Proposal Challenge: Marilyn Cravalho "confession"
Dez horas atrás, tinha pedido Adriel em casamento. No corredor da minha casa, depois de uma confissão que larguei sem mais nem menos em uma conversa estranha torcendo pra ele ignorar e não desistir de mim nos campos que ainda estava conectada a ele — como melhor amiga de infância e vizinha por uma vida inteirinha, além de dupla pra várias merdas —, ele disse sim, choramos, falamos sobre a vida, tacamos pedra no outro pela lerdeza conjunta, planejamos a cerimônia relâmpago e perfeita, concordamos sobre algumas condições quanto a divulgação do ato, nos beijamos e finalmente sentei no homem que queria ter sentado desde os meus quinze anos.
Duas horas atrás, me tornei oficialmente a Marilyn Sterling, e mãe de mais uma menina. Entre fazer Hope e Angelina e o cara do cartório prometerem que não iam falar nada até uma ordem nossa, nos declaramos mais uma vez, choramos mais uma vez, assinamos uma caralhada de papéis e fomos nos entupir de sorvete e algodão doce, e estávamos em um estado de açúcar muito caótico, os quatro de nós, para pensar que nossos parentes e amigos iam ficar verdadeiramente magoados com a ideia de serem, literalmente, os últimos a saber.
Mas, agora, faltavam só vinte minutos pra eu entrar em um avião e passar os próximos três meses trabalhando do outro lado do mundo, depois de me despedir das minhas filhas e do meu então marido, o encarregando de cuidar delas, da melhor maneira que conseguisse, e eu poderia explodir em brilhinhos e confete ali mesmo, no meio de um monte de pessoas estressadas e com raiva e que não sabiam o que era se sentir ansiosa e triste e feliz e realizada, tudo ao mesmo tempo, com a glicose lá em cima. Conseguia imaginar o Senhor Sterling e meu pai surtando, então meus agora cunhado e cunhada muito chocados e se sentindo talvez muito traídos, então minha equipe e minha agente no maior "mi amore?" por eu não ter incluído aquilo na minha agenda, e já me encontrava fingindo demência dali pra mais três meses, onde concordamos que só íamos avisar quando fossemos fazer a palhaçada do cartão de Natal dos agora Sterling de Los Angeles e esperar que eles mesmos fizessem as contas.
Estava tudo no planejamento, tudo correndo bem e já era menos uma coisa para nos preocupar ou ocupar a mente, quando me lembrei da necessidade de compartilhar aquilo com alguém, que não fossem as pessoas na plataforma que provavelmente mandariam eu me foder ou avisariam algum tablóide do comentário desesperado, e assim terminei ligando pra minha mãe, sentada no chão de costas pro avião enorme que logo decolaria dali e me levaria pra bem longe de Los Angeles por um tempo e pra um trabalho que eu vinha persistindo muito pra conseguir, e assim que ela atendeu, com uma estática muito alta e quase insuportável no fundo, sabia que tinha vinte minutos de uma ligação ruim e talvez, de uma Liana apressada também.
Oi… Como você vai? — Comecei, franzindo o nariz com o barulho tão alto que parecia estar rodeando ela, tão diferente do meio silêncio do aeroporto.
Marilyn? Oi… oi! — Um segundo ela parecia super animada em me ouvir, no segundo estava conversando com alguém em paralelo no que eu pensava ser em espanhol, antes de voltar pra mim com um suspiro, como se estivesse sorrindo, pra filha que não conseguia ver. — Eu vou bem, e você?
Eu fico feliz que esteja bem e eu… Pensei em ligar, justamente pra dizer como estou me sentindo hoje e agora. — Falei tudo de uma vez só, sem saber se ela estava me entendendo ou não com tudo o que parecia estar acontecendo do outro lado, até sentir que precisava continuar, justamente porque não sabia até quando teria ela ali. — Estou me sentindo bem, na verdade, deve ser um dos melhores dias que tive esse ano e não sei nem como me segurar ou andar ou respirar sem gritar pra tudo e todo mundo como estou me sentindo extremamente e absurdamente bem.
Bom, prossiga. — Então, soube que tinha a total atenção dela, quando o barulho paralelo cessou e o som de uma porta batendo veio, como se estivéssemos trancadas na sala de casa, uma de frente pra outra, nas horas que nós duas, quando meu pai também não estava, separavamos para conversar sem pressa e sobre tudo. — Estou ouvindo você, estou aqui para você.
Pedi Adriel em casamento, e ele aceitou, e nos casamos no civil faz algumas horas, e as meninas estavam lá. Concordamos que não vamos falar nada ainda, mas vamos fazer isso em breve… Mas sem uma festa ou uma cerimônia grande ou algo específico , só… Falar. — Comecei a explicar mais rapidamente, quando um "Marilyn do céu" veio abruptamente depois da primeira frase. — Mas senti que não poderia guardar isso de você, por que é minha mãe, e sei que se manter presente na sua fase atual tem sido difícil mas você tenta se manter lá pela gente, do seu jeito, e como pode e sei que não vai contar, se eu te disser o quão importante é pra nós dois…
Como eu fazia pra esconder as bagunças que vocês faziam pelo prédio e fingia que não tinha visto nada quando saiam quebrando os vasos de planta dos andares. Aham, então tá. — Podia sentir o quão irônica e incrédula ela estava sendo sem nem precisar ver o revirar de olho que ela com certeza deu, mas não por mal, mas porque eu e Adriel sempre iríamos ser algo que ela nunca entendeu direito e preferia não tentar. — Apesar de já ter pensado em trancar, sem querer, ele do lado de fora do prédio muitas vezes, eu não tenho nada contra Adriel Sterling, e nem seus esforços pra proteger você e os irmãos dele, e nem o quão presente e necessário ele foi para você quando a Hope veio, e muito menos sobre a família dele, que sempre estiveram lá por cada um de nós. — Sentindo um discurso maior vindo, até encostei a cabeça no vidro, ouvindo tudo muito atentamente, segurando um sorriso muito maior para cada pausa sua. — E eu não tenho nada contra esse casamento, por que sei que ele se tornou um adulto admirável e um bom pai também, como tem sido um bom amigo e padrinho para você e a Hope, e não vou me importar em ter ele como genro ou algo do tipo, desde que ele tenha sentimentos sinceros, e você também, e estejam certos sobre o nível que acabaram de alcançar, depois de todos esses anos. Não são mais capazes de incendiar coisas ou explodir outras, então está tudo certo.
E foi Dona Liana quem disse. — Sussurrei quando ela finalmente parou de falar, antes de soltar uma risada pelo discurso que com certeza vinha mais da sua visão como psicóloga do que mãe, antes de completar. — Então… Você está feliz por mim?
Estou mais do que você pode imaginar, e acho que seu pai e o pai dele e os Diaz e Cravalho também vão ficar, mas se você não quer expor isso agora e nem deseja que eu conte, está tudo bem. — Respondeu em um tom compreensivo e sincero, quase como se estivesse selando uma promessa comigo. — Onde está agora?
No aeroporto, vou começar a gravar um filme em alguns dias e precisam de mim por alguns meses, mas acho que vou ficar bem. — Comentei ao me levantar do chão, percebendo a movimentação de alguns passageiros e o portão começando a se abrir, no sinal de que meu tempo e momento estavam prestes a terminar. — E você?
Indo ajudar algumas meninas que sofreram abuso sexual no Peru. Concordei que estou pronta pra lidar com esse tipo de coisa, agora. — Respondeu, e eu podia sentir um leve tom de realização e obstáculo vencido naquela declaração sua, o que me deixou feliz e curiosa e animada, mas não tinha tempo para comentar direito.
Eu fico feliz por você, elas tem sorte por ter alguém como você para acolher elas. — Disse ao voltar para minha bolsa, o barulho de antes chegando do outro lado da linha outra vez. — Eu queria saber se… Vamos ver você no Natal? Sabe, agora você tem mais uma neta, e ela quer muito conhecer você.
Por um bom tempo, as respostas giravam em torno de talvez, eu não sei e eu preciso me situar, não por que ela não queria, mas porque não sabia se estava pronta ou se sentindo bem o suficiente pra tudo, o que me deixava apreensiva e impaciente ao mesmo tempo, apesar de entender toda a situação; mas estava acostumada, inclusive com respostas definitivamente negativas e com a ideia de que, mais uma vez, ela não conseguiria estar por perto porque não sabia se íamos querer aquela versão conturbada sua.
Sim. Eu vou estar lá por vocês, eu prometo. Diga isso para Angelina.











