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Carta 35 08 de abril de 2015
And I know that it’s complicated / But I’m a loser in love (LADY GAGA, Speechless)
O que estava escrito na carta: “a deriva parece melhor 08x04”.
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A distância é quase uma entidade. Conseguimos compreendê-la perfeitamente porque é algo que, pela ausência, é física no espaço tridimensional em que vivemos. Ela se faz extremamente presente na nossa vida assim como o tempo. A física ainda garante que o produto dela com ele resulta em velocidade. Mesmo assim quase não conseguimos entender porque algo tão calculável tem um efeito tão emocional na gente.
Estar distante de alguém que você quer perto mais do que tudo causa uma sensação, no mínimo, de desconforto. É que a distância não está sozinha nessa equação, já que uma trouxa cheia de emoções traz variáveis que alteram bastante o resultado, e a ordem dos fatores tem grande influência aqui. É como se a separação fosse um acelerador de partículas, pronto para fazer as coisas chocarem entre si.
Quando descobri que o Menino das Cartas ia viajar, a distância não foi a primeira coisa com que me preocupei. Em um dia, conversando com ele pelo chat do Facebook, eu o perguntei:
_ Como você conhece este menino? — e envie o perfil de uma pessoa que havia estudado comigo durante o ensino médio.
_ Ele estuda no mesmo prédio que eu. — ele respondeu.
_ Ah sim. — passeei um pouco pelo perfil do rapaz em questão e percebi que ele tinha feito alguns posts sobre intercâmbio, sobre passar um tempo longe da família.
Uma vez, há algum bom tempo antes disso, eu e o Menino das Cartas conversávamos sobre alguma coisa de idiomas e ele havia dito algo como “Nossa, pior que meu húngaro”. Na época, pensei apenas que tinha sido uma daquelas falas em que a aleatoriedade comanda. Como se quando visse alguém andando mal de skate, eu dissesse algo “Nossa, pior do que eu usando hashi”.
Mas no dia em que vi o perfil do menino que estudou comigo e li as postagens dele sobre viajar, quase automaticamente liguei os pontos. Eu só tinha essas informações e consegui captar no fundo da minha memória de quando o Menino das Cartas citou o bendito idioma. Perguntei para ele, retoricamente:
_ Você vai fazer intercâmbio, né?
_ Então, isso é uma coisa que eu queria ter falado há um tempo. — ele começou a se explicar. Foi a primeira vez em que eu senti o peso de que a pessoa que eu gostava tinha data e hora para ir embora. Perguntei de quanto tempo seria o intercâmbio, ele respondeu que seriam 12 meses e automaticamente eu quis me enganar dizendo que aquilo não era tanto tempo. Desde esse dia, eu sempre dei mais importância pelo tempo separado do que pela distância.
Carta 32 18 de março de 2015
I thought I could forgive you, and I know you've changed / As much as I want to trust you, I know it ain't the same (BEYONCÉ, Resentment)
O que estava escrito na carta: "depois do que você fez, cada dia acaba mais 18/03".
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Tomar uma decisão sobre algo nunca é o produto final do que você tem que fazer. Na verdade, é só o começo. Parece complicado porque, por exemplo, até chegar na resolução de que não quer mais ingerir bebida alcoólica você provavelmente já passou por muitas e muitas coisas. Deve ter esquecido o que disse na noite passada, vomitado no closet de alguma amiga rica, lascado um dente porque perdeu o equilíbrio e parou com a cara no chão, beijado a boca daquela pessoa que tem mau hálito desde quando você a conheceu, contado para todos os seus amigos o tamanho do seu pênis mesmo que ninguém tenha perguntado.
Depois disso tudo, e muitas outras cenas deploráveis para a raça humana, você firma a ideia de que não vai mais beber. Uma outra etapa começa, porque agora sim tudo vai ficar mais complicado. Seus amigos não tão próximos não vão entender porque você decidiu fazer isso, as pessoas desconhecidas vão te achar antissocial porque bebida é uma grande carta nas rodas de conversa, seus pais vão acreditar que você está prestes a dar uma chance para outras drogas, você vai perceber que a maioria das festas são um lixo e a bebida escondia esse aspecto. Quando você precisa realmente colocar aquela decisão em prática, o mundo inteiro muda.
Depois que eu decidi que não queria mais ir atrás do Menino das Cartas para conversar, a primeira coisa que surgiu em minha cabeça foi uma dúvida: será que eu estava fazendo a coisa certa? A partir dessa, outras perguntas vieram e todas com o mesmo questionamento à frente, de que talvez eu estivesse tomando a decisão errada. Comecei a pensar no que havia me motivado a realmente tentar fazer isso - porque eu tinha minhas inseguranças quanto a conseguir ou não, é óbvio.
Já tínhamos vivido tantas coisas no mínimo não-boas depois que ele foi embora, e também antes, que esse meu veredito já poderia ter aparecido em côrte. Eu já havia sido chamado de imaturo inúmeras vezes, tido provas e mais provas que aquele meu amor por ele era grande demais perante ao que ele estava disposto a me oferecer, sentido como se eu fosse a única pessoa errada em vários pontos da nossa relação. Mas foi o sentimento de traição talvez que tenha sido o estopim para todo o meu cansaço emocional.
Sempre ficou extremamente claro para mim, desde nosso processo de se conhecer em 2014, que eu e o Menino das Cartas não tínhamos nenhuma relação amorosa oficial. Inclusive, me custou chamar aquilo que nós tínhamos de relação porque poderia parecer, em algum grau, que significava algo a mais e eu nunca quis rotular nada do que tivemos. Era uma besteira, eu sei, já que todo relacionamento entre duas pessoas que conversam e se gostam, ou desgostam, é chamado de relação. É só que quando tem um sentimento romântico crescendo no meio disso, as terminologias parecem significar demais.
A consciência de que nossa relação não era algo único, extremamente romântico e monogâmico estava sempre passando pela minha cabeça. Claro, isso não me impedia de não querer me relacionar com outros homens, coisa que não fiz nos seis meses que ele esteve no Brasil antes de viajar, mas eu não chegava a esperar isso dele. Continuávamos falando sobre os rapazes que apareciam por aí e eu até mesmo colocava na minha cabeça que ele deveria ter se relacionado com algum outro e tudo isso me ajudou a entender que nossa relação não iria ser rotulada nunca. Mesmo com todo esse cenário bem esclarecido por mim, quando ele me disse, meses depois de viajar, que estava gostando de alguém enquanto ainda estava no Brasil, me senti traído.
Carta 27 11 de fevereiro de 2015
Sacode tua vida como um guizo sobre a minha / E então deixe-me só / Fingindo que é de alegria que eu estou chorando (FILIPE CATTO, Ascendente Em Câncer)
O que estava escrito na carta: "eu me perco em PENSAMENTOS E SENTIMENTOS 11/02".
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É muito claro que, por diversas vezes, somos lembrados constantemente que o nosso lado emocional e o racional não se cruzam muito. Quando eles se encontram parece que é sempre para que um deles subjugue o outro e ganhe predominância sobre nossas atitudes e decisões, como um todo. No meio disso está a gente, soldado que foi intimado para a guerra e se encontra no meio de um fogo cruzado enquanto pensa por que diabos está ali sendo que fez de tudo para não se alistar no Exército.
Quando tentamos pensar nessa velha dicotomia da emoção e razão, somos levados a crer que o embate entre as duas formam o que nós somos. Contudo, às vezes parecemos tão distantes de nós mesmos que sequer nos reconhecemos nesse suposto ponto de equilíbrio. É quando sua persona emocional desafia completamente sua persona racional. Quando me apaixonei pelo Menino das Cartas não pensei que aconteceriam tantas discussões internas em mim. Quando tive certeza que comecei a amá-lo, então, realmente acreditei que talvez as coisas ficassem mais claras ao meu entendimento. Engano.
Por várias vezes eu me sentia completamente em controle de toda a situação. Conseguia entender o que acontecia à minha volta e fazer uma interpretação fechadinha daquilo para a minha vida. Nesses dias era fácil conviver comigo mesmo. Ir para o estágio, vigiar constantemente para não ser assaltado novamente, fazer todo meu trabalho diário, voltar para a casa, pensar um pouco no meu TCC mas sem cobrança, já que fevereiro ainda era um mês de férias, escolher maneiras de relaxar perante ao computador, conversar com algumas pessoas para manter um bom astral, jantar, escovar os dentes e dormir.
Quando se é racional as coisas seguem uma lógica muito natural, em que tudo o que fazemos tem como objetivo apenas passar pelo dia. Damos importância à coisas que nos fazem bem e continuamos nossas tarefas do cotidiano sem complicações. Com isso, conseguimos até dar um espaço para as emoções boas, justamente porque sabemos que elas também são essenciais para que aqueles momentos sejam tranquilos e descomplicados.
Algumas outras vezes, porém, não era fácil tentar lidar com as emoções que ainda estavam presas dentro de mim. Se fosse um tempo antes, bem antes, eu estaria feliz por estar perdido no meio de tanta ilusão com gosto de jujuba. Depois de um tempo, porém, tudo pendia mais para um lado de Feijõezinhos de Todos os Sabores: eu não sabia se sortearia um feijãozinho com gosto de alcaçuz ou de poeira de porão.
Carta 26 04 de fevereiro de 2015
You got to start a love right from the ground / Cause when you start from the top you only come down [PALOMA FAITH, The Bigger You Love (The Harder You Fall)]
O que estava escrito na carta: "eu devo ser o MAIOR TROUXA 04-02".
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Janeiro finalmente tinha acabado e o ano estava começando a se desenrolar. Não completamente, porque isso só acontece de fato após o carnaval, segundo dizem. O primeiro mês de 2015 já havia me trazido muitas sensações em relação ao Menino das Cartas, coisas que eu achava estarem sufocadas dentro de mim por um bom tempo. É extremamente comum duvidar de si mesmo, mas talvez isso não deveria ser normal.
Penso que minha mania de guardar as coisas para mim dificulta este aspecto da minha vida. Quando você tem dúvidas, a melhor maneira de acabar com elas é tentar resolvê-las, obviamente. As coisas ficam um pouco complicadas quando você não se abre muito com outras pessoas, porque a única saída que sobra é a internet como maneira de resolver os problemas implantados pela sua cabeça. E todos nós sabemos que a resposta do Google para quaisquer sintomas é alguma doença terrível e que você, provavelmente, já deve estar em um estágio terminal. O ensinamento aqui é que não faz muito bem se fazer de Caixa de Pandora e guardar tudo de bom e de ruim que há no seu mundo.
Comecei a cair novamente em um vórtex criado apenas por uma pergunta de dois polos: conto para as pessoas como estou ou continuo segurando isso dentro de mim? O problema é que agora já começava a fazer tanto tempo desde que tudo já havia acontecido, que toda essa história iria ser tomada apenas como os sentimentos de alguém que não conseguiu abrir mão de uma pessoa que amou.
O fato é que tudo se resumia a isso sim, inegavelmente, mas talvez só quem tivesse passado por essa situação alguma vez, ou algo parecido, poderia se esforçar para entender um pouco tudo o que estava dentro de mim. Até porque nem mesmo eu sabia explicar a essa altura do campeonato. Tudo parecia tão embaraçado dentro do meu coração que comecei a pensar que só havia uma explicação para aquilo ter acontecido comigo: eu fui um idiota.
Fui estúpido ao pensar que conseguiria passar por um turbilhão de emoções e mesmo assim não continuar amando o Menino das Cartas. Fui ingênuo por acreditar que depois dos meus sentimentos tão certos, eu conseguiria apenas voltar a ser amigo dele, como tinha acontecido logo quando a gente começou a se conhecer. Fui uma pessoa sem senso crítico para perceber que desde o começo nossa amizade não era somente coleguismo, então seria difícil voltar para uma relação de apenas companheirismo quando as circunstâncias da forma como nos conhecemos já indicava que aquela deveria ser uma relação focada em outros tipos de sentimentos. Fui inocente ao deixar que meu coração falasse alto demais de uma maneira extremamente rápida. Fui irresponsável comigo mesmo ao tentar fazer com que qualquer coisa que um dia tivéssemos desenvolvido continuasse a crescer. Fui um idiota por não ter desistido mais cedo de tudo isso.