flashback. the perfect date.
O pedido era singelo, mas não era fácil. Não era como se Alexander não quisesse o fazê-lo, mas o que a maioria não entendia era o tanto de obstáculos que precisavam superar se quisessem fazer qualquer coisa que não beneficiava a elite. Ser rei não equivalia à um poder imensurável, não queria dizer que ele podia fazer tudo que quisesse. Monarquias caíram por coisas menores. E Alexander era ponderado o suficiente para saber que se ele quisesse mudança, ele tinha que ser cauteloso. Enquanto elas, as selecionadas, ou mesmo sua mãe, tinham a liberdade de fazer o trabalho de caridade, o que os colocava numa luz mais favorável, Alexander tentava levar o impacto para o maior número de cidadãos de Illéa. Ele não respondeu ao pedido dela, sabendo que era melhor seu silêncio de que uma promessa não cumprida, mas Alexander iria tentar. Seus olhos abaixaram para encontrar os dela ao ouvir sua pergunta. Você consegue me ver como rainha? Era claro. Ele não teria deixado ela chegar até ali se não fosse o caso. Mas algumas vezes, era necessário escutar dos outros para poder acreditar. “Sim, Franny, eu acho que você poderia ser uma ótima rainha,” mas desde o começo, Alexander sempre soube que ele não queria uma em detrimento da outra ─ ele não queria escolher uma rainha, ao invés de uma esposa, e também não queria abrir mão de uma pessoa que seria uma boa rainha, para ter um desejo egoísta. Ele esperava que ambos o que o povo queria e o que ele queria casasse, mas se chegasse num ponto que precisasse escolher um ou outro, não sabia o que faria. Por toda a vida, Alexander fez o que era esperado dele, então naquela vez, poderia ele fazer uma escolha egoísta? Apenas o que queria? E, se o fizesse, estaria ele prejudicando o seu reino, o seu povo?
Ele abaixou a cabeça, balançando de um lado para o outro, ouvindo as explicações dela, com um sorriso… desapontado. Talvez era por isso que protegia tanto o seu coração. Mesmo pessoas que estavam ali, que escolheram estar ali, poderiam não estar completamente preparadas para encarar a vida ao seu lado. “Eu nunca quis a melhor rainha ou a selecionada perfeita. Eu sempre quis alguém que pudesse me amar, Franny── Isso implica em abri mão de algumas coisas.” porque aquela era a sua vida. Alexander não podia abrir mão dela, nem mesmo por amor. Porque enquanto a escolha da outra podia impactar um pequeno grupo de pessoas, Alex sabia que uma escolha sua, egoísta dessa forma, impactaria milhões. Não que Benedict fosse ser um mau rei. Ele era uma pessoa muito boa para ser um mau rei. Porém, ele se consumiria para tentar satisfazer tudo e todos, não havia sido preparado para exercer escolhas difíceis. Ele queria ter o poder não porque se divertia com ele, mas porque acreditava que poderia fazer coisas melhores que os seus predecessores, e finalmente trazer talvez um pouco mais de igualdade para Illéa. Ele soltou um sorriso fraco com a brincadeira do Halloween, e ouviu tudo. Respirando fundo, ele falou, “infelizmente, eu preciso eliminá-la. Ou bem, você escolheu…” Ele não complementou a frase. Não precisava de complemento. Ambos sabia o que ele queria dizer. Ele não havia necessariamente escolhido eliminá-la, mas não podia mantê-la ali sabendo que ela não queria nada daquilo. Alexander não era egoísta dessa forma. E ela não havia necessariamente pedido para sair, mas as palavras tinham a mesma súplica ao ver dele. Parecia a decisão correta para ambos os lados. E, por mais que fosse decepcionante, Alexander não se via completamente triste com o acontecimento. “Eu espero que você também encontre alguém que a faça muito feliz, Franny Fitzgerald. Eu──” ele não sabia mais o que falar. Parecia que o encontro havia terminado.
A informação de que ela tinha capacidade para ser uma boa rainha poderia ser apontada desde o momento em que Franny recebeu a carta de aceite para ser uma das selecionadas do príncipe Alexander. Por mais que tivesse se surpreendido com aquilo no começo, sabia que os seus esforços constantes em cada entrevista, aula de etiqueta e em aparições públicas tinham dado retorno. Ela não era a mesma de quando tinha entrado. Após três meses no palácio, já conseguia visualizar melhor as nuances que circundavam o cotidiano da realeza, percebia que nem sempre as pessoas eram genuinamente sinceras com ela e que era necessário ter certos cuidados com algumas situações. Poderia ter sofrido com noites de insônia e frustrações com o ritmo do próprio aprendizado no início, mas a medida que o tempo foi passando, tinha começado a se divertir enquanto agia conforme a dança. Então, não, Franny não havia perguntado aquilo por insegurança ou pela necessidade de um elogio de sua própria capacidade. Era capaz de ser a futura rainha se assim quisesse e fosse escolhida por Alexander. A consciência sobre o próprio potencial existia não só pelos resultados que saiam nas pesquisas, mas também por tudo que havia aprendido até ali e que não podia ser ignorado. A questão dela era: por quê? Franny estava tentando compreender melhor o que se passava na mente do príncipe a fim de descobrir se ele estava implicado com os encontros que aconteciam e saber o que ele via nela que lhe dava aquela certeza. De sua parte, conseguia listar certas qualidades próprias que lhe fazia apta para o cargo, mas queria saber o porquê dele vê-la como rainha quando ela não era nada como a mãe dele. Tentava arranhar a primeira camada da superficialidade, mas como resposta, recebeu a pontuação mais pragmática possível. Então, ela apenas assentiu, sem dizer nada em retorno, perguntando-se internamente se ele era assim com todas as selecionadas. Se fosse, boa sorte para as que ficavam. Era difícil formar um vínculo com alguém que sempre parecia estar há quilômetros de distância. Not so charming, after all. Pensou, lembrando-se do apelido que Blake utilizava para o príncipe.
Então, logo ao ouvir a resposta quase fria de Alexander para tudo o que ela disse, Franny teve apenas mais certeza de sua decisão. Havia tomado extremo cuidado em suas palavras, tinha se sentido receosa de talvez machucá-lo, mas ao ouvir um simples ‘eu preciso eliminá-la. Ou bem, você escolheu’, Fitzgerald retornou a assentir com a cabeça. Engoliu as próprias emoções e esperou algo a mais. Talvez que ele compartilhasse como tinha se sentido com aquilo ou questionasse se ela achava que poderia mudar de ideia. Mas não, nada além disso. ‘Infelizmente, eu preciso eliminá-la. Ou bem, você escolheu’, as palavras ressoaram em sua mente, enquanto ela sentia um peso sair de seus ombros. O príncipe poderia ser bonito e educado, mas era alguém que parecia faltar paixão, assim pensava Franny. A jovem seguia acreditando que ele seria um ótimo governante: era pragmático o suficiente para tomar as decisões que precisavam ser tomadas sem o peso das emoções. Acima de tudo, era filho do rei Porter e da rainha Abby, o que lhe rendia, ainda que não quisesse, parte do modus operandi dos próprios pais. Uma nova geração sempre herdava algo da anterior. E Franny via que ele provavelmente teria a dureza necessária para tomar as decisões difíceis. Seria mais bondoso e atencioso do que os pais, com certeza, mas ainda assim, teria parte da dureza.
No entanto, se aquilo servia para governar o reino, não era o bastante para seu futuro marido. E a Fitzgerald, que mal acreditava na real possibilidade da existência do amor ao chegar ali, percebeu que não se contentaria em estar com alguém que quase não conseguia mostrar um outro lado de si para ela. Tinha tentado conversar, descobrir mais sobre ele, mas Alexander era, muitas vezes, cheio de respostas monossilábicas em sua direção, e percebia ser cansativo tentar criar uma conexão quando somente ela parecia fazer o esforço com o que estava acontecendo ali. Durante o momento em que se apresentou, dando tudo de si, colocando parte de sua alma para o palco e, também, para sua plateia de um homem só, soube que ele não a havia compreendido. Não entendia por completo a importância daquilo que a movia. E a prova era tanto que, para ela, deixar a atuação era mais do que “abrir mão de algumas coisas”. Significava cortar uma parte de si, como se, subitamente, lhe deixassem sem uma perna ou um braço. Ela seria para sempre uma ferida aberta. Antes de sua apresentação naquele palco, Franny até seria capaz de compreender o porquê dele achar que abdicar daquilo era uma coisa pouca, afinal, ela tinha se candidatado para a Seleção — o que significava que, sim, estava disposta a deixar a antiga vida de lado para se tornar a futura rainha. Porém, depois de representar Shakespeare no palco, com a alma aberta, não conseguia entender como o príncipe não via a dor que seria para ela se afastar da atuação. Porque ela não era atriz por obrigação, porque nascera na casta de cinco ou porque já não conseguia saber quem era ela sem esse traço de sua personalidade, mas sim porque era a sua pulsão de vida e, sem ela, só havia o vazio. Franny atuava com paixão, com respeito, com humildade, como se a arte fosse uma parte sagrada do mundo. E, justamente por achar que Alexander incompreendia isso, que deixou um pequeno sorriso escapar dos lábios. Tentava conter a tristeza pelo que achava que ele não seria capaz de entender, mesmo com todo o dinheiro do mundo. Ela agora era abraçada pela leveza da eliminação, de não ter que vislumbrar toda uma vida ao lado de alguém que não a via de verdade. Em sua mente, veio o olhar do psicólogo, que desde o primeiro momento a observou com uma curiosidade quase palpável, que lhe escutou com atenção, que se engajou em cada simples conversa e foi capaz de compartilhar muito mais do que ela estava esperando. “Eu também espero que você encontre alguém que te faça feliz, Alexander”, levou a mão aos cabelos, prendendo ele em um coque novamente, enquanto ponderava se deveria dizer suas próximas palavras. ‘Eu sei que no fim, a decisão cabe somente a você, mas...se me permite dizer, espero que você ainda possa conhecer Rae um pouco melhor, talvez a veja como eu vejo’. Era o que queria dizer, mas se conteve. Não sabia se poderia dar sua opinião daquela forma. Por ela, ainda ficariam por ali, terminariam o encontro e aproveitariam o jantar. Franny poderia não ser mais uma das selecionadas, mas não queria deixar a noite de lado e a possibilidade de uma conversa com o outro. Só que, ao olhar para Alexander, percebeu que talvez esse não fosse o desejo dele e ela se recusava a tomar mais tempo do futuro rei. Se ele parecia não ter vontade de prosseguir com aquilo, não seria ela que insistiria. “Bom, acho que vou retornar ao palácio”, concluiu, voltando para pegar o salto que deixara sobre o palco antes de se dirigir à saída.