And I know that it’s complicated / But I’m a loser in love (LADY GAGA, Speechless)
O que estava escrito na carta: “a deriva parece melhor 08x04”.
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A distância é quase uma entidade. Conseguimos compreendê-la perfeitamente porque é algo que, pela ausência, é física no espaço tridimensional em que vivemos. Ela se faz extremamente presente na nossa vida assim como o tempo. A física ainda garante que o produto dela com ele resulta em velocidade. Mesmo assim quase não conseguimos entender porque algo tão calculável tem um efeito tão emocional na gente.
Estar distante de alguém que você quer perto mais do que tudo causa uma sensação, no mínimo, de desconforto. É que a distância não está sozinha nessa equação, já que uma trouxa cheia de emoções traz variáveis que alteram bastante o resultado, e a ordem dos fatores tem grande influência aqui. É como se a separação fosse um acelerador de partículas, pronto para fazer as coisas chocarem entre si.
Quando descobri que o Menino das Cartas ia viajar, a distância não foi a primeira coisa com que me preocupei. Em um dia, conversando com ele pelo chat do Facebook, eu o perguntei:
_ Como você conhece este menino? — e envie o perfil de uma pessoa que havia estudado comigo durante o ensino médio.
_ Ele estuda no mesmo prédio que eu. — ele respondeu.
_ Ah sim. — passeei um pouco pelo perfil do rapaz em questão e percebi que ele tinha feito alguns posts sobre intercâmbio, sobre passar um tempo longe da família.
Uma vez, há algum bom tempo antes disso, eu e o Menino das Cartas conversávamos sobre alguma coisa de idiomas e ele havia dito algo como “Nossa, pior que meu húngaro”. Na época, pensei apenas que tinha sido uma daquelas falas em que a aleatoriedade comanda. Como se quando visse alguém andando mal de skate, eu dissesse algo “Nossa, pior do que eu usando hashi”.
Mas no dia em que vi o perfil do menino que estudou comigo e li as postagens dele sobre viajar, quase automaticamente liguei os pontos. Eu só tinha essas informações e consegui captar no fundo da minha memória de quando o Menino das Cartas citou o bendito idioma. Perguntei para ele, retoricamente:
_ Você vai fazer intercâmbio, né?
_ Então, isso é uma coisa que eu queria ter falado há um tempo. — ele começou a se explicar. Foi a primeira vez em que eu senti o peso de que a pessoa que eu gostava tinha data e hora para ir embora. Perguntei de quanto tempo seria o intercâmbio, ele respondeu que seriam 12 meses e automaticamente eu quis me enganar dizendo que aquilo não era tanto tempo. Desde esse dia, eu sempre dei mais importância pelo tempo separado do que pela distância.
Alguns amigos meus já haviam passado por esse mesmo processo de fazer intercâmbio. Dois estiveram longe de mim por metade de um ano antes do Menino das Cartas ir embora e outra amiga se ausentou por seis meses depois que meus dois amigos voltaram. Esse cenário me deu a ilusão de que eu conseguiria suportar um ano longe daquela pessoa que gostava. Claro, me enganei.
O tempo de 12 meses foi sim decisivo para o desenrolar de todos os meus sentimentos, mas a distância entre nós dois colocava uma impossibilidade física de estarmos juntos. Havia um oceano inteiro entre nós; milhas e milhas de vida aquática, terrestre e aérea desconhecidas por mim e por ele. Não era como se ele estivesse em São Paulo e eu pudesse vê-lo se fizesse um esforço, guardasse algum dinheiro e conseguisse viajar de dois em dois meses para que olhasse novamente dentro dos olhos dele. Não, ele iria para outro continente, um bem longe e inalcançável para mim. E isso me doía demais.
Uma das minhas lembranças mais antigas é a que aconteceu ainda durante minha primeira infância. Em algum momento da minha vida, o berço em que eu dormia dividiu o quarto da minha irmã. Ele ficava relegado ao canto esquerdo do ambiente e havia um espaço entre ele e a cama dela, para que qualquer um pudesse transitar por ali sem maiores problemas.
Às vezes, motivado por alguma vontade — desde medo à apenas desejo -, eu pedia para que meu pai colocasse meu berço um pouco mais para a direita. Assim, por entre as grades de madeira, conseguia esticar meu braço e dar a mão para a minha irmã. Desse jeito eu me sentia ainda mais protegido por poder dormir de mãos dadas com aquela pessoa que me amava tanto a ponto de dividir seu quarto comigo.
Um dia pedi que meu pai fizesse isso e ele se negou. Pedi novamente e ele negou. Pedi mais uma vez. Outra negação. Pedi de novo. E de novo. E de novo. Pedi até o pedido virar uma chateação de criança, daquelas que dão nos nervos. Ele então negou novamente, em uma voz mais firme e metálica: “Não, Mauro! Você vai dormir no seu canto. Deixa disso”. Chorei pelo modo como ele falou comigo e também por não conseguir o que eu queria. A distância entre eu e minha irmã era pouco mais de meio metro, mas meus braços curtos não alcançavam os dela. Mesmo assim os deixei esticados, sabendo da ausência das mãos dela nas minhas e mesmo assim sentindo que ela estava ali.
Hoje, com minha capacidade de ir e vir aumentada, tenho a consciência que estar separado de alguém que você gosta por uma distância de 15 quilômetros também pode incomodar, claro. Estar longe sempre vai ser algo exposto bem na sua frente justamente pela ausência daquele corpo que você tanto deseja. E mesmo que seja complicado pegar dois ônibus e um Uber até a pessoa que você gosta, é uma ação que está dentro do mundo do possível. Mas no meu caso, era impossível me deslocar do meu país para outro. E mesmo que fosse, não seria realmente viável.
Vencer alguns quilômetros que podem ser contados pelos dedos das mãos e dos pés significa que sua vontade de estar perto é forte, mas quando esse número ultrapassa 10 mil km significa que o nível do seu desespero e da sua descolagem da realidade é bastante alto. Os filmes nos ensinam que você pode vencer qualquer distância para estar do lado de alguém que ama, mas a essa altura do campeonato sabemos que não é bem assim. Mesmo que seja possível você pegar um avião e estar em Tóquio amanhã porque seu amor por alguém é forte, as pessoas ainda vão poder olhar para sua cara e pensar “Ele realmente fez isso? Ele não tem noção?”. É loucura demais para a maioria delas aceitarem.
Mesmo que eu e o Menino das Cartas conversássemos diariamente, o peso da distância entre nós ainda seria sentido por mim. Por mais que tentemos nos enganar, não existe uma correspondência forte e inquebrável entre o real e o virtual. Sim, devemos aceitar que as relações humanas já não são as mesmas e estar fisicamente do lado de alguém pode ter ficado um pouco mais difícil porque colocamos impedimentos entre um encontro e outro, isso só reforça a diferença crucial entre um toque físico e um emoji de coração. Mesmo daquele gigante vermelho.
Relacionamentos virtuais não são vazios, mas são completos apenas em suas próprias maneiras de existir. Talvez nem devêssemos comparar uma relação mantida em sua maioria no virtual com uma sustentada no real, mas isso é impossível de não se fazer, ainda mais em uma espécie que apreende as coisas justamente por causa de suas diferenças. São tantas particularidades que envolvem manter algo apenas usando a nuvem, que eu não conseguiria mesmo manter qualquer tipo de relação somente assim. Aliás, é relativamente alto o número de amigos virtuais com os quais perdi contato. Eu simplesmente não consigo fazer com que aquilo dure por um tempo considerável.
Na minha relação com o Menino das Cartas seria impossível eu tentar encarar a distância e o tempo. Seria um ano que eu não conseguiria ouvir a voz dele sem ser mediada por algum aparelho. Doze meses sem poder captar o lubrificação natural dos olhos dele. Dois semestres em que eu ficaria incapacitado de sentir os mínimos pelos da mão dele encostando na palma da minha. Quatro estações apenas imaginando o calor que um abraço dele fosse capaz de irradiar para o meu corpo. Tudo isso agravado por uma distância implacável que fazia com que meu sentido táctil fosse o primeiro a esquecer de tudo. A pele, a textura, a temperatura dele, e depois o timbre da voz, a cor da pele e o apelido de seu nome.
Quando vi a imagem que Alice, que tirou a foto do trigésimo quinto post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou, aquele mar pincelado com algumas cores laranjas do sol me deu uma pequena dimensão real da distância que existiu entre nós. Era de perder de vista e não havia como eu pensar em alcançá-lo de maneira alguma. Assim como o mundo físico se colocou entre nós, com seus mais de 10 mil quilômetros de separação, meus sentimentos também começaram a se afastar.
Como placas tectônicas que lentamente se desprendem com o movimento do mundo, assim eu fui. De milímetro a milímetro deixei a rotação do planeta me empurrar um pouco mais pra longe. Eu me sentia melhor por ter parado de nadar contra a corrente. Comecei a deixar que a distância me levasse para onde quer que fosse.
Talvez cada um reme pr'um lado / Mas os mares que te cercam / Talvez sejam iguais aos meus (SANDY & JUNIOR, Segue Em Frente)
O que estava escrito na carta: "as águas de março devem ter fechado um pouco o meu coração 01/04".
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Durante todos os meses em que escrevi acerca do Menino das Cartas eu fiquei interessado sobre a noção de tempo. As duas concepções desse assunto que mais me encantaram vieram da ciência e da religião. O ponto de vista científico que me fez pensar sobre o tempo surgiu para mim em uma das reuniões que tive sobre meu Trabalho de Conclusão de Curso.
Naquele dia, uma sexta-feira, o orientador da minha monografia convidou um professor do curso de Comunicação para participar da reunião. Na pequena sala, estavam eu e mais alguns poucos colegas, 6 ou 8, como era de praxe nos nossos encontros semanais. O professor falou muito sobre o conceito de narrativa, sujeito e ação comunicacionais. Um assunto interessante dominado por alguém que sabia ensinar encheu a minha cabeça naquela tarde e eu adorei.
Então, em uma de suas falas, o professor introduziu uma dúvida básica :
_ Vocês sabem o que é o tempo?
Não respondemos, obviamente, porque sabíamos que qualquer resposta não conseguiria chegar perto da resolução correta. Ele então continuou mais ou menos assim:
_ Quando Santo Agostinho - sim, a ciência em questão veio de um santo - se faz essa pergunta ele começa a filosofar sobre a questão. Em certo ponto, ele só diz que é possível entender o tempo porque os humanos o dividiram em Passado, Presente e Futuro. Um é o que aconteceu, o outro o que acontece e o terceiro o que irá acontecer.
“Isso só é possível porque damos um ‘espaço’ para o tempo e então conseguimos apreendê-lo. Contudo, pela conceituação do tempo, ele se transforma em algo que não pode ser apreendido porque não existe. O tempo Presente só é possível medir em um espaço, mas se ele é tão único, ele não tem espaço. A não ser que consideremos este espaço em uma ampla faixa e passemos a chamá-la de ‘Presente’.
“O Passado, contudo, não pode existir. Se ele é o tempo que ficou para trás, o tempo que não existe mais, como seria possível medir algo que não existe mais? Isso somente poderia ser feito enquanto o Passado fosse o Presente, que é o único tempo que há, mas assim que vira passado, deixa de existir e de poder ser compreendido.
“O Futuro, por estar em um campo inatingível por nós, também não pode ser medido. Como o Passado, o Futuro não existe justamente porque não conseguimos acessar aquilo que ainda não existe. Assim, Passado e Futuro estariam fora da capacidade humana, e o único tempo que poderíamos compreender é o Presente. Tudo isso seria possível, claro, se o tempo fosse algo espacial. Mas ele não é. A única forma de compreender o conceito de tempo é através da linguagem. Somente a linguagem constitui memória e a linguagem só adquire sentido através do tempo”.
Ele disse muitas outras coisas e cada uma delas de muitos outros jeitos. Algumas que cruzam esse tópico principal e outras que vão além dele. Neste dia eu saí da reunião entendendo um pouco mais da complexidade do tema, já que mesmo antes de a faculdade estar tão próxima de mim eu me perguntava como o Presente poderia existir se quando pensamos nele, ele já não é mais Presente. Claro, não era uma dúvida que eu tinha enquanto assistia Os Anjinhos e depois Pernalonga, mas sim naqueles momentos em que as crianças pensam de verdade em alguns aspectos da vida que elas não entendem de jeito nenhum. Acabam recriando até mesmo a sequência Fibonacci.
A concepção religiosa, que é basicamente mitológica, sobre o tempo me aconteceu no local que eu menos imaginaria que isso seria possível: no trabalho. Alguns poderiam chamar de experiência divina e outros apenas de coincidência e eu realmente não me importo com essa classificação. De qualquer forma, o ensinamento sobre o tempo que eu precisava ouvir esteve ali na minha frente no momento em que eu mais precisei dele. Dentro de uma conversa muito maior e que falava sobre as angústias mais comuns, aquelas que todos os humanos têm, o tempo apareceu para mim por meio da fala de uma colega de trabalho: “Nós, humanos, vivemos no cronos, o tempo do relógio, e Deus vive no kairós, o tempo das oportunidades”.
Desde então eu tenho conseguido compreender algumas coisas da vida que antes nem precisavam ser discutidas, mas que agora ainda me parecem mais esclarecidas. Minha aplicação prática desses dois ensinamentos foi que o tempo só existe na memória, a única coisa que consegue dar um corpo para ele; também talvez o único tempo que exista seja o das oportunidades, probabilidades, aleatoriedades. Isso pareceu me tirar do lugar já conhecido de onde eu sempre estive e me forçar a caminhar para outro. Um que eu não sabia se me deixaria mais leve, pesado, com mais dúvidas ou mais respostas sobre o que acontece por volta da gente.
A nossa ânsia por resoluções e fatos completamente não duvidáveis nos fazem desejar por uma maneira mais direta de superar um coração partido. Em algum momento, no entanto, percebemos que o único jeito de que as coisas se resolvam é deixar que o Tempo aja. Odiamos isso não porque é, provavelmente, a coisa mais cliché que existe e porque não conseguimos nos desprender do nosso tempo cronológico. Para nós, as coisas precisam acontecer neste âmbito, é inconcebível deixarmos margem para um outro conceito de tempo que é baseado em aleatoriedade. Cronos é o único tempo que abraçamos, o kairós é inaceitável. Temos a necessidade de controlar todo nosso espaço. Mas tempo e espaço são duas coisas distintas. Deter o suposto comando de um, não nos garante o do outro.
Custa abraçar, se é que um dia realmente abraçamos, as probabilidades que giram ao nosso redor. Essa aleatoriedade não dá para prever. Ela comanda nossa vida e o máximo que conseguiremos é fazer com a que a memória lembre de momentos perdidos de oportunidades para que fiquemos mais atentos para reconhecer quando outra aparece.
Agora eu já estou ciente de que outros marços ainda estarão esparramados aos montes pela frente, assim como outros meses também vão estar. Se as águas de março abriram meu coração em 2014, quando conheci o Menino das Cartas, e pareceram costurar o mesmo órgão um ano depois, talvez um novembro possa abrí-lo de novo. A imagem de Larissa, que fez uma ilustração do trigésimo quarto post-it que colei nas cartas de baralho, me mostrou exatamente isso desde a primeira vez que a vi.
Pode acontecer de um janeiro fechar meu coração e um maio tentar reabrir, mas ainda haverão outros desses meses e de mais outros para que qualquer possibilidade se apresente. No meio disso, só espero ainda encontrar uma terceira relíquia de pensamentos sobre o tempo. Assim, quem sabe eu termino a minha missão de acolhê-lo como um velho amigo.
A tua saudade corta / Como aço de naváia / O coração fica aflito / Bate uma, a outra faia / E os óio se enche d'água / Que até a vista se atrapaia (MILTON NASCIMENTO, Cuitelinho)
O que estava escrito na carta: "pulei uma batida do meu peito 25/03".
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Dia 22 de março de 2015. Um ano que eu e o Menino das Cartas havíamos nos conhecido. Como bons homens nascidos no final do século XX e que carregaram a internet nas costas desde 1995, o meio que faria a gente se encontrar não poderia ter sido outro. Um primeiro interesse mútuo já estava dado quando eu tive a predisposição de enviar um cumprimento tímido e roteirizado para ele. Nossa história começou assim, como um tanto de outras que começam da mesma forma.
Não há por que negar a importância que o tempo tem na nossa vida. Somos seres tão cronológicos que conseguimos monetizar até mesmo um segundo do nosso dia. É coisa de centavos, na maioria das vezes, mas a importância de um ato desses está sempre à espreita. Então vamos sempre tentar enxergar nossa vida como uma grande reta que começa de um ponto e segue infinitamente para um lado e para o outro. Talvez uma semirreta, já que o final do nosso tempo na Terra é sempre bem demarcado pela morte.
Conseguimos ir para momentos no tempo com a facilidade de só precisar forçar um pouco a memória para que todas as nossas sensações possam ser sentidas novamente. Nos apegamos a um amontoado de fatos passados e tentamos viver de uma forma que a dúvida sobre o futuro se transforme em algo inegável e completamente tangível. Queremos que o tempo seja táctil, que realmente nos pese os pulsos com um metal gelado, grande, fashion e bem ostensivo.
No aniversário de um ano do dia em que conheci o Menino das Cartas foi impossível não colocar minhas capacidades cinematográficas em curso. Nenhuma delas foram conseguidas durante a faculdade ou os textos maçantes e forçadamente intrincados sobre cinema que li durante minha vida. Essas habilidades têm muito mais a ver com as comédias românticas da Jennifer Lopez do que com qualquer coisa relacionada a “O Encouraçado Potemkin” ou “A Greve”. Ainda bem.
Inclusive, foi um filme de comédia - não romântica, pelo que me lembro - que me mostrou um ensinamento que carrego comigo até hoje. Não é uma sequência alegre ou engraçada e talvez por isso eu tenha sempre valorizado bons filmes ou séries de comédia. Você consegue olhar para a vida como uma grande sucessão de fatos felizes e pensar, nos momentos que não há dificuldade, que as coisas podem dar errado, mas aquilo não é o fim do mundo. Comédias funcionam mais ou menos assim, mas o pressuposto de que algumas coisas são tristes demais para não serem apenas isso só acompanham as bem escritas. O melhores momento são aqueles em que os personagens aprendem lições e você se surpreende porque a moral vem de algo que, na maioria das vezes, parecia raso.
No filme em questão, em uma cena do terceiro ato, o protagonista está olhando para um álbum de retratos. Ele está triste porque a relação com sua esposa não vai muito bem a essa altura da história. O pai dele senta ao seu lado, no sofá:
_ Por que você está triste? - ele pergunta.
_ Eu olho para esse álbum de fotos e vejo a gente sorrindo desse jeito. Queria que estivéssemos sorrindo de novo, agora. - o filho responde.
_ Mas a vida é assim, não é? Quando queremos lembrar de algo, vamos lembrar sempre dos momentos felizes. É o que colocamos no álbum de retratos. Mas são os momentos tristes que nos levam de uma foto feliz para a outra. - “Divertida Mente” iria me reensinar a mesma coisa anos depois.
Quando fez um ano que eu havia conhecido o Menino das Cartas, foi impossível não lembrar de todas as boas sensações que eles despertou em mim. Desde o sorriso com olhar compenetrante dele que fazia eu me sentir bem, de alguma forma, até o beijo que acelerou meu coração de um jeito que eu não havia sentido antes. Quando Anderson, que tirou a foto do trigésimo terceiro post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, aquele abraço estampado por uma lente objetiva, fez com que fosse impossível eu não lembrar que o Menino das Cartas foi a primeira pessoa que depois de um tempo eu entendi que havia amado.
Por mais que os dias passem, as nuvens fiquem cinzas em um domingo qualquer, o relógio não desperte na hora que estava programado porque o celular acabou a bateria, você acorde cinco minutos antes do horário que colocou no alarme do rádio-relógio, a louça da cozinha ainda esteja suja porque a preguiça de limpar é maior do que qualquer outra coisa, por mais que sua vida mude completamente de rumo, você sempre vai conseguir lembrar da primeira pessoa que amou. Se eu ainda conseguia lembrar dos sentimentos que desenvolvi pela menina que achei que gostava quando eu estava na sexta série do ensino fundamental, para mim era ainda mais cabal lembrar do amor que cresceu dentro de mim pelo Menino das Cartas.
E naquele aniversário de um ano, encarar a lembrança de nós dois juntos, com tanto afinco, fez meu coração esquecer de bater uma vez. Foi só um batida que ele pulou, quase um nada, mas tão perceptível para um peito que não espera que isso aconteça que pareceu bem assustador. É como se por alguma fatia ínfima de tempo a respiração também ficasse descompassada e fantasmas de gotas de suor pensassem em aparecer para assombrar as palmas das suas mãos. Como se o amor tivesse virado uma gotinha de água que vem do céu em uma velocidade monstruosa e cai bem no seu minúsculo copo de dose de cachaça.
É tão inesperado se apaixonar que parece que as pessoas se esquecem que começar a amar alguém quase segue o mesmo caminho. Temos a falsa sensação de que quando o amor se mostra, ele não faz de forma abrupta, mas se faz sim. Amar parece dar a falsa ideia de que esse sentimento é sublime demais, então ele vai se construindo e se mostrando pouco a pouco.
Isso pode até ser verdade, mas a virada de chave da paixão para o amor, nunca é devagar. Não tem como ser. O clique acontece de uma hora pra outra, não dá pra temporizar. E assim como as coisas improváveis que hora e outra nos encaram durante a vida, amar alguém pela primeira vez instaura sempre a mesma dúvida de quando você é sorteado no bingo de uma festa junina com setecentas pessoas: será que vai acontecer de novo?
I thought I could forgive you, and I know you've changed / As much as I want to trust you, I know it ain't the same (BEYONCÉ, Resentment)
O que estava escrito na carta: "depois do que você fez, cada dia acaba mais 18/03".
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Tomar uma decisão sobre algo nunca é o produto final do que você tem que fazer. Na verdade, é só o começo. Parece complicado porque, por exemplo, até chegar na resolução de que não quer mais ingerir bebida alcoólica você provavelmente já passou por muitas e muitas coisas. Deve ter esquecido o que disse na noite passada, vomitado no closet de alguma amiga rica, lascado um dente porque perdeu o equilíbrio e parou com a cara no chão, beijado a boca daquela pessoa que tem mau hálito desde quando você a conheceu, contado para todos os seus amigos o tamanho do seu pênis mesmo que ninguém tenha perguntado.
Depois disso tudo, e muitas outras cenas deploráveis para a raça humana, você firma a ideia de que não vai mais beber. Uma outra etapa começa, porque agora sim tudo vai ficar mais complicado. Seus amigos não tão próximos não vão entender porque você decidiu fazer isso, as pessoas desconhecidas vão te achar antissocial porque bebida é uma grande carta nas rodas de conversa, seus pais vão acreditar que você está prestes a dar uma chance para outras drogas, você vai perceber que a maioria das festas são um lixo e a bebida escondia esse aspecto. Quando você precisa realmente colocar aquela decisão em prática, o mundo inteiro muda.
Depois que eu decidi que não queria mais ir atrás do Menino das Cartas para conversar, a primeira coisa que surgiu em minha cabeça foi uma dúvida: será que eu estava fazendo a coisa certa? A partir dessa, outras perguntas vieram e todas com o mesmo questionamento à frente, de que talvez eu estivesse tomando a decisão errada. Comecei a pensar no que havia me motivado a realmente tentar fazer isso - porque eu tinha minhas inseguranças quanto a conseguir ou não, é óbvio.
Já tínhamos vivido tantas coisas no mínimo não-boas depois que ele foi embora, e também antes, que esse meu veredito já poderia ter aparecido em côrte. Eu já havia sido chamado de imaturo inúmeras vezes, tido provas e mais provas que aquele meu amor por ele era grande demais perante ao que ele estava disposto a me oferecer, sentido como se eu fosse a única pessoa errada em vários pontos da nossa relação. Mas foi o sentimento de traição talvez que tenha sido o estopim para todo o meu cansaço emocional.
Sempre ficou extremamente claro para mim, desde nosso processo de se conhecer em 2014, que eu e o Menino das Cartas não tínhamos nenhuma relação amorosa oficial. Inclusive, me custou chamar aquilo que nós tínhamos de relação porque poderia parecer, em algum grau, que significava algo a mais e eu nunca quis rotular nada do que tivemos. Era uma besteira, eu sei, já que todo relacionamento entre duas pessoas que conversam e se gostam, ou desgostam, é chamado de relação. É só que quando tem um sentimento romântico crescendo no meio disso, as terminologias parecem significar demais.
A consciência de que nossa relação não era algo único, extremamente romântico e monogâmico estava sempre passando pela minha cabeça. Claro, isso não me impedia de não querer me relacionar com outros homens, coisa que não fiz nos seis meses que ele esteve no Brasil antes de viajar, mas eu não chegava a esperar isso dele. Continuávamos falando sobre os rapazes que apareciam por aí e eu até mesmo colocava na minha cabeça que ele deveria ter se relacionado com algum outro e tudo isso me ajudou a entender que nossa relação não iria ser rotulada nunca. Mesmo com todo esse cenário bem esclarecido por mim, quando ele me disse, meses depois de viajar, que estava gostando de alguém enquanto ainda estava no Brasil, me senti traído.
Eu já estava ciente que meu amor não era correspondido com a mesma intensidade, mas ainda acreditava que ele havia gostado de mim. De um jeito meio mascarado que só dava as caras quando ele realmente dizia as palavras que eu gostava de ouvir, mas ainda assim eu sabia que ele nutria um carinho e afeição grandes por mim. Isso ele sempre deixou bem transparente. Pensar que ele esteve tanto tempo com outra pessoa em mente, pensando nela de forma constante e não ter falado rapidamente comigo sobre isso para que meus sentimentos não se fortalecessem mais, foi demais.
Qualquer tipo de traição machuca porque ela tem o poder de conseguir acabar com a confiança que as partes desenvolveram. Ela funciona como uma grande virada no roteiro que está sendo escrito porque é como se o ato mostrasse para você que, por todo aquele tempo, sempre existiu uma sub-história que você não soube. Você foi cortado de toda uma linha narrativa gigante e complexa, porque alguém decidiu esconder isso de você. E não qualquer alguém, mas aquela pessoa para a qual você abriu seu coração e expôs suas maiores fraquezas e medos.
Ser traído é como sentir que o caminho que você trilhou por tanto tempo simplesmente não foi real, porque compraram balões e serpentinas para enfeitá-lo e deixar tudo mais bonito. Só que, uma hora ou outra, tudo aquilo é retirado e a festa apenas acaba. Você fica sem bolo e nem refrigerante, apenas com uma cama cheia de presentes que depois de abertos mostram que tudo não passava de caixas vazias enroladas em papel colorido. É no mínimo triste e desolador. Talvez eu não precisasse me sentir desse jeito, pode parecer a coisa lógica a se pensar, mas a verdade foi que eu me senti assim.
Quando Lucas, que tirou a foto do trigésimo segundo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, aquele coração partido em cima das cartas resumiu de forma extremamente assertiva o momento em que eu estava. A decisão de não querer manter um relacionamento tão frequente com o Menino das Cartas veio porque eu não conseguiria sentir que meu coração estava nas mais imperfeitas condições e simplesmente não fazer nada sobre isso.
Lembrei da única vez que o Menino das Cartas teve coragem de se abrir muito comigo e, antes mesmo dele viajar, me contar que às vezes não me tratava bem porque talvez assim eu ficaria com raiva dele e me afastaria. Eu teria que ser a pessoa responsável por fazer isso porque desse jeito tudo seria uma decisão minha e nesse cenário, segundo ele, as coisas poderiam se resolver de forma bem mais tranquila para uma das partes envolvidas.
Ainda recordo o quanto achei esse plano infantil e idiota, mas nunca falei isso com ele, porque, bem, eu não queria causar qualquer tremor na nossa relação. Covardia da minha parte, porque dessa forma eu também não fui sincero com o Menino das Cartas. Fazer o que, estamos todos suscetíveis ao erro. Só não podemos nos ater a ele.
Para mim, essa decisão dele nunca funcionaria, porque eu estava apaixonado demais para perceber que deveria ter cortado nossa relação precocemente. De qualquer maneira, depois de muitas semanas, o plano de me afastar por me tratar mal deu certo no fim das contas. Apostei todos os meus sentimento mais positivos nessa relação e tive que ter meu coração partido para perceber a hora de levantar e sair da mesa. Era hora de encarar um fato: não tinha chance nenhuma de eu vencer aquele jogo jogando sozinho.
És que hoy se me agotó la esperanza / Porque con lo que nos queda de nosotros / Ya no alcanza (SHAKIRA, Lo Que Más)
O que estava escrito na carta: "acho que não dá mais 11/03".
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O corpo sempre tem suas maneiras de nos avisar quando algo não está nos trilhos. Uma erupção que aparece na pele por causa de um estresse no trabalho; o coração que acelera e abraça a arritmia quando esperamos ansiosamente por uma notícia; as bolsas debaixo dos olhos que aumentam quando a tristeza começa a entrar de novo na nossa vida. Dentre essas diversas reações, o cansaço é uma das que mais atesta que está na hora de repensar tudo o que você tem feito.
Às vezes as pálpebras ficam pesadas no meio da noite e você apenas adormece, sem nem mesmo se dar conta. Nem sempre podemos contar que alguém vai aparecer do seu lado para te acordar, te ajudar a trocar de roupa, ajeitar sua cabeça no travesseiro, cobrir seu corpo com uma manta nem leve nem pesada, apagar as luzes do ambiente e depois fechar a porta com cuidado para não te despertar.
Quando o cansaço é forte demais e a sorte é de menos, o corpo fica somente jogado de qualquer maneira em um canto. Você então pode acordar no meio da noite por causa do desconforto ou, pior ainda, acordar somente no outro dia. Daí o pescoço começa a doer e músculos que você esqueceu que existiam reaparecem apenas para lembrar que eles ainda estão ali e que podem deixar seu dia bem mais desagradável do que já estava programado para ser.
O cansaço emocional funciona quase da mesma maneira, mas ele tem algumas particularidades que fazem você demorar um pouco para compreendê-lo. Essa pequena dificuldade traz um sentimento muito mais de desistência do que de qualquer outra coisa. Quando estamos cansados emocionalmente é porque não aguentamos nem mesmo mais chorar. Tudo começa a desandar por motivos que muitas vezes não conseguimos controlar. Não temos mais força nem para impor alguns pensamentos positivos e impelir o universo de nos ajudar de alguma maneira com aquilo que não sai das nossas cabeças.
Em março de 2015 eu comecei a me sentir cansado de toda a relação que eu tinha estabelecido com o Menino das Cartas. Não que ele fosse o culpado por essa sensação. Mas talvez o tempo, com seu passar lento e processual, tenha se encarregado sozinho disso mesmo. Em 11 de março de 2015 faltavam apenas 11 dias para o dia 22, em que completaria um ano em que eu e ele havíamos nos conhecido e trocado as primeiras palavras fáceis e sinceras.
Havia pensado que essa data tinha ficado marcada em minha mente porque muitos aspectos únicos rondavam-na e me faziam lembrar dela facilmente. Conheci o Menino das Cartas uma semana antes de começar a cumprir uma promessa. Como católico, essas decisões são realmente pesadas e importantes para mim, mesmo que eu possa me encaixar dentro da classificação de católico não-praticante (o que não me faz menos católico, afinal já fiquei meses sem me relacionar com um homem e nem por isso fui taxado como um gay não-praticante. Às vezes as nomenclaturas têm uma mania de deixar o mundo ainda mais estranho).
Depois de tempos percebi que aquela data havia ficado na minha cabeça não porque ela era tão especial, mesmo que ainda fosse, mas também porque eu costumo guardar mentalmente o número do dia do mês que conheci as pessoas que me despertaram algum tipo de sentimento romântico. O encontro com o rapaz do dia 12 e a vez que conheci o menino do dia 18, por exemplo, vão sempre estar disponíveis para que eu possa acessá-los quando quiser.
Esse movimento de guardar o dia na cabeça não é completamente natural. Algumas vezes preciso rolar as mensagens no celular para descobrir quando foi que eu e alguém dizemos o primeiro “Oi”. Quando o cumprimento acontece pessoalmente, o processo é mais fácil, mas mesmo assim ainda demanda alguns segundos de conta nos dedos para recapitular os dias passados até encontrar aquele que foi tido como especial. Mas uma vez que isso é feito, acabou, é complicado simplesmente conseguir apagar a informação da minha mente.
Quando Mateus, que tirou a foto do trigésimo primeiro post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, me disse que ela representava muitas questões pessoais. A pressão de viver longe da família, tentar ter sucesso em uma área que não tem afinidade nenhuma e ainda sentir culpa por querer buscar outras possibilidades, fazia com que a vontade de Mateus de desistir de tudo batesse na porta constantemente. Esse é o principal ponto do cansaço: ele te deixa tão exausto que abre espaço para que a tristeza comece a crescer dentro de um lugar pequeno e se expanda rapidamente.
A alegria ocupa muito espaço e energia. A tristeza se reproduz bem mais facilmente, porque ela só precisa de qualquer canto minimamente fértil para crescer. Qualquer área estável e sem muita movimentação já tem as propriedades necessárias para que aquele sentimento se desenvolva. É como o feijão das experiências científicas do ensino fundamental, que cresce até mesmo em um algodão dentro de um copo velho de requeijão.
Meu cansaço em relação ao que eu sentia pelo Menino das Cartas era porque tudo isso me deixava constantemente abatido. Eu ainda mantinha aqueles meus sentimento apenas para mim, sem dividir com outras pessoas, e conseguia fazer algumas obrigações que não poderiam ser deixadas de lado, mas, no geral, eu ainda não estava bem comigo mesmo.
Decidi não chamá-lo mais para conversar. Eu não sabia se conseguiria cumprir essa promessa, já que ela foi feita apenas para mim e não para alguma entidade divina mais poderosa que eu. Era forte o desejo de não me render novamente à conversas que, no final, me deixariam mal. No fundo, eu ainda esperava que um dia pudéssemos conversar tranquilamente sobre as coisas que aconteciam no mundo, fossem amenidades ou mesmo questões políticas seriamente pautadas. Mas talvez aquele não fosse o momento para isso.
Dessa vez eu deixei o cansaço falar por mim. Foi necessário um grande peso de realidade e sentimentos negativos revirados no estômago para que essa decisão fosse tomada. Foi uma resolução boa, eu acreditava, mas ainda era triste perceber como a gente, às vezes, precisa realmente se sentir no chão para compreender que ficar deitado olhando para o teto não vai resolver nenhum dos nossos problemas.
I've been broken from the scars that I forgave / Spent a long time running from the mess we’ve made (ELLA HENDERSON, All Again)
O que estava escrito na carta: "por um minuto, te esqueci 04-03".
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Esquecer nunca é um ato de continuidade prolongada. Ele dura algum tempo, mas quase sempre é apenas o bastante para que você se arrependa de ter esquecido, quando a lembrança entra em campo. A duração de um esquecimento é apenas aquela em que espera você levantar, usar o banheiro, tomar um copo de leite quente, sair em um dia frio e cinzento para depois lembrar que esqueceu o guarda-chuva em casa, quando uma gota de água gelada cai do céu especialmente na sua bochecha esquerda.
Daí não há mais tempo de buscar o objeto porque seu ônibus chegou. Então a melhor coisa é encarar mesmo a chuva pesada que vai durar por 4 horas e 30 minutos, com gotas grossas, em uma frequência assustadora e tão próximas umas das outras. Você simplesmente tem que enfrentar poças nojentas de uma água escura e torrencial que se acumulam perto das calçadas. Tudo sem a dignidade de estar um pouco protegido das chuvas de verão que cismam em ser inesquecíveis.
Durante o esquecimento, tudo o que acontece em volta de você é muito bom. Quando queremos esquecer de algo, aquilo não nos provoca preocupação, não nos deixa nervosos ou ansiosos com a proeminência de algo. Entramos em um estado de limbo em que o corpo flutua de uma forma tão única no vácuo escuro e sem nenhuma interferência externa. É como estar em um estado de paz, mas sem a consciência disso.
Quando Joana, que tirou a foto do trigésimo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, ela me disse estar na praia. Joana decidiu tirar a foto durante uma viagem e percebi novamente que a mudança de ares nos ajuda a tirar a cabeça daqueles pensamentos obsessivos que teimam em não nos deixar ter um segundo de calma. Quando viajei para o Rio de Janeiro, para a virada de ano de 2014 para 2015, em diversos momentos eu consegui não pensar no Menino das Cartas.
Talvez fosse o momento de eu finalmente me ajudar um pouco mais e pensar em maneiras de me desprender daqueles sentimentos. Com mais um março, o de 2015, começando e com as aulas prestes a voltarem, quem sabe eu devesse realmente direcionar meu foco para aquilo que julgava ser mais importante. O problema é que as coisas estavam ainda meio recentes dentro de mim, com uma inquietude que não morria facilmente, por mais que eu tentasse afogá-la por diversas vezes.
O tempo de interpretar as emoções que sentimos é muito diferente do tempo cronológico, então realmente ficamos um pouco desamparados com a junção de tanta coisa acontecendo dentro de nós. A dificuldade da superação de um relacionamento também vai por esse aspecto, já que juramos ter passado três dias após a notícia do término e, quando percebemos, ainda estamos no final da terceira cena de um filme ruim de 2 horas e 36 minutos de duração. É um arrastar pesaroso que somente quem está ali, de frente, tentando compreender tudo o que acontece, consegue perceber que o tempo não está do seu lado.
Dia 22 de março de 2015 faria um ano exato que eu e o Menino da Cartas tínhamos nos conhecido. Meio irônico que justamente neste mês eu tenha sentido a sensação de que havia conseguido esquecê-lo, nem que fosse apenas por um minuto fugaz e tão passageiro que nem mesmo uma impressão de aroma conseguiu se fixar em mim. Esquecer algo por tão pouco tempo é ainda mais peculiar do que esquecer por um período considerável.
Talvez a diferença principal é que quando esquecemos de alguma coisa facilmente contada em segundos, o desespero parece maior. O tempo de esquecimento é inversamente proporcional à aflição que sentimos. Como quando você está navegando por diversos sites e abre mais uma aba no navegador, depois outra e logo após abre mais duas, que se transformam em quatro, depois 7 e então você não consegue nem mesmo ver o ícone das páginas ali no meio daquela confusão.
De repente, você abre mais uma aba, só mais uma, para pesquisar aquilo que subitamente precisou saber. E assim que mais uma página está na sua frente, em branco, ou com o Google já te encarando, você esquece o que queria procurar. É frustrante. Você ainda faz um esforço mental de alguns milésimos para tentar se lembrar, porque já está consciente que esqueceu, mas no final desiste e fecha a aba. Só para, assim que fechar, lembrar-se que queria pesquisar uma música qualquer.
E quando você começa a ouvir a canção, lembra que três ou quatro abas para a esquerda, o vídeo daquela música já estava aberto e só esperava ter o seu play apertado. Essa pequena sucessão de esquecimentos e lembranças consegue ilustrar um pouco o que é sentir que a pessoa que você amou não faz mais parte da sua vida. Tanto é que você inclusive sente que realmente a esqueceu, mesmo que seja de um modo efêmero.
Esse instante tão fugidio tem tanta força que você acredita que as coisas passaram e estão completamente no passado. Tão longe que não fazem mais falta nenhuma, que foram escondidas e somente quando você decidir, por resolução nada arbitrária, caçá-las, vai ter que suar muito para desenterrar do fundo da terra. Talvez arrancá-las daquele lugar onde elas descansariam para sempre se não fossem nunca mais perturbadas.
Na verdade, não é nem uma questão de acreditar nisso, justamente porque você não tem que fazer o esforço de agir sobre aquela memória. Essa é a beleza do esquecimento. O ostracismo chega e assenta, como uma grande e velha camada de poeira que foi sendo depositada com o passar dos anos, junto com rochas e outros sedimentos, até que vira uma camada inesperada e fica ali, para sempre.
No final, tudo parece apenas sorte ou bondade do universo, como se fôssemos agraciados a esquecer aquilo que não esteve nos fazendo bem. É quase uma divindade, o Oblívio, que não costuma abraçar qualquer um, somente aqueles que poderiam usar um minuto de paz nos braços de um esquecimento sem cobrança e sem dor.
You've got to learn from hard experience / And listen to advice / And sometimes pay the price / And learn to live with a broken heart (NINA SIMONE, You've Got To Learn)
O que estava escrito na carta: "você me colocou no grupo de quem teve o coração partido. duas vezes. pela mesma pessoa. 25/02".
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Algumas vezes demoramos assimilar quando algo de ruim acontece conosco. Muitas vezes isso tudo se dá por causa daquele famoso processo de negação, que não tem a ver necessariamente com você dizendo em voz alta: “Isso não aconteceu, não é possível. Não é possível que isso aconteceu”. Vez ou outra podemos até externalizar os sentimentos dessa maneira, mas a negação costuma ganhar forma no silêncio das ações cotidianas, como se tudo estivesse normal, como se aquele fosse mais um dia comum e nada de ruim tivesse acontecido.
Somente em fevereiro eu percebi que todo meu sofrimento de um mês inteiro tinha sido ocasionado por um episódio específico que eu e o Menino das Cartas protagonizamos. Algo que ficou adormecido na minha cabeça e que em um belo dia, voltando do estágio, em um ônibus lotado, bem antes de passar pela catraca, me atingiu. E foi um peso dentro do estômago tão grande que parecia que uma bigorna literal, pequena e bastante pesada, tinha sido engolida por mim, sem perceber. Mais ou menos um mês antes, eu e o Menino das Cartas havíamos tido uma conversa fatídica pelo Facebook.
Eu tinha mandado uma mensagem para ele porque havia visto uma foto dele em que sorria próximo a um monumento que guardava uma memória de guerra. Achei no mínimo irônica a composição da imagem e vi ali uma oportunidade para tentar deslanchar uma conversa. Deu certo. Falamos um pouco sobre a foto e outras coisas. Mais comuns e menos forte. Até que em um momento ele abriu caminho para aquela fala que me deixaria completamente sem chão:
_ Preciso conversar com você.
_ Mas já estamos conversando.
_ É algo que eu deveria ter te falado há muito mais tempo. - quando ele disse isso eu soube, com toda certeza, que alguma merda muito grande estaria por vir.
_ Fala de uma vez. É melhor. - pedi.
_ Eu me apaixonei por uma pessoa. - aquelas palavras ficaram navegando por um bom tempo na minha frente. Então reagi da maneira mais esperada: tentei colocar humor naquele momento que tinha tudo para ser completamente dramático.
_ Ok. Um brasileiro que vai voltar com você no mesmo avião, porque, obviamente, ele também é de Belo Horizonte. Aposto que foi isso que aconteceu. - humor com sarcasmo, minha especialidade.
_ Não é tão simples assim. - ele realmente achava que essa suposição forçada de um roteiro medíocre de filme de comédia romântica B era algo simples?
_ É o seu ex-namorado? Alguém que você conheceu logo quando chegou aí? Um homem que te pediu em casamento e agora você vai virar um cidadão europeu e nunca mais voltar para o Brasil? Bom, é melhor você me falar logo, porque não quero continuar tentando adivinhar.
_ Eu me apaixonei enquanto estava no Brasil, antes de vir para cá. E não é meu ex. - aquela revelação foi demais para mim. Eu não podia acreditar que ele tinha ignorado meus sentimentos passados daquela maneira.
_ Enquanto eu me apaixonava por você, você se apaixonava por outro. Engraçado.
_ Não tem nada de engraçado. - ele completou.
_ Estou falando de forma irônica. - e daí deslanchei. - Achei que você conseguisse perceber isso. Eu também não achei nada engraçado. O que você quer me dizer é que vai voltar para o Brasil e este menino vai estar aqui te esperando, é isso? E vocês vão ser felizes porque conseguiram vencer o tempo e a distância. Porque o amor de vocês foi totalmente correspondido um pelo outro. É isso? - o plano de tentar mascarar minha raiva com humor já tinha ido por água a baixo. O que me restava agora era apenas sarcasmo, ironia e cinismo. A tríade sagrada.
_ Não sei o que vai acontecer quando eu voltar. Não posso prever nada disso. - ele com certeza não conseguia prever, mas antes de ir conseguiu muito bem decidir que não era para eu e ele tentarmos nada enquanto ele estivesse em intercâmbio porque eu iria sofrer demais. Palmas.
_ E você está me dizendo isso por quê? Decidiu conversar sobre isso comigo agora por quê? Porque você acha que estou com alguma esperança de que algo possa acontecer ainda entre nós dois? Então seu plano é terminar de uma vez com isso? Muito obrigado pela sua preocupação, de verdade, do fundo do meu coração, mas eu mesmo tenho feito esse trabalho comigo há um tempo. Tenho encontrado maneiras de colocar meus sentimentos por você de lado. Mas você tem que concordar que parece, no mínimo, um pouco mau caráter que você tenha deixado eu continuar gostando de você enquanto você estava gostando de outro. - comecei a desabafar de uma vez.
_ Não decidi te contar isso só para acabar com suas esperanças ou sentimentos ou sei lá o que você pensa. Decidi contar porque quero ser sincero e acho que você tem deixado de gostar de mim nesse tempo todo. Falar disso antes não ia adiantar nada, ia ser apenas pior. As coisas ficariam mais complicadas e você mais machucado. E eu não queria correr o risco de você deixar de fazer parte da minha vida. - fácil resumir isso tudo em uma palavra só.
_ Eu não tenho raiva de você, tenho raiva de várias atitudes que você teve. E você realmente acha que falar agora, quando meus sentimentos por você estão diluídos, não vai me machucar? Como não me machucaria? Eu ainda posso olhar para trás e ver o quanto fui idiota, porque você estava apaixonado por outra pessoa. Eu ainda posso repassar tudo o que fiz e senti por você e pensar que nada daquilo foi correspondido. Como eu não vou me machucar quando descubro agora que você não poderia gostar de mim porque estava apaixonado por outro e que, além de tudo, ainda foi egoísta de não ser sincero comigo porque não queria que eu saísse da sua vida? Difícil não me machucar me contando isso agora o tanto quanto você iria machucar se tivesse falado isso antes. Ao menos se você tivesse me contado a verdade assim que começou a gostar de outro, eu teria salvo dinheiro, tempo e uma caralhada de sentimentos. - sim, eu conseguia pensar no montante de dinheiro que eu tinha gasto durante nosso relacionamento.
_ Eu concordo. Você está certo e tem todos os motivos para me odiar.
_ O problema é que eu não te odeio. - confessei.
_ Só queria que você lembrasse que naquela época, um milhão de coisas estava acontecendo nas nossas vidas. Nós estávamos sobrecarregados de um monte de coisas do mundo. Só fiz o que julguei ser melhor para poupar seu sofrimento. Eu poderia muito bem nunca te contar isso, viver o resto da minha vida tranquilo e te colocar de lado, mas pensei em te contar porque acreditei que você fosse lidar melhor com essas informações agora do que antes.
_ Ok, você pensou isso. Mas agora tanto faz. Só queria que você soubesse que ainda assim espero receber de volta a pelúcia que eu dei para você levar e a pedra bruta que você também levou. E, me desculpe, eu não quero pensar em mais nada por agora, mas está bem complicado deixar meus pensamentos calmos. Só espero que o que eu esteja achando de você, neste momento, vá embora com o tempo, porque tudo o que passa na minha cabeça agora está me deixando bastante triste. De verdade.
_ Tudo bem, pode falar. Pode ser ácido, malvado, me xingar se quiser. Você tem esse direito. Eu entendo e aceito tudo o que você quiser falar, da forma como você quiser falar. - ele disse. Foi a deixa para que tudo aquilo saísse de dentro de mim.
_ Eu só consigo pensar que você é um mentiroso. E fico triste de pensar isso porque você dizia que mentir era uma coisa horrível. Que as pessoas já tinham mentido tanto para você que você chegou a desacreditar em todas as outras. Então, me desculpe, mas ao menos agora eu vou duvidar de tudo o que você fez, disse que ia fazer por mim, sentiu, demonstrou que sentiu. E você não precisa aceitar a forma que eu falar essas coisas porque minha cabeça está quente demais e estou sufocando todas as lágrimas porque não estou em casa. - toda essa discussão aconteceu enquanto eu estava no estágio. Esse dia não foi nada produtivo. - Agora, o que eu preciso fazer é me controlar, não por você, mas por mim. Então, por favor, não faça esse teatro em que você apenas interpreta alguém que vai receber toda a minha fúria. Isso não me ajuda em nada.
_ Eu não menti para você. Sempre tentei deixar claro que não ficaríamos juntos. Te falei isso de forma clara. Todas as vezes que tentei afastar você de mim, você pediu para que eu não fizesse isso, que seria pior. - ele tentou se justificar.
_ Você deveria ter sido realmente sincero. Deveria ter falado “Não vamos ficar juntos porque eu gosto de outra pessoa e não de você”. Mas ao invés disso você apenas dizia que não queria ficar junto comigo porque já havia sofrido uma vez quando seu ex-namorado fez intercâmbio e terminou com você enquanto ele estava fora. Enfim, estou esgotado demais. - eu não sabia da onde tirava forças para falar com ele como me sentia. Eu só queria chorar. Ir para algum canto e chorar.
_ Você sabe que eu fui sincero. Nós dois concordamos que poderíamos continuar sendo amigos mesmo com os seus sentimentos por mim. Eu não alimentei seus sentimentos. Tudo que tentei fazer foi alimentar nossa amizade. Eu sei que é difícil para você separar as coisas e quando eu te disse que não ficaríamos juntos eu ainda não estava apaixonado por este menino. Não pense que quando eu e você ficamos eu estava com ele. Só fui me envolver depois de brigarmos muito e decidirmos que seríamos amigos.
_ Deve ser difícil mesmo para mim separar as coisas, porque tudo sempre foi complicado para mim, eu era a pessoa que sempre estive errada. Não consigo mais lidar com esse seu gaslighting fraco. O mais engraçado é que, comigo, você decidiu ser meu amigo porque havia inúmeros motivos para que não tentássemos nada. Mas daí aparece outro e então é “Tudo bem, não vou negar o sentimento que sinto por esta pessoa”. Eu sei que não funciona assim, de forma racional, mas quando penso nisso a única explicação que se encaixa para mim é que você nunca gostou de mim como gostei de você. - foi triste demais chegar à essa conclusão enquanto eu discutia com ele.
_ Eu não escolhi me apaixonar por esse menino. Além do mais, eu o conheci antes de conhecer você e mantive distância dele porque sabia que seria errado deixar que ele entrasse na minha vida, da mesma forma que eu também sabia ser errado deixar você se aproximar tanto de mim. Freei meus sentimentos em relação a ele por meses. Por muito tempo o mantive distante de mim. Mas aceito ser julgado por gostar da sua amizade e ter tentado manter isso ao invés de te tirar da minha vida e ignorar seus sentimentos. Não pense que eu não fui seu amigo. - ele disse.
_ Aparentemente, essa é a forma como todos me veem. - afirmei, exausto.
_ Eu não sou responsável pela forma que as outras pessoas que passaram pela sua vida te viram. Não me culpe por não gostar de você da forma como você gostaria e da forma que você merece. E eu sei que você merece que alguém goste de você de uma maneira verdadeira.
Não respondi mais nada durante aquele dia. Havia tanta raiva dentro de mim e tanta coisa para processar que simplesmente não conseguiria lidar com isso tudo durante um dia apenas. Eu precisava bem mais de 24 horas para começar a organizar meus sentimentos, que tinham sido todos jogados ao chão e pisoteados. Eu estava uma completa bagunça.
Demorei tanto para conseguir me recompor desse desgaste emocional que foi só depois de um mês que percebi que naquele dia, ele havia partido meu coração de novo. A primeira vez foi quando o dia da viagem finalmente chegou e se colocou entre nós. Quando isso aconteceu era inevitável continuar com meu coração intacto. E depois de tanto tempo ler que ele gostava de outra pessoa, me deixou paralisado.
Quando Lila, que tirou a foto do vigésimo nono post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, aquele corpo inerte, despido e frágil, acuado em um canto de um quarto escuro, de cabeça baixa, sem querer encarar a verdade, era eu. Ter o coração partido não é algo que você consegue superar da noite pro dia e eu estava nesse processo há muito tempo, só para ser despedaçado de novo.
Quando nosso coração é partido o mundo perde a cor e o foco rapidamente. A gente só consegue ficar parado esperando o momento em que aquilo tudo vai desaparecer. Até que acontece de nossa própria consciência desaparecer no choro derramado em cima do travesseiro. É uma sensação extremamente incômoda e dolorosa esgotar a energia de tanto expulsar nossas lágrimas. Como Lila me disse: “Ter o coração partido uma vez só já é suficiente”. E é mesmo. Mas a vida não á essa falácia de que um raio cai somente uma vez no mesmo lugar. Às vezes somos atingidos constantemente.
They could never make me hate you / Even though what you was doin’ wasn’t tasteful / Even though you out here lookin’ so ungrateful / I'mma keep it movin’ be classy and graceful (NICKI MINAJ, Pills N Potions)
O que estava escrito na carta: "às vezes parece que nada mudou direito 18/02".
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Temos uma tendência a acreditar que somos sempre protagonistas. Não há problema nenhum em entender sua vida como uma grande narrativa que te tem como personagem principal, claro que não. Só não podemos nos deixar levar por toda uma estrutura literária que coloca antagonistas e personagens coadjuvantes povoando as cenas e cenários. A partir do momento em que começamos a fazer isso, negamos o direito daquelas pessoas de também serem protagonistas, porque, afinal de contas, a história delas não nos importa.
Só que se todos são personagens principais, nada disso teria graça. E não é pra ter mesmo. Querer protagonizar todos os momentos acaba nos forçando a acreditar que o mundo, em algum grau, gira em torno da gente. Se transformar - ou se perceber que você já é assim - em uma pessoa egoísta, autocentrada demais, egocêntrica ou qualquer dessas variações não é nunca bem-vindo. É perigoso porque podemos perder nossa empatia e alteridade.
Empatia é nossa capacidade de compreender emocionalmente algo que está além de nós. É como colocar em perspectiva o sentimento alheio para que você possa entender aquilo. Para mim, é como se eu conseguisse perceber que alguém está chateado e após isso entender o motivo daquela chateação apenas por meio de uma observação emocional mais atenta.
Alteridade é bem diferente e diz sobre nossa habilidade de nos colocar no lugar do outro. Aqui, não basta apenas compreender o que é aquele sentimento que emana de alguém e nem mesmo o porquê daquilo estar instaurado. Na alteridade você se posiciona com um olhar subjetivo e tenta entender o que leva aquela pessoa a se sentir daquele jeito. Temos que lembrar de deixar nosso juízo de valor de lado para não apenas pensar “Nossa, mas se isso tivesse sido feito assim, então nada disso estaria acontecendo”. Alteridade não é tentar dirigir o que as pessoas deveriam ou não ter feito, mas apenas assimilar a maneira como elas lidaram com aquilo.
Às vezes penso que o Menino das Cartas não conseguiu ter alteridade comigo. Empatia sim, ele teve sucesso diversas vezes em perceber o que eu estava sentindo e a motivação por trás daquilo que eu sentia, mas alteridade, acho que não. Se ele tivesse tido isso talvez conseguisse falar comigo de uma maneira menos incisiva e grosseira. Claro, há momentos em que é necessário agir assim porque algumas pessoas simplesmente não entendem o que você diz. Contudo, quando olho em retrospecto para nossas últimas conversas, ele não precisava comportar-se daquela forma tantas vezes quanto o fez.
Não que fosse uma tarefa fácil, eu sei. Eu consigo acessar tudo aquilo que sentia porque, bem, foi comigo mesmo que aconteceu tudo e pode ser ingênuo demais da minha parte esperar que outras pessoas compreendam tão rapidamente. Mas ele esteve lá, conversando diariamente comigo por seis meses antes de ir embora do país, não era possível que não era apto para entender, ao menos um pouco, o modo como eu funcionava, via e lia o mundo ao meu redor. Parece apenas uma falta de importância conferida aos meus sentimentos ou então uma grande incapacidade de conhecer alguém que se fez tão presente.
Talvez ele não tenha conseguido retirar o protagonismo dele, bem como eu também posso não ter conseguido desassociar o meu. A diferença é que meus sentimentos por ele, de uma maneira ou de outra, colocavam-no sempre à frente. Não que este movimento fosse completamente saudável, mas me ajudava a perceber que o mundo poderia ser bem mais do que aquilo que eu conhecia. O problema foi que me deixei enganar e transferi essa noção de cosmos. Todos aqueles casais que se chamam de “meu mundo” provavelmente não sabem muito bem do perigo que esconde essa consideração.
Quando Nicole, que tirou a foto do vigésimo oitavo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, aquele corpo imerso numa espécie de rotina me disse muita coisa. Acordar e se demorar um pouco na cama até realmente começar o dia é uma grande exigência de força de vontade que fazemos sobre nós mesmos. Às vezes tudo está cinza e as cores já anunciam que pode não ser muito bom dali para a frente. Mas mesmo assim você vai, porque, bem, tem que ir.
Quando saímos de casa, o mundo ainda pode estar acinzentado, seja porque você colocou essas cores sobre ele ou porque as nuvens decidiram que esse seria o humor delas naquele dia. Mas mesmo assim você continua em frente, porque não pode perder tempo com qualquer outra coisa. Coloca os fones no ouvido e apenas sai do seu lar para ir para qualquer outro lugar fazer qualquer outra coisa.
E aquele firmamento que existe à sua volta não muda. O que muda são as condições de existência das pessoas ao seu redor, das estações que vão do quente para o frio, das chuvas que aparecem com seus temperamentos descompassados vez ou outra. O mundo mesmo, esse não muda. É só o nosso olhar para tudo o que acontece que faz que isso pareça diferente, mas as relações - humanas ou não - sempre foram tidas de uma maneira parecida. Nós que escolhemos reinterpretá-las.
De uma forma ou de outra o amor que eu sentia pelo Menino das Carta ainda estava lá dentro de mim. Estava diluído, com certeza, mas ainda fazia parte de quem eu era. Um pequeno sentimento que uma vez tinha sido protagonista, agora já não era mais o centro das minhas atenções, mas ainda assim vagava por dentro do meu corpo inteiro. A única coisa que eu poderia fazer era me acostumar e não brigar mais com aquilo.
Eu estava quase que fisicamente esgotado de já ter chorado tantas vezes e perdido o sono incontáveis noites. Não era necessário tentar ir contra os sentimentos que eu havia desenvolvido a tanto tempo. Eles iriam ficar por ali, rondando e poderiam nunca se cansar e ir embora. De qualquer modo, eu tinha certeza que eles ainda correriam nas minhas veias.
É ruim não saber quando o seu amor vai voltar das profundezas, se é que um dia ele volta, ou se ele vai se afundar para sempre no mar nada calmo de confusões que, vira e mexe, atiçamos dentro de nós. Mas não precisamos nos preocupar, isso tudo que sentimos já está conosco, sempre esteve ali. Sabemos lidar com nossos sentimentos melhor do que acreditamos. Só basta um pouco de convicção.
Sacode tua vida como um guizo sobre a minha / E então deixe-me só / Fingindo que é de alegria que eu estou chorando (FILIPE CATTO, Ascendente Em Câncer)
O que estava escrito na carta: "eu me perco em PENSAMENTOS E SENTIMENTOS 11/02".
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É muito claro que, por diversas vezes, somos lembrados constantemente que o nosso lado emocional e o racional não se cruzam muito. Quando eles se encontram parece que é sempre para que um deles subjugue o outro e ganhe predominância sobre nossas atitudes e decisões, como um todo. No meio disso está a gente, soldado que foi intimado para a guerra e se encontra no meio de um fogo cruzado enquanto pensa por que diabos está ali sendo que fez de tudo para não se alistar no Exército.
Quando tentamos pensar nessa velha dicotomia da emoção e razão, somos levados a crer que o embate entre as duas formam o que nós somos. Contudo, às vezes parecemos tão distantes de nós mesmos que sequer nos reconhecemos nesse suposto ponto de equilíbrio. É quando sua persona emocional desafia completamente sua persona racional. Quando me apaixonei pelo Menino das Cartas não pensei que aconteceriam tantas discussões internas em mim. Quando tive certeza que comecei a amá-lo, então, realmente acreditei que talvez as coisas ficassem mais claras ao meu entendimento. Engano.
Por várias vezes eu me sentia completamente em controle de toda a situação. Conseguia entender o que acontecia à minha volta e fazer uma interpretação fechadinha daquilo para a minha vida. Nesses dias era fácil conviver comigo mesmo. Ir para o estágio, vigiar constantemente para não ser assaltado novamente, fazer todo meu trabalho diário, voltar para a casa, pensar um pouco no meu TCC mas sem cobrança, já que fevereiro ainda era um mês de férias, escolher maneiras de relaxar perante ao computador, conversar com algumas pessoas para manter um bom astral, jantar, escovar os dentes e dormir.
Quando se é racional as coisas seguem uma lógica muito natural, em que tudo o que fazemos tem como objetivo apenas passar pelo dia. Damos importância à coisas que nos fazem bem e continuamos nossas tarefas do cotidiano sem complicações. Com isso, conseguimos até dar um espaço para as emoções boas, justamente porque sabemos que elas também são essenciais para que aqueles momentos sejam tranquilos e descomplicados.
Algumas outras vezes, porém, não era fácil tentar lidar com as emoções que ainda estavam presas dentro de mim. Se fosse um tempo antes, bem antes, eu estaria feliz por estar perdido no meio de tanta ilusão com gosto de jujuba. Depois de um tempo, porém, tudo pendia mais para um lado de Feijõezinhos de Todos os Sabores: eu não sabia se sortearia um feijãozinho com gosto de alcaçuz ou de poeira de porão.
As emoções são muito selvagens quando tentam comandar nossas decisões. Mesmo aquelas que têm como meta nos deixar bem, caem em uma corrida desenfreada e batem em todos os cantos que estão pela frente. A questão principal é que sentimentos negativos também estão sempre à espreita e, quando tudo está solto, eles entram em conflito com os positivos. Se atraem e depois reagem, o que nos deixa meio sem chão diante a tudo que acontece bem na nossa frente. A sensação de impotência é grande porque você é apenas o vetor que faz com que as coisas aconteçam. As emoções podem te deixar neutralizados quando elas querem tomar conta do lugar.
Já é complicado lidar com o seu eu-racional e o eu-emocional quando eles sabem exatamente o que querem fazer. Quando essas suas personas estão perdidas, então, a coisa não é tão fácil de compreender. Depois de tantas conversas fracassadas que eu o Menino das Cartas tivemos após ele partir, tentei regular tudo o que acontecia dentro de mim, mas talvez, de tanto forçar, tenha trincado alguma coisa ou outra.
Quando você não sabe o que pensar das situações que estão acontecendo a sua volta, sua concepção de mundo fica extremamente prejudicada. Nada é uma base para que se entenda o que está acontecendo e fica cada vez mais complicado se apoiar em algo. É como se seus neurônios se recusassem a fazer sinapses e, assim que tentam, parece faltar a lubrificação natural dessas células, daí um processo de queimadura lento e gradativo se instala na sua cabeça. Não é nada divertido.
Se suas emoções, que já são um espírito livre por si só, também estão desgovernadas, a situação fica ainda mais complicada. Pense que, de uma hora para outra, tudo o que você sente começa a ser amontoado. Alegria que é posta em cima de tristeza que está embaixo de três camadas de amargura que divide espaço com esperança que quase empurra o medo pra fora que se agarra em desejo sexual que se espreme no meio de dúvidas. Todas bem compactadas enquanto estremecem por causa da sua natureza inquieta. Elas precisam correr e quando finalmente se veem livres, percebem que estão acorrentadas e daí uma puxa para um lado e outra puxa para o outro. Eu me sentia exatamente assim, sem parâmetro nenhum e apenas me cansando dia após dia porque já não aguentava mais viver com esse pandemônio dentro de mim.
Quando João, que tirou a foto do vigésimo sétimo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, ele me mostrou, alguns dias depois, sua compreensão daquilo em palavras. “Noite passada sonhei contigo. Um turbilhão de sensações que a mim retornam junto à imagem do teu rosto. Eu só queria te esquecer. Queimar cada lembrança e deixar que as horas ao teu lado virem cinzas. De olhos abertos eu me perco em pensamentos e sentimentos. E parece que isso nunca terá fim. Não para mim”.
No cerne da imagem de João, reconheci um conforto no meio daquelas cinzas de uma carta de baralho queimada. Às vezes uma das únicas maneiras de colocar um fim nas nossas inquietudes é atando fogo. Não que assim elas sumam, porque sabemos que nada se perde, tudo se transforma. De qualquer maneira, dessa forma elas poderiam virar fagulhas, depois subir aos céus e desaparecer ao olho nu.
You got to start a love right from the ground / Cause when you start from the top you only come down [PALOMA FAITH, The Bigger You Love (The Harder You Fall)]
O que estava escrito na carta: "eu devo ser o MAIOR TROUXA 04-02".
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Janeiro finalmente tinha acabado e o ano estava começando a se desenrolar. Não completamente, porque isso só acontece de fato após o carnaval, segundo dizem. O primeiro mês de 2015 já havia me trazido muitas sensações em relação ao Menino das Cartas, coisas que eu achava estarem sufocadas dentro de mim por um bom tempo. É extremamente comum duvidar de si mesmo, mas talvez isso não deveria ser normal.
Penso que minha mania de guardar as coisas para mim dificulta este aspecto da minha vida. Quando você tem dúvidas, a melhor maneira de acabar com elas é tentar resolvê-las, obviamente. As coisas ficam um pouco complicadas quando você não se abre muito com outras pessoas, porque a única saída que sobra é a internet como maneira de resolver os problemas implantados pela sua cabeça. E todos nós sabemos que a resposta do Google para quaisquer sintomas é alguma doença terrível e que você, provavelmente, já deve estar em um estágio terminal. O ensinamento aqui é que não faz muito bem se fazer de Caixa de Pandora e guardar tudo de bom e de ruim que há no seu mundo.
Comecei a cair novamente em um vórtex criado apenas por uma pergunta de dois polos: conto para as pessoas como estou ou continuo segurando isso dentro de mim? O problema é que agora já começava a fazer tanto tempo desde que tudo já havia acontecido, que toda essa história iria ser tomada apenas como os sentimentos de alguém que não conseguiu abrir mão de uma pessoa que amou.
O fato é que tudo se resumia a isso sim, inegavelmente, mas talvez só quem tivesse passado por essa situação alguma vez, ou algo parecido, poderia se esforçar para entender um pouco tudo o que estava dentro de mim. Até porque nem mesmo eu sabia explicar a essa altura do campeonato. Tudo parecia tão embaraçado dentro do meu coração que comecei a pensar que só havia uma explicação para aquilo ter acontecido comigo: eu fui um idiota.
Fui estúpido ao pensar que conseguiria passar por um turbilhão de emoções e mesmo assim não continuar amando o Menino das Cartas. Fui ingênuo por acreditar que depois dos meus sentimentos tão certos, eu conseguiria apenas voltar a ser amigo dele, como tinha acontecido logo quando a gente começou a se conhecer. Fui uma pessoa sem senso crítico para perceber que desde o começo nossa amizade não era somente coleguismo, então seria difícil voltar para uma relação de apenas companheirismo quando as circunstâncias da forma como nos conhecemos já indicava que aquela deveria ser uma relação focada em outros tipos de sentimentos. Fui inocente ao deixar que meu coração falasse alto demais de uma maneira extremamente rápida. Fui irresponsável comigo mesmo ao tentar fazer com que qualquer coisa que um dia tivéssemos desenvolvido continuasse a crescer. Fui um idiota por não ter desistido mais cedo de tudo isso.
Quando Davidson, que tirou as fotos do vigésimo sexto post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem de um homem sentado no bar, desejei que algumas vezes eu pudesse apenas conseguir beber e esquecer tudo o que eu estava sentindo. Dói perceber isso, mas talvez eu tenha sido uma pessoa que teve muitas dificuldades em deixar meus sentimentos realmente irem embora de mim. Tudo era um pequeno motivo para que aquelas sensações voltassem a assolar meu corpo e minha mente, me roubassem a paz e perturbassem meu sono.
A gente que se apega demais simplesmente vira um ser vivo especializado em monomania. Esse sentimento, que já virou música a torto e a direito, traz uma verdade dura demais para alguns encararem e aceitarem como a sua. Em qualquer pesquisa rápida, em um “ok Google” displicente procurando por “definição de monomania” a explicação que encontramos não é nada bonita e sequer romântica: substantivo feminino. 1. Alienação mental em que uma única ideia parece absorver todas as faculdades mentais do indivíduo. 2. Forma de loucura em que um único pensamento ou ideia absorve a mente do indivíduo. 3. Por extensão: paixão, ideia fixa, mania exclusiva, obcecação.
Essas explicações fazem a gente repensar muitas vezes se queremos estar ligados com a ideia de paixão que encontramos em todo canto. Todo verso de canção ou poesia consegue mascarar muito bem essa sensação de que estar apaixonado pode ser algo tão perigoso e doentio. Pode até parecer, mas não é deslumbrante ficar com alguém na sua cabeça e não conseguir deixar que outras coisas ocupem seu tempo ou sua disposição.
O problema é que pode ser tarde demais quando você percebe que aquele sentimento começa a te causar muito mais mal do que bem. Pode ser ainda mais tarde compreender que talvez isso tudo seja muito mais culpa sua do que de qualquer outra pessoa. Afinal de contas, você se permitiu andar por um caminho cheio de cores enganosas e aromas conquistadores.
Até que ponto nossa paixão por alguém é despertada pelo que sentimos e pelo que o outro nos faz sentir? Quando nosso coração é roubado por aquela pessoa especial, não era o caso de termos sido mais conscientes com a segurança que colocamos em volta de nós mesmos? Confiar que alguém vai cuidar de você não é supor do outro uma ação que você não tem certeza de que ele pode, ou mesmo quer, cumprir?
Um copo de cerveja ou uma taça de vinho não parecem muita coisa para ajudar a compreender todas as dúvidas que cresciam dentro de mim. Eu não sou uma pessoa que bebe muito. Claro, já tive meus momentos de beber até esquecer, involuntariamente, e ainda não consigo tomar catuaba porque a memória do meu estômago é ainda melhor que a do meu cérebro e faz todas minhas entranhas se contorcerem apenas pelo cheiro dessa bebida em particular. Tudo porque uma vez ingeri uma quantidade razoável, sem comer nada e fiquei dançando exaustivamente, dentro da minha própria casa. Fraco, coloquei tudo pra fora e a gosma preta arroxeada que saiu de mim me deixou uma marca profunda.
Quando minha embriaguez é causada pela vodka fico sonolento e um pouco triste; quando a culpada é a cerveja, desatino a falar e meu sarcasmo aumenta de nível - a não ser que seja uma cerveja específica, uma que me deixa extremamente chato; já cachaça - e não pinga, muito menos aguardente - me coloca alegre e com o corpo meio mole. De qualquer modo, nunca consegui afogar as mágoas em nenhuma bebida. Confesso que algumas vezes já quis fazer isso. Há tantas cenas por aí sobre esse tema que eu não consigo me relacionar. E esse é o problema.
Todos nós, em algum momento, vamos romantizar aquilo que outras pessoas já fizeram. Aquele sentimento causado quando vemos um personagem dizer para o outro que ele é bonito quando chora. Isso não existe. Sofrimento nenhum deve receber uma camada de romance, porque nada disso é bonito. Não é porque cantam ou atuam por aí que se apaixonar é árduo e vale a pena no final, que devemos comprar essa ideia. Enxergar a dor como algo belo só nos leva para longe daquilo que temos que fazer desde nosso primeiro contato com ela: enfrentá-la.
Eu não preciso de você / E tudo que eu quero é sobreviver / A isso que você criou / E o destino é meu melhor amigo / E eu espero que nunca mais / Aconteça isso comigo (ALICE CAYMMI, Meu Recado)
O que estava escrito na carta: "eu não sei o que pensar. ok. o problema é que eu não sei nem o que sentir 28/01".
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No final de Janeiro eu já estava ciente de que o Menino das Cartas não queria mesmo continuar conversando tanto comigo. Me pesava saber que talvez algo pudesse estar acontecendo na vida dele e que ele simplesmente não queria dividir. Era o momento de eu parar de me animar quando alguma possibilidade de comunicação se colocava em nossa frente. No fundo dessa decisão dele, eu sabia que tudo tinha a ver com o que aconteceu em outubro de 2014.
Em setembro, uma pessoa da minha família estava fazendo algumas consultas médicas. Assim como ela sempre se superpreocupou comigo, eu estava superpreocupado com ela também. Nossa relação é assim. Quando não conseguimos conversar um com o outro começamos a imaginar situações terríveis que podem explicar o porquê da comunicação não ter acontecido. Do mesmo modo que ela fala mais firme quando desapareço por um tempo, eu também faço questão de deixar claro como fico preocupado quando minhas ligações ou mensagens não chegam.
O Menino das Cartas também tinha uma relação muito amorosa com as pessoas da família dele. Eu sabia que por estar longe, estava sendo muito complicado para ele ficar afastado desse núcleo. Por isso, todos os dias, ao sair de casa, eu o colocava nas minhas orações matinais, pedindo proteção, calma e paciência para o coração e a mente dele. Nós dois compreendíamos perfeitamente esse sentimento forte e infinito que alguns familiares desenvolvem entre si. Isso era um laço que nos conectava.
Então, no meio de palavras meio duras e jogadas aos ventos, contei um pouco sobre essa pessoa e outras preocupações minhas. Eu sempre me preocupei com quem gosto de verdade, e no final daquele ano minha cabeça ainda estava ainda mais cheia porque, em outubro, eu precisava entregar o pré-projeto do meu Trabalho de Conclusão de Curso.
O nervosismo de conseguir desenvolver um projeto prévio de pesquisa só não é maior do que quando a monografia precisa começar a ser escrita. Por isso, eu ficava muito tempo lendo textos e mais textos e mudava algo aqui e outro ali. Me encontrava com o orientador do pré-projeto e também com o orientador da futura pesquisa. Recebia orientação dos dois e precisava entender perfeitamente sobre o que eu queria falar para que nada saísse fora dos eixos. É uma correria de pensamentos que faz a gente ficar desnorteado. Eu, além de ter a cabeça cheia desses trâmites acadêmicos, ainda dividia meu nervosismo com as consultas médicas daquela pessoa da minha família.
Em uma das nossas conversas, o Menino das Cartas perguntou:
_ Como estão as coisas? Tudo bem com as consultas?
_ Sim, semana que vem vai ter mais uma.
_ Vai dar tudo certo. - ele desejou. - Não fica nervoso.
Parecia que, de repente, toda a hostilidade que havia se instaurado em nossas conversas tinha sido pausada por um momento.
_ Vou tentar me acalmar. Muito obrigado, significa muito para mim você dizer isso.
Os dias se passaram, a outra semana chegou e o médico veio e foi. Tudo correu bem. Após o acontecimento, consegui me concentrar mais no pré-projeto do TCC, já que minha ansiedade havia sido diluída. Uma semana e meia depois dessa nossa conversa, o Menino das Cartas me mandou uma mensagem no Facebook:
_ Como foi a consulta? Tudo bem?
Estava no estágio quando vi, mas não visualizei, a mensagem. Pensei em responder ali mesmo, mas estava com muitas coisas para entregar naquele dia. Deixei a pergunta em repouso e toquei o que tinha que fazer no trabalho. Quando cheguei em casa, tive que me afundar em coisas relacionadas ao meu TCC e assim o fiz. Além disso, havia um debate para eu me preparar, dois trabalhos para começar a desenvolver e também uma prova, que era raro acontecer no meu curso, por isso, sempre que tinha uma, estudava bastante. Eu sabia que a mensagem ainda estava lá, esperando uma resposta e queria respondê-la em um momento em que pudesse conversar tranquilamente com ele. Quem sabe conseguiríamos finalmente ter um instante calmo e depois até mesmo falar sobre outros assuntos.
Eu poderia responder rapidamente que tudo tinha corrido bem, sei disso, mas não queria agir assim porque gosto de ter um tempo para conversar com as pessoas. Sempre me incomodou aqueles momentos em que somente duas palavras são respondidas porque algo mais urgente está sendo resolvido por uma das partes. Entendo essa maneira de ser, mas prefiro responder quando sei que terei tempo de desenvolver e conversar um pouco mais do que apenas uma frase cortada ao meio. Isso já me fez demorar dias e dias para conversar com os outros, tanto que já cheguei a esquecer que algumas mensagens estavam no inbox.
Com o Menino das Cartas, porém, eu nunca havia feito isso, porque durante muito tempo ele foi uma prioridade no meu cotidiano. Em outubro de 2014, por mais que eu pensasse nele diariamente, isso não era mais uma verdade absoluta. Esperei chegar sexta-feira para respondê-lo, já que tudo o que eu vinha fazendo em relação à faculdade estaria resolvido. Não pensei que isso seria um problema, já que eu realmente estava cheio de trabalho e ele já havia passado dias sem responder qualquer coisa que eu mandasse, mesmo que tivesse visualizado.
Na sexta, à tarde, enquanto eu ainda estava no estágio, mais uma mensagem dele chegou:
_ Muito obrigado pela resposta. Adeus.
Estava no meio de uma tarefa quando vi aquelas palavras. Fiquei bastante preocupado com o que havia lido porque ele parecia estar bem nervoso por eu não ter respondido o quanto antes. Terminei rapidamente de fazer o que tinha que ser entregue e respondi.
_ Oi, já ia te responder! Estou no estágio e é meio complicado conversar enquanto estou aqui, me desculpa. Essa semana fiquei atolado, tive muita coisa da faculdade para resolver. Trabalhos, prova, debate e também meu TCC. Mas está tudo bem, a consulta foi ótima. Vou viajar hoje e finalmente vou poder saber melhor como as coisas estão, porque não costumam me contar muito bem os detalhes. Me desculpa se eu não respondi antes, eu estava realmente ocupado. Sei que não é motivo. Desculpa e muito obrigado pela sua preocupação, de verdade.
Ele visualizou a mensagem e não me respondeu. Fiquei com raiva por essa atitude, já que diversas vezes ele me deixou esperando por uma resposta e nunca me justificou nada. Não que ele tivesse que fazer isso, mas, na minha concepção, ele não poderia ter ficado tão chateado por eu ter demorado dois dias para respondê-lo. Ainda pedi desculpas por isso, sendo que eu sabia que não era algo que precisava ser feito. Ele ficava dias e dias sem me responder enquanto eu ainda tirava assuntos aleatórios da cartola tentando manter alguma comunicação entre nós.
Estava ficando bastante complicado entender o que começava a se passar novamente dentro de mim. As conversas com ele não davam em lugar nenhum e meus sentimentos começaram a ficar confusos novamente. Era péssimo saber que alguma discussão estava à espreita quando começávamos a conversar um pouco. Era como se nada que viesse de nós dois pudesse ser algo de bom, como uma vez já tinha sido. Eu ficava decepcionado comigo mesmo por ainda pensar que poderíamos ser amigos e frustrado por não conseguir manejar uma conversa de duas horas sem transformá-la em um apanhado de tristeza.
Quando Natalia, que tirou a foto do vigésimo quinto post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, eu vi naquela janela um desejo de compreensão. Vinda lá de uma serra, aquelas árvores me passaram a sensação de que toda aquela cena esteve ali por muito tempo. Então talvez todo aquele meu amontoado de sentimentos também estivesse dentro de mim há um bom tempo e só agora eu começava a enxergá-lo, mesmo que de uma forma turva e bagunçada.
É como as árvores do lado de fora da sua casa que crescem sem você nem perceber. Ela está lá e ninguém da sua casa se importa daí, em uma noite ventosa, os galhos fazem tanto barulho que você fica com medo que aquilo que um dia foi uma muda, desabe sobre a calçada. O receio é ter que recolher os galhos sozinho e sem orientação. O estrago é sempre grande e os galhos são pesados demais.
But after a time / I realized that for me to grow / I've got to let go (REBECCA FERGUSON, I Hope)
O que estava escrito na carta: "é de pouco em pouco que a gente melhora 14/01".
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Depois da minha dúvida se eu queria ou não continuar a pensar na minha relação com o Menino das Cartas, acabei me decidindo por deixar meus sentimentos saírem. Duvidei se estava ou não me apegando demais a algo que já tinha acontecido e não se repetiria ou se tudo isso não passava de uma forma de conhecimento próprio. Pensei muito sobre tudo o que vinha fazendo e comecei a compreender melhor que a última opção era o que eu acreditava ser verdade.
Somente um amigo meu sabia de toda essa história minha com o Menino das Cartas. Desde o que eu tinha vivido enquanto ele estava no Brasil até a decisão de escrever meus pensamentos. Durante o tempo em que pus em palavras o que guardava dentro de mim, esse meu amigo me via, uma vez ou outra, pegando o bloquinho de post-its, a caneta e o baralho. Ele parava na porta do meu quarto e somente perguntava:
_ Ah, você ainda está escrevendo? - e eu confirmava a dúvida. Nas primeiras vezes que essa indagação foi feita ele provavelmente se perguntava se o que eu tinha sentido era tão forte a ponto de escrever semanalmente. Depois, com o passar do tempo, creio que ele percebeu que o amor que eu dizia ter sentido tinha sido realmente forte e verdadeiro, ao menos para mim. Dessas vezes, quando ele me perguntava se eu ainda estava fazendo o que tinha proposto lá em agosto de 2014, era com a ternura de alguém que deixa a amizade falar e entende que estamos sempre redescobrindo as pessoas, dia após dia.
Eu, bem esporadicamente, falava algumas pouquíssimas palavras sobre o que fazia. Muitas vezes apenas balançava a cabeça em sinal de sim perante essa dúvida dele. Em outras respondia alguma coisa como:
_ É, tô sim. Fazer o que, né? - de maneira a parecer que não estava levando aquilo como uma missão. Eu ainda tinha um orgulho dentro de mim sobre não falar tanto sobre o que estava sentindo. Isso é algo que continua no meu ser, mesmo que eu tenha aprendido a dividir momentos e pensamentos mais vezes com as pessoas. Talvez eu nunca vá perder isso, que chamo simplesmente de cautela, e, sinceramente, não sei se quero. Ainda acredito que resguardar meus sentimentos me salvaram de muitas situações.
Durante o processo de me entender, saber que eu dividia o teto com alguém que conhecia algumas coisas dessa história me trouxe um pouco de conforto. Um dos motivos de eu sufocar meus sentimentos dentro de mim é o medo de que ninguém vai se relacionar com aquilo. Não foram poucas as vezes que eu pude ser uma terceira pessoa olhando de fora os problemas dos outros e aquilo me parecer fácil de resolver e nada desesperador. Falar como seu coração foi partido é difícil porque você teme que ninguém vá se importar com aquilo. Mesmo que seus amigos estejam do seu lado, te ouçam e deem três batidinhas nas suas costas, o receio de parecer uma pessoa fraca que chora poque apenas não conseguiu lidar com uma situação simples, grita muito alto. Mas ter seu coração partido não é simples. Não é nada simples.
No meio de toda essas sensações cruzadas passando na minha cabeça, comecei a entender que tudo isso que eu estava fazendo dizia muito mais respeito a mim. Claro, meu objetivo inicial era fazer um pequeno livro de pensamentos e entregar para o Menino das Cartas quando ele voltasse, mas essa ideia já estava descartada a essa altura. Tive certeza de que o que eu estava escrevendo era motivado pela relação que nós dois desenvolvemos, mas não se resumia aquilo.
Eu havia passado por muita coisa, assim como ele, mas a verdade é que após os meses de convivência seguidos pelas longas semanas de falta de cumplicidade eu não conseguia mais dividir com ele a aura de amor que um dia tinha sido extremamente forte para mim. É meio estranho pensar que talvez eu tenha tido alguns avisos de que isso um dia se tornaria verdade. Um deles, inclusive, me deixou bastante chateado, mas que escolhi ignorar enquanto o tempo passava.
Naquela época, o aniversário do Menino das Cartas estava se aproximando. Eu não sabia se já poderia demonstrar algum gesto expressivo que mostrasse claramente que eu já estava gostando dele, então apenas marquei um cinema, o nosso programa preferido, como de costume. Olhei horários, salas e shopping, tudo para escolher novamente a sala de cinema horrível do shopping que eu não frequentava muito, o Diamond. Veríamos “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro”. Eu havia achado o primeiro filme, de 2012, extremamente mediano. Mais ou menos bom, mais pra menos. De qualquer maneira estava confortável com a escolha porque ainda acreditava no reboot da franquia do Homem-Aranha nas telas.
Marcamos em um sábado à tarde e me lembro que havia duas seções nesse período do dia, uma às 14h, pra mais ou pra menos, e outra pelas 16h. O Menino das Cartas não decidia o horário que iríamos ao cinema. Cansado de esperar ele desenrolar sua decisão, marquei para a primeira sessão da parte da tarde. No dia, acordei um pouco mais tarde, umas 11h e mandei um SMS de bom dia para ele. Ele me demorou a responder e fiquei bastante receoso.
Odeio quando as pessoas me fazem esperar, principalmente quando sabem que estou aguardando uma resposta delas. Depois enviei mais uma mensagem, dessa vez para confirmar o horário do filme. Ele não me respondeu, mas eu não tinha tempo para esperar qualquer resposta, precisava me arrumar. O shopping não ficava mais longe do que aquele que eu realmente gostava de ir, mas para ir até o Diamond eu sempre saía mais cedo de casa, ainda mais quando estava indo para um encontro. Ansiedade batia forte no peito.
Tomei um banho, almocei rapidamente e terminei de me arrumar. Quando eram quase 12h, ele respondeu meu SMS:
_ É 14h o horário do filme mesmo? Achei que era 16h.
_ Não, a gente vai na sessão mais cedo. Combinamos ontem.
Ele não me respondeu. Coloquei a roupa e finalmente saí de casa. Comecei a ficar nervoso com a demora dele em me responder. Eu havia calculado chegar ao cinema em um prazo de 30 minutos e ainda estar 15 minutos adiantado para a sessão. Logo, ele também deveria ter saído para pegar o ônibus, já que o tempo para chegar ao shopping não era tão diferente da minha casa ou da dele. Mesmo ansioso, não enviei outro SMS para ele, apenas esperei. Acabei de me arrumar e já estava no ônibus quando ele me respondeu:
_ Não vou poder ir. Vão comemorar meu aniversário, vai ter um almoço aqui em casa e eu não sabia. Mas se divirta no filme.
Eu apenas não acreditei que ele havia deixado para me avisar tão em cima da hora a ponto de eu já estar a caminho do cinema. Fiquei bem chateado.
_ Mas como você não sabia desse almoço? - indaguei.
_ Foi uma surpresa que fizeram para mim. Só descobri agora quando fui avisar que eu ia tomar banho para ir ao cinema. - ele justificou.
_ Mas espera, você ainda não estava pronto? Porque não iria dar tempo de você chegar lá se já não estivesse a caminho. - pontuei.
_ Olha, infelizmente não vai dar pra eu ir e estou te avisando. Chama o menino que você beijou para ir com você. - na noite anterior estávamos falando sobre garotos e eu disse que havia beijado um naquela semana. Era mentira, mas como estávamos falando sobre beijos e meninos e afins, eu disse algo mais ou menos como “Ah, sim, beijar é sempre bom, tanto que fiz durante a semana”.
Brincávamos assim o tempo todo e como ele continuou na brincadeira, não achei que tinha sido um problema. Obviamente percebi o erro no dia seguinte, quando estava dentro do ônibus levando um bolo em um encontro porque ele estava com ciúmes de um beijo inexistente. Fiquei com raiva da situação, mas com alguma sensação boa dentro de mim, já que eu ainda não havia dito que gostava de verdade dele e essa reação me confirmou que, bom, ele deveria gostar um pouco de mim.
_ Nossa, mas não teve menino nenhum! Eu achei que você tinha percebido que era uma brincadeira, porque você também estava falando coisas assim. - tentei consertar. - Você ficou com ciúmes?
_ Ciúmes não, mas não é legal a pessoa que você está conversando dizer que beijou outros. - ele respondeu.
_ Mas eu não beijei! Era uma brincadeira. - reafirmei.
_ Não importa agora. Não vai dar para eu ir. Bom filme. - ele encerrou o assunto.
Se as curvas mal feitas da nossa relação foram ou não alguns sinais, isso não me importava mais. Eu já havia vivido tudo aquilo e não adiantava remoer nada das decisões ruins que eu havia feito. Mas quando eu relembrava as coisas que já havia passado por causa dele, entendi que o que eu estava fazendo, escrever toda semana, não era mesmo para ele e nem por ele, mas sim para mim e por mim. Esse pensamento foi construído gradativamente, mas finalmente havia se assentado na minha mente.
Quando Lizandra, que tirou a foto sobre o vigésimo terceiro post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, eu vi naquele abraço e sorriso uma cumplicidade que salta aos olhos. Acredito que em algum momento cheguei a sentir isso com o Menino das Cartas, o que me deixava bem triste por tudo ter acabado. Contudo, da mesma forma que todos nós construímos algo grandioso e belo dentro de nós, também aprendemos a deixar aquilo tudo ir embora. Tudo no seu tempo. De pouco a pouco.
I feel like our worlds been infected / And somehow you left me neglicted / We found our lives’ been changed (CHRISTINA AGUILERA, You Lost Me)
O que estava escrito na carta: "a vida acontece e eu ainda aqui 07/01".
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Voltei da minha viagem do Rio de Janeiro no primeiro domingo daquele ano, dia 04. A viagem havia sido ótima, mesmo com o episódio que aconteceu logo após o nascer do sol do dia primeiro. Claro, ainda mantenho minha impressão de que o Rio é um cidade quente demais, extremamente úmida e que nos sufoca e causa dificuldade de inspirar/expirar quando andamos alguns poucos minutos pelas ruas durante a hora do almoço. Nada disso, porém, diminuiu a ótima sensação que tive ao passar meu final de 2014 ao lado da minha amiga e da família dela.
Quando voltei para Belo Horizonte, contei para minha mãe e irmã que havia presenciado um assalto bem perto de onde eu estava hospedado. Ainda falei sobre um episódio que me deixou particularmente abalado: quase no horário de pico de um dia no meio da semana, um ônibus começou a ser escalado por adolescentes. Alguns foram rápidos e conseguiram entrar no veículo por uma das portas, outros tentaram forçar sua entrada por meio das janelas, que os passageiros fechavam o mais depressa que conseguiam. Isso me marcou muito, devido ao fato de estar bastante claro ali como quem não tinha acesso ao transporte tentava fazer o uso dele da maneira que podia, muitas vezes usando violência.
Narrei essas cenas somente após já não estar no Rio de Janeiro porque eu sabia que se contasse assim que tivesse presenciado, minha mãe ficaria bastante desesperada com a minha segurança. Ela é superprotetora e por mais que saiba com quem estou, para onde vou, que horas estarei em casa, ela se preocupa. Em todos os sentidos. Quando disse que minha amiga havia me chamado para ir para o Rio com ela, por exemplo, minha mãe não se opôs porque, obviamente, era uma decisão apenas minha, mas não deixou de me dar mil e uma orientações quanto à viagem. Ela estava preocupada que algo acontecesse comigo, já que a cidade sempre aparece nos noticiários e as pessoas associam facilmente violência urbana ao nome dela.
Para se ter uma ideia, uma amiga da minha irmã já tinha ficado presa dentro de um ônibus no meio da linha vermelha, espaço em que não é incomum haver conflito da polícia com a população. Isso aconteceu também em uma viagem de final de ano, quando o aumento no número de turistas carrega uma onda de assaltos com ele. Minha irmã sabia disso e eu também, antes de ir, mas minha mãe não poderia nem sonhar que algo parecido já tinha acontecido com alguém tão próximo do nosso círculo social.
Tomei cuidado durante toda minha viagem. Antes de ir minha irmã também me deu avisos e estive atento aos meus movimentos, principalmente por estar em uma cidade desconhecida, mas também porque eu sempre ando assim por todos os lugares. Vigilância constante, já dizia Olho-Tonto Moody em Harry Potter e o Cálice de Fogo. Então quem imaginaria que eu seria assaltado bem quando estivesse de volta ao conforto do meu lar em BH?
Logo na semana da minha volta, eu saía de casa sem quase nada nos bolsos. Apenas R$ 20,00, as chaves de casa e meu celular, na época um iPhone 4s. Eu estava tão apressado e com a atenção tão dispersada que nem mesmo reparei os dois jovens que apareceram. Um estava bem na minha frente e o outro atrás de mim. Quando me dei conta, já estava cercado por eles. Um deles falou:
_ Passa o que você tiver aí. Anda, passa.
Fiquei paralisado, mas comecei a retirar os objetos. Tirei meu celular, minhas chaves e meu dinheiro dos bolsos. Sentia o sangue correr gelado nas minhas veias e não tinha coragem de olhar diretamente para o rosto daqueles dois.
_ Tem mais nada não? Hein? - o outro me perguntou. - Hein?! Anda porque senão eu te dou uma facada.
Acho que ele não tinha faca nenhuma, mas não gastei meu tempo pensando sobre isso na hora. Percebi que deveria responder:
_ Tenho não. Só tenho isso aí. - falei, com a voz mais grossa. Diante de toda aquela situação péssima aquela sensação de ter que engrossar a voz ainda estava comigo. Me senti ridículo, como sempre me sinto quando faço isso voluntária ou involuntariamente. Ser gay é duvidar da sua locução e trejeitos sempre que alguma situação se comporta de modo voraz na sua frente: uma apresentação de trabalho final, uma entrevista de estágio, um assalto.
Um dos assaltantes tocou nos meus bolsos para ter certeza de que eu não escondia mais nada. Quando viu que já estavam com todas minhas posses, mandou eu ir embora:
_ Agora vai embora, e não olha pra trás não. Senão a gente te pega. Anda, rala.
Continuei meu caminho. O assalto ocorreu exatamente na rua de cima da minha casa, por onde eu sempre passava para ir para a faculdade e para o estágio, já que meu ônibus saía de dentro da universidade. Fiquei estarrecido depois disso que me aconteceu. Andei e me afastei um pouco do lugar em que fui assaltado, depois voltei para a casa, tremendo. Daí segui o protocolo: água com açúcar, abraço reconfortante de um amigo, folga do estágio e a sensação de não querer sair de casa pelo resto da semana.
Quando a quarta-feira chegou, que era o dia da semana em que sempre escrevia um post-it, eu não sabia se queria continuar com aquilo tudo. A sensação do comecinho do ano de que 2015 poderia trazer 365 dias ruins começou a crescer dentro de mim e eu não via mais motivos para continuar com aquele ato metódico de escrever sobre a minha relação com o Menino das Cartas. Ele já estava fora da minha vida, não havia me desejado um Feliz Natal, nem um feliz Ano Novo. Talvez se eu parasse com aquilo agora, no começo de um novo ano, as coisas mudariam para melhor.
Comecei a sentir que eu estava arrastando sentimentos passados para uma nova etapa da minha vida. Me pus a duvidar de que talvez aquilo não estivesse fazendo bem para mim, mas só me deixando preso a um passado que não ia se repetir jamais. O mundo passava, a vida acontecia e eu ainda estava ali, atado naquela repetição de pensamentos e tentando encontrar meu lugar. De qualquer maneira fui e escrevi mais um post-it.
Depois do ato, eu olhei para aquilo colado na carta de baralho e decidi continuar. Não era a rotação da Terra que me falaria que eu estava em uma nova etapa. Não precisei do final do ano para começar a pensar em tudo o que o Menino das Cartas me fez sentir, então certamente não precisava que o começo de 2015 me forçasse a parar de colocar em palavras tudo o que estava dentro de mim. Eu estava sim andando um caminho de autoconhecimento e, talvez por isso mesmo, precisei duvidar de mim mais de uma vez.
Quando Bárbara, que gravou o vídeo sobre o vigésimo segundo post-it que colei nas cartas de baralho, me mostrou o que ela havia feito para mim, eu me vi de duas maneiras naquele timelapse. Em uma eu era apenas alguém com os pés fincados na areia, vendo o mundo passar sem vontade de participar dele. Em outra eu ainda estava preso ao chão de uma praia do Rio de Janeiro e olhava o meu redor. A diferença dessa visão é de que eu ainda participava do mundo apenas por observá-lo. Essa era minha contribuição.
And you can always call / To say hello from time to time / When you're no longer mine [SKYLAR GREY, Tower (Don't Look Down)]
O que estava escrito na carta: "eu ainda penso que você me deseja o melhor. feliz natal 24/12".
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O Natal estava ali na porta. Na verdade eu sempre considerei o dia 24 de dezembro como o verdadeiro dia de Natal. Para mim, a véspera é muito mais especial do que o dia 25. Na minha família é sempre a mesma ladainha nessa época do ano: inicialmente meus parentes todos ficam em polvorosa para saber onde vai ser comemorada a data. As pessoas por parte do meu pai são bastante parecidas com o resto do mundo, ou seja, a maioria delas quer saber quando as coisas vão acontecer, mas quase nenhuma realmente se propõe a tomar as rédeas da situação.
Depois desse questionamento inicial, uma tia por parte de pai, sempre a mesma, tem alguma dessas duas reações: ela pode convidar todos para irem para a casa dela para fazermos a ceia de Natal ou então ela decide que não vai “mexer com isso esse ano”. Qualquer que seja a decisão, 95% das vezes o Natal é sempre comemorado na casa dela. Se isso não acontece, a festa se transfere para a casa da minha vó paterna.
Do lado da minha mãe tenho contato basicamente somente com a família de uma das irmãs dela, que também é minha madrinha. Então, quando os ânimos estão favoráveis, essa minha tia se junta à nós na comemoração organizada pela família do meu pai. Quando isso não acontece minha véspera nunca é a mesma. Claro, eu tenho um relacionamento bom com meus primos por parte de pai, mas a família da minha mãe é uma grande parte de quem eu sou e me pesa estar longe dela.
Meu pai tem 10 irmãos e um total de 26 sobrinhos. Nem todos comparecem na véspera de Natal, mas o número de pessoas que fica rondando por lá é sempre maior que 36. Namorados, afilhados, primos de segundo grau, netos, bisnetos, noivas, genros e sogras ficam todos sob o mesmo teto. É gente demais, é muita gente e em 2014 eu não queria mesmo estar perto daquele amontoado de corpos.
Não sou desses que reclama de passar o Natal com os parentes porque é uma festa em que você ouve tudo o que aquele ser quis te falar durante o ano e não pôde porque, bem, ele não te viu nenhuma vez durante o ano. Inclusive, só há pouco tempo, coisa de 1 ou 2 anos atrás, eu descobri que existe uma cláusula no contrato social que diz o seguinte:
Cláusula quinta: Das festas de final de ano.
O indivíduo será compelido a passar o Natal, demarcado pelo espaçamento temporal do dia 24 de dezembro somado às primeiras duas horas depois da meia noite, com os parentes. No Ano Novo, compreendido por sua vez como o espaçamento temporal do dia 31 de dezembro somado às horas sóbrias ou embriagadas da madrugada e por vez da manhã do dia 1º de janeiro, não será de obrigatoriedade do indivíduo dividir a festa no mesmo espaço que os parentes.
Parágrafo único: Não é vetada a participação de parentes/familiares na comemoração do Ano Novo. Os citados podem fazer parte da celebração com o indivíduo, se for de desejo deste. Deve-se atentar que somente a festa natalina tem como obrigação a divisão do espaço com os parentes. O indivíduo ainda é livre para fazer qualquer objeção à decisão pétrea, desde que esteja ciente que toda e qualquer reclamação será ignorada. Xingamentos leves ou de baixo calão em redes sociais estão liberados, mas nenhum deles serão provas aceitas em qualquer processo que envolva o Natal com os parentes.
Até descobrir essa cláusula eu comemorava o Ano Novo com a minha família e parte dos meus parentes - porque há uma grande diferença entre família/familiares e parentes. Então eu estava preparado para finalmente deixar minha passagem de 2014 para 2015 ser especial, já que o Natal seria uma grande prova de fogo com aquele tanto de gente em volta de mim. Eu teria que fazer a melhor atuação da minha vida para que nenhum deles percebesse em meu rosto algum sinal de tristeza causada pelo meu coração partido.
Com esse receio dentro de mim, pensei que a melhor forma de esconder o que eu estava sentindo era apenas fazer da cerveja minha melhor amiga naquela noite. Contudo, esse plano não funcionaria porque eu ainda estava debaixo da regra implícita da minha casa de que não se bebe abertamente perto do pai ou da mãe. O jeito era me esconder no meio das minhas piadas depreciativas. Material não me faltaria, já que o número de pessoas era grande.
O que eu tentava mais abafar em mim era uma tristeza específica que só apareceria nessa época: a dúvida se o Menino das Cartas me mandaria alguma mensagem, por menor que fosse, me desejando um Feliz Natal. Eu ainda não estava sentindo o espírito natalino percorrer o meu corpo e começava a desconfiar que isso claramente tinha ligação direta com a nossa falta de comunicação.
Meu desejo por uma simples frase de Feliz Natal era grande porque, por mais que eu não estivesse sentindo isso naquele ano, essa data sempre foi muito importante e significativa para mim. Não porque sou católico e espero o nascimento de Jesus comemorado em um dia puramente comercial e capitalista, mas porque eu sempre tive provas de que perto do dia 24 de dezembro as pessoas estão mais inclinadas a perdoar e superar as mágoas passadas. Mas a mensagem dele não veio.
Eu também não fiz a minha parte e não tinha enviado nada para ele, mas é que estava cansado de ser sempre a pessoa que tomava alguma atitude em relação à nós. Quando digo “nós” é puramente em um sentido de companheirismo e amizade, porque eu sabia que, da parte dele, não deveria existir mais nenhum sentimento romântico. Eu ainda estava lá, com aquela pontinha de amor dentro de mim, mas já não esperava isso dele há um bom tempo. Infelizmente, a superação de um relacionamento nunca tem o mesmo tempo para as partes envolvidas.
Quando Maria, que tirou a foto sobre o vigésimo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem da carta perto de uma árvore enfeitada, eu lembrei que naquele Natal de 2014 devo ter tido o desejo do presente mais simples que já quis em todos os meus anos de vida: só um pouquinho de amor, em forma de carinho e consideração, da primeira pessoa que eu havia amado.
This is the way you left me / I'm not pretending / No hope, no love, no glory / No happy ending (MIKA, Happy Ending)
O que estava escrito na carta: "Às vezes me sinto numb. É assim que se percebe que as coisas estão mudando? 10/12".
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Dormência é uma sensação muito estranha. Para começar, já é um pouco incomum chamar dormência de sensação, sendo que ela, justamente, é a falta disso. Lembro que a primeira vez que tomei uma anestesia local foi um grande momento da minha infância. Eu iria colocar aparelho ortodôntico, mas meus dentes de leite ainda estavam firmes e fortes dentro da minha boca. Ao menos os últimos, aqueles que ficam no fundo, os molares. Todos os outros - centrais, laterais, caninos e pré-molares - já haviam entendido que o tempo deles na Terra estava esgotado e tinham se bambeado para fora de mim. Menos os molares.
Por isso, foi necessário que eu fizesse extração deles de uma maneira manual e sem esperar eles ficarem moles. Meu dentista, então, aplicou uma anestesia local e alguns dos meus últimos dentes de leite tinham sido finalmente removidos e dado espaço para os eternos dentes permanentes. Fui para a casa com parte da boca dormente e assim que entrei no carro do meu pai, comecei a morder a parte externa da pele que ainda estava sob o efeito da anestesia. Minha irmã avisou:
_ Não fica mordendo, Mauro, que quando acabar a anestesia essa parte que você mordeu vai estar bastante dolorida.
_ É sério!? - perguntei, um pouco assustado.
_ Sim. E você já vai sentir dor porque o dentista arrancou seu dente. Então é melhor não ficar mordendo. - completou minha mãe.
O problema era que tão bom morder aquele pedaço da minha boca que não me causava dor. Ignorei os avisos e continuei ali, me mastigando, mas fora do campo de visão da minha família. Quase um auto-Hannibal Lecter. Então fui para uma parte da casa que ficava bem abaixo da sala de estar brincar de bola.
Era tão óbvio que eu estava ali por outro motivo - no caso, me morder -, porque eu nunca encostava naquela bola que meu pai havia me dado. Porém, o objeto me deu uma ideia: eu o chutaria na parede e quanto mais forte conseguisse chutar, mais forte eu morderia minha boca. Fiquei nisso por vários minutos. A bola era semi-profissional e feita de uma material tão resistente que eu conseguia chutar com bastante força para que ela fizesse cada vez mais barulho ao atingir a parede.
Durante a brincadeira houve um momento que mordi minha boca tão forte que juro que senti os meus dentes de cima se atritarem com os de baixo. Daí parei e pensei que não valia a pena continuar com aquilo. E se eu mordesse minha boca tão forte que meus dentes rasgassem a pele? Até hoje não sei se isso é possível - provavelmente sim, o corpo humano é um mistério -, mas por via das dúvidas, parei de me morder. Fiquei algum tempo ainda pensando se eu realmente sentiria alguma dor depois de tantas mordidas, mas à medida que a anestesia passava, eu não sentia nenhuma dor naquela região que mastiguei por minutos a fio. Pode ter sido o remédio que tomei para que a dor da extração não fosse forte, mas de qualquer maneira, mesmo com dúvida, confesso que faria de novo.
Após esse episódio outros dentes molares meus foram extraídos e eu sempre mordia a boca anestesiada. Eu gostava daquela história de ficar com parte do meu corpo dormente. Sempre amei aqueles acessos de formigamento na mão e no pé, por exemplo. Me sinto com alguma parte robótica acoplada ao corpo, como se eletricidade estivesse passando por ali para equilibrar os sistemas que comandam aquelas partes. Sempre que me acontecia isso na infância minha irmã já ordenava:
_ Bate o pé no chão, anda! Bate o pé pra passar o formigamento!
_ Mas eu gosto quando formiga.
_ Você gosta?! - ela perguntava, sempre incrédula.
_ Gosto. - respondia, com um sorriso no rosto.
Aparentemente não era algo para se ter gosto. Mas já estava determinado esse prazer por dormência em geral. Somente uma me incomoda, mais ou menos: aquela que aparece quando você tem um mundo de coisas para resolver mas não sabe nem por onde começar. Ela te deixa em um estado inerte e te afunda num ócio que não tem previsão de acabar. Essa dormência é péssima. Comecei a admirar ainda mais o estado de dormência quando consegui aplicar essa ideia aos meus sentimentos.
Quando estou triste demais é péssimo o desespero que sinto porque não tenho controle total das minhas lágrimas. Quando estou feliz demais sempre duvido da situação e tenho certeza de que algo muito ruim está prestes a cair sobre mim. Então por muitas vezes eu prefiro estar dormente. Na verdade, o que eu prefiro mesmo é estar um pouquinho feliz: não muito para que não possa ser arruinado e nem pouco demais para que a tristeza tome conta. Esse pouquinho te faz tratar as adversidades do dia com leveza, mas ainda te mantém ciente de que as coisas não estão da melhor maneira possível. Mas quando não tem jeito de ficar um pouquinho feliz, dormente sempre serve.
Estar dormente é se sentir neutro perante o que acontece em volta. Penso que é como olhar as coisas da forma como elas se apresentam e pronto. Sem caçar mais do que está na nossa frente. Sentir uma dormência de sentimentos não é não-sentir os sentimentos. Isso tem outro nome e não é nada bom. Quando você está dormente as coisas simplesmente não te desequilibram. Você escuta uma música dançante porque ela te causa sensações boas, mas não é compelido a dançar no meio da calçada. Você recebe alguma crítica negativa e só pensa em maneiras de não errar novamente, sem sentir seu trabalho atacado de alguma forma.
Em uma das primeiras vezes que conversei com o Menino das Cartas quis mostrar para ele um texto que estava redigindo para um revista digital. “Em/pa/tia” era um conto mórbido sobre uma pessoa que não entende muito bem o que é o sentimento do título. Na verdade ela até entende, mas se força a fingir que não se interessa com o mundo que a rodeia só para demonstrar de maneira trágica, ao final do conto, o quanto ela se importa com o peso da existência dela e das outras pessoas. O texto ainda passaria por alguma revisões e antes mesmo de eu enviar para o responsável pela revista, mostrei o conteúdo para algumas poucas pessoas darem pitacos. Eu havia conhecido o Menino das Cartas há pouco tempo, mas me senti muito seguro em pedir a opinião dele. Assim que acabou de ler, ele me disse:
_ Gostei bastante. Você escreve bem. E eu me vi muito nesse personagem.
Eu deveria ter ficado bastante preocupado porque a vida daquele protagonista não era nada feliz. Perguntei:
_ Sério? Mas você se sente assim ainda?
_ Hoje não. Hoje menos. Mas eu era muito parecido com o que você escreveu.
Talvez tivesse sido um sinal de que algumas pessoas levam a dormência de sentimentos para um lugar que eu ainda não sabia como lidar. Talvez eu devesse ter ficado mais atento aos pequenos e fracos sinais de alerta que apitavam bem baixo lá no fundo de mim. O problema é que acho que naquele pouco tempo de conversa eu já era uma pessoa apaixonada. Não deveria ter sido tão rápido.
Depois de meses dessa conversa, em dezembro daquele mesmo ano, era eu quem começava a sentir uma dormência parecida. Eu perdia a vontade de tentar qualquer coisa que tivesse relação com amor ou qualquer um desses sentimentos marcantes. Quando Pedro, que tirou a foto sobre o décimo oitavo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem dele, eu vi ali uma dormência que se mistura e embranquece a ponto de se confundir com os fundos que nos cercam.
Depois de tantos post-its e cartas de baralho, com a proximidade do final do ano, eu começava a ter vontade de não sentir nada. Eu não tinha certeza se as coisas estavam melhorando e isso me matava um pouco por dentro. Eu só queria passar pela vida. E desaparecer.
We all get hurt by love / And we all have our cross to bear (KYLIE MINOGUE, Confide In Me)
O que estava escrito na carta: "As coisas estão melhorando. Ou eu estou melhor. 03/dezembro".
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Às vezes parece difícil e até mesmo impossível se desvencilhar da cola que nos mantém unidos como sociedade. Existem tantas maneiras de se entender parte de um organismo, seja ele cultural ou histórico, que podemos sempre pender para aquele lado que nos traz mais conforto. Uma das maneiras de compreender como o lugar em que vivemos faz parte da nossa vida assim como nós fazemos parte da vida dele é através do determinismo.
Lembro que quando estudei esse conceito fiquei maravilhado com tudo o que ele dizia. Nunca me aprofundei nos estudos sobre o assunto, mas na minha compreensão ficou que, resumindo, determinismo é o entendimento de que nosso ambiente, o contexto em que vivemos, determina grande parte do produto social que nos tornaremos. Claro, algumas pessoas elevam demais o conceito e no fim parece que somos apenas uma massa que vai ser moldada pelos acontecimentos que nos atingem. Nisso eu não acredito, mas a filosofia determinista para mim é algo a se considerar.
A concepção de que uma família determina grande parte da forma como seus membros veem o mundo, para mim, se encaixa nos conceitos de determinismo. Claro que isso não quer dizer que um filho vai pensar da mesma maneira que sua mãe, mas o modo como o mundo é apreendido por aqueles seres que dividem uma relação tende a se aproximar. Logo, as reações podem ser muito parecidas também e não porque alguém escolheu exatamente fazer aquilo, mas porque houve um ambiente anterior àquela pessoa que a fez lidar com o momento de certa forma.
Tudo isso pode ser um grande erro de apreensão minha sobre um conceito complexo que envolve causalidade, coisa de aspirante nível B de estudante de sociologia. De qualquer maneira, é algo em que acredito. Tanto é que isso muitas vezes guia a maneira como eu lido com os eventos e as pessoas ao meu redor. Por exemplo, eu sinceramente acredito na possibilidade de um bom dia e um sorriso nas primeiras horas da manhã deixarem o dia de quem os recebeu um pouco mais propício a ser bom.
Nunca gostei de aparentar estar de mau humor assim que vejo meus amigos porque, para mim, entra todo um lance sobre energias que podem atingir aquelas pessoas e transformar aquele momento em algo desagradável. Essa minha atitude pode deixar alguém também de mau humor e um ciclo gigante se instala através das relações que esta pessoa vai ter durante o dia, a semana, o mês dela. Se supostamente existe a chance do bater de asas de uma borboleta causar furacões, eu prefiro tentar sempre ser a lagarta estrangeira do circo itinerante de “Vida de Inseto”.
Quando você sai de uma relação que mexeu profundamente com você, os minutos para que aquelas sensações desconfortáveis deixem o seu corpo respirar tranquilamente são tidos como mantras. A cada 60 segundos é um ciclo que você vence na luta contra a dor de sentir demais. Definitivamente, a angústia de não saber por quanto tempo você não vai conseguir tirar aquela pessoa da sua cabeça começa a te corroer lentamente por dentro, até que a velocidade dela fica tão lenta que você acredita que parou. Claro que não parou, mas essa sensação aparece ou porque a angústia está mais diluída nas suas veias ou porque você se acostumou com ela e nem percebe mais sua presença.
Sentir-se mal por causa de algo é apenas repetir o eco de uma coisa que só existe no passado. Caso contrário não precisaríamos ficar tristes porque determinando evento aconteceu. A dor se estende porque somos seres que se arrastam no tempo e levam para o presente e o futuro tudo aquilo que vivem. Na verdade talvez isso que nos torne humanos, essa capacidade de viver no tempo e no espaço, senão os sentimentos durariam somente o instante fugaz em que temos conhecimento deles e depois, puf, sumiriam de vista.
Quando passamos por uma melhora, depois um acontecimento que nos colocou no chão, nunca sabemos ao certo porque aquele sentimento ruim se dissolveu. A não ser que tenhamos uma grande notícia feliz do tipo “Sua irmã está grávida” minutos após ser dispensado da pior maneira por uma nova paixão, não conseguimos muito bem eleger o momento responsável em que as coisas começam a ficar bem de novo, em que a falta de ar não exige tanto dos nossos pulmões.
Quando Ana, que tirou a foto sobre o décimo sétimo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, ela se mostrou extremamente próxima dos meus sentimentos. Ana me disse: “Além de terminar relacionamentos, já estive em um relacionamento à distância, e sei como a cabeça e o coração ficam confusos nessas duas situações. Na cartinha que peguei, estava escrito ‘As coisas vão melhorando. Ou eu estou melhor.’, mas imagino que, em vários outros momentos do seu ano, tanto antes quanto depois do dia 3 de dezembro, as coisas só pareciam piorar, e você só se sentia pior. E essa montanha-russa de sensações é o mais louco de todo o processo de tentar esquecer/tentar parar de amar alguém. Eu estava exatamente assim quando peguei a cartinha. Só que uma coisa tem acontecido em BH que tem me deixado bem melhor: as chuvas.
Estava um calor INFERNAL um tempinho atrás e eu não estava aguentando mais. Até que começou a chover e parece que muito mais do que refrescar o clima, cada gota d'água que cai do céu refresca a minha mente e o meu coração. Teve um dia que eu estava na sala e quando olhei pela janela e vi que estava chovendo, me senti tão inspirada que fiz um poema sobre. Mas todas as vezes que a chuva cai e me sinto bem, me lembro de como é bom eu ter um teto e toda uma estrutura que me proteja do frio, dos ventos e da água, e fico torcendo para que chova mais fraquinho em quem não tem tudo isso. Além dessa tristeza, me lembro de algumas outras, como não ter alguém com quem eu possa dividir essa chuvinha da noite. Mas aí logo penso que o mesmo alguém que poderia me esquentar também já me deu tanto balde de água fria que deixaria qualquer temporal no chinelo.
Então, quando a chuva vem à noite, eu simplesmente deito pra me manter estável e fugir da montanha-russa enquanto ouço esse barulhinho de água molhando o asfalto. E durmo pra que chegue um novo dia - seja ele melhor ou pior.”
O maior objetivo de continuar vivendo é que as coisas consigam ficar bem no final. O fim de um relacionamento acaba abrindo espaço para que o fim daquele sofrimento instaurado chegue logo. Mas superar o término de algo que você considerava belo é algo que parte de você ou vem de fora para dentro? São as pessoas e situações que te levam em frente ou suas escolhas que te afastam daquele tormento que um dia se instalou? Talvez ninguém seja forte o bastante para melhorar de um coração partido de forma tão autossuficiente. Talvez a gente precise deixar que o mundo aja sobre nós com toda sua carga temporal. Talvez precisemos de cada gota da água das chuvas para decantar o gosto amargo que se deposita na nossa boca.
And to find just one other / Seems to be the goal of everyone / From the search to the hurt / I believed I could take you on (LONDON GRAMMAR, If You Wait)
O que estava escrito na carta: "Eu ainda tô tentando entender meu caminho em relação a você 26/11".
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Estar perdido é uma das piores sensações que alguém pode ter. Digo isso como um argumento de autoridade, porque sou alguém que tem uma dificuldade enorme em ler mapas. Acho que tudo isso se deve ao fato de que durante meu ensino fundamental inteiro eu ignorei Geografia. Achava uma matéria boba e desinteressante. Pra que me adiantava saber sobre rochas e as camadas da Terra? Poderia até ser algum assunto curioso, mas, talvez por causa dos meus professores dessa disciplina, nunca me despertou interesse nenhum.
No ensino médio esse desgosto continuou, principalmente quando eu soube que no terceiro e último ano não estudaríamos nada de Geografia. Claro, de repente a disciplina já havia se tornado Geopolítica e quando comecei a querer entender mais um pouco sobre o que aquilo tudo significava, já não havia mais tempo para aprender. As leituras de mapas como forma de localização, porém, já haviam ficado perdidas há muito tempo e não conseguiria mais me tornar um expert no assunto. Acho que se localizar através de um mapa deve estar no meio daquelas coisas que temos um tempo exato para aprender, como olhar as horas e diferenciar esquerda e direita: depois que passamos de certa idade, acabou, não vai ter mais como compreender completamente aquilo.
Mesmo com as tecnologias de mapeamento, eu ainda tenho uma grande dificuldade de saber onde estou, para que lugar devo ir e qual rota fazer para atingir meu objetivo. Isso afeta muitas outras áreas da minha vida: se não sei me localizar fica mais difícil saber para que direção devo pegar o ônibus, se eu me perco na direção ou mesmo pego o ônibus errado devo ficar mais tempo dentro dele, se fico mais tempo dentro dele preciso sair de casa no mínimo 30 minutos mais cedo do que as pessoas já sairiam adiantadas, se preciso sair mais cedo preciso acordar bem antes do que eu desejava, se tenho que acordar junto com primeiros raios de sol vou ter que pensar em dormir lá para as 23 horas, se eu não aproveito minha noite não posso assistir mais um episódio do seriado que me interessou. É um grande fio de Ariadne que remonta à um longo ponto de início que volta para o problema inicial: eu tenho dificuldade em ler mapas.
Tenho certeza de que alguma vez já ouvi a expressão “pessoas são como mapas, é importante saber interpretá-las”. Acho que ela não faz parte do grande hall de expressões do senso comum, mas com certeza é uma fala que a literatura, o cinema ou a TV já usou algumas vezes, porque me lembro de ouvi-la. O fato é que ela soa enormemente irônica para mim. Quer dizer, eu sei interpretar mapas que trazem dados variados, como de economia, hidrografia, vegetação, desenvolvimento humano, eu só não sei achar o meu lugar quando preciso ir para alguma entrevista de estágio. De qualquer forma também, essa expressão faria mais sentido para mim se fosse: pessoas são como romances, é importante saber interpretá-los. Porque com um livro eu consigo me relacionar melhor, assim como com as pessoas.
Ler os outros não é uma tarefa muito complicada. Você só precisa ter um pouco de empatia, alteridade (ajuda se você conhecer seu “objeto de estudo”) e ser um pouco sensível. Ter assistido bem atentamente todos os episódios de Lie To Me pode ajudar também, mas não é garantia. O fato é que quando estamos sentindo alguma coisa, sempre damos algum sinal, consciente ou inconscientemente. Então nada mais é do que ter atenção e paciência para captar aquele vestígio que indica uma possível leitura.
Eu conseguia ler o Menino das Cartas todas as vezes. Sabia quando as coisas não estavam exatamente bem ou equilibradas no dia dele por causa de uma escolha ou outra de palavras. Alguma pequenas atitudes como dividir muitos detalhes de uma história ou narrar uma epopeia em apenas três frases me contavam tudo o que eu precisava saber. Pode parecer óbvio mas muitas pessoas não conseguem perceber a diferença entre uma coisa e outra. Claro, é importante estar sempre atento para que a leitura não cause subtextos. Às vezes as pessoas não mandam emoji de coração porque simplesmente não mandam, estão cansadas, só querem dormir logo, então se despedem rápido. A boa interpretação também sabe quando isso acontece.
Ler os sinais é o que mais nos aproxima ou afasta dos outros, permitindo que a gente siga caminho x ou y em relação a eles. O problema é quando você para de receber sinais porque a comunicação foi cortada. Daí não interessa se você é um mestre cartógrafo, um PhD em leitura corporal ou um guru da compreensão emocional. Toda minha história com o Menino das Cartas de repente havia parado de ser escrita porque fazia tempos que ele não conversava mais comigo. Eu havia parado até mesmo de tentar manter os papos sobre amenidades que uma vez tinha investido. Eu não iria tentar uma conversação se estava claro que, mais cedo ou mais tarde, aquilo viraria um monólogo. Então eu não soube mais direito o que fazer.
Não havia mais caminho para trilhar em relação a ele ou a nós. Se eu tentasse algo neste sentido, tenho certeza de que seria como quando algum game está com bug e o personagem apenas continua andando, mas nada na tela se move e o cenário vira apenas um apanhado de texturas 3D todas falhas. Você ainda ouve o som e consegue fazer alguns movimentos, mas nada daquilo leva para lugar nenhum e a única maneira de voltar para o jogo é recomeçando tudo. Triste é quando parte daquele progresso não foi nem mesmo salvo e você tem que repetir tudo novamente.
Quando Hennan, que tirou a foto sobre o décimo sexto post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, ele me contou que ela foi feita em um lugar da sua cidade natal em que ele já sentou diversas vezes para pensar em coisas importantes. Acho que todos temos algum canto especial que nos traz conforto, calma e direcionamento, seja um lugar aberto e alto do qual você enxerga sua cidade inteira, seja o colchão que você está acostumado a dormir todas as noites. Quando estamos perdidos é muito assustador não saber para que lugar virar e para onde seguir.
O primeiro passo é tentar se acalmar e depois perguntar por aí para saber se alguém consegue te orientar. Se isso não funcionar, o que é bem difícil, pare um pouco e tente extrair auxílio da sua mente. Muitas vezes guardamos informações no fundo do cérebro sem sequer perceber. Se você não tiver êxito com nada disso, volte ao início, pergunte ao motorista do próximo veículo que passar ou refaça seus passos. Não é vergonha nenhuma andar pelo mesmo lugar que suas pegadas já passaram. Pode ter certeza, alguma dessas coisas vai funcionar. Os anos de me perder nas cidades, nos becos e também nos corações alheios acabaram me ensinando algo.