nua
esta noite, estou trajando roupas velhas, amassadas. blusa azul. short preto manchado. pés descalços. enrolada em um cobertor vinho que me cobre por inteira.
ainda assim, esta noite, estou nua. completamente nua. posso descrever todas as curvas do meu corpo em frente ao espelho, como se as conhecesse de cor e pudesse expôr todas elas ao vento como se não me faltasse coragem. como se me transbordasse o ímpeto árduo de demonstrar-me nua ao infinito.
há sinais em meu colo. meus seios pálidos delineiam-se de forma autônoma, minha cintura fica mais bonita quando abro os braços e tento de uma vez por todas abraçar o mundo e entregá-lo meu coração em forma de poesia. meus quadris são o esboço largo do infinito que há em cada estrela do meu corpo, e ainda assim, não sou eterna. sou a carcaça mais podre do infinito mais belo que hei de habitar.
meus fios de cabelo castanho brincam com o meu travesseiro de espalhar-se, marrons como os galhos de uma árvore de folhas verdes da primavera. meus olhos derramam água salgada e regam as flores murchas da curva das minhas bochechas, que se acentuam quando sorrio. meus lábios são ressecados como a casca de uma castanha, rosados como a cor das suas bochechas quando você está tímida. estão mudos e gritam ao abismo da saudade sua versos vomitados.
e eu sei que você não tem noção alguma do quanto estou nua. porque quando estou com você, depois de tudo, você me veste. me cobre. e vou me escondendo e tampando cada vez mais as linhas tênues entre o meu corpo e o universo que me habita. tu não sabes que estou nua, porque só o que vês é um montante de roupas suas andando pro outro lado da rua. tu não sabes que estou nua, porque não me sentes mais ao teu lado entregando-lhe o cheiro de minha pele, crua e tua. a falsa sensação de amor entre nossos corpos ardentes, eu sedenta pelo teu. tu sedenta pelo meu.
é trágico que as faíscas das pintas das minhas costas largas desenham constelações que um dia eu gostaria de lhe mostrar de um jeito que parece que você nunca viu. e as minhas coxas delicadamente acentuadas gostariam de envolver-lhe e grudar-te contra mim, com a delicadeza que você nunca me permitiu ter, e recitar-lhe as mais belas poesias que já escrevi. pois esta sou eu: tudo o que você menos esperava que eu fosse.
estou nua, e você não está aqui para ver. e nem poderia estar. jamais. nunca.
estou nua, e você nunca vai poder notar, porque a minha nudez singular só existe porque aprendi a me despir sem você. somente eu e a minha solidão, estamos moldando tudo aquilo que sou agora, e é uma pena que não estejas aqui para ver. porque mergulhada no mar da minha própria catástrofe, posso afirmar aquilo que você me dizia. naquelas noites em que fingia mostrar-lhe o melhor da minha nudez opaca disfarçada por vergonhas e medos, receios e falta de amores. você dizia, com todas as letras: “meu amor, você é linda”. eu não acreditava.
esta noite, estou nua. e em sussurros embargados repito em frente ao espelho para a minha imagem: “meu amor, você é linda”. e sem a tua presença, eu acredito. da forma mais árdua que a minha nudez pode me permitir versejar.
amaral, i













