Enquanto esperava ser atendida pelo cardiologista, peguei-me encarando uma página de uma revista que tratava de felicidade e continha uma foto de mãe e filha abraçadas. A aparência sincera era tamanha e transparecia a reciprocidade dos bons sentimentos entre as duas. Pensei em como seria bom ter a minha mãe comigo. Passaram-se 21 anos desde que ela se foi, mas a saudade em meu peito ainda doía. Seu jeito doce, alegre e firme contagiava a todos - que a tomavam como exemplo de garra e determinação em tornar o mundo um lugar melhor. A partir daí, divaguei sobre como vivem as pessoas nesse novo mundo. Mundo esse repleto de tecnologia, praticidade e informação. Tornamo-nos apressados, sedentos pelo consumo. E, por aderir a essa onda, robotizamos, paulatinamente, as relações interpessoais. Ao passo que usamos a inteligência para inovar em busca de praticidade, desvalorizamos o altruísmo. A democracia também está se perdendo: acostumamos a criticar, mas não ousamos pôr os pés pra fora da zona de conforto. A corrupção já está mais que escancarada. Em meio a essa situação, as coisas pelas quais lutamos são as que realmente vale a pena lutar?! Acredito que não. A união - em prol de uma melhor qualidade de vida- gerou o mundo em que vivemos. O mundo, contudo, marcado pelo crescente egoísmo e falta de alteridade, caminha para degradar a união entre os homens. É hora de se perceber como parte imprescindível do mundo. Tal como minha mãe fazia todos os dias. É hora também de eu dar um jeito nesse formigamento no braço esquerdo. Aliás, é com o coração limpo que devemos encarar a vida. Fechei a revista e dirige- me a sala do médico.