📖 A arte de ler - Ou como resistir à adversidade
( Michèle Petit)
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📖 A arte de ler - Ou como resistir à adversidade
( Michèle Petit)
Do carinho em forma de ajuda! ♥
Olhei ao redor à procura de algo que servisse de arma. Os únicos objetos duros ao alcance eram as cabeças. Peguei um pelos últimos fios de cabelo.
Penúltimo parágrafo, página 133 de 408. Biblioteca de Almas, Ransom Riggs - Livro III da série O Lar da Srta. Peregrine para crianças peculiares; Editora Intrínseca.
Obscuridade
O dia estava cinzento, frio e seco. Nada ali a interessava, apenas a história que estava lendo fazia tempo. A chuva que não caia, o sol que não saia transformavam seu dia em um tédio sem tamanho. Sim, tédio. Seu velho companheiro das horas angustiantes, deprimentes. Não lhe restavam forças para “lutar” contra aqueles sentimentos. Sua energia esgotara. A cada parágrafo da história que lia a empurra mais para o fundo do poço, pois se identificara profundamente com os relatos. (Não todos, mas o espírito...). Recordou-se da sua adolescência, período negro em sua vida. Muitas resoluções, pouco comprometimento. Sentimento de perda, não se encaixava naquele status quo. Não visualizava saída, tinha que enfrentar sozinha aqueles bombardeios que achava ter deixado para trás, assim como se deixa uma página virada. Seu lado obscuro estava mais presente do que nunca, de maneira mais leve do que nos últimos dois anos. Uma congruência de fatores, de pessoas. O pior era saber que o problema era exclusivamente seu, era sua responsabilidade vivenciar tudo aquilo outra vez. Constatar que ela se permitiu viver aquelas sensações, aquelas ideias obscuras, a fez cair ainda mais no poço, perdendo a noção da realidade e do risco que corria ao permanecer assim... Partes da história a intrigavam cada vez mais e ali ela permanecia incrédula ao mesmo tempo em que percebia seu equilíbrio emocional. Ela não havia caído tão fundo no poço como supunha. Naquele momento percebeu que era hora de mudar, que não poderia se deixar abater e deixou os pensamentos fluírem, mas cuidando para que eles não se fixassem, pois aí sim teria problemas. Teve a brilhante (ou não) ideia de transcrever uma parte daquela história, contando com o entendimento de que todos a sua volta conseguiriam entender o que era aquela angústia mortífera... Era possível que não obtivesse certeza, mas seria um desabafo e uma forma de não se sentir solitária. Ela era daquelas pessoas que acreditavam que expressar o que sente com outras pessoas é o melhor caminho, mesmo que naquele instante não seja compreensível ou que choque. Para ela tanto fazia, não era de maior importância as opiniões de outrem... Refletiu bem e decidiu transcrever partes daquela história que a fizera reviver sua conturbada adolescência. Seguia assim: (...) “Depois do que aconteceu, muitas pessoas me perguntaram o que um suicida sente antes de tentar morrer. Não creio nas respostas universais, pois sei apenas o que aconteceu comigo e a algumas pessoas com quem fiz contato. Todos coincidimos numa coisa: não podemos mais continuar vivendo. Não quero dizer que queremos deixar de viver, a sensação é de não poder fazê-lo, embora desejássemos. O mundo passa ser as quatro paredes onde estamos trancados e tudo o que está além dessas paredes é inimigo: familiares, amigos, colegas, amantes, tudo nos fere, nos empurra alguns centímetros mais para a morte. Ódio irracional de si mesmo, solidão intensa e falta inquietação. No meu caso, sentia que deveria ficar por meus pais, mas não podia fazê-lo. Faltava-me o ar, todas as portas estavam fechadas, e a única coisa que eu podia fazer era ficar diante de uma parede e observar sua brancura: não há futuro, só há uma parede que o tempo vai embolorar. Eu não tinha tempo para esperar que embolorasse, preferia morrer com a parede branca como estava. Era essa a sensação! Não queria enferrujar para morrer, queria desaparecer assim: lânguida, neutra, lacrimosa. Naquele tempo “suicídio” era sinônimo de salvação e de única saída. Não acreditava absolutamente que alguém pudesse me ajudar a sair do lugar onde estava encalhada. Quero que entendam: quando você está para morrer, pensa que ninguém pode ajudá-lo, embora muitos médicos e especialistas pensem que sim. Não acredita em ninguém, nem em você mesmo. Só lhe resta aquela parede ou olhar para trás. São o passado e você, juntos para sempre (e sempre é muito pouco tempo). Então a única coisa possível é se conceder a morte, aliviar a dor que é insuportável, que nunca termina. (...) Aquilo me ensinou tantas coisas da vida, tantas da morte e me fez pensar em conseqüências e razões, me levou até o mais profundo do meu ser para procurar respostas. Se pudesse voltar o tempo, me mataria novamente, pois de outro modo não conseguiria seguir vivendo. Contraditório, absurdo. (...) Aqueles ataques de revolta e impotência me levaram a algo mais terrível. Precisava expressar meu ódio contra mim mesma (não como pessoa, mas sim por estar apenas viva) e encontrei um método eficaz e daninho: me cortar. (...) Não o fazia para me matar, só queria me livrar do sentimento que me afligia no momento: podia ser angústia, tristeza, melancolia, ódio enorme de Alejo ou de mim mesma, por estar respirando. (...)É importante saber o que estamos fazendo. Ninguém se comporta mal sem motivo, e se nos cortamos é porque sentimos que há algo positivo nessa ação. (...) A verdade é que eu estava indignada com a vida por ter me dado uma segunda chance. Aquela noite, depois de escrever a carta, adormeci. Os remédios não me deixavam sequer ficar acordada o tempo suficiente para ir embora desta vida. Nem decidir o que fazer comigo mesma eu conseguia. Era um verdadeiro ser trancado, enclausurado. Estava presa”. (Abzurdah, por Cielo Latini; ed. Planeta, 2007. – p. 275, 276, 279, 281 e 286.) Em 09/05/2009 By @raquel_elena