Estava cansado, sua mente ainda ocupada com seus serviços se recusava a parar e descansar, seu corpo não precisaria daquilo, nunca precisou. Voava de forma despreocupada por entre os prédios humanos, símbolos de toda a loucura dos mesmos na busca de um poder inexistente.
Até que finalmente aconteceu
No meio de sua distração, acertou a longa e majestosa asa negra em algo que nem sequer prestou devida atenção. Caindo como um pássaro ferido, ele foi ao chão, deixando o corpo jogado em um lugar sem a mínima importância para si. Querendo sair daquele lugar, moveu as asas para retornar o vôo, mas algo o impediu...
Nunca havia sentido algo como aquilo em milênios de sua existência, nem mesmo o toque de outro ser naquelas asas que o levavam pelo mundo.
Se obrigou a ficar a sombra de uma arvore qualquer para relaxar o membro dolorido. Não se importou com os humanos, eles não o veriam de qualquer modo, nem mesmo ele os veria com seus olhos fechados para o mundo.
E pela primeira vez, ouvi a voz de um anjo.
Sim, um anjo. Era doce e gentil aquele tom, que indicava que a pessoa que o proferia estaria sorrindo. Um tom tão suave que por um instante achou ser o som do Paraíso, ou a essência de todos os Anjos juntos. Era uma mulher, mas que falava como uma garota inocente, uma voz que falava consigo perguntando se estava bem.
Era a primeira vez que o via
A primeira vez que algum humano o via, a primeira vez que alguém percebia algo que nem mesmo ele notava. Mas também era a primeira vez que sentia o calor humano tão vivo perto de si, que sentia uma vida a sua frente que não estava pronta para ser levada...
E me enganei pela primeira vez...
Ela não estava tão viva, não era perceptível, mas ainda estava ali. Uma marca que pulsava junto com sua vida, que a consumia aos poucos e a devorava.
Mas mesmo sem ver, ela me cegou...
Ah o brilho de sua presença poderia superar o Sol e todas as outras estrelas juntas. Poderia dizer isso pois nunca os viu, mas ela... ela tinha um brilho que ultrapassava seus olhos fechados e o invadia, uma luz que o aquecia e lhe dava conforto.
Fui vencido pela curiosidade...
e por ela...
E pela primeira vez, abriu seus olhos, revelando o vermelho da morte na Íris. Havia hesitação em suas pálpebras, que se fechavam contra a luz do mundo humano.
E com toda sua força, abriu por completo os olhos, os focando na figura humana a sua frente. Se focando em tudo, nos longos cabelos ruivos que brilhavam contra o sol, nos olhos doces que eram mais belos que as estrelas.
Na alma pura de uma criança...
Ela não possuía muitos pecados, eram poucos e mínimos, totalmente insignificantes que não manchavam a brancura de sua alma. Esta que era coberta por um brilho tão doce... tão belo...
Toda aquela luz, aquela doçura, aquela beleza tão incomum para si... aquilo o seduziu por completo... tanto que estendeu sua mão para tocar a dela, querendo sentir o calor de uma vida tão pura...
E se perdeu na beleza daqueles olhos, as janelas de sua pura alma. Olhos esses que sorriam para si, que mostravam a ele uma vida linda que estava a sua frente. E segurou mais forte aquela mão, tão pequena comparada a sua, como se quisesse tomar posse dela para si.
Ele a puxou para si, trazendo todo seu calor para o proprio corpo, a envolvendo com um dos braços e as asas. Não importava a dor, não importava se poderia se ferir mais ainda...
Ele queria senti-la de perto...
Sentir seu calor, seu perfume, sua pulsação vibrante de um coração vivo. Seu rosto contra a curvatura do pescoço da mulher, sentindo cada uma de suas reações de uma distancia inexistente, como se ela o pertencesse.
Ela era dele, seu corpo e alma eram destinados a ele e seriam sempre unicamente a ele. Mas isso o Matava por dentro, pois seria ele quem iria leva-la.
Ele quem iria cortar sua vida...
Ele quem teria de destruir aquela doçura...
Quem teria de apagar aquela luz...
Aquilo era torturante, não queria leva-la ou apagar seu brilho tão gentil.
E falou pela primeira vez, pedindo que ela nunca saísse do seu lado, que permanecesse ali com ele... para sempre.
Ah doce arco do cupido, acertaste dois corações com um único tiro. Uma única flecha que uniu o impossível, que conectou uma vida e a morte... que juntou a beleza e a morte.
E pela primeira vez, eu estava sorrindo...
Sim ele sorria, sorria como um homem satisfeito que havia encontrado tudo na vida... A apertava mais naquele abraço, sentindo os braços finos circundarem seu pescoço, deixando a si mesmo sentir um carinho direcionado a si.
Que sabia que sentiria falta...