A Grande Partida
Acredito que a maioria dos meninos sonham em ser jogadores de futebol. Pelo menos era assim que eu e meus amigos da vizinhança pensavam. Infelizmente nem todos conseguem realizar esse sonho ou deixam ele no meio do caminho por algum motivo. Mas o futebol sempre nos rendeu grandes alegrias na infância. Lembro de um episódio que começou no colégio. Eu e meus amigos estávamos reunidos no pátio e, como de costume, os meninos mais velhos vinham para caçoar da gente.
Um dos meus amigos, o Júlio, cansado das brincadeiras disse:
- Vocês podem até rir da nossa cara mas aposto que não ganham da gente numa partida de futebol.
Foi muita coragem da parte dele desafiar aqueles moleques. Claro que eu e o restante dos meninos estávamos tremendo como vara verde, mas se um amigo nosso estivesse metido em encrenca, lá íamos nós para ajudar. Maurício, o maior dos valentões, respondeu:
- Quando e onde?
Júlio engoliu seco, pensando que eles iriam ignorar o convite, mas retrucou:
- Amanhã depois da aula, no final da rua. E tratem de levar a bola!
E a nossa sentença de morte estava marcada. Ficamos a tarde toda pensando nisso. Não era questão de idade, tínhamos quase a mesma deles. Mas eles eram grandes, até faziam parte do time de basquete do colégio...
- É isso, o basquete! - exclamou Júlio - Esses caras devem não saber jogar nada de futebol!
- Tem certeza, Júlio? – perguntou Marcelo, com a voz estremecida - Nós sabemos jogar, mas não somos nenhum time profissional.
- Temos que confiar no que sabemos. Amanhã nós vamos dar uma lição naqueles moleques.
Quarta, duas da tarde. Lá estávamos nós. Vestidos a caráter, claro. Alguns meiões furados, chuteiras remendadas, mas dava pro gasto. Fizemos questão de marcar o chão da rua com giz, demarcar o gol com algumas pedras, tudo estava pronto. Alguns vizinhos nossos saíram de casa pra ver, afinal, dia de futebol lá na rua era algo sagrado. Os valentões estavam chegando e, junto com eles, quase todos os alunos do colégio.
Horácio, o mais franzino, disse:
- Não acredito que vamos passar vergonha na frente de toda essa gente.
- Calma, Horácio. - respondeu Júlio - Eles nem verão a bola passar pelas pernas.
Tudo estava pronto. Júlio era o capitão do time e estava frente a frente com Maurício. Então alguém gritou “Valendo!” e, rapidamente, ele deu uma caneta no moleque e a partida começou. Foi incrível. Deixamos eles que nem baratas tontas. E na troca de passes, Horácio deu um chute que infelizmente foi parar na vidraça de um dos vizinhos, mas ele relevou. A partida recomeçou e os valentões estavam mais perdidos que antes. Estávamos distribuindo “canetas” e dribles. “Lençóis” e “carrinhos” eram mais complicados por causa do tamanho deles.
Em apenas 15 minutos, já tínhamos feito três gols em cima deles. O goleiro adversário era um verdadeiro “mão de alface”. Um engraçadinho, pensando estar em um jogo de basquete, acabou metendo a mão na bola pra impedir o chute pro gol e a galera começou a gritar “É pênalti! É penâlti!”. Coube a mim cobrar a penalidade máxima. E foi num chute rasteiro que nós liquidamos de vez aquele jogo.
No outro dia de manhã, não havia outro assunto nos corredores do colégio. E foi justamente na hora do intervalo que nós nos esbarramos com eles. Pensávamos que naquela hora nós iríamos levar a maior surra de nossas vidas, mas eles deram um sorrisinho amarelo e estenderam a mão em sinal de respeito. Até viramos amigos no final do colegial. Com o passar do tempo, nós não conseguimos conquistar taças, troféus, nem prêmios de valor. Mas conquistamos, e com orgulho, a vitória daquela que foi a grande partida.


















