ele e porque estava fraca para bebida. Não comia direito faziam muitos dias, então o efeito parecia mais forte e mais rápido.
— Saquê é foda de acertar fora do Japão, sério. E tem um que é próprio pra cozinha e que não é muito bom de beber, mas eu sempre vejo as pessoas usando esse pra bebida aqui na Coreia. Me dá vontade de sair oferecendo as marcas certas... Mas elas costumam ser caras e nem todo mundo entende do saquê. — Ela mesma não compreendia, mas por ser japonesa, conhecia as marcas mais tradicionais e mais elogiadas.
Nem se importou com o anunciado, na realidade, apenas deu apoio com um gesto de mão como se dissesse “vai fundo”. Depois do ocorrido, não era nenhuma surpresa que Aika quisesse se embebedar e dava o total apoio. Afinal, não precisava tanto assim naquela noite, não queria acabar mais uma vez no quarto já bem conhecido, qual não queria marcar presença nem tão cedo, mas sempre acabava lá quando muito bêbado. Enquanto isso bebericava um pouco do saquê, com um pouco mais de calma, apreciando mais o líquido transparente. — Cerveja não é bom mesmo, é mais algo de costume. — Lembrava-se fácil da sua primeira vez e principalmente da careta que fazia a cada gole. Hoje em dia, descia como água.
Deixou a garrafa um pouco de lado, pegando por um cigarro no bolso da calça. Ofereceu um para a garota, bem diferente do anterior. Não sentiu necessidade de comentar, já que a cor e todo o jeito “fancy” denunciavam ser daqueles que tinha gosto – mais especificamente de cereja. Já para si, pegou o de sempre. Não iria se saciar com algo que só adocicaria sua boca. Ouviu atentamente ao que a garota falava enquanto ascendia e, por um momento se identificou. Andava fazendo muito isso, sentia-se cada vez mais próximo de Aika, mesmo que as experiências não fossem a mesma. — Digo o mesmo. — Acrescentou, ainda com a droga entre os lábios, tragando-o profundamente e deixando a fumaça preencher o seu redor à solta-la para continuar. — Eu ainda tive um pouco de sorte em conseguir entrar na banda... Queriam que eu me aprofundasse como ator, seria ainda pior do que já anda sendo. — Confessou, deixando claro que não gostava daquela vida. Eram muitas máscaras a se vestir, uma coisa que não costumava lhe agradar tanto. Além de não poder ser ele mesmo em muitos momentos, odiava aquilo e odiava sua família que o enfiou naquela furada até o ultimo fio de cabelo.
— Vou passar a te pedir conselhos quando quiser comprar algo diferente para beber, tipo saquê. — Concluiu, deixando um tanto claro que iria continuar chamando-a para beber enquanto ela continuasse aceitando. Era uma péssima influência. Sorriu travesso com o pensamento, acomodando novamente o cigarro aos lábios. Não podia fazer nada se a companhia da japonesa era ótima, quase reconfortante. Afinal, nenhum dos dois insistiam em falar sobre os problemas, vinha tudo naturalmente de acordo com a vontade como tinha de ser.
Aceitou o cigarro completamente consciente de que ia tossir e engasgar e todas essas coisas, mas só aceitou porque viu que era algo diferente do primeiro que ela tinha provado. Percebeu que era daqueles com sabor e a primeira coisa que fez quando tirou um do maço foi cheirar, esperando encontrar algo incrivelmente diferente. Mas ainda parecia ter cheiro só de cigarro. — Obrigada. — Tinha medo daquilo virar um hábito e acabar prejudicando-a, porém logo pensou que aquele tipo de prejuízo era bem pouco a se pagar considerando o alívio que lhe proporcionava. A sensação maravilhosa que era ter emoções nubladas, indistintas. Emoções que ficavam confusas com o álcool e que não doíam tanto. Apoiava-se por completo agora no suporte da arquibancada, ainda sentada, mas sentia como se estivesse deitada. Acendeu o cigarro e tragou, tossindo e engasgando um pouco, mas parecia estar encontrando eficiência depois das experiências anteriores.
— Eu acho que eu teria ligado menos se fosse só atriz. Afinal de contas, ser idol em música te cobra não só a música como a atuação também. — Diariamente já andava tentando ensaiar a peça de sua vida onde tudo estava bem. — Pelo menos eu sei peças de Shakespeare de cor. — E sabia mesmo, algumas, pois adorava-as. Não tinha a menor ideia se poderia encená-las, mas considerando o modo como lidava com problemas, sabia que boa atriz ela com certeza seria. Vez ou outra tragava o cigarro, mas suas tosses passavam a ser bem mais fácil de controlar. O gosto de cereja não era muito forte, mas, em geral, o cigarro era mais suave. Adocicado, até.
— Esse não me faz engasgar, já gostei muito mais. — Riu, acabando por soltar a fumaça e engasgar mesmo assim. — Ok, ele não faz isso tanto quanto o outro. — Disse quando se recuperou e abandonou a latinha vazia, voltando a beber um pouco do saquê.
A relação dela e de Ryong era baseada em uma má influência. Ele não a impedia de beber nem de fumar, mas a ouvia como ninguém andava ouvindo. E ela também, quando ele decidia partilhar algo. Ficava curiosa e ansiava por conhecê-lo mais e mais, mas não forçava nada. Tomou um grande gole e agora intercalava tragar o cigarro, bebericar o saquê e ficar de olhos fechados, aproveitando um momento de paz tão raro. Ryong ali não a deixava se sentir sozinha, o que simplesmente melhorava tudo. E de repente, o álcool evocou alguma culpa. — Eu deveria te pedir desculpas por ter beijado o Hayato? — Bebeu mais um gole grande, como que para tomar coragem e voltou o olhar ao moreno. — Quero dizer, eu beijei ele, uma única vez. Eu não lembro nem porque, acho que porque ele me desafiou. Mas foi tão... Estranho. É tipo... Ele é meu amigo demais e beijos não rolam. — Sua sinceridade e leveza nas palavras garantiam que ela não falava aquilo apenas para amenizar as coisas. — Meu deus, acabo de colocar o Hayato na friendzone.
Nunca havia parado pra pensar naquele ponto e então percebeu que talvez sua vida não tivesse sido tão difícil se seguisse os passos que seus pais queriam. Afinal, todos os seus problemas, tal como vícios vinham da única coisa que gostava de fazer. Àquela altura, a ideia de ser o filho perfeito não soava tão ruim e uma ponta de arrependimento surgiu. Porém foi embora tão rápido que não dava para se sentir mal. Apesar dos baixos, gostava da vida que levava e do que fazia a ponto de não conseguir se arrepender de nada, inclusive faria quantas vezes fosse necessário. Talvez evitando certas pessoas, mas era só um detalhe. — Acho que deve ser pior pra vocês do Pop... Digo, a cobrança de imagem é mais forte. — Não significava que a EDEN ou outras bandas não tinham disso. Principalmente levando em consideração que todos na sua banda tinham porte para serem visuais, chamando muito mais atenção por isso. Entretanto, muitos entendiam que pelo estilo era okay ser um pouco mais “rebelde” – na medida do possível da cultura coreana.
Riu enquanto soltava à fumaça entrecortada, graças ao ato. Surpreendia-se minimamente por Aika ainda não ter pegado a prática, de certa forma. Mas levando em consideração que ela já estava aparentando embriagues, já era de se esperar que não se concentrasse tanto e acabasse quase como da última vez. — Esse é melhor mesmo, pra quem começa. Alguns nem saem dele. — Comentou, referindo-se mentalmente a Taeyang, que só fumava deles. — Eu tenho mais alguns, se quiser fumar sem mim eu te dou. — Não esperava uma resposta positiva, já imaginando que era realmente a única péssima influencia a deixá-la fumar sem se importar, vezes incentivando. Então apenas deixaria de lado caso a resposta fosse “não”.
E aquele momento, de paz, onde a japonesa parecia relaxar finalmente, decidiu abrir mais uma cerveja e fazer o mesmo. Não da mesma forma, porém usava aquele meio tempo para não pensar em nada, aproveitando-o entre goles e tragadas. Ou pelo menos assim fazia até se engasgar com a fumaça do cigarro e o motivo havia sido aquele assunto inesperado, aquela pessoa sendo citada. Tossiu mais algumas vezes antes de se aliviar, podendo respirar sem a ardência e a fumaça travando outra vez. Em uma situação normal, Dokyun teria levado de letra a situação com uma boa e convincente atuação, porém ali não. Estava sentindo-se livre demais das máscaras a ponto de abaixar a guarda, de não esperar nada além de uma boa conversa diversificada. Então dava pra perceber até de longe o quanto havia ficado desconfortável. — Pedir desculpas por quê? Eu não tenho nada com ele, nunca tive. — Por mais que tentasse ser convincente, bobeava. O tom não muito comum o deixava exposto o deixando fraco, como o lobo solitário que uivava para a lua, mas tinha medo por não ser respondido. Deixou a latinha no chão, levando a mão livre aos fios negros, agora era tarde demais pra deixar a mente vazia novamente.
Tomou mais um gole do saquê e este começou a anunciar através de seu estômago que ela devia começar a, pelo menos, beber mais devagar. Por isso, ela deixou a garrafa ao lado e voltou para sua posição completamente escorada no apoio das costas e agora se concentrava no fumo. Percebeu que não mais engasgava. — Eu gosto de fumar com você, mas eu vou aceitar pros momentos em que eu não posso fumar acompanhada. — Ele era, com certeza, uma péssima influência. Mas ela adorava, mesmo assim. Tinha essa necessidade de ser imperfeita pelo menos em algum momento. Todo o resto do dia, Aika era quase um robô: sua aparência estava sempre boa, ela tinha uma educação exemplar. Seu boletim era invejável, sempre fora uma trainee e idol que era usada como um exemplo a ser seguido, disposta sempre a desafios e novos aprendizados e conceitos impostos. Bancava a filha perfeita para a mãe exibir por aí. Com Ryo, a última preocupação que ela tinha era ser perfeita.
Com ele, ela podia se mostrar como era: fodida por tanta pressão, quebrada emocionalmente, insegura até, que dependia de vias de escape cada vez mais poderosas para poder respirar sem que isso fosse um gesto completamente planejado. Podia realmente largar a máscara com ele. Aika não deveria rir do garoto se engasgando e acabando completamente desconfortável, mas riu mesmo assim, achando graça da tosse e de todo o resto. E mesmo assim, sentiu-se mal por quebrar a bolhazinha de assuntos que não o incomodavam, mas bêbada, ela queria ter uma reciprocidade. Queria poder apoiá-lo como ele lhe apoiava. — Desculpas, eu não queria causar esse efeito. — Tinha realmente falado sem pensar. Pelo menos ela estava conseguindo não pensar em nada.
Pegou a garrafa e ofereceu a ele de forma imperativa. — Me mostra o quanto você consegue virar de bebida. — Queria deixá-lo bêbado de vez, porque agora que tinha tocado no assunto, queria abordá-lo um pouco mais. Além do mais, era o único jeito que ela tinha de pedir desculpas a ele por perturbar-lhe a mente.
Em um rápido movimento, sem intenção de perder tempo, pegou uma caixinha de midi-pocky na mochila, dando-lhe de presente. Era ali que havia guardado o maço do cigarro que comprara justamente para Aika. E como essa não se importou com a péssima ideia de fumar sozinha, de fazer daquilo um hábito – péssimo por sinal –, era todo dela de vez.
Não se conteve com o riso, rindo também. Mas não da forma que costumava fazer sempre perto dela, era novamente aquele humor masoquista, sádico marcando presença novamente. Era claro que uma hora aquele assunto ia surgir, principalmente andando com a japonesa, que era justamente a melhor amiga de Hayato. Não tinha como fugir pra sempre e talvez, não fosse bom continuar assim de fato. Por isso se conformou com uma tragada bem funda, puxando do filtro todo o ar contaminado pela droga que conseguia carregar em seu pulmão. Tudo para que relaxasse, parasse de fazer do tema um tabu. — Tudo bem, não tem problema. — Disse com sinceridade, dando de ombros. Não queria fazer Aika se sentir culpada por algo tão bobo, principalmente por saber que ela só estava tentando aliviá-lo de todo o fardo que visivelmente carregava.
Iria pegar a cerveja, quando a oferta em tom de aposta foi anunciada. Com um sorriso travesso, entendendo com clareza o que realmente era oferecido ali, tomou a garrafa. — Se eu ficar bêbado, não me deixa ir pro quarto dele. — Pediu, mesmo que muito provavelmente fosse em vão. Respirou fundo, tentando ser positivo e sem mais nem menos, virou o líquido da garrafa garganta abaixo. O efeito não era instantâneo, mas não fazia diferença, Ryong já havia decidido antes mesmo o que tinha de fazer. Agora ele só teria mais facilidade com o tempo.
Limpou a garganta, repassando na sua mente por onde começar enquanto observava o objeto cilindro em mãos queimar lentamente, já no final. — Eu não sei como as coisas foram acontecer assim... De verdade. Eu gosto dele, mas ele acha que não, que não tem como gostar de alguém ficando com outras pessoas além. E eu avisei, sabe? — Levou o olhar levemente triste, transbordando de incerteza para Aika por um momento, realmente deixando sua máscara cair mesmo que só aquela noite. — Que eu não sou bom com relacionamentos e que os preferia aberto, avisei várias vezes. — E lá estava o riso seco, vazio, como se achasse tudo irônico mesmo não sendo. Repensou também se deveria continuar, falar tudo o que passava na cabeça e sua resposta foi que sim. Agora que havia começado, sentia que não aguentava mais guardar. — Ele falou que entendia, que não ia me pressionar e que gostava de mim mesmo assim... Que me amava. Mas ele pressionou, não me entendeu e nem fez questão de realmente me conhecer pra isso. Aparentemente ele só estava apaixonado pelo sexo que a gente fazia, porque era sempre só isso ou ele falando da vida dele com o slogan de “quero que você me conheça mais pra se apaixonar por mim também”. Entretanto era zero perguntas sobre mim. — Naquele momento já não tinha mais vontade de continuar fumando, pressionando o cigarro contra o cinzeiro portátil que vivia acoplado no seu isqueiro. O efeito do álcool começava a ser sentido, deixando-o mais aberto tal como visível o nó que se formava em sua garganta, trazendo consigo a dificuldade em continuar de forma seca, metódica. Estava se entregando a tristeza, aos sentimentos de arrependimento, saudade, dentre outros. — Depois ele só desistiu de mim, como todo mundo desiste. Fez de conta que eu não existia e eu só conseguia me sentir um lixo, porque de certa forma a culpa foi minha. Eu me apeguei, eu cai nas palavras dele e mesmo assim não cedi pra que fosse possível continuarmos algo, afinal sou sempre eu que tenho que ceder já que ninguém nunca se esforça pra me entender e me aceitar como eu sou.
Suspirou, deixando o peso sair de suas costas, apesar de tudo ainda continuar ali consigo. Só não tinha mais que carregar sozinho, que guardar até explodir e se autodestruir outra vez. Levou ambas as mãos ao rosto, subindo para o cabelo e bagunçando-os, como se tentasse se reformular, voltar pros eixos do normal e abandonar aquela carga negativa. Era ruim demais para ter que ficar convivendo com ela até mesmo bêbado, enquanto tentava aproveitar a vida que não era lá tão boa quanto diziam as propagandas.
Chocou-se com a entrega de um maço inteira e, confusa, seu olhar pediu por explicações que não vieram. Agradeceu, segurando o maço e, ao contrário dele, despejava as cinzas da droga em um canto do chão, anotando mentalmente que deveria arranjar um daqueles cinzeiros portáteis e um isqueiro, já que estava disposta a se entregar ao péssimo hábito simplesmente pela vantagem, ainda que momentânea, que ele lhe trazia. Também registrou que não deveria fumar se não fosse em casos de se sentir mal, e então quis rir. Quando é que ela andava se sentindo bem nos últimos dias?
— Eu já tô bêbada, eu prometo que vou tentar. Qualquer coisa te arrasto pro meu quarto pra impedir isso. — Mesmo ébria, sabia que os encontros de Hayato com Ryong bêbado não andavam sendo exatamente as coisas mais saudáveis para os dois, então realmente o levaria para o próprio quarto em caso de necessidade. Podia se entender com as outras ocupantes do mesmo no dia seguinte. Manteve o sorriso nos lábios enquanto ele aceitava a aposta, ela também tendo sua parte como má influência.
Não esperava pelo que veio a ouvir. Quer dizer, era sua intenção, mas Ryong já começou tirando-lhe a maior dúvida de todas: o que ele sentia por seu melhor amigo. Era a pergunta que mais matava a japonesa quando conversava com o outro rapaz e ela mesma não entendia o baterista. Estava, no entanto, ali, querendo compreendê-lo. Quando percebeu a incerteza, se aproximou dele, sentada tão perto que os quadris quase se encostavam. Quis contradizer pontos, mas ao mesmo tempo, só queria escutá-lo. Quase não se sentia bêbada mais; sobre ela abateu-se uma preocupação impossível de se por em palavras. O quão sozinho aquele garoto se sentia... Ela sabia como aquilo era ruim. Ela compreendia aquilo perfeitamente, a falta de esforço alheio para entender seus sentimentos, ser colocado como o vilão da história, tudo. Chegou a se sentir mal, pois ela própria já o tinha julgado tão mal...
Perdeu as palavras por um momento e tudo o que fez foi passar o cigarro para a outra mão e abraçar o moreno por cima dos ombros, aproximando o rosto e lhe dando um beijo amigável na bochecha, demorado. — Eu tô aqui pra tentar te entender, ok? — Queria que ele soubesse que não estaria mais sozinho. Aika ainda discordava de muitos pontos, mas todos eram pouco importantes diante daquela cena que ela não imaginava que algum dia veria. Ultimamente, andava vendo Ryong como um exemplo – um mau exemplo em muitas coisas, mas invejava o quanto ele podia guardar para si e seguiu a mesma linha para poder se reerguer – e então compreendeu que a fragilidade existia em todo mundo. — Você não tem ideia, mesmo, né? Do quanto ele gosta de você. — A menina não possuía direito nenhum de comentar aquilo, contudo jogaria a culpa no álcool depois. Sorria, bem discreta e melancolicamente. Apoiou o queixo no ombro dele por não querer se afastar, mas também porque era mais confortável daquela forma.
O braço que o envolvia se ajustou de alguma forma para ousar fazer um carinho nos fios escuros e curtos. — Você ainda quer tentar ter algo com ele?
Chegou a sentir os olhos arderem minimamente, mas segurou-se, não queria ser mais fraco do que já andava sendo. Sua cota de choro já havia sido batida antes da viagem, depois de sair mais uma vez do quarto alheio sem lembrar-se de nada. Agora ele só queria sentir alivio, apoio, suporte. E tinha isso ali, naquele meio abraço, nos lábios de Aika sobre sua bochecha e suas palavras gentis que serviam pra mostrar que, pelo menos naquele momento não estava mais sozinho. Não era mais o lobo solitário por uma noite.
Assentiu com a cabeça para mostrar que havia entendido, era o seu jeito de demonstrar o apreço qual estava tendo por sua companhia. O seu eu de verdade era assim, não era brincalhão, não contava piadas, não fazia trocadilhos; Era quieto, triste, meio depressivo e não sabia se expressar, nem agradecer suporte. Levou uma das mãos a coxa da japonesa, apertando-a levemente e sem segundas intenções, como uma resposta ao abraço. Porém logo riu, ainda naquele tom nada animador. Realmente não tinha ideia do quanto Hayato gostava de si, a não ser que o garoto demonstrasse aquilo da mesma forma que seu ex, o machucando. — Eu não sei se quero esse tipo de gostar... Não se for exatamente como foi da primeira vez. Por isso não liguei de me afastar, de entrar na brincadeira dele e fazer de conta que ele não existe. — Pegou a garrafa outra vez, voltando a bebericar do saquê com vontade. Ainda não estava no seu pior estado, estava longe disso e precisava sentir-se entorpecido no momento. — Sei que ele é seu amigo e você pode não querer acreditar em mim, mas ele nunca demonstrou ligar de verdade. — Soltou, um pouco mais ríspido do que tinha a intenção. — A única vez que ele pareceu ligar um pouco, foi quando eu fiquei puto com ele...
E mesmo assim, mesmo não querendo nada e querendo se afastar, Ryong continuava indo atrás, pensando, sentindo saudades dele. Chegava a ser horrível não conseguir ficar com alguém sem bater aquela visão de que, preferia com o outro japonês. Seu lado vingativo e que prezava a sanidade gritava de forma insistente para manter afastado, para desistir de vez. Havia parado de ir às aulas com regularidade, até mesmo aceitou viajar pro outro lado do mundo de última hora só para se manter longe, para não ceder. Mas uma parte de si, a que sentia falta de carinho, de amor e uma companhia ainda estava ali e ganhava força toda vez que o via. Era tudo tão complicado, apenas queria desistir, fugir e nunca mais voltar. —Não sei, Aika... Eu... Eu Tenho medo. De me foder outra vez, como acontece repetidamente várias e várias vezes. Realmente não me dou bem com relacionamentos, eu sou quebrado com isso desde a primeira vez que tentei. Sempre me machuco e estou cansado de me machucar, eu bebo e fumo compulsivamente aos dezessete anos porque ainda tenho um monte de buracos. Não quero ter mais alguns buracos e acabar comigo mais do que eu já ‘tô acabado... Por outro lado, sinto falta dele. Se não sentisse, não acordava no quarto dele. — Admitiu, soltando-se de vez para a amiga. Nunca fizera aquilo, não para alguém que continuaria próxima a ele depois da confissão. O máximo que fizera fora falar que estava machucado para sua irmã mais velha, ou para bêbados desconhecidos.
Toda a visão era incômoda e partia o coração de Aika, mesmo por detrás das grossas muralhas que ela tinha colocado ao redor de si nos últimos dias. Queria colocar aquele menino para dentro daquela mesma fortaleza e dar alguma força para ele, contudo, por mais que o ouvisse e o entendesse, também entendia Hayato e, no fim das contas, não entendia porque os dois não conseguiam chegar a um acordo. Pior do que tudo era saber que ele era daquela forma, e não o Ryong que ela conhecia de festas e conversas animadas. Sentiu a mão em sua coxa e não a levou a mal de forma alguma, apenas enlaçou o braço ao dele, apagando o cigarro no chão e soltando a última tragada no ar, apesar de ainda absorver cada palavra com atenção ímpar, ainda mais estando bêbada. Pescava no que ele lhe contava, pedaços de seu passado que sua mente ia conectando usando um pouco de imaginação, mas indo pelo caminho mais óbvio.
— Sim, ele é meu amigo, mas você também é meu amigo. Não vou desconfiar do que você me fala. — Apenas deu-lhe essa segurança antes de deixá-lo continuar. Tudo que saía de sua boca parecia querer sair fazia muito tempo; era quase como se as palavras suspirassem de cansaço por terem ficado presas por tanto tempo. Aika já foi exatamente daquele jeito, mas não por estar quebrada, simplesmente por não ter apoio. E o que vinha a seguir, quase lhe atacou: ela agora bebia tão compulsivamente quanto o coreano e começava a fumar, sendo apenas um ano mais velha que ele. Se ele já fazia aquilo há tempos, ela só podia compadecer da dor que ele sentia, pois mal podia imaginá-la.
E a ideia que ele não conseguia fugir daquilo, mesmo bêbado, que acordava ao lado de quem provocava toda aquela confusão dentro dele... Era demais. A empatia fazia aquilo doer na garota, de tão intenso que tudo parecia ser. Inspirou fundo, pensando em suas palavras com dificuldade. Desejou não ter bebido, pois agora o álcool só a atrapalhava a buscar as coisas certas a serem ditas. Contudo, fazia sua sinceridade já enorme ser maior ainda. — Em termos objetivos – porque ser objetiva é a única coisa pra qual eu presto sem ser forçada – e analisando: você gosta dele. Ele gosta de você. Mas você não quer entrar num relacionamento porque já sofreu. E ele queria que você tivesse algo com ele e só com ele. Só que vocês, apesar de brigarem e se evitarem, ainda não desistiram do que sentem um pelo outro. Vocês precisam chegar a um denominador comum, porque é possível.
Pensou um pouco mais, mas sua mente alcoolizada começou a misturar coisas de novo. — Gostar de alguém nunca é algo... Seguro. Sempre se corre o risco de se machucar. Mas... Vocês dois. Vocês já gostam um do outro. Entende? Não é pelo sexo. Ele não gosta de você só por causa disso. — Suspirou. — Me faltam muitas peças pra completar isso, porque eu não sei como você era com ele, e vice-versa, quando estavam sozinhos. Não sei o que rolava, as palavras que eram trocadas, a forma como vocês agiam. Mas se você tentou evitar gostar dele enquanto se envolvia com ele, isso justifica porque ele acha que você transar com ele era algo impessoal. E provavelmente ele pensou que não devia gostar de você também e tentou fazer o mesmo e vocês inventaram essa ideia babaca de que um só gosta do outro por causa de sexo. E como eu disse, a única coisa pra qual eu presto é ir direto ao ponto: não existe isso de evitar sentir as coisas. Eu te provo que fazer algo pra evitar sentir algo é a maior mentira do universo em menos de um minuto, se você quiser. Ao invés de evitar, você tem que saber o que faz com aquilo.
Personagens: Dokyun (Ryong) & Aika
Classificação: +14 (cigarro e palavrões)
Observações: Parcialmente público (esconderijos da escola).
Assim que terminou de almoçar – algo bem rápido e instantâneo, graças à falta de fome – tratou de avisar o manager que não iria hoje ao treino. Os motivos variavam: da falta de ânimo próprio aos problemas que os outros membros andavam tendo entre eles, além de muitos outros por fora. A verdade era que ninguém da banda andava nos seus melhores dias havia um bom tempo e só parecia piorar. E por mais que adorasse todos os seus hyungs, não queria se meter em mais confusão do que sua mente poderia aguentar.
Felizmente não teria de passar a tarde sozinho, pensando em diversas coisas qual não deveria e talvez bebendo escondido, como andava fazendo nas horas vagas. Dessa forma, sem tardar muito, partiu ao encontro a Aika de forma até calma. Não se atrevia a falar com ninguém durante o caminho e nem se desviar, era como se fosse apenas mais um dos fantasmas da escola – um daqueles bem mal encarnados. Porém tratou de mudar o semblante ao bater de olhos com a japonesa, ainda ao longe.
— Eu sempre achei que aqui atrás tivesse um ar meio proibido, tipo o lugar perfeito pra fazer coisas que ninguém faria. — Comentou ao se aproximar de vez, com um sorriso fraco contornando os lábios. Não se atreveu a perguntar como ela estava e coisas clichês do tipo, afinal, todo mundo envolvido com a situação – mesmo só parcialmente – sabia como ela e os outros provavelmente estavam nada bem.
Desde o jantar com sua mãe, Aika não tinha fome alguma. Tudo parecia desmoronar na sua frente e, honestamente, a última coisa com a qual ela queria se preocupar era comida. Estava bem mais calma que no dia anterior, mas igualmente mais abatida. Aguardava pelo baterista sentada, abraçando as próprias pernas, de calça jeans rasgada nos joelhos, allstar e camiseta preta; seu cabelo estava preso de qualquer jeito, com muitas mechas soltas. Tinha o celular na mão e, verdade seja dita, estava ali fazia muito tempo, naquela mesma posição. Não queria ficar no quarto enfrentando perguntas ou correndo o risco de alguém ir procurá-la, embora Aika duvidasse veementemente que alguém no mundo ainda se importava com ela.
Quando viu Ryong, ergueu o rosto e quis sorrir, mas não tinha forças para fazer as duas coisas convincentemente. Sorriu mais pelo automático, ao ver que o garoto o fazia. — É bem por aí mesmo. — Conseguiu demonstrar uma lasca de humor genuíno. — Obrigada por ter vindo. Achei que não viria. Queria pedir desculpas à você, por causar problemas pra sua banda.
Era bom ver que mesmo depois de tudo, Aika ainda conseguia sorrir apesar de não tão forte como sempre. Mas Dokyun era a pessoa que menos poderia julgar, andava sorrindo cada vez mais fraco e ensaiado. Entendia que ambos estavam em situações parecidas de abatimento, de desistência, por mais que as situações fossem completamente diferentes. Sentou-se ao lado da japonesa, as pernas dobradas de forma que pudesse apoiar os braços e observar a pouca paisagem que tinha por ali.
— Você não precisa pedir desculpa pra mim... Não é sua culpa se eles não sabem se comportar como gente e perderem a cabeça tão fácil. Nem parecem mesmo Hyungs, de tão infantis que foram. — Suspirou, procurando por algum cigarro escondido nos bolsos da calça, camisa e o casaco xadrez que carregava em mãos. E assim que achou um com muito sacrifício, ascendeu, aproveitando a localização escondida pra se satisfazer das vontades. Andava fumando mais do que nunca. — Quem precisa me pedir desculpa são eles... Nessa bagunça toda, aparentemente você é a que mais tem razão e a que menos precisa se desculpar por algo. Mesmo eu não saiba exatamente de tudo em detalhes. — E não mentia. Levando em consideração o que estava sabendo de todo o caso, não podia se colocar do lado de nenhum dos dois garotos, principalmente do lado de Kou.
Depois de dar espaço ao moreno para se sentar ali e ao enunciar sua intenção ao encontra-lo, a garota se encolheu um pouco novamente, ainda agarrada às próprias pernas. Que inusitada era aquela cena e até a ausência de reservas da japonesa em relação ao coreano naquele momento. Sua cabeça parecia ocupada demais para ela se lembrar que não conseguia ser natural perto dele.
Aika saiu de toda sua melancolia para ganhar um ar genuinamente surpreso. Voltou o rosto para o mais novo e o encarou por segundos antes de conseguir se lembrar como falava. — Onde eu tenho mais razão nessa história? Se eu nunca tivesse me aproximado do Jihoon, nada disso teria acontecido. — Que história Ryong tinha ouvido? Aika não conseguia parar de se perguntar aquilo. — O que te contaram? Quem te contou? — Ainda assim, assistiu-o com os cigarros e decidiu que queria fumar também. — Me dá um, por favor? Dizem que acalma, acho que eu preciso testar isso com meus próprios pulmões. — Não fazia ideia se ele lhe daria um cigarro, mas ela queria desesperadamente algo que lhe fizesse mal.
— Mesmo assim, eu quero pedir desculpas. Eu sinto que devo desculpas tanto a você quanto ao Taeyang. Isso tudo influencia demais na vida de vocês. Eu realmente fui egoísta. — Sempre que pedia desculpas, era como se marcasse em si, de alguma forma, para nunca mais se deixar levar por sentimentos de novo.
Tragou com vontade o cigarro, até que não conseguisse puxar mais as químicas para seu pulmão, deixando em seguida a fumaça juntar-se ao ar livre da escola. Por um momento, sua mente deixou de lado o foco da conversa, lembrando que deveria tratar de comprar um mais forte já que aquele não estava dando tanta conta. Deu de ombros, quando Aika pronunciou-se, um tanto surpresa com o seu posicionamento. Deixou um riso seco, quase irônico escapar ao jogar as cinzas do cigarro em seu cinzeiro portátil – acoplado ao isqueiro.
— Taeyang me contou, já que eu não quis ver os outros dois. Resumindo, ele me disse que você foi pega por Kou no quarto do Jihoon. Kou perdeu a cabeça, falou merda, Jihoon se emputeceu e eles brigaram. — Disse sem enrolar muito, não queria relembrar a garota do acontecimento e a fazer sentir-se mal outra vez. Tragou o cigarro mais uma vez, oferecendo-o para a japonesa graças ao pedido. Não estranhou, muito menos negou ou questionou a escolha. — Ele é um pouco forte. — Como não sabia qual era e experiência dela com a droga, achou bom avisá-la, não queria ser xingado por seja lá o que.
— E Aika... Não é certo se culpar por se aproximar de alguém, por criar um laço, ou seja lá o que vocês tenham. É a sua vida, suas escolhas e não vale a pena ficar se privando por causa de outros. Você é livre, não é de ninguém, é uma mulher independente. — Por mais que não conhecesse a garota como os outros colegas de banda, só falava a verdade que todos carregavam. Ninguém era de ninguém naquele mundo e não achava correto todo o peso cair só por suas vontades. — Eu não sei a fundo do caso, só que você e o Kou já tiveram algo. Isso não dá permissão nenhuma a ele de querer você sem conhecer outras pessoas e se aproximar delas. Mesmo que seja o Jihoon... Kou precisa aprender que ninguém é propriedade de ninguém. Não é egoísmo seu matar as próprias vontades... E se for, então somos todos.
Pendeu a cabeça para trás, fechando os olhos e deixando se levar pelo local. Gostava de ficar fora, de não ter quatro paredes a sua volta e fazia tempo que não se sentia bem o suficiente para isso. Ou era o quarto, ou a empresa. — Você pode se desculpar o quanto quiser pra mim, mas eu ainda vou achar desnecessário, fazer de conta que esse pedido de desculpas nunca existiu.
Encarou o cigarro aceso com estranhamento quando o pegou entre os dedos, mas sabia segurá-lo e, em tese, como tragá-lo. Mas preferiu ouvir o que ele tinha a dizer antes. E o que ouviu era um reflexo do que, analítica e verdadeiramente, poderia resumir e resolver a situação, mas ninguém parecia ter a capacidade de observação que o garoto demonstrava naquele momento. Nem mesmo a própria Aika, que precisou ouvir aquilo para entender que concordava e que aquela tinha sido sua resolução da briga anterior a essa que tivera com o outro japonês.
— Eu o Kou namoramos por pouco mais de um ano... — Explicou para ele com a voz ainda meio fraca e decidiu fumar. Puxou a fumaça e quando tentou prendê-la nos pulmões, tossiu quase toda a fumaça para fora, sem saber se era por inexperiência ou porque achou aquilo forte demais. Seus olhos chegaram a arder e, enquanto se recuperava, deixou o cigarro à disposição do moreno, caso ele quisesse. Ainda o escutava com atenção, abafando a tosse vestigial com a mão. — É mais ou menos isso mesmo... Mas eles... Eles gostam um do outro. — Era a primeira vez que Aika parava para falar naquele aspecto de tudo e sequer sabia se deveria falar, mas como Ryong parecia a única pessoa que não a estava condenando ao inferno, parecia o momento de assumir aquilo para si, em voz alta. — E mesmo assim, mesmo eles gostando um do outro, eles ficaram comigo. — Riu, sem humor nenhum. — Acho que eu que fui otária por acabar sentindo algo pelos dois. Três é sempre demais e alguém sempre sobra. O no meu caso, sobra e ainda leva a culpa de tudo.
Embora se sentisse triste, parecia que o que estava entalado na sua garganta tinha saído e ela chegou a tentar tragar o cigarro mais uma vez. Dessa vez, tossiu bem menos, conseguindo soltar toda a fumaça antes de o fazer. — Me desculpe, eu não deveria desabafar pra você. Não somos tão próximos. Mas você é a primeira pessoa que se prestou a me ouvir sem querer me mandar à merda. — Sentiu vontade de chorar, mas não queria e não poderia fazer aquilo na frente de Ryong. — Eu também não deveria fumar os seus cigarros... Mas aqui estou, fazendo o que faço de melhor: fazendo coisas que não devo. — Riu novamente e pelo menos dessa vez, por mais triste que fosse o fato, ela parecia realmente achar aquilo engraçado de alguma forma. — Obrigada.
Provavelmente era uma pessoa horrível, mas só conseguiu rir ao vê-la engasgar com o cigarro. Uma reação clássica e automática de seu ser, como se os outros fumando pela primeira vez fosse uma bela de uma piada. Entretanto não se prolongou, afinal, não era totalmente sem coração e tinha conhecimento do peso daquele assunto. Retomou a posse da droga, colocando-a entre os lábios e apreciando enquanto absorvia toda a resposta de Aika. Era bom esquecer dos próprios problemas ouvindo o dos outros, apesar de ser o tipo que não gostava de ver os outros com problemas. Por isso sempre tentava ajudar como agora.
Não podia negar que a japonesa estava em uma situação horrível. Deduzindo que não era adepta do poliamor, claramente. Nunca era bom um triângulo para aqueles que por natureza preferiam a exclusividade. ㅡ Mesmo assim, mesmo um com o outro eles queriam te ter também. ㅡ Balançou suavemente a cabeça como negação. Não conseguia entender e muito menos defendes seus hyungs naquela situação, estavam sendo verdadeiros idiotas. ㅡ E você ainda estava se achando a egoísta... Sinceramente. ㅡ Chegava a ser engraçado, porém não se deixou rir, mesmo que de forma sarcástica. ㅡ Eu fico triste por saber que você tem levado a culpa por uma merda inteiramente deles. São os primeiros a levantarem a bandeira da exclusividade, porém os que menos representam ela. Querem um ao outro de forma exclusiva e ainda querem você sendo só de um deles... Um relacionamento onde todos são propriedades, mas não eles. Eles não podem ser exclusivos. ㅡ Com mais uma tragada longa, acabou oferecendo o cigarro mais uma vez a Aika. Sentia que ela precisava, que seria bom um pouco de algo ruim. Era um de seus remédios, normal achar que ajudaria outros também. E dessa vez não riu da tentativa ainda frustrada dela.
ㅡ Pode desabafar sempre que precisar, sou um bom ouvinte apesar de nem sempre um bom conselheiro. ㅡ Tentou um tom mais suave, quase carregando um ar de brincadeira. Apenas uma necessidade de amenizar o clima ruim. Afinal, já bastava suas mentes muito provavelmente estragadas e consumidas pelo pior. ㅡ Acredito que é melhor desabafar com quem menos somos próximos. É como se, quem estivesse de fora da roda pudesse ter uma visão mais clara dos acontecimentos. ㅡ Não queria dizer que ele tinha razão nas coisas que falava sobre o caso da japonesa. Porém era algo que costumava tentar acreditar, por mais que Dokyun nunca desabafasse com ninguém. Sabia que um dia iria explodir daquela forma, mas como não sabia quando, continuava com aquele costume. ㅡ Eu tenho um monte escondido no quarto, um não vai fazer falta. ㅡ Acompanhou o riso feminino, sentindo os ares suavizarem um pouco. ㅡ Pra que seguir as regras? Já somos fodidos mesmo, um pouco mais é como se não fosse nada. ㅡ Preferiu ignorar o agradecimento, não sabia lidar com eles. Entretanto deixou um sorriso suave no rosto, sentindo-se um pouco melhor diante de tantas coisas ruins acontecendo.
— Não acho que eles queriam me ter... Eu... Não sei o que eles pensavam. Não quero culpá-los, eles já estão passando por tanta coisa. — Ela sabia até onde aguentava e, melhor ainda, tinha medo de como as reações dos garotos seriam. Gostava ou achava que gostava de ambos, mas sabia que eles não se davam bem com frustrações. Aika era objetiva, analítica e decidida. Não só isso como era uma ótima atriz em fingir que estava tudo bem, ela só precisava voltar a um limite onde suas dores não fossem tão grandes que ela conseguisse fazer aquilo. — É só que, parando pra pensar nisso agora, eu sinto como se eu tivesse sido uma distração pra ambos, quando eles queriam outra coisa. Não é uma sensação... Boa.
Se sentia usada, mas não queria usar essa palavra por entender que não era a intenção de nenhum dos garotos. Acreditava que eram só três adolescentes confusos. Dividia o cigarro com ele, as tragadas seguintes parecendo menos sofridas. Não tinha gostado exatamente, mas talvez porque aquilo era forte para ele e extremo para ela, ela sentia sua pressão baixar, mas não de um jeito ruim. Era como se ficasse mais leve. Compreendia agora porque uma grande parte de seus amigos recorria aos cigarros. Aliás, não tinha achado ruim que ele tinha rido. Na verdade, gostou de ouvir o riso dele. Sorriu, fraquinho, mas sorriu.
— Fale assim comigo e você vai começar a ter que lidar comigo quase sempre. Se bem que não seria nada ruim me tornar sua amiga... — Não para ela. Recentemente descobrira que Ryong era bem diferente do que pensava. Deixou o cigarro com ele de vez, achando que era melhor parar. — Mas você também. Sei que provavelmente não vai, mas se em algum momento precisar de alguém pra te ouvir, também costumo ser uma boa ouvinte.
— Não é uma sensação boa mesmo. — Concordou, por experiência própria. Apesar de não ser exatamente o caso, Dokyun sentia-se usado também, enganado. E novamente voltava a ser assombrado pelos próprios fantasmas de sua mente. Suspirou baixo, numa tentativa falha de afasta-los outra vez. Manter eles ali não seria muito útil em ajudar Aika.
Assim, apenas se permaneceu calado, sem algo realmente importante para compartilhar além do cigarro. Este que já se encontrava acabando. Na próxima andaria com um cigarro mais fraco para oferecer, talvez ela gostasse mais. E lá estava ele, já pensando em uma parceria. Afinal, atualmente andavam mais juntos e isso tudo por causa dos problemas. Nada parecidos por sinal, porém com sentimentos e resultados aparentemente semelhantes. Não era ruim tentarem se ajudar, mesmo que fosse apenas para compartilharem cigarros e bebidas em meio a um silêncio reconfortante livre de julgamentos.
— Eu não ligo, gosto de tentar ajudar... Mesmo só ouvindo. — Sorriu, matando o cigarro com tragadas seguidas, afundando-o em seguida no fundo falso do isqueiro. — Não sou muito bom botando as coisas pra fora. É como se as coisas piorassem assim, sabe? — Tentou explicar, mas não conseguia pensar em nenhum exemplo bom e nada grotesco, então apenas deixou pra lá. Guardou o isqueiro no bolso após recolocar o fundo no mesmo e então se levantou. Desferiu algumas batidas com a palma da mão pela roupa antes de pegar o casaco caído no chão, sacudindo-o antes de amarrar na cintura. — Mas obrigado pela oferta, de verdade. Quem sabe um dia... — Tentou ser sincero, pois estava realmente grato pela oferta e a talvez preocupação da japonesa. — Só não estranhe se eu estiver bêbado. — Brincou com um riso fraco, não muito animado. Era uma brincadeira masoquista, levando em consideração o que havia feito enquanto bêbado, indo parar onde não devia e nem queria. Mas era melhor dar risada, no fim das contas. ㅡ Vai ficar mais um pouco aí?
— Você vai implodir assim. — Sabia bem daquilo, passava por aquilo de tempos em tempos. Mas era um mero aviso. No fim das contas, aquela conversa toda tinha sido muito melhor do que ela tinha esperado e ajudou-a a aliviar o peso de algumas coisas, coisas que ela talvez não ousasse repetir para ninguém considerando o tanto que elas ainda doíam em seu coração.
Assistiu-o se levantar e desejou que ele ficasse um pouco mais, mas sabia que não poderia pedir isso, sabia que ele não andava em seus melhores dias também. — Se você não quiser falar enquanto sóbrio, tudo bem. Eu me ofereço pra te fazer companhia. Se você estiver bêbado, não tem problema também, eu até cuido de você. Mas... Me chama pra ficar bêbada também, pelo menos às vezes. — Abriu um sorriso, um pouco maior. Por mais errado que fosse aquele trato que ela propunha, parecia algo que os dois andavam se entendendo bem ao fazerem juntos.
— Acho que vou... Não é como se eu pudesse ir para muitos lugares também. Suspensa, limpando a escola todos os dias e sem poder sair da escola sem o manager ou minha mãe. — Deu de ombros, suspirando. — Mas fiquei a semana passada inteira de cama por estar doente. Pelo menos agora eu estou saudável e posso sair do quarto. — Percebeu que estava tentando ser positiva e provavelmente Ryong tinha sua culpa naquilo, mesmo que não soubesse; tinha ajudado a organizar ao menos um norte por onde Aika guiaria suas ações. — Qualquer coisa... Você tem meu número, não? Me manda mensagem. Mesmo que seja pra jogar conversa fora.
Por fora ignorava o aviso da japonesa, tal como sempre fazia a todos com comentários parecidos. Mas por dentro sabia da verdade naqueles avisos, já havia experimentado-a algumas vezes. Além disso, não duvidava que surtaria a qualquer momento outra vez e como não seria bom o resultado. Ao menos esperava que não machucasse mais ninguém além de si próprio.
Retribuiu as palavras com um sorriso cúmplice, gostava da ideia. Aika era uma ótima companhia para beber, divertida e não o criticava por exagerar. Ambos só ganhavam com aquele trato. — Fechado, você foi promovida a minha nova companheira. Ainda bem que eu não acredito em inferno, pois iria parar em um sendo péssima influência pra você. — Apesar de suas dificuldades, ainda conseguia ser um pouco divertido, era bom saber disso. Ainda não havia se destruído totalmente, ou então sua atuação havia apenas elevado a níveis que nem mesmo conhecia.
Deu de ombros para a resposta da garota, afundando ambas as mãos no bolso da calça Jeans. — Pelo menos algo bom... O visual da escola consegue ser bem agradável às vezes. Aproveita por mim, okay? — Comentou mais pelo fato de atualmente viver trancado em algum cômodo, mesmo quando na escola. E por isso não ficaria tanto ali com Aika. Iria aproveitar um pouco para sumir do mapa, já que havia faltado o ensaio do dia. Talvez acabasse indo para o Han River, ou até algum parque. — Pode deixar, ainda vou te encher bastante... E o mesmo vale pra você. Se precisar, pode me chamar, sempre arrumo um tempo pra quem importa. — Sorriu bem mais abertamente que das outras vezes, oferecendo uma piscadela como resposta. — A gente se fala por ai. — E lá estava sua deixa, retirou uma das mãos do bolso pra um aceno rápido, saindo de cena para aproveitar um pouco a própria melancolia sozinho. Apesar de um pouco mais positivo depois daquilo.
001 — With: “Friends just sleep in another bed
And friends don’t treat me like you do
I know that there’s a limit to everything
But my friends won’t love me like you
And then again if we’re not friends
There will be nothing I could do;”
002 — Without: “It was not your fault but mine
And t was your heart on the line
I really fucked it up this time
Didn't I, my dear?”
Nos últimos dias sua melhor amizade era algumas – muitas – boas doses de bebidas alcoólicas, independente de onde estivesse. Sempre acabava bebendo. Era o seu refúgio, um alívio para sua mente complicada. O cigarro era só uma consequência. Naquela noite em especial não tinha para onde sair, ninguém estava disposto depois de festejarem no sábado. Então a solução era beber sozinho no quarto mais uma vez. Sorte sua sempre conseguir mais bebida para esconder, principalmente estando sem roommate, só facilitava pra que conseguisse ficar bêbado. E uma vez muito bêbado, nem Dokyun conseguia saber o que acabaria fazendo. Entretanto, conseguiu se superar ao sair do quarto e sem rumo, automaticamente parar justamente em frente aquela porta. A verdade é que na hora realmente não fazia ideia de quem era, só desferiu algumas batidas – talvez fortes demais – e esperou pela surpresa. E que surpresa.
Com um sanduíche entre os lábios e as mãos ocupadas enquanto se divertia com um jogo qualquer de simulação de corrida, o japonês acabou levando um baita susto com aquelas batidas. Taewoo havia esquecido as chaves? Bem, lhe restava ter que abrir a porta e claro, reclamar. Estava tarde e o que lhe custava mandar uma mensagem? Mas a surpresa fora bem maior até porque não esperava ver o rapaz tão cedo. Parado enquanto segurava a maçaneta, Hayato olhava para o coreano à sua frente com receio, na verdade era apenas medo de ouvir novamente aquelas palavras rudes mas como pensou logo em seguida: ele não está pensando direito. — ... Seu quarto é no andar de cima, Ryong. — O observou mais um pouco e até esticou uma das mãos para poder fitar melhor o rosto alheio. — Você bebeu tanto assim?
Franziu o cenho ao dar de cara com Hayato ali, reclamando como se Dokyun fosse seu colega de quarto. Voltou-se aos números do quarto na porta, deixando seu rosto iluminar-se com entendimento. ㅡ Eu sei disso, sai de lá agora. ㅡ Respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, mesmo que Hayato não fizesse ideia do fato. ㅡ Não, pff. ㅡ Desdenhou, entretanto, da pergunta. Inclusive, arrependendo-se de não ter comprado mais bebida, já sentindo necessidade de mais no organismo. Mas foi só pensar que ficou levemente tonto, efeito pelo mundo não estar muito parado no lugar dele. As vezes era uma merda quando ele decidia rodopiar feito uma beyblade. Precisou buscar apoio no japonês a sua frente, não tendo muito tempo para pensar e muito menos para se arrepender. Ou era aquilo, ou daria de cara no chão provavelmente. ㅡ Vamos ficar aqui na porta pra sempre? ㅡ O tom agora era baixo, já que a dança do mundo fazia seu estomago querer dançar, dando-lhe certa vontade – passageira – de vomitar.
Mesmo que fosse estranho não negou ajudá-lo. Segurou o corpo do rapaz com o braço e então fechou a porta, podendo assim levá-lo até sua cama. Agora que tinha um roommate, se negava à deitar naquela cama até porque, não era mais sua. Deixou Dokyun sentado ali e correu para o banheiro afim de poder pegar algum balde caso ele realmente vomitasse. ㅡ Você quer alguma coisa? ㅡ Suas mãos colocaram os fios negros do garoto para cima, ele parecia um pouco suado, na verdade, também estava e isso o fizera ligar o ar um pouco. Aquela noite iria com certeza ser bem calorenta. ㅡ Eu não tenho bebida aqui, desculpe. ㅡ Claro que não estava se desculpando de verdade mas... nem ele sabia porque estava se desculpando.
Não hesitou em ser guiado até a cama já bastante conhecida, sentando sobre a mesma de forma como se estivesse no próprio quarto. Enquanto Hayato parecia correr pra lá e pra cá, Dokyun apenas observava o quarto e suas poucas mudanças, mas sem realmente pensar muito. Era como olhar para um quadro abstrato, nem fazia questão de entender. ㅡ Cadê o outro garoto? O rapper bonitinho com cara de hétero? ㅡ Pra que travas na língua, não é mesmo? O baterista não passava do clássico caso de beber e perder a noção do que deve ou não falar. Mas não fazia diferença, era Hayato. Ou melhor, normalmente nem chegaria perto daquele quarto, pra quem já estava molhado, o que era uma gota d'água? Parou pra tentar pensar na pergunta do japonês, não conseguindo extrair nada. O que ele queria? Era tão complicado que já nem lembrava mais. ㅡ Eu queria ver o céu no terraço, mas parei aqui. ㅡ Chegou a se embolar um pouco, tendo de se concentrar para formular a frase corretamente. E do nada, retirou a camiseta, jogando-a pelo quarto alheio antes de se deitar na cama como se fosse o dono para que pudesse olhar o teto com certo interesse. ㅡ Você tem música? ㅡ O que uma coisa tinha a ver com a outra? Nada. Mas era assim que Ryong estava funcionando.
Queria ir no terraço? Aquela sem duvidas fora a desculpa mais esfarrapada que ouvira e até conseguiu retirar um sorriso do rosto do japonês. ㅡ Trocou a escada de subir com a de descer? ㅡ Se colocou em pé, já que antes estava de joelhos e apanhou a camiseta sobre o chão. ㅡ Taewoo-hyung está em Busan, não sei quando ele volta. ㅡ Dobrou a peça e a deixou sobre a mesa, se ele precisasse ela estaria ali e então retirou o celular do bolso, entregando para o garoto. ㅡ Aqui, pode escolher. ㅡ Se deixou sentar sobre a cadeira de sua mesa e até mesmo rodopiou um pouco. Aquele quarto era tedioso demais para ficar sozinho e por um momento agradeceu pelo outro estar ali, mesmo estando bêbado e provavelmente não lembrando de nada no dia seguinte. Suas pernas foram colocadas sobre a mesa, ocupando um pouco o espaço que não lhe pertencia mas bem, ele era alto e precisava de espaço para poder fazer aquilo e também, queria aparentar estar tranquilo para o outro.
ㅡ Se tivesse elevador não acontecia. ㅡ Respondeu entre risos, achando algo idiota engraçado. Ou talvez só tivesse lembrado de alguma piada sobre pontos coloridos. A cama alheia estava confortável, apesar de tudo ainda parecer girar, estava menos tonto. Principalmente quando decidiu fechar um pouco os olhos. Mas não conseguia ficar muito tempo assim, era cedo demais pra preguiça. ㅡ Que pena... Busan é um saco. ㅡ Só havia ido uma vez, porém só queria falar que alguma coisa era chata mesmo. A palavra estava soando agradável. Pegou o celular sem maiores delongas, rolando no colchão para ficar de lado enquanto passava o dedo pela playlist do japonês sem realmente passar o olho. No fim, colocou uma música qualquer e jogou o celular ao seu lado, voltando a deitar com as costas. Suas mãos logo não quiseram ficar paradas, batucando o ar como se tocasse uma bateria invisível no ritmo da música. E pra completar, ainda fazia alguns barulhos do instrumento com a boca. Queria animar, jogar aquela emergia acumulada fora. Talvez tivesse sido melhor ir para alguma festa, mas agora estava ali já. Empolgado, depois da música trocar, Dokyun tentou se levantar, mas falhou miseravelmente desistindo e se jogando outra vez na cama, agora na transversal. Deixou a cabeça ficar um tanto pendurada - péssima ideia - enquanto observava mais ou menos Hayato. Ele era tão bonito, nem parecia que ajudava a destruir sanidades. Riu do próprio pensamento, talvez um pouco mais do que deveria. ㅡ Como anda a relação com a Flora? Já disse que ama ela? ㅡ Era claro a provocação, a comparação na cabeça do coreano também era clara. Mas não fizera na maldade. Estava bêbado demais para pensar em querer ferir o outro, assim como para segurar a boca sobre todo pensamento que tinha vontade de por pra fora achando ser legal.
Ao máximo tentou controlar sua vontade de olhar para o rapaz que estava jogado sobre sua cama, na verdade Hayato queria esquecer aqueles sentimentos que tinha e tivesse que atuar o tempo inteiro com certeza atuaria. Queria se convencer de que aquele era o melhor caminho. O jeito que Dokyun era realmente engraçado, a música tocava sobre o vento, seus lábios acompanhando... Estava realmente louco de notar tantos detalhes que até mesmo bagunçou seus fios claros. ㅡ Eu sempre digo que a amo. ㅡ Disse de um jeito brincalhão mas claro que havia sua porcentagem de verdade naquela frase. Hayato, Flora e Aika compartilhavam demais de seus carinhos e até brincavam sobre namorar, mas na última festa havia trocado beijos com a que fora citada na frase do baterista e bem, talvez ele tivesse pensado em algo. No final de contas, não precisava se alterar além de levar aquilo como uma grande brincadeira até porque, sabia que o outro não iria se lembrar daquela conversa no dia seguinte.
A resposta não era nada além do esperado, mesmo para alguém que estava bem fora de si. ㅡ Coitada... É o próximo alvo. ㅡ Comentou entre risos mais uma vez, sentando-se na cama. Levou uma das mãos a cabeça, como dava pra perceber, ficar de cabeça pra baixo bêbado não era nada bom. Fechou os olhos e tentou engolir aquele enjoo, sumir com a vontade de vomitar outra vez. Queria provocar mais o garoto, alfinetar ele enquanto ainda conseguia. Mesmo que fossem de uma forma qual não machucaria – ou almenos imaginava que não. Entretanto não conseguiu se conter, pegando assim o balde ao pé da cama e vomitando o que tinha dentro dele. O efeito colateral do álcool finalmente batia na porta de Dokyun e não era nada bom. Levantou-se, cambaleando e sem muito rumo – de inicio – até chegar ao banheiro para poder lavar o rosto. O problema agora seria pra voltar, acomodando-se preguiçosamente no sanitário do cômodo, não se sentindo mais tão vivo e animado como antes.
Por alguns minutos não quis incomodar o rapaz, achava que ele precisava daquele tempo para poder ficar só. Mas quem queria enganar? Hayato o conhecia o suficiente para saber que ele estaria jogado em algum canto e bem, estava certo. ㅡ Estou aqui. ㅡ Falou com um sorriso no rosto, um sorriso calmo que com certeza era o único que sabia dar após tantos machucados. Segurou um dos braços do garoto e o puxou, colocando força suficiente para levá-lo novamente até a cama, onde o manteve deitado e dessa vez, sentou-se na ponta do colchão apenas para que ele pudesse sentir um pouco que o japonês não iria a lugar algum. ㅡ Quer beber água? ㅡ Apoiou o rosto em uma de suas mãos e assim passou a olhá-lo, mas agora, seus cabelos estavam bagunçados devido ao esforço que fizera e as seus próprios dedos que o desarrumaram.
Dokyun queria reclamar, retrucar as palavras de apoio que Hayato lhe dava. O que estar ali significava quando no fim realmente não estava? Ou então o baterista só começa a delirar mesmo. E no fim, não conseguiu falar nada além de uns resmungos baixos e indecifráveis até para si. Deixando-se ser levado mais uma vez de tantas vezes naquela noite. Inicialmente apenas sentou na cama, ainda querendo lutar contra a moleza repentina causada pelo excesso de bebida. Entretanto não estava forte o suficiente, acabaria vomitando outra vez e por isso deitou. Odiava vomitar. Respirou fundo enquanto sacudia uma das pernas com a intenção de não se deixar cair no sono, ponderando sobre querer água ou não. ㅡ Queria um chiclete. ㅡ Comentou, já que sem escovar os dentes, ainda sentia sua boca meio suja. Uma bala também ajudaria. Ou talvez o ideal fosse dormir, mas não queria. Levou o olhar novamente para sobre Hayato, que o observava igualmente e sorriu de forma meio afetada em resposta. Porém não desviou o olhar, continuou a analisa-lo quase que profundamente, se não estivesse acabado o suficiente pra isso. ㅡ Cortou o cabelo? ㅡ Arqueou uma das sobrancelhas ao perguntar, notando alguma diferença que não sabia no japonês.
Por vezes era meio confuso dizer com certeza se ele estava realmente bêbado, ele estava tão mais fácil de conversar do que as últimas vezes que no fundo o japonês queria acreditar que ele não estava sobre o efeito do álcool. Novamente levantou-se e fora até onde sua mochila estava, tirando algumas balas que sempre carregava consigo até mesmo para caso de alguma emergência, mas uma era o suficiente e então entregou para o garoto que ainda estava deitado sobre sua cama. ㅡ Sim, eu cortei. ㅡ Falou aquilo sem tirar o sorriso do seu rosto, até porque não havia motivos para não sorrir. Hayato estava bem, estava ajudando um amigo e bem, isso era algo normal de si. ㅡ É de menta, acho que vai tirar o gosto ruim. ㅡ Dessa vez, preferiu puxar a cadeira para perto e se sentou, desembrulhando um pirulito que havia pego para si e o colocando na boca.
Era engraçado ver Hayato zanzando pelo quarto, não ficando quieto. Tanto que pensou eu mais várias outras coisas para pedir na intenção de vê-lo fazendo as coisas. Não fazia ideia do porque estava tento tais vontades, mas parecia legal na sua cabeça. Pegou a bala e logo colocou-a na boca, sem nem saber do que era. Um alivio grande, sem dúvidas. ㅡ Ficou infantil, quase um Justin Bieber. ㅡ Criticou o corte, sem muita importância para o tópico, virando-se para ficar de frente ao japonês e continuar sua aventura em observa-lo. ㅡ Você cansou mesmo de tentar me seduzir. ㅡ Riu como se tivesse acabado de contar algo deveras engraçado. E na sua mente distorcida, era mesmo. Era muito engraçado ver que já havia sido dispensado e trocado daquele amor que ele falava. Era um humor quase masoquista, porém só era humor por estar alterado. ㅡ Tenso, e se afastando também. ㅡ Rolou mais uma vez na cama, fechando os olhos e relaxando. Estava começando a ficar estranho, talvez não tão mais divertido, talvez uma ideia bem ruim.
Talvez estivesse mesmo atuando do jeito que queria e se a noite continuasse daquela forma, estaria ótimo. Deslizou as mãos novamente pelos próprios fios, jogando-os para trás, era estranho mesmo estarem tão curtos. ㅡ Cansei? ㅡ Deu uma risada rouca e grave. ㅡ Do que está falando? ㅡ Levantou-se novamente e se ajoelhou onde ficava o rosto do coreano e passou a lhe deixar carícias sobre seus fios negros, aqueles fios que Hayato tanto gostava de tocar e sentir. ㅡ Por hora, descanse. Se precisar de alguma coisa é só chamar... Estarei sempre aqui. ㅡ A sua vontade era de beijá-lo mas sabia que estaria sendo invasivo demais e não era sua intenção, havia prometido que não iria mais atrapalhar a vida do outro mesmo sendo tão difícil não querer estar sempre perto cuidando de tudo. Se pôs de pé e curvou o corpo, deixando um selar sobre a testa alheia e afastando-se rapidamente junto com a sua cadeira, colocando-a no seu lugar de origem e sentando-se naquele local para voltar a jogar no seu tablet.
Assentiu, murmurando um breve "uhum" arrastado em resposta. Mas já não tinha mais vontade de responder a última parte. Não sabia do que estava falando, não sabia o que estava fazendo ali. Só sabia que havia posto na cabeça que precisava ir ali mais uma vez. Pra quem havia desistido, Dokyun estava indo de mal a pior. Abriu os olhos com dificuldade apenas para ver Hayato mais uma vez, talvez a última da noite. E já sem máscaras – graças a bebida – seu olhar era carregado de angústia, tristeza e principalmente arrependimento. Agarrou de forma fraca o tecido da camisa alheia, como se não quisesse que ele se afastasse, não ainda, que o momento durasse um pouco mais. Parecia um momento falso de calmaria em um rio movimentado, era de certa forma maravilhosa aquela ilusão momentânea e era um dos motivos de andar bebendo tanto. Porém não resistiu as carícias e logo fechou-os uma ultima vez, largando-o e pegando no sono antes mesmo de poder sentir os lábios de Hayato mais uma vez em sua pele. Entretanto de uma forma tão diferente quanto de todas as outras vezes.
Como era uma morte horrível acordar depois de beber tanto. Podia fazer isso todo dia, mas não tinha jeito, não tinha como se acostumar com a boa e velha ressaca. Aparentemente não havia amanhecido direito, pelo que sentia, entrava pouca luz no quarto ainda. Um pouco relutante, tomou coragem para abrir os olhos. Se tinha uma coisa que havia aprendido depois de beber tanto várias vezes seguidas era de que cortando a preguiça logo, as coisas melhoravam mais rápido. E também beber melhorava, porém imaginava ter acabado com tudo que tinha ontem. Entretanto, assim que levantou o tronco do colchão, sentando no mesmo e passando o olho pelo quarto, percebeu que não era seu quarto. Não tinha nada para ficar surpreso aparentemente, não de cara. Porém ficou, assim que identificou a quem pertencia, principalmente depois de repousar os olhos sobre o japonês dormindo sentado todo torto. O que Dokyun estava fazendo ali? Era o ultimo lugar do mundo qual queria parar em Seoul, não era possível. Após perceber o tronco desnudo, precisou conferir se pelo menos calça vestia. Apesar de não ser tão necessário assim, caso tivessem transado Hayato certamente não dormiria numa cadeira. Levou uma das mãos a cabeça, tentando raciocinar com aquela dor alucinante. Que bela droga. Saiu da cama incerto, precisando de uma boa água gelada na cara, além de água no organismo também, invadindo o espaço já conhecido para pegar e ingerir de forma rápida uma garrafinha de água. Depois de todo o processo, tinha que arrumar a merda ali. Era segunda e não iria pra aula, mas o outro provavelmente iria e seria muito ruim dormir a noite toda ali. Suspirou, era muito coração mole. Por mais que tentasse se enganar, colocando na cabeça que se fizesse aquilo o outro poderia acreditar ter sido tudo só um sonho. Como era burro. Aproximou-se, tentando pega-lo de forma a não acorda-lo. O plano era torcer para que o japonês estivesse com muito sono ainda para ele não acordar e assim Dokyun o colocasse na cama. Era óbvio que não daria certo.
A verdade era que estava dormindo atento, havia dito que estaria ali se o outro precisasse e realmente estaria, mesmo que aparentasse estar com muito sono. Mas seus olhos decidiram abrir por si só, como que não fosse por ordens do japonês o que não esperava era estar sobre o braços de Dokyun e também não esperava que estivesse tão confortável daquela forma. Com o susto, acabou se colocando de pé, quase caindo para ser mais exato e usou sua mão para encontrar apoio contra a parede. — Bom dia... — Disse bocejando e escondendo o próprio rosto com as mãos e esfregando o olhos com os dedos. — Espero que tenha dormido bem. — Seu rosto claramente mostrava que estava cansado mas já era hora de acordar, por mais que apenas quisesse continuar a dormir. Bagunçou ainda seus fios claro, queria acordar e pensar melhor no que estava acontecendo mas apenas conseguiu quando fora no banheiro lavar o rosto com água gelada. O balde de vômito havia sido lavado de madrugada, quando o outro estava em seu décimo terceiro sono, mas continuava perto da cama para prevenir qualquer coisa, era melhor lavar um balde do que o chão, sem sombra de dúvidas. — Sua camisa está ali em cima da mesa.
Deu o espaço necessário para Hayato se reerguer e encontrar o equilíbrio necessário. Nem sequer se moveu para ajudar. Apenas observava de forma apática, chegando até mesmo a se afastar um pouco. Estava levemente de péssimo humor. Sua cabeça doía, queria voltar a dormir e ainda estava ali, cara a cara com quem andava evitando. ㅡ Bom dia... ㅡ Disse de forma seca, sem muita vontade. Perguntava-se o que tinha na cabeça para ter ido parar ali, o que tinha acontecido e tudo o mais. Ainda estava com um branco dessa parte da noite e talvez fosse melhor assim. Preferiu não falar mais nada, sendo abandonado assim no quarto. Agradeceu mentalmente pelo fato, aproveitando para pegar mais uma água e arrumar-se minimamente para voltar ao seu quarto. Pegou a camisa logo após ter sido informado, colocando-a e terminando de se arrumar. Afinal, não iria para a aula. Iria ir embora, assim mesmo, sem mais nem menos. Porém quando checou o bolso da calça para conferir a chave, não achou. Ótimo era só o que faltava. Passou a procurar então, principalmente perto da cama. Queria fazer rápido, não queria mais ficar ali tendo que encarar a forma falsa de Hayato – ou assim pensava. Entretanto a ressaca não ajudava, a dor e o cansaço fazendo-o sentar sobre o colchão novamente, procurando preguiçosamente no meio das roupa de cama.
Havia se sentado sobre o colchão no qual não lhe pertencia, estava exausto e provavelmente iria se deixar descansar até porque teria ensaio e precisaria estar 100%. Seu olhar estava em seu celular, até porque o outro parecia não querer conversa, bem diferente de algumas horas atrás e bem, isso deixava o japonês um pouco para baixo. — Você veio completamente bêbado para cá, talvez tenha deixado suas chaves cair no corredor, ou não as pegou. — Comentou. Na verdade, apenas queria puxar assunto. — Pode dormir aí, descanse mais, você deve estar exausto. Eu irei procurar pra você. — Não iria sair agora mas, ao menos queria dar a ideia, queria vê-lo reagir aquilo mas no fundo, Hayato apenas queria que ele visse que tudo estava bem e que ele não precisava ficar tanto assim na defensiva. Mas aquela hora queria apenas relaxar, deixou suas costas encostadas sobre a parede e suspirou, cansado e pouco se importando se estava ou não arrumado.
Não preocupou-se em olhar para Hayato, apenas absorvendo tais informações como se elas viessem de um rádio, não esboçando nenhuma expressão em particular. Era meio óbvio que tinha ido pra lá bêbado, só não sabia ainda o motivo e teria que tomar cuidado a partir de agora. Depois de uma vez, não teria dúvidas em acontecer outras vezes se perdesse as estribeiras. Respirou fundo e suspirou, desistindo da chave por hora. Levou as mãos ao rosto, esfregando-o e ao mesmo tempo escondendo-o. Naquele meio tempo bocejou e se recompôs, estava se sentindo um lixo consigo mesmo por ter ido parar ali, justo depois de desistir. Mas agora era tarde demais para chorar pelo leite derramado. ㅡ Não, obrigado. ㅡ Comentou tão seco quanto da última vez, levantando-se da cama para sair. Provavelmente, se não levou a chave, seu quarto estaria aberto. Qualquer coisa, se não estivesse, iria para a enfermaria dormir por lá. Entretanto, assim que colocou a mão na maçaneta sentiu uma necessidade de se virar, de olhar mais uma vez para Hayato. Ele tinha cortado o cabelo? Estava mais infantil do que nunca, apesar de Dokyun saber que no fim não era nada disso. Tinha que parar com aquilo, desistir de vez, não ficar bebendo e procurando por quem queria esquecer no final. ㅡ Não vai se repetir isso, não se preocupe. ㅡ Esperava que suas palavras realmente fosse a realidade, de que não acordaria novamente no quarto do japonês. Mas não podia dar certeza daquilo, não mais. E assim saiu do quarto, bem diferente da forma que entrou ali. Chateado, decepcionado e cansado, muito cansado.
Have you heard me on the radio? Did you turn it up
On your blown-out stereo in suburbia?
Warning: trigger de relacionamento abusivo, depressão e tentativa de suicídio.
A primeira vez que se viram ocorrera quando Kim Dokyun ainda pulava muros para encontrar os membros de sua antiga banda, em meados de 2013. Todos bem mais velhos e por consequência, do ensino médio. Aparentemente o rapaz – até então desconhecido para si – era mais um colega de turma dos outros garotos, que na hora matavam aula aos fundos da escola, como de praxe. Naquele dia, o baterista não havia prestado muita atenção nele num geral, trocaram poucas palavras e a maioria delas também serviam para o resto dos amigos. Entretanto não podia dizer o mesmo dos olhares e sorrisos que se formavam no canto dos lábios do recém conhecido em relação ao mais novo do grupo. E era óbvio que percebera toda a situação, mesmo que só parando para analisar depois. Não podendo negar para si o quão bonito e radiante eram aqueles sorrisos, carregados de diversão e admiração. Foi então que deitado na própria cama no fim do dia, recapitulando os menores detalhes, decidira que na próxima vez – se houvesse mesmo – iria prestar mais atenção nele, tal como fizera consigo.
E tal – quase – promessa não caiu em esquecimento, sendo posta em prática quando se reencontraram alguns meses depois. Acompanhado do vocalista – e nomeado líder – da banda, voltou a ser apresentado a todos como um possível novo membro. Ou pelo menos um extra, pois precisavam de um tecladista para certas músicas. Dessa vez, Dokyun quem não desprendia os olhos dele, ainda mais radiante quanto da última vez que lembrava. Ele tinha algo que nenhum outro garoto daquele cômodo continha, entretanto naquela época o baterista não havia percebido a importância do detalhe e nem o que ele representava, só podia dizer que gostava. Acreditava ser apenas um reflexo da pessoa simples que era e decidiu não se importar muito, deixando aquilo de lado.
Aos poucos foram aproximando-se um do outro, sempre conversando entre as pausas e no fim dos ensaios diários. Não demorou muito para que virassem amigos, daqueles em que não deixavam passar uma brincadeira de flerte quando tinham a oportunidade. Era óbvio o interesse mútuo que só crescia entre os dois, porém eles enrolavam mesmo assim, mesmo percebendo. Ou pelo menos haviam tentado, entretanto a banda inteira não os deixava quietos, empurravam, insistiam e foi assim mesmo, despreparados, que começaram a ficar juntos.
A verdade era que Dokyun não se lembrava do primeiro beijo, por mais que tentasse. No mesmo dia, havia tomado o primeiro porre da sua vida e esquecido tudo na manhã seguinte. E aparentemente ele também havia tido a mesma experiência. Tiveram de acreditar na palavra de terceiros, contando como tudo aconteceu e na hora, o baterista nem sequer duvidando. Não viviam nenhum conto de fadas, todos sabiam disso, então não fazia sentido se chatear por não terem um primeiro beijo encantado. Mas o outro garoto, mesmo mais velho, não parecia gostar, não parecia aceitar as suas palavras mesmo ditas com ternura e carinho numa tentativa de que tudo ficasse bem mesmo assim.
Precisaram de uma pausa para que pudessem recomeçar, com um segundo beijo dos sonhos que ele parecia desejar. Afinal, naquela época Dokyun ainda conseguia ser romântico. E foi assim que começaram há namorar algumas semanas depois, sem se importarem sobre estar indo tudo muito rápido. Eram jovens, queriam sentir e aproveitar a vida sem pensarem, principalmente sobre algo que não viam problemas nenhum de imediato. Mas era claro que estavam errados, já que nada na vida eram flores e se fossem, uma hora murchavam.
O seu trem da fantasia circulou por exatos cinco meses e, junto com seu fim, o baterista entendeu o que deixou escapar nas primeiras vezes que haviam trocado olhares. Seu namorado não radiava boas energias, ele era o outro lado da definição que poucos tem conhecimento. Ele era a radiação que machucava quando não controlada, que corroía quando tocada até que não restasse nada mais além do medíocre. Ele era quase como urânio usando ‘dum sorriso falso para disfarçar que não tinha grandes problemas para alguém ficar exposto, que não se machucaria com os raios se ficasse muito tempo próximo. Todo aquele brilho que emanava era como uma grande placa néon que o cegara a ponto de não perceber tamanho grau de periculosidade, não perceber que estava nadando numa piscina tóxica. Já era tarde quando Dokyun abriu seus olhos, ele já estava ali há tempo demais para não ser contaminado.
Aos poucos o que era bom se tornou um pesadelo. Os problemas dele se tornavam culpa do baterista, independente do que fosse. Quando precisava explodir, o mais novo que era o alvo. Poderia não chegar a ser atingido fisicamente, mas conseguia ser bem pior. Principalmente quando ainda existia amor, apego e esperança de melhoria no coração de Dokyun. Por isso deixava-se atingido, achava que assim conseguiria ajudar, ter o valor que não conseguia mais acreditar ter. O valor que seu namorado havia feito acreditar não ter mais.
Com mais recaídas, seu namorado agora era só ex-tecladista, não tinha mais disposição para besteiras como uma banda de garagem. Era o que ele dizia, e menosprezava quando o ainda baterista comentava alguma coisa sobre a banda, fazia-o ficar desanimado, querer desistir também. Entretanto era a única coisa que ainda mantinha Dokyun minimamente bem, virando sem dúvidas seu refúgio. Um refúgio de um amor estragado que vivia, que o afetava como nada afetou e viria a afetar até o presente momento.
E tudo que afeta, faz mudar. Ou ao menos funcionava assim para si.
Como os amigos não eram nenhuma boa influência, a bebida se tornou mais presente, assim como começou a fumar e viver em sociais na casa de desconhecidos. Alterado, nada de bom acontecia claramente – certamente essa era uma das partes em que Dokyun mais se arrependia atualmente – acabando por muitas vezes trair o namorado no fim da noite. Ainda o amava, mas escolhia abstrair a dor com o carnal, numa tentativa completamente errada de achar um sentido. E naquela época achava. Conseguia encontrar um pedaço seu em cada uma das pessoas que ficava, conseguia se apaixonar, até mesmo amar momentaneamente cada uma delas. Foi quando enfiou na cabeça que o amor não precisava ser exclusivo, único. Podia ser múltiplo e simultâneo, já que no fim, continuava amando quem não queria mais amar.
A relação entre eles já quase não existia e o pouco que ainda marcava presença era doentia, nada saudável. Entretanto Dokyun tentava muito ter esperanças, não deixar ela acabar. Mas ninguém gostava de ser saco de pancada, de bater contra a parede em busca de uma porta. Foi então que decidiu não buscar mais a porta e sim sair pela janela, ir embora. Finalmente se esgotou, encerrando tudo por definitivo.
Tentava seguir a vida com normalidade nos outros dias que vieram, ainda mantinha a banda, mas não as festas. Tentava ser melhor, ficar melhor consigo mesmo. Entretanto não percebia que já havia sido contaminado. E só percebeu tarde demais, depois de ignorar o celular vibrando com mensagens do ex-namorado pela manhã; depois de encontrar uma sala vazia para o ensaio diário no fim da tarde; depois de ser barrado no hospital pelos amigos, sendo acusado como o motivo dele estar ali, dele ter tentado se matar, de não ter percebido a depressão que existia. Mas Dokyun recém tinha feito 15 anos... Não tinha maturidade para carregar tantas responsabilidades, por ser novamente culpado de tudo e agora por todos.
Cansado, fugiu.
Aparentemente fugir era a melhor coisa que Dokyun sabia fazer, tanto antigamente, como agora. A situação recente podia ser bem diferente, não dava nem para comparar, entretanto ainda queria fugir, sumir, esquecer tudo. Mas agora existiam responsabilidades, era famoso, tinha uma banda que não era só de garagem.
Ainda tentava matar seus problemas com o cigarro, deitado sobre os colchões em um quarto tão vazio quanto a si próprio no momento. Sentia-se o causador de tudo ruim outra vez, tal como na última e odiava a sensação, odiava como revivia sua memória e como bagunçava o seu presente. Era o baterista que se sentia radioativo atualmente, como se aquilo fosse algo que passava de pessoa pra pessoa, ou talvez sempre tivesse sido assim... Não conseguia mais saber e nem se importava, independente disso continuava sendo sua culpa.
Novamente havia sido inconsequente, apegando-se em tão pouco tempo. Mas por que tudo estava acontecendo assim? Ele havia avisado que não era bom com relacionamentos, que não conseguia mais amar uma pessoa só, prendendo-se a ela. Isso não significava que não conseguia amar, só fazia isso de forma diferente dos demais. Tinha quase certeza de enfatizar o seu jeito, como levava as coisas, mas ainda assim estava ali agora, no fundo do poço. E tudo por gostar de alguém, outra vez. Estava começando a acreditar que era normal, que as verdadeiras canções de amor eram as que retratavam dor, problemas e destruição em uma relação.
E já desistindo antes mesmo de tentar, principalmente por ter gasto todas suas esperanças e energias da última vez, iria só seguir aquele caminho ditado. Já havia voltado a beber até perder a linha, fumava com mais frequência e agora só precisava buscar outros corpos. Talvez assim ele encontraria finalmente um sentido para a vida, mas se não encontrasse também, não tinha problema. Aparentemente tais coisas sem sentido machucavam menos do que aquilo pelo qual todos cantavam, viviam, acabavam-se e clamavam ser o sentido.
Pra Dokyun não existia mais o tipo bom de amor, na realidade, nunca existiu. Desde a família, sempre só tivera relações desagradáveis e provavelmente estava destinado a isso. Então seria melhor aceitar, não se apegar mais, amar como deveria ter amado a vida toda: momentaneamente, sem emoção, sem sentimentos.
Reason for name: Viola’s parents were huge Shakespeare fans. Viola is named after the character in Twelfth Night while her twin sister Ophelia was named after the character in Hamlet.
Birthday: November 24, 1986
Age: 34
Gender: Female
Place of birth: Baltimore, Maryland
Places lived since: Baltimore, Maryland
Parents’ names, backgrounds, occupations: Viola’s parents are John and Mary Macintosh. A pair of average Americans an office worker and a secretary who did their best to raise their daughters in a loving environment. Nobody quite knows what happened to the Macintosh parents, the last anybody had heard from them, they were off on a trip to the Australian outback.
Number of siblings: 1, a twin named Ophelia
Relationship with family (close? estranged?): Viola was the closest to Ophelia
Happiest memory: Any time she spent with her sister
Childhood trauma: Overhearing some of the arguments her parents would have over things like bills and why one of the girls was upset
Children of his/her own?: –
If so, relationship with their mother/father?: –
Age he/she gave birth/became a father: –
PHYSICAL
Height: 5′6
Weight: 147-ish lbs
Build: Triangle shape
Nationality: American
Disabilities (physical or mental, including mental illnesses): none that she’s been diagnosed with
Complexion (freckles, acne, skin tone, birth marks): fair skin, there are several smaller scars lining her body from various fights in the house and one along the left side of her rib cage from her refusal to do an initiation.
Face shape: rather pointed
Distinguishing facial features: cat like eyes, lopsided smirk
Hair color: Naturally blonde
Usual hair style: about shoulder-length
Eye color: brown
Glasses? Contacts?: Contacts
Style of dress/typical outfit(s): Business casual, sometimes windbreakers or jeans
Typical style of shoes: Comfortable shoes for running or flats
Health (is this person usually sick? or very resilient?): Viola is fairly healthy, she only really gets the flu and other seasonal maladies.
Grooming (does she/he wear makeup? shower daily? wear only clean clothes? pluck her eyebrows?): Viola stays very groomed, both on the job and when she is out to kill. Her hair is always put up outside of her cover job, usually under some sort of wig.
Jewelry? Tattoos? Piercings?: Viola has no tattoos or piercings, nothing that would make her easily identifiable
Unique mannerisms/physical habits (bites nails, talks with hands, taps feet when restless):
Athletic?: Fairly athletic, she’s learned how to lift and move heavy things
Accent?: She’s trained herself to have a nonregional diction
INTELLECT
Level of education (high school drop out, undergrad BA/BS, PhD, MD, etc.): Criminal Justice
Level of self esteem: 6
Gifts/talents: Staging
Shortcomings: Viola is very elusive when it comes to asking about her family
Style of speech (loud, mumbler, articulate, etc.): Viola keeps a steady cadence and doesn’t over enunciate her words.
“Left brain” or “right brain” thinker?: Right brained
Artistic?: Yes
Mathematical?: Yes
Makes decisions based mostly on emotions, or on logic?: Emotions more than logic
Neuroses:
Life philosophy:
Religious stance: Agnostic
Cautious or daring?: Daring
Most sensitive about/vulnerable to: any mentions of Ophelia by name
Optimist or pessimist?: Realist
Extrovert or introvert?: Extrovert
Level of comfort with technology: 7.5
RELATIONSHIPS
Current marital/relationship status: Single
Sexual orientation: Panromantic pansexual
Past relationships: 3
Primary reason for being broken up with: too much attention was spent elsewhere
Primary reasons for breaking up with people:
Level of sexual experience: 3
Story of first kiss (if any—if not, how does he/she want it to happen?): --
Story of loss of virginity (if any—if not, how does he/she want it to happen, if at all?): --
A social person? (popular, loner, some close friends, makes friends and then quickly drops them): Viola has always been fairly popular and made plenty of friends easily but would also drop them quickly
Most comfortable around (person): Nobody
Oldest friend: --
How does he/she think others perceive him/her?: --
How do others actually perceive him/her?: --
VOCATION
Past occupations: Viola did some odd jobs here and there but nothing really to note
Passions: --
Attitude towards current job: She enjoys it
Attitude towards current coworkers, bosses, employees:
Salary: ~54,300
SECRETS
Life goals: Avenge her sister’s death
Dreams: Go down in history
Greatest fears: Getting caught
Most ashamed of: Not being able to protect her sister properly
Most embarrassing thing ever to happen to him/her: --
Compulsions: --
Obsessions: --
Secret hobbies: does murder count?
Secret skills: --
Past sexual transgressions: --
Crimes committed (and was he/she caught? charged?): eh just murder, never caught although it was close
What he/she most wants to change about his/her current life: Nothing really
What he/she most wants to change about his/her physical appearance: Nothing, maybe less distinguishing features
DETAILS/QUIRKS
Night owl or early bird?: Night owl
Light or heavy sleeper?: light sleeper
Favorite food: --
Least favorite food: --
Favorite book: --
Least favorite book: --
Favorite movie: --
Least favorite movie: --
Favorite song: --
Least favorite song: --
Coffee or tea?: Both
Crunchy or smooth peanut butter?: crunchy
Type of car he/she drives (or wishes he/she drove): –
Lefty or righty?: Ambidextrous, Viola taught herself how to write with both hands
Favorite color: Gold
Cusser?: Yes
Smoker? Drinker? Drug user?: Smoker mostly
Biggest regret: Letting her sister down
Pets?: None
Profession: FBI Agent
Phobias: --
Daily routine: It varies depending on if she’s working a case or staging her crime scene