Nem sempre dor é agressão. Estigmas de doença mental.
Durante algum tempo vi-me num estado mental que ainda não sei definir. Tornou-se chamativo, tornou-se arriscado, tornou-se, eventualmente, depois de vinte anos em desenvolvimento e sintomas que não partilhei, visível a quem me é próximo.
Perturbação obsessivo-compulsiva (POC). Diagnóstico que me chegou tarde, após um surto psicótico.
Um: Porque este estado mental de controlo exagerado, de rituais quotidianos, de obsessões e pequenas ações em que se traduz… é o meu normal. Não sabia que estava doente. Não sabia porque a doença cresceu comigo (como tende a acontecer com doenças mentais crónicas).
Dois: Porque não sabia que POC era isto. Fala-se pouco de doença mental e quando se fala fala-se mal. Fala-se com uma distância implacável e com exemplos que tomamos como exemplos da doença em vez de como exemplos da manifestação da doença naquela pessoa. Em mim todos os sintomas “típicos” de POC foram bem disfarçados e inclusive, até recentemente, permitiam-me ser bastante “funcional”. Mas os outros… os outros que podem caber em POC, estiveram-me inacessíveis.
Doenças mentais não são, como tudo, caixas em que se riscam cruzes, como tantes nos levam a crer. E a perturbação obsessivo-compulsiva não é como vejo em filmes e em piadinhas de café e associações de uma só acção a um sintoma ligeiro do que a doença pode ser.
Ter POC não é só ficar descansado quando o quartinho está arrumado, quando tem as mãos lavadas para o almoço, quando passou a rua sem pisar a grade da ventilação do estacionamento... Será, quanto muito, não descansar sequer quando o quarto está arrumado porque não estará perfeito. E a seguir faltará arrumar a mochila. E a seguir o que for. As mãos terão sempre germes. Mesmo que já sangrem no sabão. A ventilação não foi pisada mas agora estás preocupade com as cores da calçada. Depois com os riscos da calçada. Percebem a ideia, certo? Não há descanso, há redução temporária da ansiedade que certas coisas provocam em nós. Há ansiedade sempre, mesmo com as compulsões concretizadas dentro dos possíveis.
No meu caso nenhuma destas obsessões e compulsões alguma vez se verificou. As que tenho são quase sempre discretas e desinteressantes, mas eventualmente tornaram-se impeditivas e fizeram-me sentir exausto.
Os sintomas que tenho são sobretudo:
- Despersonalização. (o ver-me, literalmente, de fora, punido por mim próprio. Como se fosse um corpo que faz coisas de que não gosto, um corpo qualquer, com outros maneirismos, outras falas, outros fins. Um corpo que não sinto meu.)
- Alucinações e pseudoalucinações (os sussurros, as vozes, as sombras, os bichos, as luzes, os carrinhos miniatura que me seguem na autoestrada, a visão do olho da namorada a ser arrancado por mim com uma faca, o cheiro a cimento o dia todo, os toques de braço por ninguém, o meu corpo duplicado e esticado em cima de mim, etc).
- Paranoias. Dos amigos que me metiam glúten ou veneno na água, que planeavam formas de me controlar, dos pais e irmã que fingem preocupar-se e interagem comigo com propósitos ridículos, da namorada que quer que me partilhe só para me manipular a seguir, que finge que não vê, ouve nem cheira o mesmo que eu só para me fazer sentir vulnerável, que me telefona não para saber se cheguei bem, mas para saber onde estou e com quem, das amigas que me querem matar portanto terei de as matar a elas primeiro...
- Restam dúvidas quanto à existência de delírios. Dúvida que me parece absurda. Tenho em mim coisas que raramente partilho, nem com a psiquiatra, por serem factos estranhos com o seu quê de mágico. Mas se calhar é esta a definição de delírio…
(Ter em conta que estes sintomas surgem por associação a POC ou a outra doença mental por diagnosticar. Ainda se levantam questões em consultório)
Enfim. Aqui está a parte que habita no título.
A culpa que outres me fizeram sentir.
Lidava com a minha, intensamente, mas agora havia a culpa por estar a magoar pessoas que amo com os meus pensamentos e suas partilhas, e sobretudo, pelas ações que exerço sob o meu corpo.
Fizeram-me sentir reprovável. Fizeram-me sentir incapaz. Fizeram-me sentir, mais uma vez, culpado por estar a deixar pessoas preocupadas, no seu limite ou além do seu limite, magoadas e sobretudo, em alguns casos, quando me culpavam pela minha e sua dor. E esta dor, não, não faz de mim agressor.
É aqui que reside parte, grande parte do problema da estigmatização de doenças mentais: quando nos apontam o dedo pelo sofrimento que causamos a outrem. Quando nos apontam o dedo por ficarem angustiades, desesperades, exaustes, assustades, preocupades, por partilhas e ações de que não temos culpa. E por ações diga-se as que são, não sob x outre, mas sob nós própries. Que fique claro que não vão aqui encontrar mais um de muitos argumentos desculpabilizantes de agressões. A pessoa que agride, esteja ou não doente, tem responsabilidade das suas ações. Mas agredir e magoar não são sinónimos. A dor pelo que outra pessoa exerce em ti e a dor pelo que outra pessoa exerce em si e o que sentes por isso, são coisas diferentes.
Esta conversão da dor em agressão é simples. “Eu sinto-me magoada, eu sinto dor. Logo estás a agredir-me.” Mas é uma falácia. E das preocupantes. E até percebo porque surge com tanta frequência. Porque é difícil assumir que já não se está capaz de dar apoio. Porque é difícil assumir que certas coisas na pessoa com doença mental nos assustam, nos são insuportáveis, nos são incompreensíveis, nos são demasiadas. E a pressão no sentido de, e sobretudo em contexto romântico, de dar todo o apoio necessário, de “estar lá sempre”, de ajudar “o que for preciso”, é avassaladora. E falhar aqui faz-nos sentir que não demos tudo pela pessoa que amamos. Ou que não amamos o suficiente. Ou de todo. Ou que somos uma merda de parceire. E nada disto é verdade. Amar não é dar além do nosso limite, amar é, também, assumir que há coisas que não nos competem a nós, preservar o eu sob o tu, e a meu ver, desconstruir esta ideia hollywoodesca de que há uma só pessoa capaz de te fazer sentir melhor, que é sua competência, que em ela não conseguindo está a desistir de ti.
É ok não conseguir dar mais o que se supõe que a pessoa precisa. Não há apoio que uma pessoa só possa dar que safe a outra, ou pelo menos não é realista que continuemos a acreditar nisto e a depositar esperanças nx outre como “salvação”.
Mas é difícil esta posição de não ter quem culpar, não é?
É mais fácil a abstração do problema. O descrédito da sua gravidade. A tentativa de racionalização e sentido de comportamentos e partilhas sem nexo (ou com nexo desadaptativo…). Ou a legitimação da zanga como alternativa à tristeza.
É mais fácil ficar zangado.
É sempre mais fácil ficar zangado. No rancor pelo que “te fizemos passar”. Pelo quão “mau”, “pouco saudável”, “caótico” foi. Na irremediável leitura da pessoa com doença mental enquanto causa do desmembramento de relações, de não resoluções.
Esta noção estigmatiza. A saída é apontarem-nos o dedo.
Somos, nesses momentos, “desequilibrados”, “dramáticos”, “putas”, “doentios”, “deprimentes”, “loucos”, “ridículos”, “viciados”, e sempre, sempre… demasiado. E sempre culpades. Culpades por magoar, culpades por não deixarem outrem descansar, não deixarem outrem ser feliz, não deixarem alguém ter os seus 19 anos, não deixarem outrem ter um relacionamento saudável.
É a conversão da dor em agressão.
Conversão que protege, para não variar, x outre… que afinal só teve azar por conhecer esta pessoa completamente fucked up. Somos isso. Fucked up. Freaks. Creepy. Broken. Mad. Isto não é novo. Esta perspectiva culpabilizante foi aliás o que nos atirou para jaulas, o que fez de nós objectos de estudos laboratoriais, alvos de choques eléctricos experimentais, lobotomias e outras terapias eticamente reprováveis. Perspectiva que generaliza mil doenças e suas diferentes manifestações e as converge num só tipo de “doente mental”. O tipo ameaçador e perigoso. Pessoa de categoria inferior que põe em causa a tua estrutura pessoal. E a social.
Doenças mentais são pesadas.
São intensas. São complexas. Não são a romantização dxs fofinhes “socially awkward” ou dx que tem POC porque é hiper organizade. Das alucinações enquanto fixes substitutos de drogas alucinativas. Do vício em sexo enquanto rótulo mal atribuído (não, não é um rótulo identitário que se escolhe para demonstrar algum tipo de performance sexual socialmente atractiva. Não tem sequer a ver com libido, vontade, prazer.)
Doenças mentais, de perto, são uma merda. Uma merda de que a pessoa não tem culpa. Uma merda dolorosa que não constitui de nós agressores nem um motivo para te sentires boa pessoa por seres capaz de nos salvar.
P.S: POC e TOC (Transtorno obsessivo-compulsivo) são duas denominações para a mesma doença mental. Não confundir com Perturbação obsessivo-compulsiva de personalidade.