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Bom dia amor
Bom dia amor
E se eu não te amasse, se tudo o que sinto não passasse de uma mera ilusão, de um engano? Se aquilo a que chamo amor fosse apenas uma dependência gerada por hormonas em sobressalto e por sinapses erróneas na ligação entre neurónios, se a saudade fosse apenas a ressaca da ausência do teu corpo, na mera dependência de um orgasmo obtido em ti? E se aquilo a que chamo amor, fosse a mera…
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work-in-progress pt 2/diário da llorona
1.
Hoje, depois de gritar e partir o objecto, recuei de volta através de todas as sucessivas vagas de raiva e reencontrei a baga económica de uma subarticulação, que o meu corpo de pulsar tóxico, todo vermelho-viril, tão imbecil, tanto lutava por suprimir, secando-se no processo o sumo espesso da minha incapacidade simples e estupidificante de dizer que não. Quanto à dúvida? O corpo pode não lhe atender agilmente o suficiente; arrisca-se então que este se certifique razão e serra, leia-se, que na sua voracidade pelo espaço em que se clarifique enquanto lógica, morra qualquer tonalidade mais triste da óptica que realmente comporta: descoberta da crueldade. A isto podemos chamar o princípio afectivo da violência; o precipício entre a percepção e a sua própria transparência, ou um dos fundamentos históricos da masculinidade viral, uma virilidade tóxica e estridente e gutural.
2.
Mas sim, depois chorei bastante: abriu-se-me o corpo água e sal. Chorando (bastante), aprendemos?
3.
Acho que sim. E aprender a chorar é por sua vez uma maneira simples de, quando confrontadas com a nua e impositiva neutralidade cromática do positivista mecanismo de captura e suspensão do sentido, nos energizarmos no sentido de repovoarmos a sua própria superfície brilhante com a hipótese surpreendente e liquidefeita de uma tese de cor imperfeita. Lunares, estaríamos a redescobrir contra a ficção do branco a substancialidade somática da sombra como aparelho e amor e efeito. Pequenas, estaríamos a operacionalizar um raciocínio que primeiro e forçosamente passasse pelo ar que respira uma ave ou rapaz raro, e só depois se permitisse a pretensão de se consolidar tipo coisa ou tipo chão.
4.
Lua, lua, lua: quando escrevo esta parte, quase sorrio.
5.
Lua e lágrima: aliteração para quase ter começado a falá-lo. Uma forma de fracasso; uma fábula; uma manobra gentil e animal para matar a mania servil e fatal. Quero dizer que sorrir não basta, e nem sempre se sente, e urge da baga brotar uma certa histeria, mas só em caos de cantoria e sem nada de re-virilizante na vaga de folia. Quero dizer também que o tique tipo estereótipo histórico "menina" de verbalizar a perda tanto quanto a alegria é coisa que prende à política um corpo inteligente porque de escala pequenina… Lunares, lunares, lloronas: nós labutamos.
6.
É que o género da lágrima é frequentemente codificado como femme febril pelo cliché fabricado pelo génio colectivo. E habitualmente, o género da lua é serialidade da impressão que esfaqueia luminosa a segurança da sensação. O género do resto? Duvidosa a sua duração; desdobra-se como o fôlego sobre a própria falta, multiplicando vozes de alarme no corpos de albatrozes, no centro do punho, no grunhido hesitante do coração que acorda - esgota-me mesmo as figuras, corta-me a corda, percorre fissuras que nem finjo perceber. Sendo a diferença sexual um mito, poderemos finalmente escutar pedra e pirolito como sexuados arbitrariamente por nada mais que um falso consenso? Porque a partir daí talvez nos permitíssemos perceber ao nosso milésimo género o jeito variável e denso de se inscrever, que tanto talento tem para se definir como para se cantarolar imperfeito e desatento devir - e a certos corpos entretanto enganados quanto a como corpos não seriam, isso potenciaria horrores de verbos, mutações fantásticas, e toda uma fresca e bela permutação dos conflitos. Um milhar de géneros, de pedras, de pirolitos…
7.
Sendo “rapaz”, sintomaticamente e só nesta sintaxe, sou sistema de descrença tendente à queda da balança sobre o seu próprio equilíbrio, cobrando então o corpo cadente à indecisão do próprio mundo o seu dano colateral e dimensão animal. Devo ter cinquenta acções antes de chorar: trinta consistem em diferentes modos de negar à dor a capacidade de antecipação de uma conclusão quanto à qual não quero chegar, relativa ao corpo e maneirismo e contexto de um macho; outras vinte são o mesmo estratagema de gestão de terror pela contenção do rumor da vida num ovo de vidro que ossifico na vertical desde a base da espinha até entre os ouvidos. A cinquentésima primeira acção, secretiva, é reconceber seio materno real ou virtual como incentivo ao sal da lágrima, mas só se primeiro perguntando à fantasmagoria se é preferível a composição minha mágoa à contracção do meu músculo - e mesmo assim fervo de contrários por saber que a resposta é não. Primeiro, portanto, preciso de um interstício no código, de um contra-poder enfático, de um colo, de um exercício de contradição. Depois, preciso, como maneira de ao mundo sobre mim permitir tudo, de ao meu próprio esquema de estreitamento da centelha dizer que não, e de novo, que não: ferver e repetir todos os versos contra o eixo virtuoso da falsa razão que a mim de mim desemparelha.
8.
Síntese que prossegue da solidão à lassidão do sentido: eis que se descobre que há vantagem em desarticular, condição em estar sozinha, poder em ser segredo e coisa que por pouco se tinha… Se tento escrever da condição textual sem absolutismos, e da eclosão de vários sismos da minha raiva como sinal do pavio curto de um corpo-“rapaz” burro e bruto e pouco macio de luto, se falo ainda da largura abismal do espectro luminoso da lua que lacrimeja tanto não-sentido vertido em sal, se te digo que estamos feridas e mais, e ainda como e quanto e por onde isso passa… é tudo para em ti escavar um lugar de escuta do lado de lá do humano.
9.
Anti-humanismo: ciborgues e monstrxs, sim, mas tambêm nós: lloronas.
// por Daniel Lourenço