Meu pai
Sempre que penso nele, me lembro de estar num dia de outono num tom de sépia. Ele não deve se lembrar disso,não é uma memória excepcional. Acordei cedo e ele estava sentado na cadeira de fio tomando chimarrão enquanto tocava uma musica internacional romântica. O que é bem a cara dele, sempre que podia ele se sentava na varanda e colocava pra tocar as mais melancólicas. Ficava concentrado nos proprios pensamentos, focado no silêncio. Se tornou uma marca resgistrada. Eu nunca entendi porque. Nem tento. Meu pai é um homem ligeiramente solitário. Ele gosta do isolamento. Se sente bem com o som distante de pássaros na árvores, melodias relaxantes ao piano, ou o leve badalar de sinos dos vento ecoando.
Me aproximei descabelada como em toda manhã comum e ele me perguntou se tinha escovado os dentes. Respondi que sim e me joguei em outra cadeira próxima dele esperando que fizesse alguma piadinha refêrente ao meu cabelo. Eu tambem tinha meus hábitos, e tinha sido forçada a me abster deles, por motivos que fugiam do meu poder de escolha. Tinha perdido outro celular. O sol era ameno, como o poente das seis da tarde, mas não se passava de oito da manhã. Não era calor, nem frio, na temperatura exata pra aproveitar o sono matinal, mas é costume acordar cedo pro ritual do chimarrão. Cheira a orvalho fresco, hortelã e as vezes boldo. Eu sempre gostei de ficar sentada com ele sem dizer nada. Me sentia tão próxima dele, tão compreendida e acolhida. Como se em nossos pensamentos houvesse sincronia o bastante, a ponto de tornar o uso de linguagem verbal desnecessário. Deveria me incomodar a ausência de conversa, mas eu sentia conforto na companhia, tranquilidade no ato de estar. O silêncio vez ou outra era quebrado com algum assunto referênte a autoria da musica que tocava de fundo. Só se supera esses momentos com ele; nos poucos em que ele saia dançancado todo estranho pela casa com passos de dança inventados e exagerados, que me faziam chorar de rir. Cantando letras absurdas em cima das versões originais. Ele sempre teve senso de humor. Tanto que, as vezes me falha a mémoria sobre ele mas nunca me esqueço de como ele me faz rir. “Quantos anos mesmo?” Naquele momento, sentada ali com ele naquele dia eu entendi o quanto era grata pela simples existência daquele homem mágico em minha vida, de como tenho sorte em ter tido a experiência de viver na ilustre presença de tal criatura. Com muitos defeitos e coisas que o tornam humano, frágil, e ao mesmo tempo com nuances impressionantes. Eu achei que ele brigaria comigo, contava com isso, mas ele fez piadas até me fazer rir. Me fez repensar sobre a empatia dele por bens acima de pessoas. Ele sempre me priorizaria antes de um aparelho banal. Eu odiava como ele conseguia arrancar de mim as risadas mais improváveis,nos meus piores momentos com super poder de ser terrivelmente engraçado. Sempre quis escrever pra dizer a ele o quanto isso significou tanto. Muito mais do que as vezes em que ele foi descuidado com as palavras. Sempre quis dizer a ele que o amava por ele me amar tão genuinamente. Talvez algum dia eu escreva.












