Capítulo Um : Aquele Em que Hermione Volta.
- Já lhe disse que estou bem! Pare de me perguntar!
- Harry! Se perguntar de novo, vou socar a sua cara!
- ‘Tá certo, tá certo! Então... Você está mesmo pronto?
- Desculpe! Só estou preocupado com meu melhor amigo! Será que isso é algum tipo de crime?
- Não, não é! Mas, por favor, pare de se preocupar, eu não estou preocupado, porque você deveria estar? Chega tá legal? Eu estou bem, pela milésima vez, eu estou bem!
Pra ser sincero, eu não estava nada bem.
Harry dirigiu em silêncio, eu fiquei sentado no banco do passageiro, olhando a rua passar com a cabeça encostada no vidro fechado, a preocupação dele era compreensiva, meu reflexo no retrovisor parecia prestes a vomitar.
- Chegamos - Ele teve a bondade de anunciar, me pareceu uma palavra mágica, nem bem ele terminou de falar, meu estômago começou a revirar e meus joelhos amoleceram - Tem certeza de que quer mesmo fazer isso? - Nós nos entreolhamos, Harry me observava por cima de seus estúpidos óculos redondo. O bastardo me conhecia bem.
- Tenho - Menti. Foi só o que consegui regurgitar.
Nós saímos do carro e entramos no aeroporto, o vaivém e o falatório costumeiros encheram nossos ouvidos depois que as portas automáticas fecharam às nossas costas.
- Será que ela já chegou?
- Vamos ver se o vôo já chegou - Ele me levou até aquelas placas, enormes, pretas com letras brancas, que informam as pessoas dos embarques e desembarques. Perto de onde estávamos outras portas automáticas se abriram e fecharam. Um conjunto de pessoas, bem diferentes entre si, saiu de dentro delas: um par de homens de terno e gravata, falando aos celulares, comicamente parecidos, uma família sorridente com um casal de crianças, um marido gordo e uma mulher esquelética, três amigas estridentes e bronzeadas e uma garota bem familiar, melhor dizendo, uma mulher.
Definitivamente, ela mudara.
Não fisicamente, por fora ainda tinha os mesmos cabelos cacheados. Pareciam ondas, cascatas de chocolate. O rosto ainda era fino, delicado, o nariz ainda era ligeiramente arrebitado, uma pontinha assim de esnobe, os lábios eram fartos e avermelhados e seus olhos, bem, ainda tinham a mesma cor de mel que eu costumava me lembrar.
Quatro anos podiam ter passado e embora ela estivesse vestida como uma mulher, com seu vestido vermelho-escuro na altura do joelho, seu decote em V e seu rosto maquiado, a mim ainda parecia a pequena, mandona e linda Hermione de sempre.
- Você está bem mesmo, Ron? - Ouvi Harry perguntar de novo.
Ela procurou ao redor com o olhar, nos encontrou pouco tempo depois, sorriu abertamente, tentei ignorar a sensação de queimação na boca do meu estômago, ela apressou o passo, Harry se adiantou, eles se abraçaram primeiro, fiquei um pouco mais atrás.
- Eu também! - Harry a ergueu do chão, Hermione riu bobamente - Como foi de viagem?
- Ah, foi um horror, como sempre, você sabe, eu odeio voar!
Cocei a garganta, as gotas de mel de Hermione giraram pra minha direção.
Ela sorriu minimamente, nos abraçamos, não foi tão entusiasmado quanto a recepção de Harry, mas, ainda assim, foi um abraço, ela tocou meu rosto com delicadeza, meu rosto se incendiou, fazia tanto tempo que ele não recebia o toque aveludado dela.
- Você deixou a barba crescer...
Não foi uma opção, foi mais desleixo do que por qualquer outra coisa, mas não lhe respondi nada, apenas esbocei um sorriso, um gesto muito incomum ao meu rosto ultimamente, senti minhas bochechas rangeram com o esforço.
- A mala está pesada? – Foi a primeira coisa que eu disse a ela. Nada de "Bem-vinda de volta!" ou "Que bom que está aqui!" ou "Eu sonho com a sua volta desde o dia em que você foi embora!"
- Ah, não, eu mesmo levo, obrigada.
- Não, não. Eu insisto, pode deixar. Eu levo.
Harry trocou um olhar comigo, eu voltei a coçar a garganta pra fingir que havia algo entalado ali, quero dizer, algo que não eram palavras guardadas por quatro anos inteiros. Peguei a mala de sua mão e levei-a.
Ela estava mentindo, estava pesada paca.
- Gina está esperando você no apartamento, disse que pode morar lá com ela... Seremos vizinhos, Mione!
- Que ótimo! - Ela sorriu outra vez, me perdi nos pequenos vincos que se formavam nos cantos de sua boca quando ela sorria assim, tão abertamente.
Morávamos todos no mesmo prédio, Rony, Simas, Gina, Luna e eu. Simas e eu dividimos o mesmo apartamento, Rony costumava ser o meu colega de quarto, mas, depois de um tempo, ele preferiu ficar sozinho e agora eu posso ver que foi melhor assim, ver Rony deprimido é uma coisa que não consigo suportar muito bem, nosso apê é de frente para o de Gina, irmã mais nova de Rony, ela costumava morar com Luna, mas a maluquinha gosta de cultivar suas plantas e uma pequena horta, era terra e verde demais, Gina não aguentou. Agora Luna mora no andar de cima, quase no terraço do prédio, onde o sol bate mais forte contra suas janelas, alimentando suas pequenas flores.
Rony não disse nada durante a viagem, sentou-se no banco traseiro do carro e continuou com a mesma cara de enterro que tem trazido em seu rosto nos últimos... Ah, é, quatro anos!
Já Hermione pareceu muito animada, conversamos durante todo o trajeto e ela pareceu muito contente, embora eu tivesse percebido alguns olhares escorregadios na direção do nosso depressivo amigo ruivo sentado no banco de trás.
Confesso que achei meio bizarro o encontro deles no aeroporto. Eu não esperava que eles fossem agir como se nada tivesse acontecido, eu esperava olhares de mágoa e um silêncio desconfortável, na verdade, eu estava preparado pra isso, todo esse teatro me deixou um pouco confuso.
Chegamos ao quarto andar, nosso andar, bom, meu andar pelo menos e, futuramente, o de Hermione também. Paramos em frente ao apartamento de Gina, o número vinte.
- Mione! - Gina berrou ao abrir a porta, jogando-se nos braços da amiga, seus cabelos vermelhos vibraram no corredor escuro - Meu Deus! Que saudade! Seja muito bem vinda de volta!
- Obrigada, Ginny! É muito bom estar de volta!
Logo estávamos todos instalados dentro do apartamento da Gina, grande, com paredes roxas, dois quartos, um banheiro e uma grande janela, incluindo uma varanda com vista para as ruas e também para o apartamento do Rony, que se mudou pra lá depois que o antigo morador, um cara gordo e feio que tinha a mania de andar pelado pela casa, Dursley alguma coisa. O lugar era bem maior do que o meu, principalmente a sala, cabíamos todos ali, com muita folga.
Rony deixou a mala de Hermione no quarto de hóspedes que já estava preparado para ela, Mione e Gina sentaram-se na mesa da cozinha, botando o papo em dia, eu fui atrás dele.
- Guardando a mala dela. Dãã.
Ele depositou as coisas de Hermione em cima da cama e sentou-se ao lado, me encarando.
- Não é disso que estou falando.
- Não está, sabe, sendo gentil, tipo, como na vez em que ganhou aquele livro..."Doze Maneiras Seguras de Encantar Garotas"?
- Eu tenho que ter um motivo pra ser gentil com ela? Eu tenho que ter lido isso em algum livro idiota?
- Não! Só estou perguntando, Rony! - Pombas, como o humor dele ficava instável quando tocávamos nesse assunto!
- Como se eu fosse tê-la de volta só por ter carregado os pertences dela, claro! Se fosse assim, tão fácil...
- Harry? - Gina me chamava da cozinha.
Trocamos olhares pesados.
- Vê se muda essa cara por, sei lá, dois minutos.
Saí do quarto e voltei à sala, de onde eu conseguia ver as duas sentadas na cozinha, sorri e fui me juntar a elas.
- Claro, temos muita conversa acumulada!
- Vamos lá pro Três Vassouras! Syms e Luna estão lá.
- Vamos! - Gina animou-se automaticamente, ela se empolgava fácil, apanhou seu casaco e jogou o de Hermione pra ela.
- Ron, vós vamos ao Três! Você vem?
Não ouvimos resposta, troquei um olhar com Gina.
- Vai na frente com a Mione, Harry, eu preciso falar com meu irmão.
Deixei meus olhos passearem pelo quarto que Gina havia arrumado mais cedo pra ela, sentia-me culpado, fora rude com Harry e ele só estava tentando manter uma conversa civilizada comigo, mais tarde eu teria que me desculpar com ele, pela quinquagésima vez essa semana, eu acho até que já perdi a conta.
Meu olhar recaiu na mesinha de cabeceira ao lado da cama, mais especificamente falando nos retratos que Gina colocara, havia uma grande, de nós seis, sorridentes, parecia ser aniversário do Harry, em outra, Gina e Mione se abraçavam contentes e na terceira - meu peito pareceu colar nas costelas - nós dois, eu a carregava nas costas e ela ria, senti como se estivesse realmente ouvindo a deliciosa risada dela bater contra o meu ouvido, eu me lembrava muito bem desse dia, mas não sabia que Gina ainda tinha a foto...
- Dias felizes, não eram?
Surpreendi-me com minha irmã apoiada ao batente da porta, me encarando, cocei a garganta pela terceira vez - tentei me forçar a parar de fazer isso, senão acabaria danificando minhas cordas vocais - e recoloquei a foto na cabeceira.
- Dias que não voltam mais - Retorqui.
Eu a ouvi bufar pelo nariz, ignorei-a.
- Não sei... Tenho algumas coisas pra fazer em casa...
- Tomar sorvete e ouvir Radiohead não é o que eu chamo de programa ideal pra um sábado a noite, Ronald! Por favor, venha conosco!
- Vamos! Ela quer que você venha!
- Claro. Estou realmente convencido agora - Debati, sem humor - Ela nem vai ver se estou lá ou não, aliás, ela nem sentiu minha falta, porque passei quatro anos inteiros esperando por respostas às minhas cartas, nem mesmo os e-mails, nem uma mísera corrente de azar!
- Rony, todos nós sabemos o que aconteceu e o que isso causou em você, nós sabemos, nós entendemos... - Ela veio mentir mais perto de mim, sentando na cama também - Mas, nós também sabemos que vocês prometeram se tratar com respeito, conversarem normalmente, como amigos, pra não prejudicar mais o grupo, não foi?
- Eu não estou vendo você tentar.
Os olhos castanhos, meio amendoados, da minha irmã me encararam, eu sabia que se eu ficasse aqui em cima, logo outra pessoa viria me aporrinhar sobre meu humor e minha recente conduta, eu estava meio antissocial ultimamente.
- Por favor, eu, sua irmãzinha, sua caçulinha, gostaria que você estivesse lá... Será que não pode tentar fazer isso? Por mim?
Ah, saco. Odeio quando ela faz esse olhar pidão pra mim.
Ela inclinou o corpo na minha direção e beijou minha bochecha ternamente.
- A propósito, tirar a barba seria uma boa ideia.
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