É tanta gente amando sem se corresponder. Quando penso em algo que é correspondido, penso em correspondência, cartas. É uma filosofia muito antiga, você envia algo e aguarda uma resposta. Fico pensando em como era demorada e incerta essa espera. Você não sabia quando ou se seria respondido, ou mesmo correspondido, ainda que a tal resposta chegasse, o que não mudou muitos nos dias atuais. As pessoas exercitavam a paciência e certa confiança, e essa lacuna de dias (às vezes meses) era mais do que prometida. O problema é que nas entrelinhas colocamos as nossas angústias, e naquela época não era diferente. O pensamento corre mais rápido do que as mensagens que deixamos no ar. Hoje, é tudo mais urgente, porque é também tudo mais fácil. É tão fácil pegar o telefone ou checar o celular. É tão fácil que a falta disso é encarada como descaso. Antigamente, o tempo se alongava devagar, atrasado, sem acompanhar o coração - o tempo das cartas era diferente do tempo real. Era maior, e a espera, quase infinita, até a chegada da próxima correspondência. Às vezes, chegavam até fora de ordem - como se tivéssemos ordem sobrando para endireitar sentimentos. As pessoas tinham que enumerar as suas mensagens. Algumas de fato o faziam. E imagino que esta era uma boa prerrogativa, sinal de que viriam mais na sequência. Penso em quantas cartas foram deixadas sem resposta, amores estraviados, suas palavras perdidas no tempo, num vácuo profundo e sem previsão. A previsão era deixada por conta da nossa imaginação, o que pode ser bastante cruel. A gente imagina o que quiser, até o que não quer, inclusive o que não quer. A questão é que corresponder é muito mais que uma resposta, é uma continuidade, é receber e entregar, uma garantia de hoje, amanhã e depois, uma troca de sentidos e sons. Uma troca. Constância. É o que é, uma troca. Sentimentos não ignoram cartas, sentimentos já pensam na resposta antes mesmo da pergunta chegar, sentimentos já estão no amanhã o que era para hoje. Sentimentos fazem a gente chorar - quando deixados no ar. Às vezes, tudo do que a gente precisa é de uma resposta, para seguir em frente e parar de enumerar envelopes sem procedência. Antigamente, o tempo era maior, e a vida, mais curta. Hoje, temos mais tempo, mas menos para responder, e a vida tem pressa. Eram muitas cartas estraviadas, mas hoje a gente olha no olho e deixa o sentimento se perder. Vê, as pessoas não querem respostas, querem correspondência - mas precisam de uma. Porque assim não dá para ficar. Amanda Xavier