Franny as Richard II for Prince Alexander: Ato 3, Cena II
Shakespeare — Richard II: “Não me falem de consolo. Falemos de túmulos, de vermes e de epitáfios. Façamos do pó nosso papel e com a chuva de nossos olhos escrevamos a dor sobre o seio da terra. Escolhamos os executores de nossas vontades e falemos de testamentos. E, contudo, não...nada disto; pois que podemos legar à terra, exceto os corpos que nela depositamos? Nossa terra, nossas vidas e tudo pertencem a Bolingbroke e nada, somente a morte, podemos chamar de nossa e esta miúda estatueta de frágil argila que serve de massa e cobertura para nossos ossos. Em nome de Deus, sentemo-nos em terra e narremos tristes histórias de reis desaparecidos; como foram destronados uns, mortos outros na guerra; perseguidos estes pelas sombras dos que depuseram; envenenados aqueles pelas esposas; alguns, mortos durante o sono; todos assassinados.
Porque no círculo oco que cinge as têmporas mortais de um rei a morte mantém sua corte e ali domina a farsante, ridicularizando a pompa dele, concedendo-lhe um sopro, uma pequena cena para representar de rei, tornar-se temível e matar com o olhar, iludindo-se com seu egoísmo e seus conceitos inócuos, como se esta carne que serve de proteção à nossa vida fosse um bronze impenetrável! E após assim divertir-se, chega ao fim e, com um pequeno alfinete, atravessa as paredes de seu castelo e adeus rei! Cobri vossas cabeças e não insulteis a carne e o sangue com solenes reverências, etiqueta, pois nada mais fizestes do que enganar-me durante todo este tempo. Vivo de pão como vós; como vós, sinto a necessidade, saboreio a dor, necessito de amigos. Sendo, pois, escravo de tudo isto, como podeis dizer-me que sou rei?”
versão original (inglês) • interpretação em vídeo a partir do itálico • @alexander-schreave
“Bem, essa peça trata um pouco sobre o declínio de reis. Sobre pessoas que amadureceram em assombro com a efemeridade de suas vidas. Mas também trata sobre esse rei da antiga Inglaterra, Richard II, que se dá conta de como está amarrado ao próprio destino. Na mitologia grega, os antigos acreditavam que o fio das vidas mortais era costurado pelas parcas ou moiras, como você quiser chamar. E nessa peça de Shakespeare, parece ter um pouco disso, da ideia de que a morte apenas permite que a gente viva, se divertindo por achar que temos livre arbítrio quando, na verdade, ela mostra que não existe isso”, Franny pausou a explicação, decidindo dar um longo gole de seu champanhe antes de entregar a taça de volta para Alexander, na primeira fila. Ela iria precisar daquilo. Subiu de volta ao palco, seguindo com os detalhes para que o príncipe pudesse entender de onde partia e o porquê de ter escolhido aquilo. Seria uma apresentação breve, com cerca de quatro minutos. “Não sei se acredito nisso. Gosto de pensar que a gente pode construir nossa própria história, mas admito que é forte considerar toda essa perspectiva do destino. O texto que vou interpretar é dessa peça. É só uma fala curta da cena dois, ato três, em que Richard aborda esse lado mais...humano, talvez vulnerável, da realeza. É um dos trechos preferidos do meu pai de Shakespeare”, acrescentou, só por curiosidade.
Para realizar a performance do trecho de Shakespeare, Franny desejava ter o figurino apropriado. Estar com uma coroa, talvez com o peso de um manto nas costas e a proteção dada por uma camada de maquiagem, mas sabia que nada daquilo era verdadeiramente necessário quando se tinha o texto, a voz e, acima de tudo, a alma entregue para a arte. Vagarosamente, tirou as sandálias, tentando encontrar um tipo de calma em meio à tempestade que estava sua vida para que pudesse se desnudar do eu e se jogar no que viria a ser. Deixou o salto com amarras alinhado no chão e se alegrou ao sentir a temperatura fria da madeira sob a sola de seus pés. No mesmo movimento calmo, retirou os brincos, os anéis, o colar e seus pingentes, colocando ao lado de suas sandálias. Retirou também algumas presilhas que sustentavam o seu penteado e desalinhou as tranças. Com os longos fios soltos, permitiu que esses caíssem sobre seus ombros, alguns cobrindo as laterais de sua face. Aquilo seria seu manto. Poderia não ter um figurino, mas seu pequeno ritual de se desfazer de pequenas amarras lhe ajudaria a entrar no personagem. Estava prestes a interpretar o rei Richard II.
Suspirando, a selecionada se afastou de Alexander até estar localizada no centro do palco. Se fosse uma das muitas encenações que praticava de modo despretensioso ao lado de amigos, talvez teria deixado um sorriso de lado escapar dos lábios, mas aquele momento, para ela, tinha um peso quase sagrado, como se honrasse também parte dos sonhos e desejos de seu pai. Como se o que acontecia ali fosse capaz de cruzar o reino de Illéa e chegar até o coração partido de Jerome Fitzgerald, amenizando sua dor.
Franny poderia adotar um tom brincalhão com muita coisa, mas era cuidadosa em relação ao teatro. Respeitava as peças como se cada um de seus atos fossem antigos deuses. Velhos, esquecidos, empoeirados, mas ainda assim, deuses. E só pela permissão deles que se permitia abrir espaço para a leveza e o riso, como em ‘Sonho de uma Noite de Verão’ e ‘Muito Barulho por Nada’. No entanto, aquele trecho selecionado carregava a derrota e o luto de um rei que se reconhece mortal. Era um dos monólogos que havia acompanhado seu pai encenar à exaustão. Tanto, com tanto amor e intensidade, que não poderia atuar de qualquer jeito. Não ali no salão. O sorriso de lado que desejava expor para Alexander teria que esperar.
Ao se sentar no chão e ajeitar o vestido ao seu redor, abaixando a cabeça para respirar fundo e fechar os olhos, estralou os dedos, como sempre fazia antes de entrar em cena. Era quase como se pudesse tocar a lembrança daquele exato instante. Como se o espaço, o silêncio, a figura atenta de Alexander lhe observando e todos os outros pequenos detalhes que lhe circundava já estivessem cobertos com o manto enevoado e tênue da memória.
“No matter where; of comfort no man speak”, começou a falar com um fluido sotaque britânico — adquirido após inúmeras encenações — erguendo a cabeça em direção à sua plateia de um homem só. A voz havia mudado. Tinha colocado uma gravidade em seu timbre sem forçar uma rouquidão. Era uma mulher e não tinha como esconder aquilo, mas poderia carregar o tom de imponência que sabia adotar quando necessário — quase sempre restrito às suas performances teatrais. “Let’s talk of graves, of worms, and epitaphs”, listava, tocando o indicador no chão a cada item citado. “Make dust our paper and with rainy eyes, write sorrow on the bosom of the earth. Let’s choose executors and talk of wills”. Era um monólogo triste, carregado de desespero e desamparo. Como Richard II poderia falar de vontade quando nada lhe pertencia? Nem o destino, nem o futuro, nem a terra e nem sua vida. Tudo pertencia ao reino. “And nothing can we call our own but death”, um sorriso amargo e duro escapou de sua face. Ela, enquanto Franny Fitzgerald, poderia não entender completamente as vivências do príncipe de Illéa. Não sabia como tinha sido sua infância, os sonhos que o jovem tinha precisado abdicar para cumprir um papel que lhe foi designado por nascimento, mas, enquanto Richard II, entendia o peso solidário de compreender que nada pode ser chamado de seu a não ser a morte.
"For God’s sake, let us sit upon the ground!", soltou o comando, batendo com força no chão do teatro, sentindo a ordem ecoar em direção à Alexander e mais a frente, para as inumeráveis fileiras de cadeiras vazias. “And tell sad stories of the death of kings”, continuou em um tom mais ameno. A madeira estava fria sob sua mão dolorida. Enquanto narrava as mortes de antigos reis, era abraçada pelo peso dos muitos que por ali passaram. Franny estava circundada por fantasmas e humildemente recebia o acolhimento que Alexander não fazia a menor ideia de ocorria naquele palco. Era uma comunhão solitária entre ela e antigos mestres. Porque naquele momento, não havia mais a Seleção. Não era sobre ela ou ele, sobre alguma tentativa de fazê-lo conhecer uma outra parte de si ou mesmo de colocar em prática os aprendizados que tivera após tantos ensaios. Aquilo era mais profundo. Como uma flecha certeira, parecia atravessar sua própria existência. Aquele lugar tinha história, um peso, carregava o sonho dela, mas também de seu pai. Trazia a paixão dos muitos que por ali passaram, mas também os cacos de um coração partido que só se conseguiu reerguer por conta do teatro. Em um ato que parecia completamente natural, Franny levou as mãos à cabeça, como se dali tirasse um objeto pesado e, em um misto de horror e subjugação, contemplasse a coroa oca.
“For within the hollow crown
That rounds the mortal temples of a king
Keeps Death his court and there the antic sits,
Scoffing his state and grinning at his pomp,
Allowing him a breath, a little scene,
To monarchize, be fear’d and kill with looks”
Com lentidão, começou a se levantar. O foco estava em um espectador imaginário mais ao fundo, na multidão vazia que não contemplava Alexander. A saia do vestido florido deslizava pela madeira até Franny estar em pé e o tecido, em contato novamente com sua pele. “Infusing him with self and vain conceit (...) Comes at the last and with a little pin. Bores through his castle wall, and farewell king!”, ergueu as mãos, olhando para o movimento dos dedos com uma expressão de loucura e assombro, como se não fosse capaz de suportar o peso da vulnerabilidade diante da morte. Um riso baixo e oscilante escapou de sua garganta, enquanto sentia o corpo tremer diante do horror do destino. “Cover your heads and mock not flesh and blood”, fez uma pequena reverência com a cabeça, baixando a testa por breves segundos em respeito à morte. “With solemn reverence: throw away respect, tradition, form and ceremonious duty”. Nada daquilo parecia importar. “For you have but mistook me all this while”, baixou o olhar para Alexander, trazendo a solidão para sua voz. Os movimentos trêmulos davam espaço também para a fragilidade e resignação. “I live with bread like you”, pontuou, a sobrancelha franzida com o desespero de quem quer ser escutado. A voz já não carregava a dureza do início, apesar de manter o resquício da imponência de um rei. “Feel want, taste grief, need friends”. Pausou mais uma vez, deixando que o silêncio da afirmação ecoasse até o outro. “Subjected thus, How can you say to me, I am a king?”. O silêncio a engoliu e ali estava: o completo abandono de um rei.
Enquanto sentia o peito subir e descer, o eco de sua última declaração ainda ressoando em seus ouvidos, Franny acreditou compreender melhor a paixão cega que seu pai tinha pelo teatro. Como aquilo era algo que o movia e o porquê dele ter ficado tão reticente com o desejo dela de se tornar escritora. Para ele, abandonar a atuação era impensado, fazia parte de quem era, como o sangue que bombardeia vida ao coração. O teatro era a imagem que lhe olhava de volta, com uma presença que filme algum era capaz de evocar. O cinema de arte poderia abrir espaço para contemplação, para as fotografias que assombram e permitem ao público seguir pensativo. A história capturada por câmeras trazia o fio entrelaçado da memória, do registro e do documental, mas o teatro...Ah! Este se fazia vivo na efemeridade, no ar compartilhado, nos corações que pulsavam em um mesmo cômodo. Estamos vivos, aqui. ‘Life exists and identity, the powerful play goes on, and you may contribute a verse’, recordou de um poema que sua avó lhe declamava. Não sabia de quem era, mas o repetia sempre, como um mantra. Life exists and you may contribute a verse. Repetiu mentalmente mais uma vez, sentindo que o que deixava ao mundo era parte de sua alma, um pouco de si que doava ao palco, para que o amanhã não fosse apenas um outro nome do hoje.
Abaixou a cabeça, por fim, virando-se de costas para conseguir regressar a si mesma. And farewell, king!