Só mais um dia.
Bulgaria, Sofia, 06 de abril de 2023.
Nunca me senti tão sozinha em 44 anos de vida.
Um belo apartamento, carro bom, filha frequentando uma das melhores escolas do mundo.
Quando me mudei pra UK, sozinha por completo, as coisas foram muito mais fáceis. Era eu por eu mesma. Passei por dificuldades que se eu não colocar em palavras pessoas nunca vão imaginar, entretanto, foi mais fácil do que está sendo agora.
Me lembro um ano novo que fui pro centro de Londres “ver” os fogos da virada e comecei a me sentir mal, muito mal. O retorno pra casa que levava por volta de 40 minutos de metrô levou naquele dia quase 3 horas. Eu me sentia tão fraca, tão mal que não sei como cheguei em casa. A única coisa que me recordo foi que cheguei, tirei o casaco e deitei na cama. Praticamente morri. Era inverno, estava muito frio, peguei os edredons que tinha, uma coberta extra e apaguei. Não me lembro de nada, nadinha de nada. Dois dias depois vi a cara da moça que morava comigo me chamando, com uma cumbuca de sopa na mão me perguntando se eu estava “bem”.
Ora bolas, não me lembro de nada. Ela disse que eu tive muita febre, muita mesmo. Cuidou de mim. Meu corpo providenciou a auto cura. Sobrevivi.
Onde quero chegar com essa história?
Aqui peguei uma gripe muito forte também, muito forte mesmo. Tive febre, fiquei mal. Meu corpo ficou tão fraco que a única coisa que eu queria era deitar e dormir eternamente, apagar mas ... obrigatoriamente tinha que acordar na hora certa, fazer café, levar filho pra escola .... qual o apoio que eu tive? Alguém me perguntando o que teria pra jantar.
O big chalenge hoje, na verdade, é entender que morar num país estrangeiro, com família e sem rede de apoio é para os fortes. Meus medicamentos não estão dando conta. Tem dias que acordo como um furacão e tem dias que não passo da poeira que insiste em se instalar pelos cantos do apto fechado com aquecedor central ligado tentando dar conta das baixas temperaturas balcânicas.
Meu psicológico tem esbarrado nos limites da sanidade. Eu sabia que seria complicado ter que me portar como o "standart" da família no processo de adaptação, entretanto, além dos bens materiais deixados pra trás, também deixei algo que não sei ao certo como explicar.
Só sei que estou sozinha. A dor da minha filha tem sido minha dor, porque ela também está sozinha (até bulling já sofreu na escola mas isso é assunto pra outra postagem). O papel de vilã ficou todo comigo, uma vez que a surtada pelos processos sou eu. Além do silêncio diário ao qual me submeto (no fim do dia minha voz nem sai direito), quando tem alguém presente está cada qual no seu eletrônico. Se corrijo, sou a chata. O pai é o fodão que trás presente depois do trabalho e ajuda a fazer lição de casa de forma “leve” (a última, depois que passei 3h em cima brigando pra fazer 2 páginas).
Fico me perguntando o que fiz de errado nesse processo, porque não era assim no Brasil. Estou vulnerável. Sei que são apenas 3 meses e alguns dias mas mesmo assim, se continuar nesse ritmo sinto que vou enlouquecer antes mesmo de “finalizarmos” esse processo de adaptação. Acho que tô bem deprimida hoje. Já fumei meu cigarro, saí na sacada pra ouvir o canto dos pássaros livres e do zoológico, não tive coragem de ligar pra minha mãe porque eu sei que ela vai perceber e eu vou chorar (e quando eu choro não consigo falar uma palavra), não chorei (até agora) e ainda são 9h da noite. Forno ligado pra assar uma pizza (não quero comer) e cama, a melhor coisa que faço ultimamente é dormir.
Pronto, post-desabafo escrito com sucesso.
Amanhã é um novo dia.














