Não tenho a MENOR pretensão de introduzir e nem desenvolver coisas, fiz porque li uma historia muito interessante um tempo atrás e queria reproduzir, já que nunca mais achei pra ler e acho que o blog desapareceu. Personagens mencionados, só pra costurar a historia, de resto, podem tratar como um NPC (muito sofrido, por sinal) e ficar por isso mesmo.
Aviso: menções a luto, crise de ansiedade, estresse pós traumático e a personagem, constantemente, tendo crises existenciais e sobre o que a juventude e cultivar sonhos significa, quando ela sente vazio por dentro depois de um episodio divisor de águas.
Setembro de 2048. 100 dias depois do...
É a primeira vez que eu caio durante um salto, e consigo sentir todo o meu corpo doer depois que eu desabo no gelo. Posso jurar que tudo fica embaçado por um segundo e parece que vou desmaiar, mas nem… tudo isso comove meu treinador, que assistiu tudo do alto da arquibancada mal iluminada. Ele soltou um suspiro e saiu andando.
E eu não quero que ele ligue, não quero que ele diga a ela que sou uma fracassada, que a garota que tinha conseguido chegar nas olimpíadas de inverno, agora foi substituída por uma cópia barata que mal consegue ficar em cima dos pés, mas deixei ele ir, e me levantei sozinha como a regra manda.
Sem rancor, sem estresse, e sem vontade também. Estou desperta agora, e descobri que a nova eu, não tem mais nada a ver com essa vida. Costumava ter, antes, mas agora, não mais.
Maio de 2048. 30 dias antes do…
Me lembro de estar passando por um corredor cheio de câmeras e pessoas atentas olhando pra mim, eu via meu nome escrito em um monte de cartazes e crianças dizendo que iam jogar rosas e pelúcias quando eu terminasse a minha rotina. Nem o casaco pesado do meu patrocinador, foi capaz de me proteger de todo o frio, e nem de me esconder daquela situação.
Eu não conseguia respirar, não conseguia ouvir as pessoas em volta de mim, meu treinador muito depressa e rudemente me fez sentar no banquinho e me ajudou a tirar os protetores dos meus patins, e quando eu não fiz a menor menção de me levantar, ele me puxou pelos ombros, e foi me empurrando até a saída.
— Precisa ser melhor do que isso, precisa fazer isso. Não pode desistir, esperou por isso a sua vida toda.
E eu não tinha forças pra dizer não, porque estava muito tonta com todo aquele gelo, então começo a deslizar por ele, quase sem sentir, e apoio as mãos na minha cintura enquanto olho pra toda parte. A conversa que tive pelo telefone com minha mãe, ainda no vestiário, passa de novo pela minha cabeça.
— Eu pensei que vocês iam vir ontem, então chegar hoje bem na hora. O que aconteceu?
— Nada aconteceu, foi só um imprevisto.
— Mas vocês sempre vem, mesmo se a casa estiver em chamas, vocês sempre vem me ver.
Ficamos em silêncio, me sentia brava por aquela desculpa improvisada, mas logo minha mente ficou em branco quando ouvi ela soluçar.
— Seu treinador achou melhor você não saber.
— O seu pai, Riri, não ia conseguir ir mesmo se ele quisesse e queremos que você saiba que ele queria muito, mas…
Não tem muito o que os médicos possam fazer por ele agora, mas podiam garantir que manteriam ele vivo no hospital. Suficiente pra nossa família chegar da Coreia pra visitar e se despedir, apenas. Meu pai estava do outro lado do mundo, com só 30% do coração funcionando, e eu não estava lá porque precisava subir em cima de um pódio. Diziam que eu precisava lutar e provar que tinha merecido aquele lugar, mas nada parecia mais importante pra mim do que voltar pra casa naquele momento, e foi o que eu fiz.
— Eu desisto. — Digo com firmeza, enquanto dou meia volta e saio do ringue, e meu treinador arregala os olhos enquanto a equipe de apoio balança a cabeça compreensivelmente.
— Ela só precisa de um tempo, são as costelas dela… — Meu treinador tenta intermediar, mas já estou tirando os patins e trocando pelos meus tênis agora mesmo, aparecendo na TV do estádio.
— Minhas costelas estão ótimas, estou indo pra casa. — Então eu me desculpo com juízes, colaboradores, meu patrocinador e as pessoas que tinham ido me ver, porque parecia o certo, e deixo que o locutor faça o resto por mim.
Riri Kim acaba de desistir na última rodada dos programas longos, pra voltar pra casa e apoiar a família em um momento sensível e pessoal. Por favor, aplaudam nossa magnífica e preciosa representante dos Estados Unidos.
Foi a última vez que ouvi tantas pessoas batendo palmas de uma só vez, e foi a última vez que me senti confortável com toda aquela atenção também.
Setembro de 2048. 100 dias depois do…
Nell Donovan está atualizando sua conta depois de muito tempo sem postar, curta a nova foto dela.
Clico na notificação e me deparo com a garota que tinha conhecido no hospital uns meses atrás, ela parece muito mais leve agora, e duvido muito que aquele sorriso seja forçado. Consigo ver o píer de Santa Mónica e outras pessoas na selfie dela, os vários emojis de casquinha de sorvete me fazem pensar um pouco sobre a última vez que nós nos vimos, mas não tenho como sair dali sem a minha mãe.
Ela tinha criado o horrível hábito de chorar muito e me esquecer nos lugares. Não era que eu saísse muito, minha vida era resumida de sair de casa pro ringue e depois pra uma Target quando eu precisava de um caderno pras minhas aulas em casa ou um moletom novo pra treinar, e era por isso que eu nunca tinha tirado a carteira e dependia tanto dela. E ela sabia disso, mas não queria que eu soubesse que ela ainda está muito machucada, por isso chora no estacionamento ao invés de em casa, e acaba esquecendo de mim, e do fato de que não tenho mais cinco anos.
— A alergia te pegou com força dessa vez, ne? — Digo despreocupada quando abri a porta e jogo minhas coisas no banco de trás, antes de me sentar ao seu lado e colocar o cinto.
— Pois é, foi um enxame de mosquitos quando estava abastecendo perto daqui, então…
Deixo ela contar a desculpa de hoje, e finjo estar interessada em sua mentira pra ela não se sentir pega na curva. Parte porque sei que ela não está pronta pra falar, e parte porque sei que talvez eu não esteja pronta pra ouvir, e é assim que vamos pra casa. Todos os dias, desde que somos só nós duas, e parece que nós não temos mais motivos maiores pra viver.
Maio de 2048. 15 dias antes do…
Eu gostava de rotinas e coisas organizadas e ter sempre uma coisa pra fazer, mas desde que comecei a passar a maior parte do meu dia no hospital, as coisas se tornaram maçantes demais pra suportar.
Eu acordava quase sempre na minha cama ou na cadeira do lado da cama dele, e as duas pareciam igualmente desconfortáveis. A comida era horrível, então eu tinha que descer todos aqueles andares do CTI até um café se não quisesse vomitar em cima do meu prato. As pessoas sempre olhavam com pena e dor pros acompanhantes dessa ala, então eu acabava sempre tropeçando em alguma coisa, porque era incapaz de olhar pra frente enquanto passava pelos corredores, evitando ao máximo todo mundo. As pessoas já diziam que eu era corajosa por ter deixado tudo pra trás e vindo acompanhar meu pai, não precisava ser a garota que elas se sentem mal só de estar por perto.
— Eu sou mesmo muito baixa ou você é super alta? — A menina ao meu lado diz, e o som é tão inesperado e a frase aleatória, que levo um tempo pra notar ela.
Estava na frente da máquina de doces fazia quase cinco minutos, em silêncio e observando meu reflexo no meio de pacotes de Twix e M&M, e quando ela apareceu na imagem, não me importei, até ela se virar e dizer aquilo.
— Você tem a altura normal pra qualquer menina, sou eu que fugi da regra. — Respondo me sentindo relaxar, antes de me virar pra ela e lhe oferecer um sozinho. — Meu pai tá no 30B.
— Minha avó no 35B, bem do outro lado do corredor. — Ela aponta pra sala, então me lembro quase instantaneamente quem era a paciente. — Câncer.
Não tinha achado aquela conversa estranha, sabe, é isso que nós acompanhantes fazemos, por isso ofereci um sorriso, ao qual ela devolveu, então coloquei meu dinheiro na máquina, e a menina ao meu lado soltou um gritinho de frustração quando a máquina faz um barulho alto e parece que vai desligar, então vou até o lado da saída de metal e chuto ela com toda a minha força. Meu pacote de caramelo salgado caiu logo depois.
Ela parece tão chocada que parece que vai dizer alguma coisa, mas fecha a boca e se afasta, eu entendo que a conversa acabou ali, e que foi o primeiro e talvez último contato que tive com alguém naquele lugar, me viro e já estou pensando em qual série vou assistir até dormir, até ela falar de novo.
— Você quer ver uma foto do meu cachorrinho?
Descobri que a Nell tinha pelo menos três pastas de foto dedicadas ao pet dela, e mais umas tantas pros amigos, os colegas de ginástica, os primos e o namorado.
— O nome dele é Ryuji, e antes dele ser meu namorado, é melhor amigo do meu primo, o que quer dizer que a maioria dos nossos encontros inclui o Connor, porque ele também é meu melhor amigo. — Ela explica, soltando uma risada a qual eu ofereço um sorriso, achando tudo muito fofo e feliz, através da tela de seu celular enquanto estamos sentadas no chão comendo doces. — E esses são os meus primos. O meu tio não era um cara muito legal, mas eles são pessoas incríveis e eu amo muito, muito eles. Mas já deve ter visto eles por aí. Estamos aqui o tempo todo.
Eu realmente via muitas pessoas entrando e saindo do 35B do outro lado do corredor, e antes de saber que a família era realmente grande, eu já desconfiava que se tratava de uma pessoa meio famosa.
— Os meus amigos me apoiam, as vezes, e acho que faz parte, e na escola também andam falando com a gente, então eu me sinto bem e acolhida. — Ela explica enquanto guarda o celular, soltando um suspiro de uma pessoa exausta. — Então é. Bem. Suportável.
Balanço a cabeça entendendo o lado dela, e foco no chão frio do corredor, quando ela se vira pra mim, os olhos brilhando com alguma expectativa, e eu sem entender o que ela queria.
— E você? Não tem cachorro?
— E como é na sua escola?
— Não tenho aulas convencionais desde os meus sete anos.
— Não tenho tempo pra isso, e a maioria dos meninos que jogam hockey no meu ringue, não curtem meninas com a altura deles.
Nell parece até magoada, e eu só encolho meus ombros como se pedisse desculpas por ter uma vida tão entediante e não me comportar como a jovem de dezessete anos que eu sou.
— Bom, nunca é tarde demais pra começar a ter uma vida, não é? — Nell pergunta, abrindo um sorriso enquanto abre a câmera do meu celular, tirando uma foto de nossos tênis juntos.
Setembro de 2048. 100 dias depois do…
Estou passando as muitas fotos que tirei com Nell naqueles dias pelo meu celular. Fico impressionada como eu parecia feliz no telhado do hospital, tomando sol, comendo besteira e não parecendo que eu tinha preocupações quanto a minha carreira e vida social inexistente.
Eu me sentia livre e sem obrigações, e sinto falta disso.
— Seu treinador ligou, e disse que se continuar nesse ritmo, não vai pro estadual.
Tanta falta que doía nos meus ossos.
— Vou tentar melhorar na próxima vez. — Digo no automático, porque na real, não sei como vou me sentir pela manhã. — Vai ficar tudo bem.
Mas a verdade é que estava esperando por um milagre, o momento em que eu ia voltar a estar apaixonada por patinação artística, que ia voltar a viver e respirar por isso e não me importar se eu não tinha coisas que as outras meninas tinham.
Uma hora, ia parar de pensar em ir ao shopping comprar roupas, como seria beijar um menino ou dois numa festa sem saber o nome deles, sair em um encontro, ir ao cinema e ficar com dor de barriga por ter misturado chocolate e refrigerante e pipoca, ficar preocupada com o livro que deixei em casa pra aula que ia ter em instantes. Encontrar uma vocação e escolher uma Universidade. Mas agora, eu só queria mandar aquela mensagem pra Nell Donovan, e pedir pra ela guardar um lugar pra mim na mesa da sorveteria que ela estava, e parecia estar se divertindo tanto nos storys.
— Você não precisa, se não quiser. — Minha mãe diz, como se lesse meus pensamentos, e eu devo parecer muito assustada quanto olho pra ela e deixo meu celular cair em cima da mesa no meio do nosso almoço. — Não precisa fazer nada que você não queira fazer.
Prendo a respiração, e me enterro na cadeira enquanto ela abre um sorriso pra mim.
— Faça o que você mais quiser fazer no mundo todo.
E no minuto seguinte, estou correndo pelas escadas até o meu quarto, procurando o meu melhor short jeans, mas não sem antes pegar o meu celular e responder um dos storys da Nell, fazendo uma enquete se ela devia comprar uma taça de três quilos de sorvete ou não.
Maio de 2048. 5 dias antes do…
Me lembro de ter chegado ao quarto 35B com dois copos de café e um vasinho de flores pra avó de Nell, quando as arrumadeiras do hospital estavam trocando a roupa de cama e abrindo as janelas.
— Ela… — Entro em pânico por um minuto, antes delas me interromperem.
— Acharam melhor levar ela pra casa.
Então eu saio correndo e entro no elevador, aperto todos os botões até chegar no telhado. Leva só meio minuto, mas parece um século, e tenho medo de ser tarde demais quando as portas se abrem e já consigo ouvir ela soluçar perto de onde tínhamos tomado café e feito dever de casa nos últimos dias.
E eu sei que isso não vai confortar ela, e que não estou fazendo nada além de imitar todo mundo, mas queria que ela soubesse, enquanto passo os braços pelos ombros dela.
— Eu sinto muito, muito mesmo.
O café fica frio muito rápido lá em cima, venta tanto que parece que o ar pode derrubar o prédio, mas não importa, porque ela não para de chorar e não sei o que fazer, não tenho os números dos parentes dela e não faço ideia do que dizer.
— Às vezes a gente pensa que pode consertar os problemas das pessoas que nós amamos, só porque nós amamos elas e achamos que elas não merecem sofrer. — Digo olhando pra imensidão de azul naquele céu que parecia muito maior ali, já tão cansada daquela situação, que só sentia as palavras escorregando pela minha boca. — E queremos que o universo e qualquer força divina entenda que essas pessoas são boas demais pra isso, que é um crime cruel fazer elas passarem por isso, e é aí que acontece… A atrocidade de verdade.
Me volto pra garota sentada ao meu lado, e percebo que nós duas estamos chorando faz muito tempo, porque eu mal consigo enxergar ela, e tenho certeza que ela não se importa com minha maquiagem borrada.
— O mundo não é, e nunca vai ser, uma fábrica de sonhos, e quanto mais cedo perceber isso, melhor vai se sentir e mais rápido vai se recuperar e seguir com a sua vida quando tudo isso acabar. Se não ficar forte agora e deixar sua avó ir em paz, quando vai fazer isso?
Mas quem eu queria enganar? Como eu podia aconselhar alguém daquele jeito e fazer o total contrário, segurando as mãos do meu pai e exigindo que ele ficasse, por mim, e pela imagem que ele precisava zelar como pessoa mais importante da minha vida.
— Não pode morrer agora. Não agora que eu desisti de tudo e me recusei a fazer aquilo se você não estivesse lá pra me ver. — Digo entre um soluço e outro, me sentindo tremer na cadeira ao lado de sua cama, antes de continuar. — Não quero e não vou deixar você ir, porque você é tudo o que essa família é, e todas as coisas boas que eu sou, e sem você… Não vai restar nada.
Setembro de 2048. 100 dias depois do…
Não sei me vestir como uma menina que mora em Los Angeles porque passo a maior parte do tempo em lugares gelados e todos os meus shorts parecem mais curtos porque… Bem, faz anos que não compro essas coisas, então digo na minha cabeça que se eu não pensar nisso, talvez as pessoas também não pensem.
E eu não sei qual é a finalidade de um cropped.
— É pra ser uma blusa ou um sutiã disfarçado de blusa? Se eu levantar o braço um pouco.. Ai, meu Deus do céu! Meus seios!
Eu tento fazer maquiagem, mas só sei fazer maquiagem artística e parece muito pra tomar um sorvete, então desisto e me convenço que é assim que eu quero ser vista; natural e sem camadas. Sem glitter e nem uma obrigação de glamour.
Na parte do cabelo, deixo minha mãe soltar ele e pentear por mim, porque só sei fazer coisas pra ficar confortável enquanto patino, e não parece adequado agora. Ela fica em silêncio enquanto olha tutoriais no YouTube, e eu fico calada porque não tenho muito o que dizer. Parece tão orgânico e simples, me desesperar tanto pra ver uma amiga, que sinto que se abrir a boca, vou começar a chorar de emoção.
Minha mãe começa a chorar antes de mim, enquanto faz duas tranças na lateral do meu cabelo e prende ela juntas com uma presilha de estrelinha brilhante, a mais simples que eu tinha se comparar com as das minhas apresentações.
— Sinto muito por ter tirado essas coisas de você, Riri. — Ela começa, segurando meus ombros com força enquanto olha pro meu reflexo e o seu. — Eu só percebi isso depois que ele se foi e nós duas não tínhamos nada nos conectando além da patinação e o seu pai. Eu devia ter deixado você comer mais doces, devia ter deixado você ir a escola e aprender a andar de bicicleta e tirar sua carteira. — Então ela prende a respiração, e solta de uma vez só, chorando ainda mais. — Eu devia ter perguntado pra você, eu devia ter te avisado mais cedo naquele dia. Eu devia ter te perguntado se você queria ir, eu devia…
Antes que ela pudesse falar mais, me levantei e a abracei, do mesmo jeito que fiz cada vez que trocávamos de lugar no hospital, toda vez que ela me deixava no ringue e ia me buscar. Como fiz durante todo o funeral e nos dias que se seguiram. Parecia que íamos nos fundir, mas era só a força e necessidade que o termo família envolvia. Precisávamos uma da outra. Sempre iríamos.
— Você é uma boa mãe e não tem nada de errado em querer que eu tenha um futuro e incentivar os meus sonhos. — Falo pra ela enquanto encosto minha cabeça na sua, abrindo um sorriso por me sentir tão, tão amada. — Eu queria aquelas coisas, eu queria ser aquilo tudo, e vocês fizeram tudo por mim, e agora eu não tenho mais certeza, e mesmo assim, você ainda está aqui pronta pra me apoiar em todas as decisões.
Me afasto dela e seco todas aquelas lágrimas, e ela ri, e eu também, e parecemos finalmente, finalmente… bem.
— Ele era tudo, e ainda é, mas nós também somos e estamos aqui.
E eu estava empolgada, radiante, me sentindo adorável e pronta pra tudo. Minha mãe me deixou no estacionamento, e eu tive que andar todo o resto sozinha, sorrindo pras crianças correndo e não me sentindo nem um pouco desconfortável na minha própria pele. Los Angeles era sempre tão quente e barulhenta assim? Eu não conseguia me lembrar, mas era bom, e eu gostava, e achei isso importante.
Quando abri a porta da sorveteria, me senti insegura por um segundo. E se eu fosse uma intrusa naquilo tudo? E se eu só tivesse sido feita pros ringues e pros pódios e pra ficar sozinha e não ter nada, além da missão de vencer e ser sempre a melhor? E se eu nunca encontrasse um curso que eu gostasse, se nunca fosse convidada pra um baile, e não ficasse bem em saltos altos com aquelas pernas super longas? E se eu não soubesse viver aquela vida?
Nada importava, porque eu não tinha como saber, não sem antes tentar.
— Eu nunca ia recusar três quilos de sorvete.
E parecia que eu tinha sido aceita naquela rodinha depois daquilo, me esforçando ao máximo pra abraçar Nell enquanto dava atenção pra todas aquelas pessoas e sorria tanto que achava que ia ter um colapso por estar tão feliz.
Eu parecia a única pessoa ali se segurando naquela cadeira, esperando algo de surpreendente acontecer, quando não tinha mais o que esperar. Parecia que estávamos passando por uma tempestade, o vento levando todo mundo pra longe com força, e eu me segurava em todo lugar, persistindo até o fim, me negando a recuar.
Os médicos já falavam de quando ia ser a melhor hora, meus avós discutiam em coreano como eles queriam cremar ao invés de enterrar então espalhar as cinzas no rio Han. Seu pai sempre gostou de passear lá, ele ia gostar de ficar lá. E minha mãe… minha mãe queria ser a única me avisando, mas não tinha como controlar nossos amigos e parentes já preparados pro depois.
Estava brava, tão brava que não conseguia ficar na mesma sala que eles, então me lembro de ter saído pelo corredor sem rumo, e ouvido a conversa de duas enfermeiras.
— Que bom que foi em paz e perto dos filhos.
E desde que tinha chegado ali, eu sempre ouvia aquilo. Como as pessoas descansavam, e não morriam. Como elas dormiam uma última vez, e só isso. Depois de dias de lutas e dor, finalmente tinham vencido uma batalha: aquela com elas mesmas.
Me senti caminhando de volta pro quarto, fechando a porta atrás de mim e me aproximando da cama do meu pai. Que não era, nem de longe, mais o meu pai. O homem super alto e alegre que eu sempre conheci, que amava caminhadas longas e correr e ter uma vida agitada, que mal conseguia dormir porque tinha muita energia correndo dentro dele, e que jamais ficaria em uma cama de hospital se fosse ele mesmo.
E aquele não era mais ele, e já tinha entendido.
— Você foi um pai tão bom, um filho e irmão tão bom, que é um crime você não poder mais ser. Bom, pelo menos eu pensava que sim. — Comecei a falar, alcançando suas mãos e unindo com as minhas. — Mas eu sei que você queria ser todas essas coisas, que queria fazer coisas boas por todos nós e fazer a gente feliz, mas não pode, e é por isso que está se segurando aqui, até o último minuto. Fez promessas que acha que não cumpriu, e acha que deve isso pra gente. Principalmente, eu. — Engulo o choro e pisco os olhos várias vezes, me recusando a chorar agora. — Mas quero que saiba que você não deve nada pra ninguém, e que estamos felizes com tudo o que você já dedicou pra todos nós, cada segundo do seu tempo, cada grama do seu amor, e cada parte sua que foi deixada com a gente.
Então eu comecei a chorar, tanto que achei que fosse sufocar, e continuei.
— Você pode ir, não vamos ficar tristes e nem te culpar por nada. Já sabemos o que é melhor e vamos ficar bem, porque a gente sabe… Sabe que você fez o seu melhor também.
E então, ele descansou. Em paz, com toda a família em volta dele, e ia seguir junto com o rio Han pra sempre.