O piar dos pássaros cinzentos
Era domingo, três da manhã, o café me mantém acordado, a imensidão de um quarto fechado era tão minúscula que me causava sintomas de claustrofobia. Olhei em direção ao teto, sozinho, naquela cama de solteiro, me pus a pensar.
A vida tem que ser mais, precisa ser mais, não devo me contentar somente em acordar, trabalhar e estudar, preciso de mais.
Acendo um cigarro, alívio por entre as noites em claro, entre uma tragada e outra, um só pensamento. O que devo fazer?
Quatro da manhã resolvo sair por entre a rua vazia, caminho de mãos dadas com a liberdade, ou seria com a morte, o sorriso presente em quem procura sentido pra viver mesmo sem ter pra onde voltar.
Durante a caminhada, vejo um ninho, já são cinco da manhã. O sol parece começar a aparecer, um daqueles nasceres do sol tão bonitos quanto o sorriso dela. Nesse tinham pássaros, cinzas, de olhos vermelhos. Não ficava tão próximo do céu, era possível acariciá-los se desejasse.
Os pássaros brincavam e piavam com força de vontade de alguém que acabou de passar no vestibular dos sonhos. Sentei-me na calçada próximo a eles, que logo se achegaram próximos a mim.
Piavam sem parar, como se quisessem conversar, cinco minutos após saíram piando por ai, os três a voarem, livres para ir onde quiserem, sem que alguma satisfação me dessem. O propósito deles é apenas viver, mas o que seria viver de fato?
Ganhar na loteria, ser bem sucedido, mas não possuir tempo se quer para ver o seu filme favorito na televisão? Não concordo, vida tem que ser muito mais.
Enquanto os pássaros piavam e voavam para longe percebi que eram felizes com este modo de vida. Exerciam o seu papel como o que deveria ser exercido, a felicidade plena a ser sentida e exalada por aí.
Por alguns minutos com eles, entendi que todos os dias a gente precisa de um fôlego novo para enfrentar e buscar o que eles já tem uma felicidade todos os dias sem cessar, até que a morte os separe.
















