“Uma pintura é um poema sem palavras.“ por Amanda Monteiro
Se pensar é uma cláusula pétrea na constituição da existência, eu gostaria de ser um vácuo, nada. Criar, criar, criar, sempre criando, algum cara muito famoso já disse algo como “a obrigação de produzir, aliena a paixão de criar”, e me desculpe por não me lembrar do nome do autor, é que meus últimos neurônios estão se agarrando a essa frase tão poderosa, que finalmente pôs em palavras a minha agonia. Meus dedos doem de segurar um pincel, meus olhos ardem ao olhar para uma tela em branco. O modelo que tenho, e a quem dediquei toda a minha exposição e carreira, quando se transforma em arte pelas minhas mãos, perde toda a sua angelical beleza… queria honrá-lo em toda a sua perfeição, mostrar a ele que o adoro tanto quanto Alexandre adorou Heféstion. Meu objetivo era eternizá-lo, dar-lhe o presente da vida eterna, assim como Basil Hallward fez com Dorian Gray.
Sonhava em esculpi-lo, tão grande quanto David, e colocá-lo em um lugar sagrado como a Pietá… porém não sou Michelangelo. Erastes e Eromenos, amante e amado, mestre e pupilo, Alcibíades e Sócrates. Muitas facetas de um amor que não pode se reduzir ao romance, não se perde no carnal, pois tocá-lo seria o mesmo que maculá-lo, e vai muito a além da atração entre intelecto e beleza. Cuidado e proteção, quero criá-lo para que me deixe, desenhar suas asas para que doa menos ao vê-lo voar. Meu dever é de ensinar, guiar, e imortalizar o jovem mais belo de Atenas, que parece tão entediado em seu celular.
Nossa história muito tem a ver com a do Imperador Adriano e Antínoo, do seu início ao fim, com algumas licenças poéticas da contemporaneidade. Por exemplo, ele nunca foi meu escravo, e espero que nunca se sacrifique voluntariamente pela minha saúde decadente… deixe que meus pulmões se dissolvam na tinta, e viva! A ideia de entregá-lo a Caronte me consome, imaginá-lo navegando pelo Rio Estige só não é mais perturbador do que visualizá-lo no fundo do Nilo… entendo Adriano, também seria capaz de fundar uma cidade e um culto em seu nome. Devaneios… é muito difícil estar diante de Aquiles, entretanto, uma presença tão esmagadora facilita a catarse artística. O medo de encontrar seus olhos verdes, força minha concentração, me obriga a expressar de outro jeito esse turbilhão confuso que toma meus pensamentos.
Estamos em 2020, contudo, sua beleza é tão irreal que só pode ser descrita pela antiguidade clássica e o renascimento. Arte pela arte, preciosismo, estética, um amor parnasiano… objetivo e impessoal.
Nossa sessão chega ao fim. Nos despedimos com um abraço, digo que o encontrarei na mostra e brinco que não terá paz porque todos querem conhecer pessoalmente meu misterioso muso. Fecho as portas e me sento diante da tela, admirando a ilíada em forma pintura, uma odisseia em pinceladas, tantos sentimentos que até mesmo Ovídio ficaria hipnotizado e encantado. Tenho em minhas mãos, a perfeição no sentido mais literal. Minha obra-prima.










