So much history in my head
The people I've left The ones that i've kept...
Have you heard me on the radio? Did you turn it up On your blown-out stereo in suburbia?
Warning: trigger de relacionamento abusivo, depressão e tentativa de suicídio.
A primeira vez que se viram ocorrera quando Kim Dokyun ainda pulava muros para encontrar os membros de sua antiga banda, em meados de 2013. Todos bem mais velhos e por consequência, do ensino médio. Aparentemente o rapaz – até então desconhecido para si – era mais um colega de turma dos outros garotos, que na hora matavam aula aos fundos da escola, como de praxe. Naquele dia, o baterista não havia prestado muita atenção nele num geral, trocaram poucas palavras e a maioria delas também serviam para o resto dos amigos. Entretanto não podia dizer o mesmo dos olhares e sorrisos que se formavam no canto dos lábios do recém conhecido em relação ao mais novo do grupo. E era óbvio que percebera toda a situação, mesmo que só parando para analisar depois. Não podendo negar para si o quão bonito e radiante eram aqueles sorrisos, carregados de diversão e admiração. Foi então que deitado na própria cama no fim do dia, recapitulando os menores detalhes, decidira que na próxima vez – se houvesse mesmo – iria prestar mais atenção nele, tal como fizera consigo.
E tal – quase – promessa não caiu em esquecimento, sendo posta em prática quando se reencontraram alguns meses depois. Acompanhado do vocalista – e nomeado líder – da banda, voltou a ser apresentado a todos como um possível novo membro. Ou pelo menos um extra, pois precisavam de um tecladista para certas músicas. Dessa vez, Dokyun quem não desprendia os olhos dele, ainda mais radiante quanto da última vez que lembrava. Ele tinha algo que nenhum outro garoto daquele cômodo continha, entretanto naquela época o baterista não havia percebido a importância do detalhe e nem o que ele representava, só podia dizer que gostava. Acreditava ser apenas um reflexo da pessoa simples que era e decidiu não se importar muito, deixando aquilo de lado.
Aos poucos foram aproximando-se um do outro, sempre conversando entre as pausas e no fim dos ensaios diários. Não demorou muito para que virassem amigos, daqueles em que não deixavam passar uma brincadeira de flerte quando tinham a oportunidade. Era óbvio o interesse mútuo que só crescia entre os dois, porém eles enrolavam mesmo assim, mesmo percebendo. Ou pelo menos haviam tentado, entretanto a banda inteira não os deixava quietos, empurravam, insistiam e foi assim mesmo, despreparados, que começaram a ficar juntos.
A verdade era que Dokyun não se lembrava do primeiro beijo, por mais que tentasse. No mesmo dia, havia tomado o primeiro porre da sua vida e esquecido tudo na manhã seguinte. E aparentemente ele também havia tido a mesma experiência. Tiveram de acreditar na palavra de terceiros, contando como tudo aconteceu e na hora, o baterista nem sequer duvidando. Não viviam nenhum conto de fadas, todos sabiam disso, então não fazia sentido se chatear por não terem um primeiro beijo encantado. Mas o outro garoto, mesmo mais velho, não parecia gostar, não parecia aceitar as suas palavras mesmo ditas com ternura e carinho numa tentativa de que tudo ficasse bem mesmo assim.
Precisaram de uma pausa para que pudessem recomeçar, com um segundo beijo dos sonhos que ele parecia desejar. Afinal, naquela época Dokyun ainda conseguia ser romântico. E foi assim que começaram há namorar algumas semanas depois, sem se importarem sobre estar indo tudo muito rápido. Eram jovens, queriam sentir e aproveitar a vida sem pensarem, principalmente sobre algo que não viam problemas nenhum de imediato. Mas era claro que estavam errados, já que nada na vida eram flores e se fossem, uma hora murchavam.
O seu trem da fantasia circulou por exatos cinco meses e, junto com seu fim, o baterista entendeu o que deixou escapar nas primeiras vezes que haviam trocado olhares. Seu namorado não radiava boas energias, ele era o outro lado da definição que poucos tem conhecimento. Ele era a radiação que machucava quando não controlada, que corroía quando tocada até que não restasse nada mais além do medíocre. Ele era quase como urânio usando ‘dum sorriso falso para disfarçar que não tinha grandes problemas para alguém ficar exposto, que não se machucaria com os raios se ficasse muito tempo próximo. Todo aquele brilho que emanava era como uma grande placa néon que o cegara a ponto de não perceber tamanho grau de periculosidade, não perceber que estava nadando numa piscina tóxica. Já era tarde quando Dokyun abriu seus olhos, ele já estava ali há tempo demais para não ser contaminado.
Aos poucos o que era bom se tornou um pesadelo. Os problemas dele se tornavam culpa do baterista, independente do que fosse. Quando precisava explodir, o mais novo que era o alvo. Poderia não chegar a ser atingido fisicamente, mas conseguia ser bem pior. Principalmente quando ainda existia amor, apego e esperança de melhoria no coração de Dokyun. Por isso deixava-se atingido, achava que assim conseguiria ajudar, ter o valor que não conseguia mais acreditar ter. O valor que seu namorado havia feito acreditar não ter mais.
Com mais recaídas, seu namorado agora era só ex-tecladista, não tinha mais disposição para besteiras como uma banda de garagem. Era o que ele dizia, e menosprezava quando o ainda baterista comentava alguma coisa sobre a banda, fazia-o ficar desanimado, querer desistir também. Entretanto era a única coisa que ainda mantinha Dokyun minimamente bem, virando sem dúvidas seu refúgio. Um refúgio de um amor estragado que vivia, que o afetava como nada afetou e viria a afetar até o presente momento.
E tudo que afeta, faz mudar. Ou ao menos funcionava assim para si.
Como os amigos não eram nenhuma boa influência, a bebida se tornou mais presente, assim como começou a fumar e viver em sociais na casa de desconhecidos. Alterado, nada de bom acontecia claramente – certamente essa era uma das partes em que Dokyun mais se arrependia atualmente – acabando por muitas vezes trair o namorado no fim da noite. Ainda o amava, mas escolhia abstrair a dor com o carnal, numa tentativa completamente errada de achar um sentido. E naquela época achava. Conseguia encontrar um pedaço seu em cada uma das pessoas que ficava, conseguia se apaixonar, até mesmo amar momentaneamente cada uma delas. Foi quando enfiou na cabeça que o amor não precisava ser exclusivo, único. Podia ser múltiplo e simultâneo, já que no fim, continuava amando quem não queria mais amar.
A relação entre eles já quase não existia e o pouco que ainda marcava presença era doentia, nada saudável. Entretanto Dokyun tentava muito ter esperanças, não deixar ela acabar. Mas ninguém gostava de ser saco de pancada, de bater contra a parede em busca de uma porta. Foi então que decidiu não buscar mais a porta e sim sair pela janela, ir embora. Finalmente se esgotou, encerrando tudo por definitivo.
Tentava seguir a vida com normalidade nos outros dias que vieram, ainda mantinha a banda, mas não as festas. Tentava ser melhor, ficar melhor consigo mesmo. Entretanto não percebia que já havia sido contaminado. E só percebeu tarde demais, depois de ignorar o celular vibrando com mensagens do ex-namorado pela manhã; depois de encontrar uma sala vazia para o ensaio diário no fim da tarde; depois de ser barrado no hospital pelos amigos, sendo acusado como o motivo dele estar ali, dele ter tentado se matar, de não ter percebido a depressão que existia. Mas Dokyun recém tinha feito 15 anos... Não tinha maturidade para carregar tantas responsabilidades, por ser novamente culpado de tudo e agora por todos.
Cansado, fugiu.
Aparentemente fugir era a melhor coisa que Dokyun sabia fazer, tanto antigamente, como agora. A situação recente podia ser bem diferente, não dava nem para comparar, entretanto ainda queria fugir, sumir, esquecer tudo. Mas agora existiam responsabilidades, era famoso, tinha uma banda que não era só de garagem.
Ainda tentava matar seus problemas com o cigarro, deitado sobre os colchões em um quarto tão vazio quanto a si próprio no momento. Sentia-se o causador de tudo ruim outra vez, tal como na última e odiava a sensação, odiava como revivia sua memória e como bagunçava o seu presente. Era o baterista que se sentia radioativo atualmente, como se aquilo fosse algo que passava de pessoa pra pessoa, ou talvez sempre tivesse sido assim... Não conseguia mais saber e nem se importava, independente disso continuava sendo sua culpa.
Novamente havia sido inconsequente, apegando-se em tão pouco tempo. Mas por que tudo estava acontecendo assim? Ele havia avisado que não era bom com relacionamentos, que não conseguia mais amar uma pessoa só, prendendo-se a ela. Isso não significava que não conseguia amar, só fazia isso de forma diferente dos demais. Tinha quase certeza de enfatizar o seu jeito, como levava as coisas, mas ainda assim estava ali agora, no fundo do poço. E tudo por gostar de alguém, outra vez. Estava começando a acreditar que era normal, que as verdadeiras canções de amor eram as que retratavam dor, problemas e destruição em uma relação.
E já desistindo antes mesmo de tentar, principalmente por ter gasto todas suas esperanças e energias da última vez, iria só seguir aquele caminho ditado. Já havia voltado a beber até perder a linha, fumava com mais frequência e agora só precisava buscar outros corpos. Talvez assim ele encontraria finalmente um sentido para a vida, mas se não encontrasse também, não tinha problema. Aparentemente tais coisas sem sentido machucavam menos do que aquilo pelo qual todos cantavam, viviam, acabavam-se e clamavam ser o sentido.
Pra Dokyun não existia mais o tipo bom de amor, na realidade, nunca existiu. Desde a família, sempre só tivera relações desagradáveis e provavelmente estava destinado a isso. Então seria melhor aceitar, não se apegar mais, amar como deveria ter amado a vida toda: momentaneamente, sem emoção, sem sentimentos.











