Eu não me afastei por querer. Quer dizer, foi voluntário, mas eu não sabia direito o que estava fazendo. Quer dizer, eu sabia, mas é que eu já tinha sofrido tanto outras vezes que não soube aceitar tudo aquilo que você me prometia com olhos grandes, mãos que me pediam dentro, corpo que dançava na rotina de um jeito tão gostoso que só me restou se afastar. É idiota, eu sei. Você pode me xingar e dizer que joguei fora, mas eu não joguei nada no lixo. Quer dizer, talvez tenha deixado esse carinho em cima da mesa enquanto esperava o café esfriar e a vontade de te ver também. Esperei os beijos não marcarem mais a pele, esperei os dedos não estarem mais entrelaçados, esperei teu sorriso desbotar da minha memória. Quer dizer, eu sabia que não iria embora assim, mas eu precisa pelo menos esperar pra ver se arrumava uma desculpa. Dizem que o medo de sofrer tira todo o prazer de encontrar o Amor. Até porque encontrar algo lindo assim exige dedicação. Demanda tempo. E sorte. Quer dizer, há quem diga que é destino. Eu, com meu coração menino-assustado, acabei impondo limites pra vastidão que você me apresentava. Confesso: tive medo. Quer dizer, meus anticorpos de amores fodidos lá no passado não me deixaram aproveitar melhor. Ou melhor, me fizeram te perder. Quer dizer, a gente nunca perde o que nunca teve, né? E o problema é esse. Eu me perdi de você porque, afinal, eu já era completamente seu.
( Gustavo Lacombe )









