Ele nunca teve razão
Ele diz-me que a minha boca sabe a sangue. Como se fosse fácil falar com o coração a transbordar e não se perceber. Perco os sentidos todas as noites, vivo atordoada e lentamente. Os dias chegam sempre e até sobram para quem só cá anda por equilíbrio. Ele diz-me que não há coragem nos meus braços, que eles estão só negros da minha fraqueza. Mordo o lábio e sempre sabe a sangue, mais uma vez ele tinha razão. De todas as vezes que me pede um cigarro e sai porta fora sem se despedir, ele deve ter razão. Afinal eu já nem força para ser companhia de cama tenho. A minha existência tem um peso descomunal e ele já não bebe vinho comigo porque o meu estômago aceita-o como pedra em águas paradas. Hoje acordei com o lábio rebentado e não me lembro da noite passada. É quase sempre assim. Ele diz que fiquei louca, gritei demais, não me calei e já eram umas tantas da madrugada. Que caí sozinha. Ele deve ter razão. Ele faz as malas e diz que não sabe quando volta porque já não há nada para onde voltar, sem ser o meu quarto sujo e desarrumado. Eu já fumei mais, já bebi mais e já chorei mais. Agora passo o dia deitada no chão na esperança que ele volte mesmo sabendo que não valho o caminho. Ele tem razão. Gostava de pesar na vida de alguém, gostava de ter a vida de alguém. Eu até gostava de ser a vida de alguém. Hoje acordei com um olho negro e ele diz que ainda não voltou a casa desde que partiu. Ele deve ter razão. Mas eu já não sei se quero que ele volte.














